A História do Espiritismo

 
 
 

A História do

Espiritismo

Arthur Conan Doyle

2 – Ar thur Conan Doyle

A HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

Arthur Conan Doyle

Tradução do original:

The History of Spiritualism (1926)

Digitalizada por:

L. Neilmoris

© 2008 – Brasil

www.luzespirita.org

3 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

A História do

Espiritismo

Arthur Conan Doyle

4 – Ar thur Conan Doyle

Índice

Conan Doyle e a História do Espiritismo – pag.6

Uma chavedeabóbada

– pag.7

Critério histórico – pag.8

A Nova Revelação – pag.9

O problema da reencarnação – pag.10

A invasão organizada – pag.12

O “preconceito cultural” – pag.13

Nota do tradutor – pag.14

Sir Arthur Conan Doyle – Esboço Biográfico – pag.19

Prefácio – pag.25

1 – A HISTÓRIA DO ESPIRITISMO – A História de Swedenborg – pag.27

2 – Edward Irving: os “shakers” – pag.35

3 – O Profeta da Nova Revelação – pag.44

4 – O Episódio de Hydesville – pag.53

5 – A Carreira das Irmãs Fox – pag.67

6 – Primeiras Manifestações na América – pag.83

7 – A Aurora na Inglaterra – pag.97

8 – Progressos Contínuos na Inglaterra – pag.108

9 – A Carreira de D. D. Home – pag.117

10 – Os Irmãos Davenport – pag.130

11 – As pesquisas de Sir William Crookes de

1870 até o ano de 1874 – pag.139

12 – Os Irmãos Eddy e os Holmes – pag.150

13 – Henry Slade e o Doutor Monck – pag.165

14 – Investigações Coletivas sobre o Espiritismo – pag.179

15 – A Carreira de Eusapia Palladino – pag.191

16 – Grandes Médiuns de 1870 a 1900: Charles H. Foster, Madame

d’Esperamce, William Eglinton, Stainton Moses – pag.200

17 – A Sociedade de Pesquisas Psíquicas – pag.217

18 – Ectoplasma – pag.234

19 – Fotografia Espírita – pag.251

20 – Vozes Mediúnicas e Moldagens – pag.263

21 – Espiritismo francês, alemão e italiano – pag.273

22 – Grandes Médiuns Modernos – pag.286

23 – O Espiritismo e a Guerra – pag.300

24 – Aspecto Religioso do Espiritismo – pag.311

25 – O DepoisdaMorte

Visto pelos Espíritas – pag.327

APÊNDICE 1 – Notas ao capítulo 4 – Prova da assombração da casa de Hydesville

antes de ser habitada pela família Fox – pag.334

5 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

APÊNDICE 2 – Notas ao capítulo 6 – Bico de pena do lago Harris por Laurence

Oliphant – pag.339

APÊNDICE 3 – Notas ao capítulo 7 – Testemunho adicional do professor e da

senhora de Morgan – pag.341

APÊNDICE 4 – Notas ao capítulo 10 – Os Davenports eram jograis ou espíritas? –

pag.344

APÊNDICE 5 – notas ao capítulo 16 – A mediunidade do reverendo Stainton Moses

– pag.345

APÊNDICE 6 – Notas ao capítulo 25 – Escrita automática de Mr. Wales – pag.347

6 – Ar thur Conan Doyle

CONAN DOYLE

E A HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

onan Doyle, cujo nome repercute por todo o mundo, é um dos escritores mais

lidos da moderna literatura inglesa. O poder extraordinário de sua

imaginação, a comunicabilidade natural do seu estilo, a espontaneidade de

suas criações, fizeram dele um escritor universal, admirado e amado por todos os

povos. No Brasil, nossa gente o incluiu, há muito, entre os seus ídolos literários. É

tanto assim, que ainda agora a Melhoramentos está lançando as obras de Conan

Doyle em edições sucessivas, divididas em três linhas de lançamentos: a Série

Sherlock Holmes, a Série Ficção Histórica e a Série Contos e Novelas Fantásticas.

Não se precisaria de mais nada para demonstrar o interesse do público

brasileiro pelas obras de Conan Doyle. Nem de mais nada para se demonstrar a

grandeza literária desse verdadeiro gigante das letras inglesas. Não obstante, as três

séries acima não abrangem toda a obra de Conan Doyle. O famoso precursor dos

métodos científicos de pesquisa policial foi também um historiador, tendo escrito

obras como “The Great Boer War” e “History of the British Campaign in France and

Flanders”. Foi ainda um dos maiores e mais lúcidos escritores espíritas dos últimos

tempos, em todo o mundo, revelando admirável compreensão do problema espírita

em seu aspecto global, como ciência, filosofia e religião.

Vemos, assim, que há mais duas series de obras — a de história e a de

espiritismo — que podem ser consideradas como os afluentes diretos deste

verdadeiro delta literário da vida de Conan Doyle, que é a “História do Espiritismo”.

C

7 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

UMA CHAVEDEABÓBADA

este livro, realmente, todas as qualidades do escritor e do homem estão

presentes. Nele confinem os resultados de todos os seus estudos, de todas

as suas experiências. Tratase,

pois, de um livro de interesse fundamental,

para o estudo da vida e da obra do grande escritor. E só não o chamaremos básico,

porque ele não está no alicerce, mas na cúpula. Ë aquilo a que os engenheiros

chamam “chavedeabóbada”.

Para que o leitor não pense que estamos exagerando,

vamos tentar uma rápida explicação desse fenômeno de convergência.

Conan Doyle aplica neste livro as suas qualidades de escritores estilo

direto, vivo, objetivo, extraordinária capacidade de síntese, precisão descritiva e

narrativa, agilidade quase nervosa no encadeamento do enredo, brilho e colorido nas

expressões. Aplica ainda a capacidade de análise e a perspicácia sherloquianas, o

rigor do método histórico, a capacidade de visão panorâmica dos acontecimentos.

Ao lado disso tudo, temos a grande compreensão humana dos numerosos episódios e

problemas enfrentados, essa compreensão que o leva a explicar as quedas

mediúnicas de alguns personagens e a perdoar generosamente os que não souberam

explicálas.

O escritor e o homem, depois de uma vida e uma obra, se fundem neste

livro, que é feito ao mesmo tempo de papel e tinta, músculos e sangue, cérebro e

nervos.

O historiador está presente neste livro, que é sobretudo uma obra de

história, O romancista e o novelista aqui estão, na múltipla tessitura das narrativas

que se sucedem, capítulo por capítulo. O autor policial, na perspicácia de apreensão

dos fatos, na maneira segura com que vai conduzindo o leitor através dos enigmas

do enredo. O criador de ficção histórica, no aproveitamento dos fatos reais para a

construção da grande trama do livro, O autor de histórias fantásticas, na capacidade

de penetrar o mistério, de invadir o reino do invisível, de enxergar o que apenas se

entremostra nos lampejos das manifestações mediúnicas. O espírita se manifesta no

interesse pelos fatos e pela sua interpretação, na compreensão da grandeza e da

importância do movimento espiritista mundial, O médico Arthur Conan Doyle, o

homem voltado para os problemas científicos, o pensador, debruçado sobre as

questões filosóficas, e o religioso, que percebe o verdadeiro sentido da palavra

religião — todos eles estão presentes nesta obra gigantesca, suficiente para

imortalizar um escritor que já não se houvesse imortalizado.

Esta, pois, é uma obra de confluência. Um delta literário, no qual o

fenômeno Conan Doyle se consuma, e pelo qual, afinal, se transcende a si mesmo,

para se expandir na universalidade do movimento espírita, como revelação divina.

N

8 – Ar thur Conan Doyle

CRITÉRIO HISTÓRICO

o sair a primeira edição desta obra, a revista inglesa “Light” comentou o

equilíbrio e a imparcialidade com que o autor se portou no trato do assunto

– Uma extensa nota, assinada por D. N. G., acentuou que os críticos haviam

sido “agradavelmente surpreendidos”, pois Conan Doyle, conhecido então como

ardoroso propagandista espírita, não a colorira “com os mais carregados

preconceitos a favor do assunto e dos seus corifeus” E acrescentava o articulista:

“Uma obra de história, escrita com prejuízos favoráveis ou contrários, seria, pelo

menos, antiartística,

pecado jamais cometido pelo autor de “The White Company”,

em nenhum dos seus trabalhos”.

Essa opinião confirma plenamente o que dissemos acima, quanto ao critério

histórico seguido por Conan Doyle na elaboração deste livro. Aliás, ele mesmo

acentua esse critério, ao falar do seu desejo de contribuir para que o Espiritismo

tivesse a sua história, apontando inclusive as deficiências de tentativas anteriores,

como vemos no prefácio. Seu intuito, ao elaborar este livro, não era o de fazer

propaganda de suas convicções, mas o de historiar o movimento espírita. Para tanto,

colocase

numa posição serena e imparcial, como observador dos fatos que se

desenrolam aos seus olhos, através do tempo e do espaço.

Reconhece a amplitude do trabalho a realizar e pede auxílio a outros.

Encontra em Mrs. Lesiie Curnow uma colaboradora eficiente e dedicada, e com a

sua ajuda prossegue nas investigações necessárias, até completar a obra. Ë o

primeiro a reconhecer que não fez um trabalho completo, pois não dispunha de

tempo e recursos para tanto. Mas tem a satisfação de verificar que fez o que lhe era

possível, e mais do que isso, o que era possível no momento, diante da extensão e

complexidade do assunto e das condições do próprio movimento espírita de então.

A

9 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

A NOVA REVELAÇÃO

onan Doyle, que nasceu a 22 de maio de 1859, em Edimburgo, faleceu a 7 de

julho de 1930, em Cowborough (Sussex). Em junho de 1887 escreveu uma

carta ao editor da revista “Light”, explicando os motivos da sua conversão ao

Espiritismo. Essa carta foi publicada na edição de 2 de julho do mesmo ano, daquela

revista, que a reproduziu mais tarde, na edição de 27 de agosto de 1927. A 15 de

julho de 1929, a “Revista Internacional de Espiritismo”, de Matão, dirigida por

Cairbar Schutel, publicou no Brasil a primeira tradução integral dessa carta, que é

um documento valioso, mostrando, como acentua a revista, que o jovem médico em

1887 já revelava a mais ampla compreensão do Espiritismo e da sua significação

para o mundo.

Além desse documento, Conan Doyle escreveu um pequeno livro, traduzido

para a nossa língua por Guillon Ribeiro e já em segunda edição, intitulado “A Nova

Revelação”, em que descreve minuciosamente o processo da sua conversão.

Posteriormente, escreveu outras obras doutrinárias de grande valor, como “A

Religião Psíquica”, na qual revela perfeita compreensão do problema religioso do

Espiritismo, afirmando a condição essencialmente psíquica da religião espírita.

O leitor brasileiro estranhará que Conan Doyle comece a sua história pela

vida e a obra de Swedenborg, e que, depois de passar pelo episódio de Hydesville,

só se refira a Allan Kardec ao tratar, no capítulo vinte e um, do “Espiritismo francês,

alemão e italiano”.

Kardec aparece, assim, como uma espécie de figura secundária, de

influência reduzida ao âmbito nacional do movimento espírita francês. É que, no

movimento espírita, como em todos os movimentos, as coisas vão se definindo aos

poucos, através do tempo, não se mostrando logo com a precisão necessária.

Somente agora, quase trinta anos depois da morte de Conan Doyle, é que a figura de

Kardec, reconhecida há muito, nos países latinos, como o codificador do

Espiritismo, vai se impondo também, nas suas verdadeiras dimensões, ao mundo

anglosaxão.

Conan Doyle fez o que pôde, como dissemos atrás, procurando traçar a

história do Espiritismo de acordo com as perspectivas que a sua posição lhe

proporcionava. Hoje, como se pode ver pela excelente edição da revista argentina

“Constancia”, comemorativa do primeiro centenário do Espiritismo, a compreensão

exata da posição de Kardec se generaliza. Escritores da Inglaterra, da Alemanha, dos

Estados Unidos e do Canadá proclamam, nas colaborações para aquele número, a

significação fundamental da obra do codificador.

C

10 – Ar thur Conan Doyle

O PROBLEMA DA REENCARNAÇÃO

bastante conhecida a divergência entre o que se convencionou chamar o

Espiritismo latino e o anglosaxão.

Essa divergência se verificou em torno de

um ponto essencial: a doutrina da reencarnação. Os anglosaxões,

particularmente os inglês e americanos, aceitaram a revelação espírita com uma

restrição, não admitindo o princípio reencarnacionista. Por muito tempo, esse fato

serviu de motivo a ataques e críticas ao Espiritismo, o que não impediu que o

movimento seguisse naturalmente o seu curso.

A codificação kardequiana, cujos princípios giram praticamente em torno

da lei da reencarnação, foi repelida pelos antireencarnacionistas.

Vejase

como

Comam Doyle se refere ao Espiritismo francês, logo no início do capítulo vinte e um

deste livro: “O Espiritismo na França se concentra na figura de Allan Kardec, cuja

teoria característica consiste na crença da reencarnação”. Não obstante, o próprio

Conan Doyle, e outros grandes espíritas ingleses e americanos, admitiam a

reencarnação. E a resistência do meio tem sido bastante minada, na Inglaterra e nos

Estados Unidos, principalmente depois da última guerra.

Em “A Nova Revelação”, Conan Doyle se coloca numa posição curiosa,

que dará ao leitor brasileiro uma ideia exata da sua atitude neste livro. Logo no

prefácio, declara que muitos estudiosos têm sido atraídos pelo aspecto religioso do

Espiritismo, e outros pelo científico, acrescentando: “Até agora, porém, que eu

saiba, ainda ninguém tentou demonstrar a exata relação que existe entre os dois

aspectos do problema. Entendo que, se me fosse dado lançar alguma luz sobre esse

ponto, muito teria eu contribuído para a solução da questão que mais importa à

humanidade”.

Isto era escrito entre 1927 e 28, cerca de sessenta anos após o passamento

de Kardec. E todos sabemos que Kardec deixou perfeitamente solucionado o

problema, ao apresentar o Espiritismo como uma doutrina tríplice: filosófica,

científica e religiosa. Vemos, assim, que Conan Doyle, neste ponto como em tantos

outros, pensava paralelamente a Kardec, esperando, por assim dizer, o momento em

que a codificação kardequiana aparecesse no mundo, sem suspeitar que ela já existia

e estava ali mesmo, ao seu lado, para lá do Estreito da Mancha.

Em nada, porém, esses fatos prejudicam o valor e a significação desta obra.

Servem mesmo para documentar uma fase do imenso processo de desenvolvimento

do Espiritismo.

Os estudiosos da doutrina e da sua história terão neste livro uma visão

panorâmica desse fato histórico extraordinário, ainda não compreendido pelo

mundo, que é o aparecimento e a propagação de uma nova revelação espiritual, nos

tempos modernos. E nada melhor para exprimilo

do que a admirável imagem usada

por Conan Doyle, logo no capítulo primeiro, ao comparar as modernas

É

11 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

manifestações espíritas a “uma invasão devidamente organizada”, invasão do mundo

por um exército espiritual, incumbido de dominálo

pela força do bem e orientálo

para os rumos finais da perfeição humana.

12 – Ar thur Conan Doyle

A INVASÃO ORGANIZADA

onan Doyle se defronta, nesse capítulo, com a dificuldade de fixar uma data

para o aparecimento do Espiritismo. Lembra que Os fatos espíritas existiram

desde todos os tempos, e que os espíritas ingleses e americanos costumam

indicar como data inicial do movimento moderno a de 31 de março de 1848, que

assinala o episódio mediúnico de Hydesville.

Prefere, entretanto, começar a sua história por Swedenborg, considerando

que “uma invasão pode ser precedida pelos exploradores de vanguarda”. Reconhece,

assim, a existência de uma época a que podemos chamar a préhistória

do

Espiritismo, com os fatos da Antigüidade e da Idade Média, e uma época de

preparação do advento do Espiritismo, já nos tempos modernos.

Nessa época aparecem os patrulheiros, os elementos que exercem a função

de pontasdelança,

os que efetuam uma espécie de reconhecimento do terreno e de

preparação da “invasão organizada”, que virá logo mais. Essa concepção de Conan

Doyle está de pleno acordo com as explicações que os Espíritos deram a Kardec, a

respeito do assunto. Só faltou a Conan Doyle, portanto, para bem colocar o

problema, o conhecimento completo da codificação. Com esse conhecimento, o

grande escritor não teria dúvidas em admitir que o Espiritismo, como doutrina, só

apareceu no mundo a 18 de abril de 1857 — numa data exata — aquela em que

surgiram nas livrarias de Paris os primeiros volumes de “O Livro dos Espíritos”.

Fazendo justiça a Swedenborg, a Eduardo Irving, a André Jackson Davis,

“o profeta da nova revelação”, às irmãs Fox, cuja dolorosa história é contada nestas

páginas de maneira compreensiva e ampla, Conan Doyle historia, a seguir, a

propagação do movimento espírita nos Estados Unidos, na Inglaterra, na França, na

Alemanha, na Itália e nos demais países, dedicando várias páginas a médiuns

notáveis como Home, os irmãos Davenport, Eddy e Holmes, Slade, Eusapia

Palladino e outros.

Acompanha o desenvolvimento do interesse pelos fatos espíritas nos meios

científicos, a realização das grandes experiências de repercussão mundial, como as

de Crookes, e trata, por fim, do papel do Espiritismo em face da guerra, do seu

aspecto religioso e das descrições do Além pelos Espíritos. Temos, assim, uma obra

monumental sobre o Espiritismo e o movimento espírita, escrita por um dos mais

notáveis autores do nosso tempo. A publicação desta obra em português virá

contribuir grandemente para maior compreensão do Espiritismo em nosso país,

inclusive nos meios espíritas.

C

13 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

O “PRECONCEITO CULTURAL”

o lançarem, pois, esta edição, os editores estão prestando um grande serviço

ao público brasileiro em geral e aos espíritas em particular. As campanhas

de difamação que se têm feito no Brasil contra o Espiritismo, a atitude

sistemática de oposição assumida pelos religiosos e pelos cientistas, e as próprias

deficiências culturais do nosso meio, fazem que ainda prevaleçam entre nós Os

preconceitos antíespíritas, que muitas vezes se manifestam de maneira aguda. Obras

como esta, escritas por homens da envergadura intelectual de Conan Doyle,

contribuirão forçosamente para modificar essa situação, quebrando, com o seu

poderoso impacto, sedimentações e cristalizações mentais pouco recomendáveis

entre povos civilizados.

Diante do vasto e variado panorama que Conan Doyle nos apresenta neste

livro, a começar pelas ideias ainda delirantes de Swedenborg, que, não obstante, era

um dos homens dotados de maior cabedal de conhecimentos que o mundo já viu, até

às experiências rigorosamente científicas de sábios da envergadura de Crookes, o

leitor minado pelas ideias feitas, pelos preconceitos religiosos ou científicos, terá de

reconhecer a importância do movimento espírita.

Existe um tipo especial de preconceito que dificulta a compreensão do

Espiritismo em nosso país. É o que podemos chamar “preconceito cultural”. Numa

nação nova como a nossa, sem tradição cultural suficiente, com imensa massa de

analfabetos, pontilhada aqui e ali de pequenas ilhas culturais, é grande o receio dos

intelectuais, de caírem no ridículo perante os seus colegas do exterior. Por outro

lado, a difusão das doutrinas materialistas, como o marxismo, em meios de

insuficiente formação filosófica e a difusão, nem sempre em condições adequadas,

de princípios científicos objetivos — erroneamente considerados materialistas —

afastam muitas pessoas do conhecimento espírita. Um livro como este servirá, e

muito, para mostrar que os homens cultos, no mundo inteiro, não o são menos por se

interessarem pelo Espiritismo.

A

14 – Ar thur Conan Doyle

NOTA DO TRADUTOR

ai para mais de um século, os fenômenos espíritas, antes esporádicos, mal

interpretados e causadores de perseguições religiosas, entraram numa

segunda fase — a das manifestações acintosas e sistemáticas, públicas e

teimosas, abalando cépticos, acordando consciências e amedrontando criminosos

impunes e marginais do Código Penal. Foi em 1848, nos Estados Unidos.

O contacto entre dois mundos, antes separados pela divisória da Morte,

deixava de ter o aspecto macabro, que lhe emprestaram folhetinistas e criadores de

fantasias, para revestir o de suave conversa entre criaturas queridas de um e do outro

lado da Vida. Começou, entretanto, pelas chamadas mesas girantes e falantes que,

infelizmente, se prestaram à zombaria dos que tudo procuram denegrir ou cobrir de

ridículo — inclusive o sentimento que nutrimos pelos que nos deixaram.

Transportadas para a Europa, as mesas girantes e falantes constituíram, durante

algum tempo, um divertimento de salão, nas longas e frias noites de inverno.

Um homem sisudo, entretanto, não via nelas mero divertimento, mas uma

coisa muito séria.

E pagou arras ao espírito francês, tirando da “dança das mesas” uma

filosofia, do mesmo modo que da “dança das rãs” Galvani havia tirado princípios

fundamentais da eletricidade e do magnetismo. Esse homem, típico representante da

cultura francesa — médico e astrônomo, filósofo e poliglota, teólogo e matemático,

filólogo e biologista — passeou o seu Espírito equilibrado sobre todos os

departamentos do saber humano de seu tempo, tudo referindo aos eixos coordenados

de um sistema, de modo que os seus variados conhecimentos não apresentavam

fissuras nem hiatos, paradoxos nem incongruências. Vale dizer que, à luz dos

conhecimentos modernos, ele sistematizou uma ciência nova, captou os princípios

basilares de uma nova filosofia — uma filosofia espiritualista que, ao contrário de

suas congêneres, tudo estabelecia a posteriori , isto é, à base de fatos verificados e

verificáveis, assim oferecendo ás criaturas honestas — queremos dizer

cientificamente honestas — os elementos para a superação do materialismo clássico

e do agnosticismo comteano, que estavam avassalando mentes nobres, mas limitadas

e presas aos preconceitos religiosos, ou a estes fanaticamente antagônicas.

E como a base da fenomenologia era o fato das manifestações das almas

dos mortos — e, por vezes, dos vivos também — aconteceu uma coisa

singularíssima. De um lado a Igreja, cujos dirigentes ensinavam uma vida além da

morte, mas que nunca souberam, puderam ou quiseram provar, passou a atacar

ferozmente os fatos e os únicos indivíduos através dos quais essa prova é

cientificamente possível, e que o faziam e o fazem sem qualquer intuito de combate

ou de desdouro às organizações religiosas. Perdia a Igreja a grande oportunidade de

demonstrar a existência da alma e o seu cortejo de conseqüências e, do mesmo

V

15 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

passo, de levar os seus profitentes para uma nova etapa, além de a eles anexar os que

em nada criam — passandoos

de fé imposta, do credo quia absurdum, ou do

desinteresse e da negação sistemática para uma fé sistemática, para uma fé

raciocinada, na qual os próprios dogmas e os ritos viriam a ser respeitados como

valores históricos e como símbolos que tinham tido a sua função no espaço e no

tempo e dos quais os Espíritos se iam emancipando, à medida de sua mesma

evolução. Do outro lado, atraídas pelos fatos, tomando contacto com os seus mortos

queridos, as massas menos cultas, ou mesmo incultas, foram, por um compreensível

sincretismo religioso, que a ortodoxia não tolerava, mas que, à fina força, aquelas

queriam que subsistisse, transformando o Espiritismo numa religião ritualística.

Se, de um lado, o despreparo geral as empurrava nessa direção, foram

acoroçoadas pelos anátemas, pelas excomunhões, pela pressão política exercida pela

Igreja contra as massas espíritas e principalmente contra os médiuns. E o

Espiritismo, que de início atraíra a atenção das camadas mais cultas, pouco a pouco

foi sendo por estas abandonado, ou praticado ás ocultas, para que se não

comprometessem interesses materiais — sobretudo os políticos — dado o prestígio

que a Igreja desfrutava junto ao poder civil, mesmo nos países em que havia

separação legal entre ela e o Estado.

Então a doutrina caiu nas mãos do povo e a sua prática se abastardou.

Mas houve uma diferenciação entre neolatinos e anglosaxões.

Nos países de origem latina, onde predominam a Igreja Católica — de todas

a mais intolerante — os espíritas foram excluídos de seu seio. E, teimosamente, ela

apresentou aquele do qual poderia ter feito o seu melhor aliado como um adversário

temível, como uma nova religião, embora lhe faltassem os requisitos essenciais de

uma religião, a saber: um conjunto de dogmas, um ritual e uma hierarquia

sacerdotal. De maneira que, se luta existe entre ela e o Espiritismo, não foi este

quem a provocou.

Mas nos países saxônicos a coisa é diferente.

Com a predominância do Protestantismo, os profitentes da religião estão

mais íntima e solidamente ligados à sua igreja: são eles e não os pastores que a

administram e desenvolvem as obras assistenciais; com um ritual mais pobre,

enriquecem o Espírito pelo estudo. Assim, a irrupção dos fenômenos espíritas não

foi ignorada nem amaldiçoada, mas recebida como uma prova da sobrevivência da

alma e uma confirmação dos ensinos bíblicos.

Por isso, pouco proliferam os centros espíritas. Em compensação, há na

língua inglesa mais de cinco mil títulos de obras sobre o Espiritismo.

*

Os estudiosos desses problemas não têm projetado a atenção sobre essa

diferenciação do desenvolvimento do Espiritismo entre neolatinos e anglosaxões,

para lhe penetrar as causas e oferecer elementos para a compreensão do interessante

fenômeno.

O assunto merece atenção.

Na França, o Doutor Gustave Geley, a quem tanto deve a Medicina, fez

notáveis estudos sobre o ectoplasma — esse novo elemento cuja importância cresce

16 – Ar thur Conan Doyle

dia a dia e que vem correndo parelha com o proto plasma na explicação dos

fenômenos da vida; que fez demonstrações insofismáveis das materializações

parciais, através das moldagens em cera fervente, impossível de obterse

por

qualquer outro processo que não o da materialização de mãos; que convidou cem

cientistas para assistirem às suas experiências — muitas das quais em plena luz e

todas sob o mais rigoroso controle científico; que foi presidente do Instituto de

Metapsíquica de Paris, onde se afirmou um legítimo pioneiro; que fez avançar

enormemente os conhecimentos da Psicologia com o seu “Do Inconsciente ao

Consciente”; o Doutor Geley, íamos dizendo, assiste ao terrível drama íntimo do

Doutor Paul Gibier, essa outra figura de cientista, a quem tanto devem a

Microbiologia e os trabalhos iniciados pelo ilustre Pasteur, dada a intolerância da

chamada ciência oficial. Gibier teve que abandonar os laboratórios e a própria pátria,

onde o seu trabalho se havia tornado impossível, e foi abrigarse

nos grandes centros

norteamericanos,

deixando uma triste advertência a outra figura ainda mais notável

— Charles Richet. Com efeito, esse grande mestre, talvez o maior de seu tempo, que

investigou tanto os fenômenos espíritas, que, além da sua obra clássica sobre

Metapsíquica, legou — nos “Trinta Anos de Pesquisas Psíquicas”; que assistiu aos

testes de Geley com Kluski e com Eusapia Palladino; que teve as mais notáveis

provas através da correspondência cruzada; que cunhou o vocábulo ectoplasma, por

força de tanto estudar essa substância, que é um verdadeiro proteu e um novo estado

da matéria a responder pelos fenômenos físicos, ou melhor, hiperfísicos, que se

passam através dos médiuns; esse homem, que desfrutava do respeito de seus pares

como um legítimo mestre e uma das glórias da cultura francesa, convenceuse

da

legitimidade dos pontos de vista espíritas, mas temeu aquelas forças negativas que

haviam sacrificado o Doutor Gibier. Não teve a coragem de o confessar. Fêlo

apenas em carta reservada ao seu amigo e opositor Ernesto Bozzano, depois de ter

tido a franqueza de erigir dezenas de hipóteses que jamais se prestariam a uma

generalização amplíssima, como a hipótese espírita.

Do outro lado, vemos na Inglaterra homens de ciência do melhor quilate

organizando uma Sociedade de Pesquisas Psíquicas que, desde 1882, vem fazendo

estudos rigorosos, com muita circunspecção e que toma, por vezes, uma atitude

hostil aos princípios espíritas, mas acaba dando o testemunho dos fatos

supranormais, embora fuja sistemàticamente das generalizações filosóficas.

Quem são esses homens?

Dos mais categorizados: físicos, químicos, fisiologistas, matemáticos,

Membros da Sociedade Real, honraria raríssima concedida na Inglaterra a um

homem de ciência.

Daí a atitude de Lord Dowding. Marechal do Ar da Inglaterra, primo do

último rei, Lord Dowding comandou a RAF (Royal Air Forces) durante a última

guerra. Protestante, os fatos o convenceram das verdades espíritas. Tanto bastou

para que tomasse atitude pública.

Como bom inglês, não compreendia que na comunidade britânica alguém

sofresse restrições na sua liberdade, da qual uma faceta importante é a liberdade de

crença.

Em consequência, e liderados por ele, os Espíritas ingleses conseguiram

que o Parlamento Inglês, o mais respeitável do mundo, votasse uma lei,

17 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

reconhecendo o direito ao exercício da mediunidade, com o que os sensitivos

ficavam subtraídos as perseguições religiosas, exercitadas nos termos de duas leis

obsoletas, mas não prescritas: o Vagrancy Act e o Witchcraft Act, através das quais

mais de 50.000 médiuns já haviam sido multados ou condenados à pena de prisão.

Continuando a sua campanha, isto é, procurando levar por diante as conseqüências

da nova lei, foi obtido pelos espíritas que o Estado Maior das Forças Armadas da

Inglaterra determinasse que em todos os corpos de tropa onde houvesse instalações

para o serviço religioso, também as houvesse para oficiais e soldados espíritas.

*

A obra que tivemos a honra de traduzir é de autoria de um membro da

Sociedade de Pesquisas Psíquicas da Inglaterra, geralmente conhecido do nosso

público por suas novelas policiais. Como até hoje não se escreveu, no gênero e em

qualquer língua, um trabalho semelhante, julgamonos

no dever de escrever uma

ligeira biografia de Sir Arthur Conan Doyle, para que o leitor brasileiro possa

aquilatar do valor e das cogitações de um dos mais nobres caracteres da passada

geração de escritores e de homens de ciência.

A obra não poderia ser minuciosa e completa. Passa, porém, em revista os

maiores médiuns da Europa e dos Estados Unidos, desde o século passado até o

começo deste século. É, assim, um roteiro magnífico.

A fenomenologia espírita aí aparece bem dividida, por capítulos; os maiores

médiuns são apresentados divididos em grupos, conforme as suas peculiaridades. É

feita uma crítica muito equilibrada a médiuns e pesquisadores. O leitor atento verá

que o autor não sai de uma linha de centro, de um perfil de equilíbrio, de modo que

não será nunca confundido com um crente fanático, de vez que é, em todas as

circunstâncias, o observador percuciente, o filósofo sereno e o cientista que está

convencido da lei do progresso, do sentido amplíssimo da evolução geral da Vida.

Ele não teme aquelas coisas que se apresentam na zona de penumbra do

pesquisador, porque usa aquilo que sabe, a fim de avaliar aquilo que lhe falta saber.

Sir Arthur Conan Doyle não nos apresenta uma história puramente

descritiva do Espiritismo, mas, na verdade, uma história filosófica do Espiritismo.

A sua obra — única no gênero — preenche uma lacuna na estante dos

espíritas estudiosos; mostralhes

um mundo de coisas importantes — direi mesmo,

indispensáveis — que ignoravam. E, nessa fase do nosso desenvolvimento

intelectual, é de súbito valor para os estudantes das nossas Faculdades de Filosofia.

Achamola,

sobretudo, inestimável para os dirigentes de sociedades

espíritas. Mais esclarecidos por ela, certamente darão novo rumo aos trabalhos ditos

de efeitos físicos, já selecionando os médiuns, já excluindo essa prejudicial

assistência de curiosos, já — e nisto reside a sua melhor lição — colocando a

pesquisa psíquica num plano isento de fanatismo religioso, de intolerância pseudocientífica,

sem o que tão cedo esses fenômenos não entrarão nos ambientes

universitários, onde nem o professor Richet serve de exemplo, porque a atitude

acadêmica continua sendo a do avestruz: enterrar a cabeça na areia e negar a

tempestade.

Este é um livro que nos faz pensar.

18 – Ar thur Conan Doyle

Que o leiam os nossos homens de ciência; que o leiam os nossos

pensadores; que o leiam aqueles que pensam que pensam. Os frutos não se farão

esperar.

J ulio Abreu Filho

19 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

SIR ARTHUR CONAN DOYLE

ESBOÇO

BIOGRÁFICO

autor da obra que se vai ler era muito conhecido da juventude de uns

cinquenta anos passados, como o criador de Sherlock Holmes. Naquele

tempo líamos literatura neolatina no original e anglosaxônica

através de

boas traduções francesas ou em nossa língua.

Hoje a mocidade lê histórias em quadrinhos, onde o vocabulário representa

apenas um décimo do que manejávamos.

O nível baixou. Se, então, eram as biografias um aspecto pouco explorado

em literatura, hoje pouco se conhece das vidas grandes e nobres. Tanto que, quando

o autor destas linhas disse que estava traduzindo uma HISTÓRIA DO

ESPIRITISMO de Sir Arthur Conan Doyle, despertou atenção por estas coisas: que

o criador de Sherlock Holmes tivesse sido “knighted”, como se diz em inglês; que

fosse algo mais que um escritor de contos policiais; que tivesse tido a cachimônia de

levar a sério o Espiritismo e fazer, com aquela proverbial seriedade dos escritores

ingleses, uma História do Espiritismo.

Estavam certos — relativamente certos — os interlocutores de quem traça

estas linhas. Por dois motivos: o primeiro é que o nível dos contos policiais baixou;

o segundo é que em geral se ignora, nos países latinos, que os ingleses de cultura

universitária não tomam cursos de técnica superior — como em geral os latinos e

particularmente os brasileiros — a fim de serem chamados doutores, ou como um

meio fácil de fazer dinheiro. É uma questão de educação, há muito ali resolvida e na

qual andamos tateando, sem coragem de modificar o nosso figurino. Sobre o assunto

bastaria recomendar três livros de um único escritor inglês, representativo de

brilhante período da cultura inglesa — o período vitoriano — Sir John Ruskin — a

saber: Sesame and Lulies, The Seven Lamps of Architecture e The Stone of Venice.

Na verdade o inglês de certa classe, mesmo de qualquer classe, que houvesse

atingido mais alto grau de cultura através da universidade, não tinha apenas um

verniz: os conhecimentos e o ambiente lhe haviam lapidado o espírito, transformado

a compreensão da Vida e criado novos rumos para o seu comportamento social.

Por isso o inglês desses níveis mais altos exercia a profissão, parcialmente,

para ganhar dos que podiam pagar sem serem explorados, parcialmente, para servir

aos que não podiam pagar, mas deviam sentir que a solidariedade humana não era

mero tema para discursos políticos de campanhas eleitorais. Paralelamente, esses

homens de padrão universitário exercem uma atividade extra que, se por um lado

contribui para o seu próprio progresso espiritual, por outro ajuda o levantamento da

cultura do povo.

O

20 – Ar thur Conan Doyle

Isto é, sem dúvida, um dos mais belos efeitos da concepção inglesa de

religião; esta não se separa da vida e a vida é considerada como que vascular,

segundo a expressão do Reverendo Stanley Jones, que assim explica: “onde quer

que a firamos, ela sangrará”.

Deste jeito tem o inglês um sentido prático de religião, — que deixa de ser

uma fuga para os planos abstratos, que ficam depois dos túmulos, do mesmo passo

que tem uma noção mais objetiva de humanismo — que deixa de ser uma verbiagem

excitante para ser uma soma de conhecimentos de imprescindível aplicação à

Humanidade.

Assim, não é de admirar que um Churchill cultive a pintura ainda aos

oitenta anos; que um John Ruskin vá para o campo com os universitários trabalhar

na reparação de estradas que se haviam tornado intransitáveis; que Frederic Myers,

Lord Balfour, Sir William Crookes, Sir Oliver Lodge e tantos outros, que se

encontram no topo das graduações científicas de várias especialidades, se apliquem,

paralelamente, a outras atividades monetàriamente improdutivas, mas que

contribuem largamente para o bemestar

espiritual do povo.

Ora, todos estes nomes do último grupo deram exemplo de compreensão de

quanto o conhecimento do porquê da vida, do porquê da diversificação das

existências pode contribuir para o bemestar

geral, depois de ter criado aquela

serenidade espiritual que nos torna altamente conscientes e nos subtrai daquele

fatalismo da massa muçulmânica, que amesquinha a criatura. Mas não quiseram

basearse

em sermões mais ou menos sonoros nem nas citações mais ou menos

papagaiadas de textos bíblicos: basearamse

nos fatos. E se o fenômeno espírita era

um fato da natureza, até então pouco estudado, estudaramno;

buscaram apreender a

lei que os rege. E nisso nada viram daquele ridículo que pseudosábios

ou pseudoreligiosos

procuram lançar sobre coisas que ignoram. Para eles, verdadeiros sábios,

não existe ridículo nem imoralidade nas leis da Natureza, que são as mesmas leis de

Deus. Ridículo e imoralidade estão em nós, na nossa maneira de ver a vida;

constituem, por assim dizer, os óculos da nossa observação.

Mas voltemos a Sir Arthur Conan Doyle.

*

Estamos dizendo que o nível do conto policial havia baixado. Baixou, pelo

menos daquela cota em que Conan Doyle havia elevado a produção do suposto

criador desse gênero literário — o escritor francês Gaboriau. Mostranos

a

cronologia que o iniciador desse tipo de literatura foi um escritor americano,

também espírita e certamente um médium inconsciente de suas faculdades

criptopsíquicas — o grande poeta americano Edgard Allan Poe, autor do Mary

Roger Case e outros contos policiais. Mas não desgarremos; frisemos um contraste

essencial: enquanto o policial atual é violento, Sherlock é suave; aquele usa a força

muscular, este o vigor do raciocínio. Dirseia

que, mesmo antes de se tornar

espírita, Sir Arthur marcava, na sua obra popularíssima, a superioridade do Espírito

sobre a Matéria, da Inteligência sobre a Força Física, do Conhecimento sobre a

Pistola Colt.

21 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

E já que entramos por este raciocínio, sejanos

permitido admitir que as

cidades, como as famílias, parece que têm um certo poder atrativo para

determinados tipos de Espíritos.

Dirseia

que elas possuem aquilo que os orientais chamam de karma

coletivo, como o possuem as famílias, e que nos indivíduos é uma espécie de

magnetismo espiritual. Não será isso que cerca de encanto a vida de certas

universidades e de certas cidades, como, por exemplo, Florença?

Não estará no mesmo caso a cidade escocesa de Edimburgo? De onde o seu

nome? De um certo rei Edwin, de Northumberland, que a fundou no século VII?

Edimburgo que foi elevada a cidade por Carlos 3º em 1633, é considerada mais uma

cidade intelectual do que industrial, posto que seja um importante centro de tecidos

de lã, algodão e seda; tinha fábricas de cristais, destilarias e fundições, além de

importante indústria livreira. Mas os seus estabelecimentos de ensino entre os quais

se destacam a universidade, a escola de medicina, o conservatório de belas artes e a

escola de artes e ofícios, lhe valeram o epíteto de Nova Atenas.

Entre os filhos notáveis que a honram — e dos quais Sir Arthur Conan

Doyle não é dos menos celebrados — contamse

John Ogilby, nascido em 1600,

tradutor e editor das obras de Virgílio e de Homero e das Fábulas de Esopo; a

família Blair, entre cujos membros sobressaem John Blair, ligado à história de sua

independência e Hugh Blair (1718, 1800), notável orador e professor na

universidade de Saint Andrews, onde seu nome foi ligado à cadeira de retórica e

belas letras; a célebre família Napier ou Neper, segundo a grafia latina, onde

aparecem destacados vultos na Marinha e no Exército, mas cujo tronco ilustre foi

John Napier ou Joannis Neper, grande matemático e inventor dos logaritmos ditos

neperianos, cuja publicação apareceu com este longo título, ao gosto da época:

Logarithmorum canonis descripto seu Arithmeticorum supáginasutatwnum marabilis

abbreviatio, ejusque usus in utraque trigonometria, ut etiam in omni logistica

matemática amplissimi, jacilimi et expeditissimi explicatio, auctore ac inventore

Joanne Nepero, barone Merchistonii, Scoto (1614).

Não esqueçamos David Hume, filósofo e historiador (1711. 1776), que nos

deixou um Tratado sobre a Natureza Humana, Ensaios Morais e Políticos, História

Natural da Religião, Ensaios Sobre a Imortalidade da Alma, além de vários outros

trabalhos sobre moral e religião e, de parceria com outros advogados, uma História

da Inglaterra. Por fim destaquemos um típico escritor escocês — Sir Walter Scott

(1771 1832).

Iniciandose

em 1802, com o Canto da Fronteira Escocesa, escreveu

mais trinta obras, entre as quais são mundialmente conhecidas e apreciadas A Dama

do Lago, que inspirou a Rossini a ópera do mesmo nome, Guy Mannering; A Prisão

de Edimburgo; A Noiva de Lammermoor, de onde foi extraído o libreto da ópera de

Donizetti, Lucia de Lanrmermoor; A Formosa Donzela de Penh e Ivanhoe, talvez,

de suas obras a mais conhecida e que conta maior número de traduções.

Toda essa tradição magnífica de sua cidade deve ter influído

poderosamente na formação espiritual de Sir Arthur. Sabese

que seu avô era o

caricaturista de nomeada — John Doyle, sobre o qual, entretanto, temos poucas

indicações. Os traços genealógicos de que dispomos dizem que seu pai, Charles

Doyle, era um artista. Quem seria esse artista? Certamente era Sir Francis Hastings

Charles Doyle, poeta nascido no Condado de York, em 1810 e morto em 1888. Foi

22 – Ar thur Conan Doyle

funcionário da administração e publicou várias obras, entre as quais Poemas

Diversos; Dois Destinos; Édipo, Rei de Tebas; Os Firnerais do Duque; A volta dos

Guardas, etc. Foi professor de poética na Universidade de Oxford, entre 1867 e

1872.

Teve, assim, o jovem Arthur um ambiente propício, quer em sua casa e em

sua pátria, quer no estrangeiro, onde seu pai esteve a serviço do governo, pois se

sabe que o nosso biografado fez parte de sua educação na Alemanha. Nascido a 22

de maio de 1859, sua educação foi feita sucessivamente no Stonyhurst College, na

Alemanha e na Universidade de Edimburgo, onde, em 1881, terminou o curso de

medicina (M.B.) e quatro anos mais tarde o doutorado em medicina (M.D.) Sabese

que viajou muito pelas regiões árticas e pela costa ocidental da África.

Escreveu algumas obras na juventude, que devem ter passado inadvertidas

ou que ele próprio teria retirado da circulação, pois a primeira citada

cronologicamente é “A Study in Scarlet”, publicada em 1887, quando já estava

clinicando em Southsea. No ano seguinte publicou outro romance — Micah Clarck.

A história da rebelião de Monmouth. “The sign of Four”, em 1889 e em 1891 “The

White Company”, que obteve grande sucesso, e que foi seguida por um romance da

época de Du Guesclin.

Nesse ano de 1891 Sir Arthur Conan Doyle conquistou imensa

popularidade com as “Aventuras de Sherlock Holmes”, que apareciam em The

Strend Magazine. Como indicamos pouco antes, dizem que o seu inspirador foi

Emile Gaboriau, escritor francês que havia fracassado no gênero romance e que em

1866 publicara, com estrondoso sucesso, em folhetim em Le Pays, um romance

judiciário policial intitulado l’Affaire Levou ge, que lhe valera grande nomeada e o

sucesso para mais dez outras obras no gênero.

É possível. Mas é mais provável que, dadas as inclinações artísticas e

literárias de Sir Arthur, tivesse ele conhecido toda a obra de Edgard Allan Poe, que

é, ao nosso ver, o verdadeiro criador do conto e do romance policial, quer quanto às

características literárias, quer quanto à precedência histórica. Em nossa opinião, o

criador de Sherlock está mais próximo dos métodos de raciocínio de Poe, que dos de

Gaboriau.

Com a importância literária e a popularidade de Sherlock, cujas aventuras

se iniciam em “A Study in Scarlet”, a prática da medicina de Sir Arthur Conan

Doyle passa para segundo plano, à medida que cresce o escritor. Em 1893 reaparece

o herói nas “Memórias de Sherlock Holmes”, seguidas de “O Cão dos Baskervilles”,

em 1902 e de “A Volta de Sherlock Holmes” em 1905.

Enganamse,

porém, os que pensam que Sir Arthur haja cultivado apenas

este gênero literário. Já em 1896 publicava ele estudos históricos em “As

Explorações do General Gerard” e em “As Aventuras de Gerard”. Antes, porém, em

1894, havia publicado “A História de Waterloo”, na qual Sir Henry Irving havia

tomado parte tão saliente. Em 1909 lançou “The Fires oj Fate” e “The House of Tem

periey” e em 1913 outro volume interessante — “The Poison Belt”.

A pena de Sir Arthur Conan Doyle esteve, entretanto, ao serviço da pátria,

nos momentos críticos. Sem ser um político, na acepção limitada do vocábulo, soube

ele prestar valiosos serviços políticos ao seu país. Pode a gente discordar de seu

ponto de vista particular, em relação à tese por ele defendida; mas há que

23 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

reconhecerse

que ele não procurou servir a um partido, mas à comunidade britânica.

E o fez com honestidade e com elegância. É assim que, em defesa do Exército

Britânico na África do Sul, publicou em 1900 “The Great Boer War” e, dois anos

depois, um estudo mais minucioso dessa guerra, intitulado “The War in South

Africa; its Causes and Conduct”.

Durante a primeira Grande Guerra sua pena esteve ao serviço dos Aliados.

Escreveu abundantemente. Entre outros trabalhos, largamente traduzidos, podemos

citar “Cause and Conduct of the World War”, que logrou traduções em doze línguas.

Suas preocupações pelas colônias inglesas não eram do tipo das de um

agente do governo, mas das de um pensador de raça. Iniciandose

nesse gênero com

a guerra dos boers, pode a rigor dizerse

que aqueles dois livros pouco antes citados

foram precedidos por “The Tragedy of the Korosko”, em 1898, que é uma pequena

história do Sudão angloegípcio

e “The Green Flag”, que versa ainda assuntos

africanos.

Neste grupo se inclui uma obra lançada em 1906, considerada a sua obraprima

— “Sir Nigel.”

Como obras menores e de temas variados — todas, porém, defendendo uma

tese de subido interesse, podem citarse,

cronologicamente, a partir de 1894, até

1912, as seguintes: “Round the Red Lamp”, The Stark Mumro Letters”, “A Duet

with an Occasional Chorus”, “Tlironglt the Magic Door”, “A Modern Morality

Plity”, “The Crime of the Congo”, “Songs of tire Rüad” e “Tire Last World”.

Entre as suas últimas obras uma se conta, de grande importância e que

alcança seis volumes, publicados entre 1915 e 1920: “History of the Britislr

Compaign in France and Flanders” e que representa a sua última contribuição para a

sua terra e para a sua gente no setor político propriamente dito.

*

É que, a essa altura, grandes médiuns ingleses, americanos e da Europa

continental haviam chamado a atenção de conspícuas figuras do mundo científico

inglês. Os fenômenos que em inglês se diziam do neoespiritismo

provocavam

estudos e polêmicas, entusiasmos e revoltas. Em 1882, fundarase,

em razão disto, a

Society for Psychical Research; os nomes mais brilhantes dos céus da ciência se

haviam ligado a essa criteriosa organização que, se críticas merece, certamente é por

sua teimosia em não querer reconhecer numa fenomenologia amplíssima e

constatada sob os mais rigorosos métodos de ensaio, que a geratriz de tantos

fenômenos eram os Espíritos dos mortos e, por vezes também, os Espíritos dos

vivos.

— Que nomes prestigiavam a SOCIETY FOR PSYCHICAL RESEARCH?

— Os mais brilhantes, com efeito, entre outras notabilidades, o Professor

Sidgwick, Sir William Crookes, F. W. H. Myers, Frank Podmore, Professor Jomes

H. Hyslop, Doutor R. Hodgson, Professor Charks Richet, Sir Oliver Lodge,

Professor C. G. Jung, Sir William Barrett, Doutor Gustave Geley, Doutor Edmund

Gurney, Professor Von SchrenckNotzing,

Professor Henry Bergson e tantos outros,

muitos dos quais eram membros da Sociedade Real e da Academia Francesa, vale

dizer, portadores das mais altas distinções honoríficas.

24 – Ar thur Conan Doyle

Sir Arthur Conan Doyle ingressou na Sociedade de Pesquisas Psíquicas.

Convencido do fenômeno da manifestação do Espírito dos mortos, aderiu à causa do

Espiritismo. Fez pesquisas, por conta própria, com os maiores médiuns da Europa.

Lobrigando o alcance religioso e filosófico de tais fenômenos, a eles se dedicou e

procurou servir com a honestidade e com a segurança que lhe permitiam um caráter

inteiriço e uma enorme bagagem de conhecimentos científicos.

Não se limitou a ver e ouvir. Viajou, fazendo conferências de propaganda.

Esteve mais de uma vez nos Estados Unidos, na África, na Europa continental e no

Oriente, até a Austrália e a Nova Zelândia.

Entre outros escritos sobre o assunto publicou em 1918 “A New

Revelation”, dois volumes de recordações dessas viagens, dos quais o último, saído

em 1924, tem por título “My Memories and Adventures”.

Em 1926 lançou em dois volumes “History o! the Spiritualism”, que

tivemos o ensejo de traduzir agora para a editora “O Pensamento”, precedendoa

destas ligeiras notas biográficas e de um prefácio à edição brasileira.

Pode dizerse

que é a única História do Espiritismo surgida até agora. Fora

dela o que apareceu até aqui não passa de estudo limitado no tempo e no espaço e

que, de forma alguma pode emparelharse

com o presente volume onde, além da

história descritiva, se encontra, realmente, muito de filosofia da história do

Espiritismo.

Estas notas foram escritas para mostrar ao leitor menos familiarizado com

as letras inglesas que Sir Arthur Conan Doyle não é apenas o criador de Sherlock e o

escritor de contos policiais: é uma figura expressiva nas letras inglesas e uma das

figuras a que o Espiritismo — inclusive o Espiritismo de feição religiosa — muito

deve. Em plano internacional a sua obra se inscreve logo depois da de Allan Kardec

e se alinha com a desses luminares que se chamaram Ernesto Bozzano, Léon Denis,

Camille Flammarion, Alexander Aksakof, Vale Owen e Stainton Moses.

Os espíritas de fala portuguesa estão de parabéns com a apresentação em

nossa língua, da obra magnífica de Sir Arthur Conan Doyle.

J ulio Abreu Filho

25 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

PREFÁCIO

sta obra surgiu de pequenos capítulos sem conexão, terminando numa

narrativa que abrange, de certo modo, a história completa do movimento

espírita 1 . Sua gênese requer uma ligeira explicação. Eu havia escrito alguns

estudos sem qualquer objetivo ulterior a não ser o de me proporcionar, e a outras

pessoas, uma visão clara do que se me afigurava episódios importantes no moderno

desenvolvimento espiritual do gênero humano.

Compreendiam estudos sobre Swedenborg, Irving, A. I. Davis, sobre o

incidente de Hydesville, sobre a história das irmãs Fox, sobre os Eddys e sobre a

vida de D.D. Home. Estes já se achavam prontos, quando me ocorreu a ideia de ir

mais adiante, dando uma história mais completa do movimento espírita, mais

completa do que as até então publicadas — uma história que tivesse a vantagem de

ser escrita de dentro e com um pessoal conhecimento íntimo dos fatores

característicos desse moderno desenvolvimento.

É realmente curioso que esse movimento, que muitos de nós consideramos

como o mais importante na história do mundo desde o episódio de Jesus Cristo,

jamais tenha tido um historiador, entre os que a ele estavam ligados, e que possuísse

uma larga experiência pessoal de seu desenvolvimento. Mr. Frank Podmore reuniu

um grande número de fatos e, desprezando os que não se ajustavam aos seus

propósitos, esforçouse

por sugerir a desvalia dos restantes, especialmente os

fenômenos físicos que, no seu modo de ver, eram principalmente tidos como

produto da fraude. Há uma história do Espiritismo por Mr. McCabe, que reduz tudo

a fraude e que é, ela mesma, uma fraude, desde que o público compraria um livro

com esse título certo de que era um registro ao invés de uma mistificação. Há

também uma história por J. Arthur Hill, escrita do ponto de vista estritamente da

pesquisa psíquica e que se acha muito longe dos fatos reais prováveis. A seguir

temos: “Moderno Espiritismo Americano: um Registro de Vinte anos” e “Milagres

do Século XIX”, pela grande e esplêndida propagandista que é a Senhora Emma

1 Em inglês a forma corrente é spiritualism e suas derivações, para significar o Espiritismo e outros

vocábulos derivados. Allan Kardec criou a voz do espiritismo e as suas derivações, para exprimir,

evitando as naturais confusões que a linguagem científica e filosófica não poderia permitir, um ramo do

espiritualismo, Isto é, da doutrina que admite Deus e a alma. Este ramo, além de admitir Deus, causa

primeira, e a alma ou espírito, força atuante e inteligente da natureza, instrumento do Criador para a

evolução geral da vida, admite, ainda, que o ser humano tem vidas sucessivas, solidárias e sempre

progressivas, ao menos na sua feição moral e que Deus não castiga nem premia: a nossa existência, boa

ou má, é consequência de uma existência anterior. Os vocábulos cunhados por Allan Kardec hoje se

acham em todos os grandes léxicons, muito embora na Inglaterra e nos Estados Unidos também se usem,

em relação ao Espiritismo, e para evitar confusões, a forma new spiritualism e suas derivações. — Nota

do Tradutor

E

26 – Ar thur Conan Doyle

Hardinge Britten, mas estes livros apenas se ocupam de fases, embora sejam muito

valiosos.

Finalmente — e o melhor de todos — há a “Sobrevivência do Homem após

a Morte”, pelo Reverendo Charles L. Tweedale. Mas se trata, antes, de uma bela

exposição relacionada com a verdade do culto do que uma história continuada. Há

histórias gerais do Misticismo, como as de Ennetnoser e Howitt, mas não há

nenhuma história clara e compreensiva dos desenvolvimentos sucessivos desse

movimento universal. Quando este entrava para o prelo apareceu um utilíssimo

compêndio de fatos psíquicos, por CampbellHolms.

O seu título “Os Fatos da

Ciência Psíquica e a Filosofia” indica, entretanto, que não pode ser apresentado

como uma história metódica.

É claro que semelhante trabalho necessitava muito de investigação —

muito mais do que lhe poderia dedicar em minha vida ocupadíssima. É verdade que,

de qualquer modo, o meu tempo era dedicado a ele, mas a literatura é vasta e havia

muitos aspectos do movimento que me atraíam a atenção. Em tais circunstâncias

solicitei e obtive a leal cooperação de Mr. W. Leslie Curnow, cujos conhecimentos

do assunto e cuja habilidade demonstravam ser inapreciáveis. Ele trabalhou

assiduamente nessa vasta mina; separou minérios e escória e deume

enorme

assistência em todos os sentidos. Inicialmente eu não esperava mais que matériaprima,

mas ocasionalmente ele me apresentava metal puro, do qual me servi, apenas

alterandoo

de maneira a ter o meu ponto de vista pessoal. Não posso exprimir a leal

assistência que me foi dada; e se não inclui o seu nome com o meu no topo deste

livro, foi por motivos que ele compreende e com os quais concorda.

Arthur Conan Doyle

The Psychic Bookshop,

Abbey House,

Victoria Street. S. W.

27 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

1

A HISTÓRIA DO ESPIRITISMO A

História de Swedenborg

impossível fixar uma data para as primeiras aparições de uma força inteligente

exterior, de maior ou menor elevação, influindo nas relações humanas. Os

espíritas tomaram oficialmente a data de 31 de março de 1848 como o começo

das coisas psíquicas, porque o movimento foi iniciado naquela data. Entretanto não

há época na história do mundo em que não se encontrem traços de interferências

preternaturais e o seu tardio reconhecimento pela humanidade. A única diferença

entre esses episódios e o moderno movimento é que aqueles podem ser apresentados

como casos esporádicos de extraviados de uma esfera qualquer, enquanto os últimos

têm as características de uma invasão organizada. Como, porém, uma invasão

poderia ser precedida por pioneiros em busca da Terra, também o influxo espírita

dos últimos anos poderia ser anunciado por certo número de incidentes, susceptíveis

de verificação desde a Idade Média e até mais para trás. Uma data deve ser fixada

para início da narrativa e, talvez, nenhuma melhor que a da história do grande

vidente sueco Emmanuel Swedenborg, que possui bons títulos para ser considerado

o pai do nosso novo conhecimento dos fenômenos supranormais.

Quando os primeiros raios do sol nascente do conhecimento espiritual

caíram sobre a Terra, iluminaram a maior e a mais alta inteligência humana, antes

que a sua luz atingisse homens inferiores. O cume da mentalidade foi o grande

reformador e médium clarividente, tão pouco conhecido por seus prosélitos, qual foi

o Cristo.

Para compreender completamente um Swedenborg é preciso possuirse

um

cérebro de Swedenborg; e isto não se encontra em cada século. E ainda, pela nossa

força de comparação e por nossa experiência dos fatos desconhecidos para

Swedenborg, podemos compreender, mais claramente do que ele, certas passagens

de sua vida. O objeto do presente estudo não é tratar o homem como um todo, mas

procurar situálo

no esquema geral do desdobramento psíquico aqui abordado, do

qual a sua própria Igreja, na sua estreiteza, o impediria.

Swedenborg era, sob certos aspectos, uma viva contradição para as nossas

generalizações psíquicas, porque se costuma dizer que as grandes inteligências

esbarram no caminho da experiência psíquica pessoal. Uma lousa limpa é, por certo,

mais apta para nela escreverse

uma mensagem. O cérebro de Swedenborg não era

uma lousa limpa, mas um emaranhado de conhecimentos exatos de susceptível

aquisição naquele tempo. Nunca se viu tamanho amontoado de conhecimentos. Ele

era, antes de mais nada, um grande engenheiro de minas e uma autoridade em

metalurgia. Foi o engenheiro militar que mudou a sorte de uma das muitas

campanhas de Carlos 12, da Suécia. Era uma grande autoridade em Física e em

É

28 – Ar thur Conan Doyle

Astronomia, autor de importantes trabalhos sobre as marés e sobre a determinação

das latitudes. Era zoologista e anatomista. Financista e político, antecipouse

as

conclusões de Adam Smith. Finalmente, era um profundo estudioso da Bíblia, que

se alimentara de teologia com o leite materno e viveu na austera atmosfera

evangélica alguns anos de vida. Seu desenvolvimento psíquico, ocorrido aos vinte e

cinco anos, não influiu sobre a sua atividade mental e muitos de seus trabalhos

científicos foram publicados após essa data.

Com uma tal mentalidade, é muito natural que fosse chocado pela evidência

das forças supranormais, que surgem no caminho de todo pensador, mas o que não é

natural é que devesse ele ser o médium para tais forças. Em certo sentido a sua

mentalidade lhe foi prejudicial e lhe adulterou os resultados, posto que, de outro

lado, lhe tivesse sido de grande utilidade. Para o demonstrar basta considerar os dois

aspectos sob os quais o seu trabalho pode ser encarado.

O primeiro é o teológico. À maioria das pessoas que não pertencem ao

rebanho escolhido afigurase

o lado inútil e perigoso de seu trabalho. Por um lado,

aceita a Bíblia como sendo, de modo muito particular, uma obra de Deus; por outro

lado, sustenta que a sua verdadeira significação é inteiramente diferente de seu óbvio

sentido e que ele — e só ele — ajudado pelos anjos, é capaz de transmitir aquele

verdadeiro sentido. Essa pretensão é intolerável. A infalibilidade do Papa seria uma

insignificância comparada com a infalibilidade de Swedenborg, se tal fosse

admitido. Pelo menos o Papa é infalível quando profere um veredicto em matéria de

doutrina excátedra,

acolitado por seus cardeais. A infalibilidade de Swedenborg

seria universal e irrestrita. Além disso suas explicações nem ao menos se acomodam

à razão. Quando, visando apreender o verdadeiro sentido de uma mensagem de

Deus, temos que admitir que um cavalo simboliza uma verdade intelectual, que um

burro significa uma verdade científica, uma chama quer dizer melhoramento, e

assim por diante com uma infinidade de símbolos, parece que nos encontramos no

reino da imaginação, que apenas pode ser comparado com as cifras que alguns

críticos engenhosos pretendem ter descoberto nas peças de Shakespeare. Não é

assim que Deus manda a Sua verdade a este mundo. Se tal ponto de vista fosse

aceito, o credo de Swedenborg seria apenas a matriz de mil heresias; regrediríamos e

iríamos encontrarnos

novamente entre as discussões e os silogismos dos

escolásticos medievais. As coisas grandes e verdadeiras são simples e

compreensíveis. A teologia de Swedenborg nem é simples nem inteligível. E isto

representa a sua condenação.

Entretanto, quando entramos na sua fatigante exegese das Escrituras, onde

cada coisa significa algo diferente daquilo que obviamente significa, e quando

chegamos a alguns dos resultados gerais de seu ensino, eles não se acham em

desarmonia com o moderno pensamento liberal, nem com o ensino recebido do

Outro Lado, desde que se iniciaram as comunicações. Assim, a proposição geral de

que este mundo é um laboratório de almas, um campo de experiências, no qual o

material refina o espiritual, não sofre contestação. Ele repele a Trindade no seu

sentido comum, mas a reconstitui de maneira extraordinária, que também seria

impugnada por um Unitário. Admite que cada sistema tem a sua finalidade e que a

virtude não é privativa do Cristianismo. Concorda com o ensino espírita em procurar

o verdadeiro sentido da vida de Jesus Cristo no seu poder como exemplo e repele a

29 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

expiação e o pecado original. Vê no egoísmo a raiz de todo o mal e admite como

essencial um egoísmo sadio, na expressão de Hegel. Quanto aos problemas sexuais,

suas ideias são liberais até ao relaxamento. Considera a Igreja de absoluta

necessidade, sem o que ninguém se entenderia com o Criador. Em tamanha confusão

de ideias, espalhadas a torto e a direito em grandes volumes, escritos num latim

obscuro, cada intérprete independente seria capaz de encontrar sua nova religião

particular. Mas não é aí que reside o mérito de Swedenborg. Esse mérito realmente

seria encontrado em suas forças psíquicas e nas suas informações psíquicas, que

teriam sido muito valiosas se jamais de sua pena houvesse brotado uma palavra

sobre Teologia. É para essas forças e para essas informações que nos voltamos

agora.

Ainda menino, Swedenborg teve as suas visões. Mas esse delicado aspecto

de sua natureza foi abafado pela extraordinariamente prática e enérgica idade viril.

Entretanto, por vezes veio ela à tona, em toda a sua vida e muitos exemplos foram

registrados, para mostrar que possuía poderes geralmente chamados vidência à

distância, no qual parece que a alma deixa o corpo e vai buscar uma informação à

distância, voltando com notícias do que se passa alhures. Não é uma peculiaridade

rara nos médiuns e pode ser comprovada por milhares de exemplos entre os

sensitivos espíritas; mas é rara nos intelectuais e também rara quando acompanhada

por um estado aparentemente normal do corpo quando ocorre o fenômeno.

Assim, no conhecidíssimo caso de Gothenburg, onde o vidente observou e

descreveu um incêndio em Estocolmo, a trezentas milhas de distância, com perfeita

exatidão, estava ele num jantar com dezesseis convidados, o que e um valioso

testemunho, O caso foi investigado nada menos que pelo filósofo Kant, que era seu

contemporâneo.

Não obstante, esses episódios ocasionais eram meros indícios de forças

latentes, que desabrocharam sübitamente em Londres, em abril de 1744. É de notarse

que, conquanto o vidente fosse de boa família sueca e educado entre a nobreza

sueca, foi nada menos que em Londres que os seus melhores livros foram

publicados, que a sua iluminação se iniciou e, finalmente, que morreu e foi

sepultado. Desde o dia de sua primeira visão até a sua morte, vinte e sete anos

depois, esteve ele em contínuo contato com o outro mundo. “Na mesma noite — diz

de — o mundo dos Espíritos, do céu. e do inferno, abriuse

convincentemente para

mim, e aí encontrei muitas pessoas de meu conhecimento e de todas as condições.

Desde então diariamente o Senhor abria os olhos de meu Espírito para ver,

perfeitamente desperto, o que se passava no outro mundo e para conversar, em

plena consciência, com anjos e Espíritos” .

Em sua primeira visão Swedenborg fala de “uma espécie de vapor que se

exalava dos poros de meu corpo. Era um vapor aquoso muito visível e caia no chão,

sobre o tapete. É uma perfeita descrição daqueles ectoplasmas que consideramos a

base dos fenômenos físicos. A substância foi chamada, também, ideoplasma, porque

instantaneamente toma a forma que lhe dá o Espírito. No seu caso, conforme a sua

descrição, ela se transformava em vermes, o que representava um sinal de que os

seus Guias lhe desaprovavam o regime alimentar e era acompanhada por um aviso

pela clarividência, de que devia ser mais cuidadoso a esse respeito.

30 – Ar thur Conan Doyle

Que é que pode fazer o mundo com essa narrativa? Dizer que tal homem

era um louco; mas, nos anos que se seguiram, sua vida não deu sinais de fraqueza

mental. Ou podiam dizer que ele mentia. Mas este era famoso por sua estrita

vivacidade. Seu amigo Cuno, banqueiro em Amsterdam, assim dizia dele: “Quando

me olhava, com os sorridentes olhos azuis, era como se eles estivessem falando a

própria verdade” . Seria então autosugestionado

e honestamente enganado? Temos

que enfrentar a circunstância de que, em geral, as observações que fazia eram

confirmadas desde então por numerosos observadores dos fenômenos psíquicos. A

verdade é que foi o primeiro e, sob vários aspectos, o maior médium, de um modo

geral; que estava sujeito a erros tanto quanto aos privilégios decorrentes da

mediunidade; que só pelo estudo da mediunidade seus poderes serão compreendidos

e que, no esforço de o separar do Espiritismo, a sua Nova Igreja mostrou absoluta

incompreensão de seus dons e da posição que a ela cabia no esquema geral da

Natureza. Como um grande pioneiro do movimento espírita, sua posição tanto é

compreensível quanto gloriosa. Como uma figura isolada com poderes

incompreensíveis, não há lugar para ele em qualquer esquema do pensamento

religioso, por mais largamente compreensivo que seja.

É interessante notar que ele considerava os seus poderes intimamente

relacionados com o sistema respiratório. Como o ar e o éter nos envolvem, é

possível que alguns respirem mais éter do que ar e, assim, alcancem um estado mais

etéreo. Sem a menor dúvida é esta uma maneira elementar e grosseira de considerar

as coisas. Mas essa ideia se derrama no trabalho de muitas escolas de psiquismo.

Lourence Oliphant, que aliás não tinha ligação com Swedenborg, escreveu um livro,

Sympneumata, para o provar, O sistema indiano de Ioga, repousa sobre a mesma

ideia. Entretanto, quem quer que tenha visto um médium cair em transe, deve ter

notado a característica inspiração de ar com que se inicia o processo e as profundas

expirações com que termina. Para a Ciência do futuro aqui está um promissor campo

de estudos. Nisto, como em qualquer outro assunto psíquico, é necessário cautela. O

autor conheceu muitos casos em que ocorreram lamentáveis resultados que foram a

consequência de um desavisado emprego da respiração profunda nos exercícios

psíquicos.

Como a força elétrica, os poderes espirituais têm um emprego variado, mas

o seu manejo requer conhecimentos e precauções.

Swedenborg resume o assunto dizendo que quando se comunicava com os

Espíritos, durante uma hora respirava profundamente, “tomando apenas a

quantidade de ar necessária para alimentar os seus pensamentos”. De lado essa

peculiaridade, Swedenborg era normal durante as suas visões, conquanto preferisse,

na ocasião, estar só. Parece que teve o privilégio de examinar várias esferas do outro

mundo e, conquanto as suas ideias sobre teologia tivessem marcado as suas

descrições, por outro lado a sua imensa cultura lhe permitiu excepcional poder de

observação e de comparação. Vejamos quais os principais fatos que suas jornadas

nos trouxeram e até onde eles coincidem com os que, desde então, têm sido obtidos

pelos métodos psíquicos.

Verificou que o outro mundo, para onde vamos após a morte, consiste de

várias esferas, representando outros tantos graus de luminosidade e de felicidade;

cada um de nós irá para aquela a que se adapta a nossa condição espiritual. Somos

31 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

julgados automaticamente, por uma lei espiritual das similitudes; o resultado é

determinado pelo resultado global de nossa vida, de modo que a absolvição ou o

arrependimento no leito de morte têm pouco proveito.

Nessas esferas verificou que o cenário e as condições deste mundo eram

reproduzidas fielmente, do mesmo modo que a estrutura da sociedade. Viu casas

onde viviam famílias, templos onde praticavam o culto, auditórios onde se reuniam

para fins sociais, palácios onde deviam morar os chefes.

A morte era suave, dada a presença de seres celestiais que ajudavam os

recémchegados

na sua nova existência. Esses recémvindos

passavam

imediatamente por um período de absoluto repouso. Reconquistavam a consciência

em poucos dias, segundo a nossa contagem.

Havia anjos e demônios, mas não eram de ordem diversa da nossa: eram

seres humanos, que tinham vivido na Terra e que ou eram almas retardatárias, como

demônios, ou altamente desenvolvidas, como anjos. De modo algum mudamos com

a morte. O homem nada perde pela morte: sob todos os pontos de vista é ainda um

homem, conquanto mais perfeito do que quando na matéria.

Levou consigo não só as suas forças, mas os seus hábitos mentais

adquiridos, as suas preocupações, os seus preconceitos.

Todas as crianças eram recebidas igualmente, fossem ou não batizadas.

Cresciam no outro mundo; jovens lhes serviam de mães, até que chegassem as mães

verdadeiras.

Não havia penas eternas. Os que se achavam nos infernos podiam trabalhar

para a sua saída, desde que sentissem vontade. Os que se achavam no céu não

tinham lugar permanente: trabalhavam por uma posição mais elevada.

Havia o casamento sob a forma de união espiritual no mundo próximo,

onde um homem e uma mulher constituíam uma unidade completa. É de notarse

que Swedenborg jamais se casou.

Não havia detalhes insignificantes para a sua observação no mundo

espiritual. Fala de arquitetura, do artesanato, das flôres, dos frutos, dos bordados, da

arte, da música, da literatura, da ciência, das escolas, dos museus, das academias,

das bibliotecas e dos esportes. Tudo isso pode chocar as inteligências convencionais,

conquanto se possa perguntar por que toleramos coroas e tronos e negamos outras

coisas menos materiais.

Os que saíram deste mundo velhos, decrépitos, doentes, ou deformados,

recuperavam a mocidade e, gradativamente, o completo vigor. Os casais

continuavam juntos, se os seus sentimentos recíprocos os atraíam. Caso contrário,

era desfeita a união. “Dois amantes verdadeiros não são separados pela morte, de

vez que o Espírito do morto habita com o do sobrevivente, até à morte deste último,

quando se encontram e se unem, amandose

mais ternamente do que antes”.

Eis algumas amostras tiradas da massa enorme de informações mandadas

por Deus através de Swedenborg. Elas têm sido reiteradas pela boca e pela pena dos

nossos iluminados espíritas. O mundo as desprezou, taxandoas

de concepções

insensatas. Contudo, estes novos conhecimentos vão abrindo caminho; quando

forem aceitos inteiramente, a verdadeira grandeza da missão de Swedenborg será

reconhecida, desde que se ponha de lado a sua exegese bíblica.

32 – Ar thur Conan Doyle

A Nova Igreja, fundada para divulgar os ensinos do mestre sueco,

converteuse

em elemento negativo, em vez de ocupar o seu verdadeiro lugar, como

fonte e origem do conhecimento psíquico. Quando, em 1848, desabrochou o

movimento espírita; quando homens como Andrew Jackson Davss o sustentavam

através de escritos filosóficos e de poderes psíquicos, que dificilmente se distinguem

dos de Swedenborg, a Nova Igreja teria feito bem em saudar esse desenvolvimento,

que coincidia com as indicações de seu chefe.

Em vez disso preferiram, por motivos difíceis de compreender, exagerar

cada ponto divergente e desconhecer todos os pontos coincidentes, até que os dois

corpos fossem impelidos para o franco antagonismo. Na verdade, todos os espíritas

deveriam homenagear Swedenborg, cujo busto era para encontrarse

em cada templo

espírita, por ser o primeiro e o maior dos modernos médiuns. Por outro lado, a Nova

Igreja deveria afogar as pequenas diferenças e integrarse

de coração no novo

movimento, contribuindo as suas igrejas e as suas organizações para a causa comum.

Examinando a vida de Swedenborg é difícil descobrir as causas que

levaram os seus atuais sectários a encarar com receio as outras organizações

psíquicas. Aquele fez então aquilo que estas fazem agora. Falando da morte de

Polhem, diz o vidente: “Ele morreu segundafeira

e falou comigo quintafeira.

Eu

tinha sido convidado para o entêrro. Ele viu o coche fúnebre e presenciou quando o

féretro baixou á sepultura. Entretanto, conversando comigo, perguntou porque o

haviam enterrado, se estava vivo. Quando o sacerdote disse que ele se ergueria no

Dia do Juízo, perguntou por que isso, se ele já estava de pé. Admirouse

de uma tal

coisa, ao considerar que, mesmo agora, estava vivo. Isto está perfeitamente

concorde com a experiência de um médium atual. Se Swedenborg estava certo,

também os médiuns estão. De novo: Brahe foi decapitado ás 10 da manhã e falou

comigo ás 10 da noite. Esteve comigo, quase que ininterruptamente, durante alguns

dias” .

Tais exemplos mostram que Swedenborg não tinha mais escrúpulos em

conversar com os mortos do que o Cristo, quando no monte falou a Moisés e Elias.

Swedenborg havia exposto as suas ideias com muita clareza. Considerandoas,

entretanto, há que levarse

em conta a época em que viveu e a sua falta de

experiência na direção e nos objetivos da nova revelação. Esse ponto de vista é que

Deus, por bons e sábios propósitos, tinha separado o mundo dos Espíritos do nosso,

e que a comunicação não era permitida, salvo razões poderosas — entre as quais não

se poderia contar a mera curiosidade. Cada estudante zeloso do psiquismo

concordará com isto e cada espírita zeloso opõese

a que a coisa mais séria do

mundo seja transformada numa espécie de passatempo. Sob o império de poderosas

razões, nossa razão principal é que numa época de materialismo como Swedenborg

jamais imaginou, estamos nos esforçando por provar a existência e a supremacia do

Espírito de maneira tão objetiva que os materialistas sejam encontrados e batidos no

seu próprio terreno. Seria difícil imaginar uma razão mais forte que esta; entretanto

temos o direito de proclamar que, se Swedenborg vivesse agora, seria o chefe do

nosso moderno movimento psíquico.

Alguns de seus prosélitos, entre os quais o Doutor Garth Wilkinson,

fizeram a seguinte objeção: “O perigo para o homem de falar com os Espíritos é

que nós todos estamos ligados aos nossos semelhantes e, estando cheios de

33 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

maldades, teríamos que enfrentar esses Espíritos semelhantes, e eles apenas

confirmariam o nosso ponto de vista.”

A isto responderemos apenas que, conquanto especioso, está provado pela

experiência que é falso. O homem não é naturalmente mau. O homem médio é bom.

O simples ato da comunicação espírita, na sua solenidade, desperta o lado religioso.

Assim, via de regra, não é a má influência, mas a boa, que é encontrada, como o

provam os belos e moralizados registros das sessões. O autor pode dar o testemunho

de que em cerca de quarenta anos de trabalho psíquico, durante os quais assistiu a

inúmeras sessões em muitos lugares, jamais, numa única ocasião, ouviu uma palavra

obcena ou qualquer mensagem que pudesse ferir os ouvidos da mais delicada

mocinha. Outros veteranos espíritas dão o mesmo testemunho.

Assim, enquanto é absolutamente certo que os maus Espíritos sejam

atraídos para um ambiente mau, na prática atual é muito raro que alguém seja por

eles incomodado. Se tais Espíritos aparecerem, o procedimento correto não é repelilos;

é antes conversar razoàvelmente com eles, esforçandose

por que compreendam

sua própria condição e o que devem fazer por seu melhoramento. Isto ocorreu

muitas vezes na experiência pessoal do autor, e com os mais felizes resultados.

Algumas informações pessoais sobre Swedenborg cabem como termo a este

ligeiro relato de suas doutrinas. Visase,

assim, antes de tudo, indicar a sua posição

no esquema geral.

Deve ele ter sido muito frugal, prático e trabalhador; um rapaz enérgico e

um velho muito amável. Parece que a vida o converteu numa criatura muito bondosa

e venerável. Era plácido, sereno e sempre disposto à conversação, que não

descambava para o psiquismo senão quando queria o seu interlocutor. O tema dessas

conversas era sempre notável, mas ele se afligia com a gagueira que lhe dificultava a

pronunciação. Era alto, delgado, de rosto espiritual, olhos azuis, peruca até os

ombros, roupas escuras, calções curtos, fivelas nos sapatos e bengala.

Sustentava Swedenborg que uma densa nuvem se havia formado em redor

da Terra, devido à grosseria psíquica da humanidade e que de tempos em tempos

havia um julgamento e uma limpeza, assim como a trovoada aclara a atmosfera

material. Via que o mundo, já em seus dias, entrava numa situação perigosa, devido

à semrazão

das Igrejas por um lado, e a reação contra a absoluta falta de religião,

causada por isto. As modernas autoridades em psiquismo, especialmente Vale

Owen, falaram dessa nuvem crescente e há uma sensação geral de que o necessário

processo de limpeza geral não tardará.

Uma notícia sobre Swedenborg, do ponto de vista espírita, não pode ser

melhor conduzida do que por estas palavras, extraídas de seu diário: “Todas as

afirmações em matéria de tecilogia são, como sempre foram, arraigadas no cérebro

e dificilmente podem ser removidas; e enquanto aí estiverem, a verdade genuína

não encontrará lugar.” Era ele um grande vidente, um grande pioneiro do

conhecimento psíquico e sua fraqueza reside naquelas mesmas palavras que

escreveu.

A generalidade dos leitores que quiserem ir mais adiante encontrará os mais

característicos ensinos de Swedenborg em suas obras: “Céu e Inferno”, “A Nova

Jerusalém” e “Arcana Coelestia”. Sua vida foi admiravelmente descrita por Garth

Wilkinson, Trobridge e Brayley Hodgetts, atual presidente da Sociedade Inglêsa

34 – Ar thur Conan Doyle

Swedenborg. A despeito de todo o seu simbolismo teológico, seu nome deve viver

eternamente como o primeiro de todos os homens modernos que descreveram o

processo da morte e o mundo do além, o que não se baseia no vago extático e nas

visões impossíveis das velhas Igrejas, mas corresponde atualmente às descrições que

nós mesmos obtemos daqueles que se esforçam por nos trazer uma ideia clara de sua

nova existência.

35 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

2

Edward Irving: os «shakers»

história de Edward Irving e sua experiência, entre 1830 e 1833, com as

manifestações espíritas, são de grande interesse para o estudante de

psiquismo e ajuda a vingar o abismo entre Swedenborg, de um lado e

Andrew Jackson Davis, do outro.

Os fatos são os seguintes:

Edward Irving pertence àquela mais pobre classe de trabalhadores braçais

escoceses, que produziu tantos homens de valor. Da mesma origem e da mesma

época de Thomas Carlyle, Irving nasceu em Annan, em 1792. Depois de uma

juventude dura e aplicada ao estudo, desenvolveuse

como um homem muito

singular. Físicamente era um gigante e um Hércules em força; seu físico esplêndido

só era estragado pela horrível saliência de um olho, defeito que, como o pé aleijado

de Byron, de certo modo parecia apresentar uma analogia nas esquisitices do caráter.

Sua inteligência era máscula, ampla e corajosa, mas destorcida pela primeira

educação na acanhada escola da Igreja Escocesa, onde os duros e cruéis pontos de

vista dos velhos Convencionais — um Protestantismo impossível, que representava

a reação contra um Catolicismo impossível — jamais envenenou a alma humana.

Sua atitude mental era estranhamente contraditória, pois, se havia herdado essa

atrapalhada teologia, deixara de herdar muito daquilo que é o patrimônio do mais

pobre escocês. Opunhase

a tudo quanto fosse liberal e até mesmo elementares

medidas de justiça, como a Lei de Reforma de 1832, que nele encontrou uma forte

oposição.

Esse homem estranho, excêntrico e formidável tinha tido o próprio

ambiente no século XVII, quando os seus protótipos se reuniam nas charnecas de

Galloway e exterminavam ou, possivelmente, atacavam a braço os dragões de

Claverhouse. Mas a vida continuou e ele teve que escrever o seu nome de certa

maneira nos anais de sua época. Sabemos de sua extrema mocidade na Escócia, da

rivalidade com seu amigo Carlyle no afeto pela inteligente e viva Jane Welsh, de

seus giros e exibições de força, de sua curta carreira como violento mestreescola

em

Kirkcaldy, de seu casamento com uma filha de um ministro naquela cidade e,

finalmente, de sua nomeação para cura, ou assistente do grande Dr. Chalmers, que

era então o mais famoso clérigo da Escócia e cuja administração na paróquia de

Glasgow é um dos mais interessantes capítulos da história da Igreja Escocesa. Neste

cargo ele adquiriu, no trato dos homens, o conhecimento com as classes mais

pobres, o que constitui a melhor e a mais prática preparação para a vida. Sem isto

ninguém é realmente completo.

A esse tempo havia uma pequena igreja escocesa em llatton Garden, fora de

Holborn, em Londres, que tinha perdido o seu pastor e se achava em posição crítica,

quer espiritual, quer financeiramente. A vacância foi oferecida ao assistente do

A

36 – Ar thur Conan Doyle

Doutor Chalmers que, depois de alguma reflexão, aceitoua.

Aí a sua eloquência

sonora e as suas luminosas explicações do Evangelho começaram a atrair a atenção

e, sübitamente, o estranho gigante escocês ficou na moda. A rua humilde, nas

manhãs de domingo, ficava atravancada de carruagens, e alguns dos mais notáveis

homens de Londres, bem como senhoras, acotovelavamse

dentro do pequeno

templo. É evidente que tamanha popularidade não podia durar e que o costume do

pregador de expor o texto durante uma hora e meia era muito para a elegância

londrina, embora aceitável ao norte de Tweed. Finalmente foi removido para uma

igreja maior em Regent Square, com capacidade para duas mil pessoas e onde havia

assentos suficientes para se acomodarem de maneira decente, embora o pregador já

não despertasse o interesse dos primeiros dias. De lado a sua oratória, parece que

Irving foi um pastor consciencioso e muito trabalhador, que lutava continuamente

para satisfazer as necessidades materiais dos mais humildes elementos de seu

rebanho, sempre pronto, dia e noite, no cumprimento de seu dever.

Não obstante, logo começaram as lutas com as autoridades de sua Igreja. O

assunto em disputa constituiu uma bonita base para uma querela teológica daquele

tipo que fez mais mal ao mundo do que a varíola. A questão era se o Cristo tinha em

Si a possibilidade de pecar, ou se a Divina Porção do Seu Ser constituía uma barreira

absoluta contra as tentações físicas.

Sustentavam uns que a associação de ideias como Cristo e pecado era uma

blasfêmia, O teimoso clérigo, entretanto, replicava, com algumas mostras de razão,

que a menos que o Cristo tivesse a capacidade de pecar e a ela resistisse

vitoriosamente, o seu destino terreno não era o mesmo que o nosso e suas virtudes

despertavam menos admiração. O assunto foi discutido fora de Londres com muita

seriedade e por um tempo enorme, tendo como resultado uma declaração unânime

do presbitério, condenando o ponto de vista do pastor. Entretanto, tendo a sua

congregação, por sua vez, manifestado uma inqualificável aprovação, ele pôde

desprezar a censura de seus irmãos oficiais.

Mas um maior obstáculo se achava à sua frente. O encontro de Irving com

ele levou o seu nome a viver como vivem todos os nomes a que se associam reais

êxitos espirituais..

Inicialmente há que considerar que Irving estava profundamente

interessado nas profecias bíblicas, especialmente nas vagas e terríveis imagens de

São João, e os estranhos vaticínios de Daniel. Refletiu muito sobre os anos e os dias

marcantes do período de ira que devia preceder a Segunda Vinda do Senhor. Por

aquela época —pelas alturas de 1830 — havia outros profundamente imersos nas

mesmas sombrias especulações. Entre estes contavase

um rico banqueiro, chamado

Drumond, dono de grande casa de campo em Albury, perto de Guildford. Nessa casa

aqueles estudiosos da Bíblia costumavam reunirse

de vez em quando, discutindo e

comparando seus pontos de vista tão minuciosamente que não era raro que suas

sessões se alongassem por uma semana, sendo os dias inteiramente ocupados desde

o almoço até o jantar. Este grupo era chamado os profetas de Albury. Excitados

pelos sucessos políticos que haviam levado à Lei da Reforma, todos eles

consideraram que as bases mais profundas tinham sido abaladas. É difícil imaginar

qual teria sido a sua reação se tivessem chegado a testemunhar a Grande Guerra.

Seja como for, estavam convencidos de que estaria próximo o fim de tudo e

37 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

buscavam impacientes sinais e portentos, torcendo as vagas e sinistras palavras dos

profetas de todas as maneiras em fantásticas interpretações.

Por fim, acima do monótono horizonte dos acontecimentos apareceu uma

estranha manifestação. Havia uma lenda de que os dons espirituais dos primeiros

dias reapareceriam antes do fim, e entre eles aparentemente estava o esquecido dom

das línguas, voltando como patrimônio da humanidade. Começou em 1830 ao oeste

da Escócia, onde os sensitivos Campbell e Mac Donald diziam que o sangue céltico

sempre tinha sido mais sensível às influências espirituais do que a mais pesada

corrente teutônica. Os Profetas de Albury exerciam a maior atividade intelectual e

um emissário foi mandado pela Igreja de Mr. Irving para investigar e relatar o caso.

Verificouse

que a coisa era exata. As pessoas tinham boa reputação e uma delas, na

verdade uma senhora cujo caráter poderia antes ser descrito como de santa. As

estranhas línguas em que ambos falavam, por vezes eram ouvidas e suas

manifestações eram acompanhadas por milagres de cura e outros sinais. É claro que

não havia fraude ou mistificação, mas um verdadeiro influxo de alguma força

estranha que levava a gente de retorno aos tempos apostólicos.

Os fiéis esperavam ansiosos novos acontecimentos.

Estes não se fizeram esperar: irromperam na própria Igreja de Irving. Foi

em julho de 1831 que correu o boato de que certos membros da congregação tinham

sido tomados de maneira estranha em suas próprias residências e que discretas

manifestações ocorriam na sacristia e outros recintos fechados. O pastor e os seus

conselheiros estavam perplexos, sem saber se uma demonstração mais pública iria

ser tolerada, O caso resolveuse

por si mesmo, por uma espécie de acordo com os

Espíritos; e, em outubro do mesmo ano, o prosaico serviço da Igreja da Escócia foi

sõbitamente interrompido pelos gritos de um possesso. Foi tão rápido e com

tamanha violência, tanto no serviço matinal, quanto no da noite, que se estabeleceu o

pânico na igreja de tal modo que, se não fosse pela trovejante súplica do gigante

pastor: “Oh! Senhor serena o tumulto do povo!” talvez se tivesse seguido uma

tragédia. Também houve muito sussurro e muitos brados dos velhos conservadores.

Como quer que seja, a sensação foi considerável e os jornais do dia apareceram

cheios de comentários, que estavam longe de ser favoráveis e respeitosos.

Os gritos vinham de homens e de mulheres e, no primeiro caso, se reduziam

a ruídos ininteligíveis, que tanto eram meros grunhidos quanto linguagem

inteiramente desconhecida. “Sons rápidos, queixosos e ininteligíveis” , diz uma

testemunha, “Havia uma força e um som cheio” , diz uma outra, “de que pareciam

incapazes os delicados órgãos femininos” . “Rebentavam com assombro e terrível

fragor” , diz uma terceira. Muitos, entretanto, ficavam fortemente impressionados

com aqueles sons; entre eles, Irving. “Há na voz um poder de impressionar o

coração e dominar o Espírito de maneira que jamais senti. Há uma cadência, uma

majestade e uma constante grandeza que jamais ouvi falar de coisa semelhante. É

muito parecido com os mais simples e os mais antigos cantos no serviço da catedral

de tal modo que cheguei a pensar que aqueles cantos, cuja reminiscência pode

chegar a Ambrósío, Sto as inspiradas preces da Igreja primitiva” .

Entretanto, em breve, palavras ininteligíveis em inglês foram adicionadas

aos estranhos ruídos. Em geral eram jaculatórias e preces, sem óbvios sinais de

caráter supranormal, salvo que se manifestavam em momentos inadequados e

38 – Ar thur Conan Doyle

independentes da vontade de quem as proferia. Nalguns casos, entretanto, essas

forças atuavam até que o sensitivo fosse, sob sua influência, capaz de longas

arengas, de expor a lei da mais dogmática maneira, sobre pontos de doutrina e fazer

censuras que, incidentemente eram carapuças para o sofrido pastor.

Pode ter havido — de fato houve, provàvelmente uma verdadeira origem

física para tais fenômenos; mas eles se tinham desenvolvido num terreno de estreita

e fanática teologia, destinada a leválos

a ruína. O próprio sistema religioso de

Swedenborg era demasiadamente acanhado para receber a plenitude desses dons do

espírito. De modo que pode imaginarse

a que se reduziram, quando recebidos nos

estreitos limites de uma igreja escocesa, onde cada verdade há de ser virada e

revirada até ajustarse

a algum êxito fantástico. O bom vinho novo não pode ser

guardado em insuficientes odres velhos. Tivesse havido uma revelação mais

completa, e certamente outras mensagens teriam sido recebidas de outras maneiras,

as quais teriam apresentado o assunto em suas justas proporções; e um dom

espiritual teria sido comprovado por outros. Mas ali não havia desenvolvimento:

havia o caos. Alguns daqueles ensinos não se acomodavam à ortodoxia e, assim,

foram considerados obra do diabo. Alguns dos sensitivos condenavam os outros

como heréticos.

Levantavase

voz contra voz. O pior de tudo é que alguns dos “oradores” se

convenceram de que seus discursos eram diabólicos. Parece que sua razão principal

é que os discursos não se acomodavam às suas próprias convicções espirituais, o que

nos poderia parecer antes uma indicação de que eram angélicos. Também entravam

pelo escorregadio caminho da profecia e ficavam envergonhados quando suas

profecias não se realizavam.

Alguns fatos constatados através desses sensitivos e que chocavam a sua

sensibilidade religiosa poderiam ter sido melhor compreendidos por uma geração

mais esclarecida.

Assim, admitese

que tenha sido um dos estudiosos da Biblia que tenha

dito, em relação à Sociedade Bíblica, “que ela era um curso em toda a Terra,

cobrindo o Espírito de Deus, pela letra da palavra de Deus” . Certo ou errado,

parece que o enunciado independe de quem o anuncia e se acha de pleno acordo com

os ensinos espirituais que atualmente recebemos.

Enquanto a letra for considerada sagrada, tudo pode ser provado por aquele

livro, inclusive o puro materialismo.

Um dos principais iniciados era um tal Robert Baxter — e que não deve ser

confundido com o Baxter, que, uns trinta anos mais tarde, estava ligado a notáveis

profecias. Parece que esse Robert Baxter era um cidadão sólido, zeloso e prosaico,

que via as Escrituras mais do ponto de vista de um documento legal, com um valor

exato para cada frase — especialmente para aquelas frases que serviam ao seu

próprio esquema hereditário da religião. Era um homem honesto, com uma

consciência inquieta, que o preocupava continuamente com os menores detalhes,

enquanto o deixava imperturbável em relação à larga plataforma, sobre a qual eram

construídas as suas opiniões. Esse homem era fortemente afetado pelo influxo do

Espírito ou, para usar as próprias palavras, “a sua boca era aberta pela força” . De

acordo com ele, o dia 14 de janeiro de 1832 foi o começo daqueles rústicos 1260,

dias que deveriam preceder a Segunda Vinda e o fim do mundo.

39 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

Tal profecia deveria ter sido particularmente simpática a Irving, com os

seus sonhos milenários. Mas muito antes que aqueles dias se tivessem completado,

Irving estava em seu jazigo e Baxter tinha repudiado aquelas vozes que, ao menos

naquele caso, o haviam enganado.

Baxter havia escrito um folheto com o pomposo título de “A Narrativa de

Fatos Característicos de Manifestações Supranaturais, em Membros da Congregação

de Irving e outras pessoas, na inglaterra e na Escócia, e inicialmente no Próprio

Autor”. A verdade espiritual não poderia vir através de uma tal mente, do mesmo

modo não o poderia a luz branca através de um prisma; e, ainda nesse caso, há que

admitir a ocorrência de muitas coisas aparentemente sobrenaturais, de mistura com

muitas duvidosas e algumas absolutamente falsas. O objetivo do folheto é

principalmente abjurar os seus maus guias invisíveis, de modo a poder voltar são e

salvo ao seio da Igreja Escocesa. Observese,

entretanto, que um outro membro da

congregação de Irving escreveu um panfleto de resposta com um título enorme,

mostrando que Baxter estava certo enquanto inspirado pelo Espírito, e satânico nas

suas errôneas conclusões. Esse folheto é interessante por conter cartas de várias

pessoas que possuiam o dom das línguas, mostrando que eram gente de cultura e

incapazes de uma mistificação consciente.

Que dirá de tudo isso um imparcial estudioso do psiquismo, familiarizado

com os dois modernos aspectos? Pessoalmente parece ao autor que tenha sido um

verdadeiro influxo psíquico, mascarado por uma acanhada teologia sectarista da

descrição literal, pelo que foram censurados os Fariseus. Se lhe é permitido

aventurar uma Opinião, esta é que o perfeito recipiente do ensino espírita é o homem

culto, que abriu caminho através de todos os credos ortodoxos e cuja mente

receptiva e ardente é uma superfície limpa e pronta para registrar uma nova

impressão exatamente como a recebe. Tornase,

assim, um verdadeiro filho e

discípulo dos ensinos do outro mundo e todos os outros tipos de espíritas parecem

acomodados. Isto não altera o fato de que a nobreza pessoal do caráter pode fazer do

iniciado honesto um tipo muitíssimo mais elevado do que o simples espírita; mas

isto só se aplica à atual filosofia. O campo do Espiritismo é imensamente vasto e

nele cada variedade de cristão, como de maometano, de hindu ou de parsi pode viver

em fraternidade. Mas a simples admissão do retorno do Espírito e da comunicação

não é suficiente. Muitos selvagens o admitem. Necessitamos também, um código de

moral. E se consideramos o Cristo como um mestre benevolente ou como um divino

embaixador, Seu ensino ético atual, de uma forma ou de outra, mesmo quando não

conjugado com o seu nome, é uma coisa essencial ao soerguimento da humanidade.

Mas deve ser sempre controlado pela razão e aplicado conforme o espírito e não

conforme a letra.

Isto, porém, é uma digressão. Nas vozes de 1831 há sinais de verdadeira

força psíquica.

É uma reconhecida lei espiritual que toda manifestação Psíquica sofre uma

distorção quando apreciada através de um médium de estreito sectarismo religioso.

É também uma lei que as pessoas presunçosas e infatuadas atraem Espíritos

malévolos e são alvo do espírito do mundo, dos quais se tornam joguetes através de

grandes nomes e de profecias que as tornam ridículas. Tais foram os guias que

40 – Ar thur Conan Doyle

desceram sobre o rebanho de Mr. Irving e produziram diversos efeitos, bons e maus,

conforme o instrumento empregado.

A unidade da Igreja, que tinha sido sacudida pela prévia censura do

presbitério, não resistiu a esse novo golpe. Houve uma grande cisão e o prédio foi

reclamado pelos administradores. Irvíng e os partidários que lhe ficaram fiéis

andaram à procura de um novo local, e vieram encontrálo

na sala que usava Robert

Owen, o socialista, filantropo e livrepensador, destinado, vinte anos mais tarde, a ser

um dos pioneiros conversos do Espiritismo. Aí, no Gray’s Inn Road, Irving reuniu

os fiéis. Não se pode negar que a Igreja, tal qual a organizou, com o seu anjo, os

seus presbíteros, seus diáconos, suas línguas e suas profecias, era a melhor

reconstituição da primitiva Igreja Cristã jamais realizada. Se Pedro ou Paulo se

reencarnassem em Londres teriam ficado confusos e, até, horrorizados ante a Igreja

de São Paulo ou a Abadia de Westminster; mas certamente teriam sentido uma

atmosfera perfeitamente familiar na reunião presidida por Irving. Um sábio

reconhece que há inúmeras direções para nos aproximarmos de Deus. A mente dos

homens e o espírito dos tempos variam de reações à grande causa central e apenas

podemos insistir numa caridade muito ampla para consigo mesmo e para com os

outros. Parece que era isso o que faltava a Irving.

Era sempre pelo modelo daquilo que era uma seita entre seitas que media o

universo.

Havia ocasiões em que ele era vagamente consciente disso; e é possível que

aquelas lutas com Apollyon, de que ele se lamenta, com o Bunyan e os velhos

Puritanos que costumavam lamentarse,

tenham sido uma estranha explicação.

Apollyon era, realmente, o Espírito de Verdade e a luta interior não era entre a Fé e

o Pecado, mas realmente entre a obscuridade do dogma herdado e a luz inerente à

razão instintiva, dom de Deus erguendose

para sempre em revolta contra os

absurdos do homem.

Mas Irving viveu muito intensamente e as sucessivas crises por que passou

o esgotaram.

Essas discussões com teólogos teimosos e com recalcitrantes membros de

seu rebanho se nos afiguram coisas triviais, quando vistas a distância; mas para ele,

com aquela alma devotada, ardente e tempestuosa, eram vitais e terríveis. Para uma

inteligência emancipada, uma seita ou outra é indiferente; mas para Irving, quer pela

herança, quer pela educação, a Igreja Escocesa era a Arca de Deus e ele o seu fiel e

zeloso filho que, conduzido pela sua própria consciência, tinha avançado e

encontrado as largas portas que conduzem à Salvação fechadas às suas costas. Era

um galho cortado da árvore e ia secando. É uma comparação e mais que isto, porque

se tornou, físicamente, uma verdade. Aquele gigante da meiaidade

murchou e

encolheu. Seu arcabouço vergou. As faces tornaramse

cavadas e pálidas. Os olhos

brilhavam de febre fatal que o consumia. E assim, trabalhando até o fim, tendo nos

lábios as palavras: “Se eu morrer, morrerei com o Senhor” , a sua alma passou para

aquela luz mais clara e mais dourada, na qual o cérebro encontra repouso e o

Espírito ansioso entra numa paz e numa segurança jamais encontradas na vida.

Além desse incidente isolado da Igreja de Irving, houve uma outra

manifestação psíquica naqueles dias, que levou mais diretamente à revelação de

Hydesville. Foi o desabrochar de fenômenos espíritas nas comunidades dos

41 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

“shakers”, nos Estados Unidos, e que despertou menos atenção do que merecia.

Parece que de um lado essa boa gente se ligava aos shakers, e do outro aos

refugiados das Cevennes, vindos para a Inglaterra para se subtrairem à perseguição

de Luis XIV.

Mesmo na Inglaterra as suas vidas inofensivas não os livraram da

perseguição dos fanáticos e eles se viram forçados a emigrar para os Estados

Unidos, durante a Guerra da Independência. Aí fundaram estabelecimentos em

vários lugares, vivendo vida simples e limpa, na comunidade de princípios, sóbria e

castamente, na sua palavra de ordem. Não é de admirar que a nuvem psíquica das

forças do além pouco a pouco descesse sobre a Terra e encontrasse repercussão

naquelas comunidades altruísticas. Em 1837 existiam sessenta desses grupos e todos

eles respondiam de várias maneiras à nova força. Então guardavam muito

cuidadosamente a experiência para si mesmos, porque, como os seus maiores

posteríormente exploravam, certamente teriam sido levados para os hospícios se

tivessem revelado o que então ocorria. Entretanto, logo depois apareceram dois

livros contando as suas experiências: “Santa Sabedoria” e “O papel sagrado”.

Parece que os fenômenos se iniciaram com os costumeiros sinais de avisos,

seguidos pela obsessão, de quando em vez, de quase toda a comunidade. Cada um,

homem ou mulher, demonstrava estar preparado para a manifestação dos Espíritos.

Entretanto os invasores só chegavam depois de pedir permissão e nos intervalos não

interferiam no trabalho da comunidade. Os principais visitantes eram Espíritos de

Peles Vermelhas, que vinham em grupos, como uma tribo. Um ou dois presbíteros

deveriam estar na sala de baixo, aí batiam à porta e os índios pediam licença para

entrar. Dada a licença, toda a tribo de Espíritos de índios invadia a casa e em poucos

minutos por toda a parte ouviase

o seu “Whoop! Whoop!” Os gritos de “whoop”,

aliás, emanavam dos órgãos vocais dos próprios “shakers”. Mas, quando sob o

controle dos índios, conversavam na língua destes, dançavam as suas danças e em

tudo mostravam que estavam realmente tomados por Espíritos de Peles Vermelhas.

Perguntarão por que deveriam esses aborígines norteamericanos

representar um papel tão saliente não só na inícíação, mas na continuidade do

movimento? Há poucos médiuns de efeitos físicos neste país, como nos Estados

Unidos, que não tenham como guia um Pele Vermelha e cuja fotografia não é raro

ser obtida por meios psíquicos, ainda com os seus vestidos e seus peitorais de couro

cru. É um dos muitos mistérios que ainda devemos solucionar. Com certeza apenas

podemos dizer, baseados em nossa própria experiência, que esses Espíritos têm

grandes poderes para a produção de fenômenos físicos, mas nunca demonstram um

ensino mais alto do que nos chega de Espíritos europeus ou orientais.

Entretanto os fenômenos físicos ainda são de grande importância, porque

chamam a atenção dos cépticos o assim, o papel reservado aos índios é de

importância vital. Parece que os homens da rude vida campestre, na vida espiritual

estão especialmente destinados às grosseiras manifestações da atividade do Espírito.

E tem sido constantemente afirmado, conquanto seja difícil proválo,

que o primeiro

organizador de tais manifestações foi um aventureiro, que em vida se chamava

Henry Morgan e que morreu como Governador da Jamaica, um posto para o qual

havia sido nomeado ao tempo de Carlos II. Deve admitirse

que essas afirmações

não provadas nenhum valor possuem no atual estado dos nossos conhecimentos, mas

42 – Ar thur Conan Doyle

deveriam ser registradas, desde que informações posteriores podem um dia lançar

sobre elas uma nova luz. John King, que é o nome do Espírito do suposto Henry

Morgan, é um ser muito real: poucos espíritas experimentados há que não tenham

visto a sua cara barbuda e ouvido a sua voz máscula. Quanto aos índios que são seus

companheiros ou subordinados, apenas épossível aventurar uma conjectura: são as

crianças da Natureza, talvez mais próximas dos primitivos segredos do que outras

raças mais complexas. Pode acontecer que o seu trabalho especial seja da natureza

de uma expiação — explicação que o autor ouviu de seus próprios lábios.

Parece que essas explicações constituem uma digressão da atual experiência

dos “shakers”, mas as dificuldades que se erguem na mente do investigador se

devem, em grande parte, à quantidade de fatos novos, sem ordem nem explicação,

que é preciso contornar. Sua inteligência não possui escaninhos suficientes aos quais

os possa adaptar. Entretanto, nestas páginas o autor procura, na medida do possível,

fornecer, de sua própria experiência ou da daqueles em quem pode confiar, aquelas

luzes que podem tornar o assunto mais inteligível e, pelo menos, dar uma ideia

daquelas leis que os regem e que estabelecem a ligação entre os Espíritos e nós

mesmos. Acima de tudo, o investigador deve para sempre abandonar a ideia de que

os desencarnados sejam, necessàriamente, entidades sábias e poderosas. Eles têm a

sua individualidade e as suas limitações, assim como as temos, e essas limitações se

tornam mais destacadas quando se manifestam através de uma substância tão alheia

quanto a matéria.

Os “shakers” contavam com um homem de notável inteligência, chamado

F. W. Evans, que fez um claro e interessante relato de todo esse assunto e que os

curiosos podem encontrar no New York Daily Graphic, de 24 de Novembro de 1874

e foi largamente citado na obra do Coronel Olcott “Gente do Outro Mundo.” Mr.

Evans e seus companheiros, depois da primeira perturbação física e mental, causada

pela irrupção daqueles Espíritos, puseramse

a estudar o que aquilo realmente

significava. Chegaram à conclusão de que a matéria poderia ser dividida em três

fases. A primeira consistia em provar ao observador que a coisa era verdadeira. A

segunda era a fase de instrução, na qual mesmo o mais humilde Espírito pode trazer

informações de sua própria experiência das condições postmortem.

A terceira fase,

dita fase missionária, era a de aplicação prática. Os “shakers” chegaram à conclusão

inesperada de que os índios não tinham vindo ensinar, mas aprender. Assim,

catequizaramnos

como foi possível, exatamente como o teriam feito em vida. Uma

experiência semelhante ocorreu desde então em muitíssimos centros espíritas, onde

humildes espíritos muito primitivos vieram aprender aquilo que deveriam ter

aprendido neste mundo, se tivesse havido professôres. Certamente perguntarão por

que Espíritos mais elevados do além não cuidam desse ensino? A resposta dada ao

autor, numa notável ocasião, foi a seguinte: “Essa gente está muito mais próxima de

vocês do que de nós. Vocês podem alcançálos

onde nós não podemos” .

Daí se conclui claramente que os bons “shakers” jamais estiveram em

contacto com os guias mais elevados — talvez não necessitassem de ser guiados —

e que os seus visitantes eram de um plano inferior. Durante sete anos as visitas

continuaram. Quando os Espíritos os deixaram, disseramlhes

que se iam, mas que

voltariam; e que, quando voltassem, invadiriam o mundo e tanto entrariam nas

choupanas quanto nos palácios.

43 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

Foi justamente depois de quatro anos que começaram as batidas de

Rochester. E quando se iniciaram, Elder Evans e outro “shaker” foram a Rochester e

visitaram as irmãs Fox. Sua chegada foi saudada com grande entusiasmo pelas

forças invisíveis, que proclamaram que aquilo era realmente o trabalho que tinha

sido predito.

Digna de referência é uma observação de Elder Evans. Quando lhe

perguntaram: “Não pensa que a sua experiência é a mesma dos monges e freiras da

Idade Média?” sua resposta não foi: “As nossas eram angélicas, as outras,

diabólicas”, como teria sido, se se invertessem os interlocutores. Ele respondeu com

muita candura e clareza: “Certamente. Isto é a sua própria explicação através dos

tempos. As visões de Santa Teresa são visões espíritas, do mesmo modo que as que

frequentemente têm tido os membros de nossa sociedade” . Quando depois lhe

perguntaram se a magia e a necromancia não pertenciam à mesma categoria,

respondeu: “Sim. Isto é Espiritismo empregado para fins egoísticos” . É claro que

havia homens, que viveram há cerca de um século, capazes de instruir os nossos

sábios de hoje.

Aquela notável senhora que foi Mrs. Hardinge Britten registrou em seu

Moderno Espiritualismo Americano como se pôs em inteiro contacto com a

comunidade dos “shakers” e como eles lhe mostraram relatos, tomados por ocasião

das visitas dos Espíritos.

Neles se afirma que a nova era deveria ser inaugurada por uma

extraordinária descoberta, tanto de valor material quanto espiritual. Esta é uma

notável profecia como éum assunto de história que os campos auríferos da

Califórnia foram descobertos pouco tempo depois daquela erupção psíquica. Um

partidário de Swedenborg, com a sua doutrina das correlações, possivelmente

sustentaria que estes dois fatos se complementam.

O episódio da manifestação dos “shakers” é um elo muito distinto entre o

trabalho de pioneiro de Swedenborg e o período de Davis e das Irmãs Fox.

Estudaremos agora a carreira do primeiro, que está intimamente associada com o

surgimento e o progresso do moderno movimento psíquico.

44 – Ar thur Conan Doyle

3

O Profeta da Nova Revelação

ndr ew J ackson Davis foi um dos homens mais notáveis de que temos uma

informação exata. Nascido em 1826 nas margens do Hudson, sua mãe era

uma criatura deseducada, com tendências visionárias aliadas à superstição

vulgar; seu pai era um borracho, trabalhador em couros. Escreveu detalhes de sua

própria infância num livro curioso: “A Vara Mágica” que nos revela a vida primitiva

e dura das províncias americanas na primeira metade do século passado. O povo era

rude e deseducado, mas o seu lado espiritual era muito vivo: parecia estar sempre

pronto para alcançar algo de novo.

Foi nesses distritos rurais de Nova Iorque que, no espaço de poucos anos, se

desenvolveram o Mormonismo e o Espiritismo.

Jamais houve um rapaz com menos disposições favoráveis do que Davis.

Era fraco de corpo e pobre de mente. Fora dos livros da escola primária apenas se

lembrava de um livro que sempre lia até os dezesseis anos de idade. Entretanto

naquela criatura mirrada dormiam tais forças espirituais que antes dos vinte anos

tinha escrito um dos livros mais profundos e originais de filosofia jamais

produzidos. Poderia haver mais clara prova de que nada tinha vindo dele mesmo e

de que não passava de um conduto, através do qual fluía o conhecimento daquele

vasto reservatório que dispõe de tão incompreensíveis dispositivos?

O valor de uma Joana d’Arc, a santidade de uma Teresa, a sabedoria de um

Jackson Davis, os poderes supranormais de um Daniel Home, tudo vem da mesma

fonte.

Nos seus últimos anos da infância começaram a se desenvolver os poderes

psíquicos de Davis. Como Joana d’Arc, ouvia vozes no campo — vozes gentis que

lhe davam bons conselhos e conforto. A clarividência seguiu essa clariaudiência. Por

ocasião da morte de sua mãe, teve uma notável visão de uma casa muito amável,

numa região brilhante, que imaginou ser o lugar para onde sua mãe tinha ido.

Entretanto sua completa capacidade foi despertada por uma circunstância: veio a sua

aldeia um saltimbanco que exibia as maravilhas do mesmerismo; fez uma

experiência com Davis, e também com muitos outros jovens rústicos, que quiseram

provar aquela sensação. Logo foi constatado que Davis possuía notável poder de

clarividência.

Estes não foram desenvolvidos pelo peripatético mesmerista, mas por um

alfaiate local, um certo Livingstone, que parece ter sido um pensador avançado. Ele

ficou tão intrigado com os dons do seu sensitivo que abandonou o seu próspero

negócio e devotou todo o seu tempo ao trabalho com Davis, empregando a sua

clarividência no diagnóstico de doenças.

Davis havia desenvolvido essa força, comum entre os psiquistas, de ver sem

os olhos, inclusive aquelas coisas que não podiam ser vistas pela visão humana. A

A

45 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

princípio o dom era usado como uma espécie de divertimento, na leitura de cartas e

relógios de uma assistência rústica, tendo o sensitivo os olhos vendados. Neste caso,

qualquer parte do corpo pode exercer a função de ver. A razão disso talvez seja que

o corpo etérico ou espiritual, que possui os mesmos órgãos que o físico, esteja total

ou parcialmente desprendido e registre a impressão. Desde que pode tomar tal

atitude, ou andar à volta, pode ver de qualquer ponto. É uma explicação para casos

como o que o autor encontrou no Norte da Inglaterra, onde Tom Tyrrell, o famoso

médium, costumava andar à volta da sala, olhando os quadros, de costas para as

paredes onde os mesmos estavam pendurados. Se em tais casos os olhos etéreos

vêem os quadros, ou se vêem uma réplica etérea dos mesmos, temos um dos muitos

problemas que deixamos à posteridade.

Livingstone, a princípio, usou Davis para diagnósticos médicos. Descrevia

como o corpo humano se tornava transparente aos seus olhos espirituais, que

pareciam funcionar do centro de sua testa. Cada órgão aparecia claramente e com

uma radiação especial e peculiar, que se obscurecia em caso de doença. Para a

mentalidade médica ortodoxa, com a qual muito simpatiza o autor, tais poderes são

passíveis de abrir uma porta para o charlatanismo e ainda o inclina a admitir que

tudo quanto foi dito por Davis tivesse sido corroborado pela própria experiência de

Mr. Bloomfield, de Melbourne, que descreveu ao autor a admiração de que ficou

possuído, quando sua força se manifestou subitamente, na rua, lhe mostrando

detalhes anatômicos de duas pessoas que andavam à sua frente. Tão bem verificados

têm sido tais poderes, que não é raro veremse

médicos tomar clarividentes ao seu

serviço, como auxiliares para o diagnóstico. Diz Hipócrates: “A alma vê de olhos

fechados as afecções sofridas pelo corpo” . Assim, ao que parece, os antigos sabiam

algo a respeito de tais métodos. As observações de Davis não se circunscreviam aos

que se achavam em sua presença: sua alma ou corpo etérico podia libertarse

pela

ação magnética de seu empresário e ser mandada como um pombo correio, na

certeza de que regressaria com a informação desejada. Além da missão humanitária

em que geralmente se empenhava, às vezes vagava livremente; então descrevia, em

magníficas passagens, como via a Terra translúcida, abaixo dele, com os grandes

veios de depósitos minerais, como que brilhando através de massas de metal

fundido, cada qual com a sua radiação peculiar.

É notável que nessa fase inicial da experiência psíquica de Davis não

tivesse ele a recordação daquilo que tinha visto em transe. Contudo, essa recordação

era registrada no seu subconsciente e, posteriormente, a recuperava com clareza.

Com o tempo tornouse

uma fonte de informações para os outros, posto que ficasse

ignorante para si próprio.

Até então o seu desenvolvimento se havia processado de maneira não

incomum e que podia ser comparado com a experiência de qualquer estudioso de

psiquismo. Foi quando ocorreu um episódio inteiramente novo e que é

minuciosamente descrito na sua autobiografia. Em resumo, os fatos foram os

seguintes. Na tarde de 6 de março de 1844, Davis foi subitamente tomado por uma

força que o fez voar da pequena cidade de Poughkeepsie, onde vivia, e fazer uma

pequena viagem no estado de semitranse. Quando voltou à consciência, encontravase

entre montanhas agrestes e aí, diz ele, encontrou dois anciãos, com os quais

entrou em íntima e elevada comunhão, uma sobre medicina e outra sobre moral.

46 – Ar thur Conan Doyle

Esteve ausente toda a noite; e quando indagou de outras pessoas na manhã seguinte,

disseramlhe

que tinha estado nas Montanhas de Catskill, a cerca de quarenta milhas

de casa. A história tem todas as aparências de uma experiência subjetiva, um sonho

ou uma visão, e ninguém hesitaria em considerála

como tal, se não fosse o detalhe

de seu regresso e da refeição que tomou a seguir. Uma alternativa seria que o vôo

para as montanhas fosse uma realidade e as entrevistas um sonho. Diz de que

posteriormente identificou seus dois mentores como sendo Galeno e Swedenborg, o

que é interessante, por ser o primeiro contacto com os mortos por ele próprio

reconhecido. Todo o episódio pareceu visionário e não teve qualquer ligação com o

notável futuro desse homem.

Verificou maiores forças a se agitarem em si mesmo e foi avisado de que,

quando lhe faziam perguntas sérias, enquanto se achava em transe mesmérico,

sempre respondia: “Responderei a isto em meu livro” . Aos dezenove anos sentiu

chegado o momento de o escrever. A influência magnética de Livingstone, por isso

ou por aquilo, parece que não era adequada para tal fim. Então foi escolhido o

Doutor Lyon como novo magnetizador. Lyon abandonou o consultório e foi a Nova

Iorque com o seu protegido, onde procurou o Reverendo William Fishbough,

convidandoo

para servir de secretário. Parece que essa escolha intuitiva era

justificada, pois este logo abandonou o seu trabalho e aceitou o convite. Então,

preparado o aparelho, Lyon submetia diàriamente o jovem a transes magnéticos e

suas manifestações eram registradas pelo fiel secretário. Não havia dinheiro nem

publicidade no assunto, de modo que nem o mais céptico dos críticos poderia deixar

de admitir que a ocupação e os objetivos desses três homens constituíssem um

maravilhoso contraste com a preocupação material de fazer dinheiro que os rodeava.

Eles buscavam o mais além. E que é o que podia fazer o homem de mais nobre?

Há que levar em conta que um tubo não pode conter mais do que lhe

permite o seu diâmetro. O diâmetro de Davis era muito diferente do de Swedenborg.

Cada um recebia conhecimento quando num estado de iluminação. Mas Swedenborg

era o homem mais instruído da Europa, enquanto Davis era um jovem tão ignorante

quanto se podia encontrar no Estado de Nova Iorque. A revelação de Swedenborg

talvez fosse a maior, posto que, muito provàvelmente, pontilhada por seus próprios

conhecimentos. A revelação de Davis era, comparativamente, um milagre maior.

O Doutor George Bush, professor de Hebraico na Universidade de Nova

Iorque, uma das testemunhas quando eram recebidas as orações em transe, assim

escreve: “Afirmo solenemente que ouvi Davis citar corretamente a língua hebraica

em suas palestras, e demonstrar um conhecimento de geologia muito admirável

numa pessoa da sua idade, ainda quando tivesse devotado anos a esse estudo.

Discutiu, com grande habilidade, as mais profundas questões de arqueologia

histórica e bíblica, de mitologia, da origem e das afinidades das línguas, da marcha

da civilização entre as várias nações da Terra, de modo que fariam honra a

qualquer estudante daquela idade, mesmo que, para as alcançar, tivesse consultado

todas as bibliotecas da Cristandade. Realmente, se ele tivesse adquirido todas as

informações que externa em suas conferências, não em dois anos, desde que deixou

o banco de sapateiro, mas em toda a sua vida, com a maior assiduidade no estudo,

nenhum prodígio intelectual de que o mundo tem notícia, por um instante seria

47 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

comparável com este, muito embora nenhum volume, nenhuma página tenha sido

publicada.”

Eis um admirável retrato de Davis na época. E Bush chamanos

a atenção

para o seu equipamento, quando diz: “A circunferência de sua cabeça é

demasiadamente pequena. Se o tamanho fosse a medida da força, então a

capacidade mental desse jovem seria limitadíssima. Os pulmões são fracos e

atrofiados. Não viveu num ambiente refinado: suas maneiras eram grosseiras e

rústicas. Não tinha lido senão um livro. Nada conhece de gramática ou das regras

de linguagem nem esteve em contato com pessoas dos meios literários ou

científicos” .

Tal era o moço de dezenove anos, do qual jorrava então uma catadupa de

palavras e de ideias, abertas à crítica, não por sua simplicidade, mas por serem

demasiado complexas e envoltas em termos científicos, conquanto sempre com um

fio consistente de raciocínio e de método.

Vem a propósito falar do subconsciente, embora isto geralmente tenha sido

tomado como ideias aparentemente recebidas e submergidas. Se, por exemplo, o

desenvolvido Davis pudesse recordar o que tinha acontecido em seus transes durante

os seus dias de não desenvolvimento, teríamos um claro exemplo de emergência

daquelas impressões sepultadas.

Mas seria abusar das palavras falar de um inconsciente quando tratamos

com alguma coisa que, por meios normais, jamais poderia alcançar qualquer extrato

da mente, consciente ou inconsciente.

Eis o começo da grande revelação psíquica de Davis, que se derramou,

ocasionalmente, por muitos livros, todos compendiados pelo nome de “Filosofia

Harmônica”.

Por sua natureza e por sua posição nos estudos psíquicos, deles trataremos

noutro lugar.

Nessa fase de sua vida, pretende Davis haver estado sob a influência direta

da entidade que posteriormente identificou como sendo Swedenborg — nome muito

pouco familiar naquele tempo. De vez em quando recebia um aviso, pela

clarividência, “para subir a montanha”. Essa montanha se acha situada na outra

margem do Hudson, oposta a Poughkeepsie. Aí na montanha pretende ele que se

encontrava e conversava com uma figura venerável. Parece que não houve qualquer

indício de materialização e o incidente não tem analogia em nossa experiência

psíquica, salvo se — e temos que falar com toda a reverência — também o Cristo

subiu a um monte e entrou em comunhão com as formas de Moisés e de Elias.

Nisso a analogia parece completa.

Não parece que Davis tenha sido absolutamente um homem religioso, no

sentido comum e convencional, embora se achasse saturado de forças

verdadeiramente espirituais. Seus pontos de vista, até onde é possível acompanhálo,

eram de crítica franca em relação à revelação bíblica e, na pior das hipóteses,

honesto, honrado, incorruptível, ansioso pela verdade e consciente de sua

responsabilidade pela sua divulgação.

Durante dois anos o seu subconsciente continuou ditando o livro sobre os

segredos da Natureza, enquanto o consciente Davis adquiriu um pouco de autoeducação

em Nova Iorque, com ocasionais visitas restauradoras a Poughkeepsie.

48 – Ar thur Conan Doyle

Tinha começado a chamar a atenção de algumas pessoas sérias e Edgar Allan Poe

era um de seus visitantes. Seu desenvolvimento psíquico continuava e antes dos

vinte e um anos tinha chegado a ponto de não mais necessitar de alguém para cair

em transe; realizavao

sozinho. Por fim sua memória subconsciente se tinha aberto e

ele se tornou capaz de abarcar o largo alcance de suas experiências. Foi então que se

assentou ao lado de uma senhora agonizante e observou todos os detalhes da partida

da alma, cuja magnífica descrição nos dá no primeiro volume de “A Grande

Harmonia”. Conquanto sua descrição tenha aparecido numa separata, não é tão

conhecida quanto deveria sêlo.

Um pequeno resumo deve ser interessante para o

leitor.

Começa ele por uma consoladora reflexão sobre os vôos de sua própria

alma, que eram morte em todos os sentidos, salvo quanto a duração, e lhe haviam

mostrado que a experiência era “interessante e deliciosa” e que aqueles sintomas que

parecem sinais de sofrimento não passam de reflexos inconscientes do corpo e não

têm significação. Diz então como, havendose

jogado antes naquilo que chama de

“Condição Superior”, havia observado as etapas do lado espiritual. “O olho material

vê apenas o que é material, e o espiritual o que é espiritual”. Como, porém, tudo tem

uma contrapartida espiritual, o resultado é o mesmo. Assim, se um Espírito vem a

nós, não é a nós que ele vê, mas o nosso corpo etérico, que é, aliás, uma réplica do

nosso corpo material.

Foi esse corpo etérico que Davis viu emergindo do envoltório de

protoplasma da pobre moribunda, que finalmente ficou vazio no leito, como a

enrugada crisálida, depois que a borboleta se libertou. O processo começou por uma

extrema concentração no cérebro, que se foi tornando cada vez mais luminoso,

enquanto as extremidades se tornavam escuras. É provável que o homem nunca

pense tão claramente ou seja tão intensamente cônscio quanto depois que todos os

meios de indicação de seus pensamentos o abandonaram. Então o novo corpo

começa a emergir, a começar pela cabeça. Em breve se acha completamente livre, de

pé ao lado de seu cadáver, com os pés próximo à cabeça e com uma faixa luminosa

vital, correspondente ao cordão umbilical. Quando o cordão se rompe, uma pequena

porção é absorvida pelo cadáver, assim o preservando da imediata putrefação.

Quanto ao corpo etérico, leva algum tempo até adaptarse

ao novo ambiente, até

passar pela porta aberta.

“Eu a vi passar para a sala contígua, através da porta e da casa, erguerse

no espaço... Depois que saiu da casa encontrou dois Espíritos amigos, da região

espiritual que, depois de um terno reconhecimento e de um entendimento entre os

três, da mais graciosa das maneiras, começou a subir obliquamente pelo envoltório

etéreo de nosso globo. Marchavam juntos tão naturalmente, tão fraternalmente que

me custava imaginar que se equilibrassem no ar: pareciam subir pela encosta de

uma montanha gloriosa e familiar. Continuei a olhálos,

até que a distância os

fechou aos meus olhos”.

Tal a visão da Morte, tal qual a percebeu A. J. Davis — muito diferente

daquela treva horrível que por tanto tempo obsidiou a imaginação humana. Se isto é

verdade, podemos voltar nossas simpatias para o Doutor Hodgson e sua exclamação:

“Custame

suportar a espera” . Mas é verdade? Apenas podemos dizer que há muita

evidência a corroborála.

49 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

Muitas pessoas que caem em estado cataléptico, ou que estiveram tão

doentes que chegaram ao estado de coma, trouxeram impressões muito concordes

com a descrição de Davis, posto que outras tivessem voltado com o cérebro

inteiramente vazio. Quando em Cincinnati, em 1923, o autor esteve em contacto

com uma tal Mrs. Monk, que tinha sido, pelos médicos, dada como morta, e que

durante cerca de uma hora havia experimentado a vida postmortem, antes que um

capricho da sorte a devolvesse àvida, ela escreveu um pequeno relato de sua

experiência, no qual recorda uma vívida lembrança de ter saído do quarto,

exatamente como descreve Davis, e do fio prateado que continuava unindo sua alma

viva a seu corpo comatoso. Um notável caso foi publicado na revista Light, de 25 de

março de 1922, no qual cinco filhas de uma senhora agonizante, todas clarividentes,

viram e descreveram o processo da morte de sua mãe. Aqui também a descrição do

processo era muito semelhante àquele descrito, posto haja algumas diferenças

bastantes entre este último e outros casos para sugerir que a seqüência dos

acontecimentos nem sempre é regida pelas mesmas leis. Outra variante de extremo

interesse encontrase

num desenho feito por uma criança médium, que pinta a alma

deixando o corpo e é descrito no trabalho de Mrs. De Morgan, “Da Matéria ao

Espírito”, página 121. Este livro, com suas oitenta páginas de prefácio pelo célebre

matemático, Professor De Morgan, é um dos trabalhos de pioneiro do movimento

espírita na GrãBretanha.

Quando se pensa que foi publicado em 1863, sentese

um

peso no coração pelo sucesso daquelas forças de obstrução, tão fortemente refletidas

na imprensa, que tem conseguido durante tantos anos colocarse

entre a mensagem

de Deus e a raça humana.

A força profética de Davis apenas pode ser desconhecida pelos cépticos que

ignoram os fatos. Antes de 1856 profetizou detalhadamente o aparecimento do

automóvel e da máquina de escrever. Em seu livro “Penetralia” lêse

o seguinte:

“Pergunta: Poderá o utilitarismo lazer descobertas em outra direção da

locomoção?” — “Sim: buscamse

nestes dias carros e transportes coletivos que

correrão por estradas rurais — sem cavalos, sem vapor, sem qualquer força natural

visível — movendose

com alta velocidade e com muito mais segurança do que

atualmente. Os veículos serão acionados por uma estranha, bonita e simples

mistura de gases aquosos e atmosféricos — tão facilmente condensados, tão

simplesmente inflamados e tão ligados à máquina, que de certo modo se assemelha

às nossas, que ficarão ocultos e serão manejados entre as rodas da frente. Tais

veículos aqui terão muitos embaraços atualmente experimentados pela gente que

vive em regiões pouco povoadas. O primeiro requisito para essas locomotivas de

chão serão boas estradas, nas quais, com a sua máquina, sem cavalos, a gente pode

viajar com muita rapidezembro Esses carros me parecem de construção pouco

complicada” .

A seguir perguntaram:

— “Percebe algum plano que permita acelerar a maneira de escrever?”

— “Sim. Quase me sinto inclinado a inventar um psicógrafo automático,

isto é, uma alma escritora artificial. Pode ser construída assim como um piano, com

uma série de teclas, cada uma para um som elementar; um teclado mais baixo para

fazer uma combinação e um terceiro para uma rápida recombinação. Assim, em vez

de se tocar uma peça de música, podese

escrever um sermão ou um poema. Do

50 – Ar thur Conan Doyle

mesmo modo, respondendo a uma pergunta relativa ao que era então chamado

‘navegação atmosférica’, sentiuse

‘profundamente impressionado’ porque o

mecanismo necessário — para atravessar as correntes de ar, de modo que se possa

navegar tão fácil, segura e agradàvelmente quanto os pássaros — depende de uma

nova força motriz. Essa força virá. Não só acionará a locomotiva sobre os trilhos, e

os carros nas estradas rurais, mas também os veículos aéreos que atravessarão o

céu, de país para país” .

O aparecimento do Espiritismo foi predito nos seus “Princípios da

Natureza”, publicados em 1847, onde diz:

“É verdade que os Espíritos se comunicam entre si, quando um está no

corpo e outro em esferas mais altas — e, também, quando uma pessoa em seu corpo

é inconsciente do influxo e, assim, não se pode convencer do fato. Não levará muito

tempo para que essa verdade se apresente como viva demonstração. E o mundo

saudará com alegria o surgimento dessa era, ao mesmo tempo que o íntimo dos

homens será aberto e estabelecida a comunicação espírita, tal qual a desfrutam os

habitantes de Marte, Júpiter e Saturno”.

Nesta matéria os ensinamentos de Davis eram definitivos, embora se deva

admitir que uma boa parte de seu trabalho é vaga e difícil de ler, porque desfigurada

pelo emprego de vocábulos longos e ocasionalmente inventados por ele. Entre. tanto

são de um alto nível moral e intelectual, e pode ser melhor descrito como um

atualizado Cristianismo, com a ética do Cristo aplicada aos problemas modernos e

inteiramente coberto de quaisquer traços de dogmas. A “Religião Documentária”,

como a chama Davis, em sua opinião absolutamente não é uma religião. Tal nome

só deve ser aplicado ao produto pessoal da razão e da espiritualidade. Tal a linha

geral do ensino, misturado com muitas revelações da Natureza, exposto em

sucessivos livros da “Filosofia Harmônica”, a que se seguiram as “Revelações

Divinas da Natureza” e que tomaram os anos seguintes de sua vida. Muitos de seus

ensinos apareceram num jornal estranho, chamado “Univercoelum” e em

conferências proferidas para dar a conhecer as suas revelações.

Em suas visões espirituais, Davis viu uma disposição do universo que

corresponde proximamente à que foi apresentada por Swedenborg, adicionada pelo

ensino posterior dos Espíritos e aceita pelos espíritas. Viu uma vida semelhante à da

Terra, uma vida que pode ser chamada semimaterial, com prazeres e objetivos

adequados à nossa natureza, que de modo algum se havia transformado pela morte.

Viu estudo para os estudiosos, tarefas geniais para os enérgicos, arte para os artistas,

beleza para os amantes da Natureza, repouso para os cansados. Viu fases graduadas

da vida espiritual, através das quais lentamente se sobe para o sublime e para o

celestial. Levou a sua magnífica visão acima do presente universo e o viu como este

uma vez mais se dissolvia numa nuvem de fogo, da qual se havia consolidado, e,

uma vez mais se consolidado para formar o estágio, no qual uma evolução mais alta

teria lugar e onde uma classe mais alta se iniciaria do mesmo modo que algures a

classe mais baixa. Viu que esse processo se renovava muitas vezes, cobrindo trilhões

de anos e sempre trabalhando no sentido do refinamento e da purificação.

Descreveu essas esferas como anéis concêntricos em redor do mundo; mas

como admite que nem o tempo nem o espaço são claramente definidos em suas

visões, não devemos tomar a sua geografia muito ao pé da Letra. O objetivo da vida

51 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

é preparar para o adiantamento nesse tremendo esquema; e o melhor método para o

progresso humano é livrarse

do pecado — não só dos pecados geralmente

reconhecidos, mas também dos pecados do fanatismo, da estreiteza de vistas e da

dureza, que são manchas especiais, não só na efêmera vida da carne, mas na

permanente vida do Espírito. Para tal fim o retorno a vida simples, às crenças

simples e à fraternidade primitiva se tornam essenciais, O dinheiro, o álcool, a

luxúria, a violência e o sacerdócio — no seu limitado sentido — constituem os

maiores empecilhos do progresso humano.

Há que admitirse

que Davis, até onde se pode acompanhar a sua vida,

tenha vivido para as suas ideias. Era muito humilde, mas daquela matéria de que são

feitos os santos. Sua autobiografia vai apenas até 1857, de modo que teria pouco

mais de trinta anos quando a publicou. Mas dá uma descrição muito completa e por

vezes muito involuntária de seu íntimo. Era muito pobre, mas justo e caridoso. Era

muito sério, mas muito paciente na argumentação e delicado na contradita. Fizeramlhe

as piores acusações, que ele recorda com um sorriso de tolerância. Dá uma

informação completa de seus dois primeiros casamentos, tão originais quanto tudo o

mais a seu respeito, mas que apenas depõem em seu favor. Desde a data em que

termina “A Vara Mágica”, parece que levou a mesma vida, alternando leitura e

escrita, conquistando cada vez mais prosélitos, até que morreu em 1910, na idade de

oitenta e quatro anos. Passou os últimos anos de sua vida como diretor de uma

pequena livraria em Boston. O fato de a sua “Filosofia Harmônica” ter tido umas

quarenta edições nos Estados Unidos constitui uma prova de que a semente que

lançou com tanta constância não caiu em terreno sáfaro.

Para nós o que é importante é o papel representado por Davis no começo da

revelação espírita. Ele começou a preparar o terreno, antes que se iniciasse a

revelação. Estava claramente fadado a associarse

intimamente com ela, de vez que

conhecia a demonstração de Hydesville, desde o dia em que ocorreu. De suas notas

tomamos a passagem seguinte, que traz a data significativa de 31 de março de 1848:

“__________Esta madrugada um sopro quente passou pela minha face e ouvi uma

voz, suave e forte, dizer: ‘Irmão, um bom trabalho foi começado — olha! surgiu

uma demonstração viva’. Fiquei pensando o que queria dizer semelhante

mensagem.”

Era o começo do enorme movimento do qual participaria como profeta.

Suas próprias forças, do lado mental, eram supranormais, do mesmo modo que as

físicas o são do lado material. Elas se completam. Era, até o extremo de sua

capacidade, a alma do movimento, e o único cérebro que tinha uma visão clara da

mensagem, anunciada de maneira tão nova como estranha. Nenhum homem poderia

receber aquela mensagem por inteiro, porque é infinita e cada vez se ergue mais alto,

à medida que tomamos contacto com seres mais elevados. Mas Davis a interpretou

tão bem para os seus dias e para a sua geração que, mesmo agora, muito pouco pode

ser adicionado às suas concepções.

Tinha ido além de Swedenborg, embora não possuísse o equipamento

mental deste, para abarcar os seus resultados. Swedenborg havia visto o céu e o

inferno, tal como Davis os vira e descrevera minuciosamente. Entretanto

Swedenborg não teve uma visão clara da posição dos mortos e da verdadeira

natureza do mundo dos Espíritos, com a possibilidade de retorno, como foi revelado

52 – Ar thur Conan Doyle

ao vidente americano. Tal conhecimento veio lentamente a Davis. Suas estranhas

entrevistas com o que chamava de “Espíritos materializados” eram coisas

excepcionais, das quais tirou conclusões importantes. Só mais tarde é que tomou

contacto com os atuais fenômenos espíritas, cuja significação completa era capaz de

ver.

Esse contacto não foi estabelecido em Rochester, mas em Stratford, no

Connecticut, onde Davis foi testemunha dos fenômenos do Poltergeist, produzidos

em casa de um clérigo, o Doutor Phelps, no começo de 1850. O seu estudo

conduziuo

a escrever um panfleto — “Filosofia do Comércio com os Espíritos”.

Mais tarde desenvolvido num livro que encerra muita coisa que o mundo

ainda não aprendeu. Algumas destas coisas, na sua sábia redução, devem ser

recomendadas a alguns espíritas. “O Espiritismo é útil como uma vívida

demonstração da existência futura” , diz ele. “Os Espíritos me ajudaram muitas

vezes, mas nem controlam a minha pessoa, nem a minha razão. Bondosamente

podem realizar — e realizam coisas para os que vivem na Terra. Mas os benefícios

só serão garantidos com a condição de que lhes permitamos tornarse

nossos

mestres e não nossos donos — que os aceitemos como companheiros, mas não como

deuses a quem devamos adorar” . Sábias palavras — é uma moderna verificação da

observação vital de São Paulo, de que o profeta não se deve sujeitar aos seus

próprios dons.

Para explicar adequadamente a vida de Davis, há que ascender às condições

supranormais. Mesmo assim, entretanto, há explicações alternadas, se forem

considerados os seguintes fatos inegáveis:

1. que ele proclama ter visto e ouvido a forma materializada de Swedenborg, antes

que soubesse algo de seus ensinos;

2. que alguma coisa possuía esse jovem ignorante, que lhe deu muita sabedoria;

3. que essa sabedoria cobriu os mesmos amplos e universais domínios que eram

característicos de Swedenborg;

4. mas representavam um passo à frente, de vez que adicionavam aquele

conhecimento do poder do Espírito, que Swedenborg deve ter atingido após a

sua morte.

Considerando estes quatro pontos, então, não será admissível que Davis fosse

controlado pelo Espírito de Swedenborg? Bom seria que a estimável, mas estreita e

limitada Nova Igreja tomasse essas possibilidades em consideração. Se, porém,

Davis ficar só, ou se for o reflexo de alguém maior que ele, resta o fato de que era

um milagre, o inspirado, o culto, o deseducado apóstolo da nova revelação. Sua

influência foi tão permanente que o conhecido artista e crítico Mr. E. Wake Cook,

em seu notável livro “Regress&o em Arte” classifica os ensinos de Davis como uma

influência moderna que poderia reorganizar o mundo. Davis deixou uma profunda

marca no Espiritismo. “Terra do Verso”, por exemplo, como denominação para o

moderno Paraíso e todo o sistema de Liceus, com a sua engenhosa organização, é de

sua invenção. Conforme a observação de Mr. Baseden Butt, “Mesmo agora é difícil,

senão impossível, avaliar todo o alcance de sua influência.” 2

2 Occult Review, Fevereiro 1925.

53 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

4

O Episódio de Hydesville

cabamos de expor as várias manifestações, desconexas e irregulares, da

força psíquica, nos casos que se apresentaram, e chegamos, por fim, ao

episódio particular que, realmente, se achava em nível inferior ao dos

anteriores, mas ocorrido em presença de pessoas práticas, que encontraram meios de

o explorar completamente e de introduzir raciocínio e sistema naquilo que havia sido

mero objeto de admiração sem propósito. É verdade que as circunstâncias eram

mesquinhas, os atores humildes, o lugar remoto, a comunicação sórdida, de vez que

obediente a um motivo tão baixo quanto a vingança. É verdade que, na vida diária

deste mundo, se quisermos verificar se um fio telegráfico está funcionando,

examinaremos se uma mensagem passa por ele; mas a elevação ou a baixeza dessa

mensagem será de consideração de segunda ordem. Dizse

que a primeira mensagem

que foi transmitida pelo cabo submarino era uma trivialidade, uma pergunta feita

pelo engenheiro inspetor. Não obstante, desde então o empregam reis e presidentes.

É assim que o humilde Espírito do mascate assassinado de Hydesville pode ter

aberto uma passagem, através da qual se precipitaram os anjos. Há bens e maus e

inumeráveis intermediários no Outro Lado, como do lado de cá do véu. A

companhia que atraímos depende de nós mesmos e de nossos próprios motivos.

Hydesville é um vilarejo típico do Estado de Nova Iorque, com uma

população primitiva, certamente semieducada,

mas, provàvelmente, como os

demais pequenos centros de vida americanos, mais livres de preconceitos e mais

receptivos das novas ideias do que qualquer outro povo da época. Aquela povoação,

situada a cerca de vinte milhas da nascente cidade de Rochester, consistia de um

grupo de casas de madeira, de tipo muito humilde. Foi numa dessas casas, residência

que não satisfaria as exigências de um inspetor de conselho distrital britânico, que se

iniciou o desenvolvimento que, atualmente, na opinião de muitos, é a coisa mais

importante que deu a América para o bemestar

do mundo. Era habitada por uma

honesta família de fazendeiros, de nome Fox — um nome que, por curiosa

coincidência, tinha sido registrado na história religiosa como o do apóstolo dos

shakers. Além de pai e mãe, de religião metodista, havia duas filhas morando na

casa ao tempo em que as manifestações atingiram tal ponto de intensidade que

atrairam a atenção geral. Eram as filhas: Margaret, de catorze anos e Kate, de onze.

Havia vários outros filhos e filhas, que não residiam aí, uma das quais, Leah, que

ensinava música em Rochester, deve ser citada nesta narrativa.

A casinha já gozava de má reputação. Os fatos tinham sido coligidos e logo

depois publicados. Parece que se ligam tanto a essas informações quanto é possível.

À vista da extrema importância de tudo quanto se liga ao assunto, alguns extratos de

tais informações devem ser incertos; mas para evitar um desvio da narrativa, a

informação sobre este ponto foi relegada para o Apêndice. Assim, passaremos

A

54 – Ar thur Conan Doyle

imediatamente ao tempo da residência da família Fox, que alugou a casa a 11 de

dezembro de 1847. Só no ano seguinte foi que os ruídos notados pelos antigos

inquilinos voltaram a ser ouvidos. Consistiam de ruidos de arranhadura. Tais ruídos

pareceriam sons pouco naturais para serem produzidos por visitantes de fora, se

quisessem advertirnos

de sua presença à porta da vida humana e desejassem que

essa porta lhes fosse aberta. Exatamente esses arranhões (todos desconhecidos

desses fazendeiros iletrados), tinham ocorrido na Inglaterra em 1661, em casa de

Mrs. Mompesson, em Tedworth. 3

Esses arranhões também são registrados por Melancthon, como tendo sido

verificados em Opáginasenheim, na Alemanha, em 1520. Também foram ouvidos

em Epworth Vicarage, em 1716. Aqui o foram uma vez mais e, por fim, tiveram a

sorte de ver a porta abrirse.

Parece que esses ruídos não incomodaram a família Fox até meados de

março de 1848. Dessa data em diante cresceram continuamente de intensidade. Às

vezes eram simples batidas; outras vezes soavam como o arrastar de móveis. As

meninas ficavam tão alarmadas que se recusavam a dormir separadas e iam para o

quarto dos pais. Tão vibrantes eram os sons que as camas tremiam e se moviam.

Foram feitas todas as investigações possíveis: o marido esperava de um lado da

porta e a mulher do outro, mas os arranhões ainda continuavam. Logo se espalhou

que a luz do dia era inimiga dos fenômenos, o que reforçou a ideia de fraude; mas

toda solução possível foi experimentada e falhou. Finalmente, na noite de 31 de

março houve uma irrupção de inexplicáveis sons muito altos e continuados.

Foi nessa noite que um dos grandes pontos da evolução psíquica foi

alcançado, desde que foi nessa noite que a jovem Kate Fox desafiou a força invisível

a repetir as batidas que ela dava com os dedos. Aquele quarto rústico, com aquela

gente ansiosa, expectante, em mangas de camisa, com os rostos alterados, num

círculo iluminado por velas e suas grandes sombras se projetando nos cantos, bem

podia ser assunto para um grande quadro histórico.

Procurese

por todos os palácios e chancelarias de 1848: onde será

encontrada uma sala que se tenha notabilizado na história como aquele pequeno

quarto de uma cabana?

Conquanto o desafio da mocinha tivesse sido feito em palavras brandas, foi

imediatamente respondido. Cada pedido era respondido por um golpe. Pôsto que

humildes os operadores de ambos os lados, a telegrafia espiritual estava

funcionando. Deixavam à paciência e à dedicação da raça humana determinar as

alturas do emprego que dela faria no futuro. Havia muitas forças inexplicadas no

mundo; mas aqui estava uma força que pretendia ter às suas costas uma inteligência

independente. Isto era a suprema significação de um novo ponto de partida.

Mrs. Fox ficou admirada daquele resultado e da posterior descoberta de que

aquela força, ao que parecia, era capaz de ver e ouvir, pois quando Kate dobrava o

dedo sem barulho, o arranhão respondia. A mãe fez uma série de perguntas, cujas

respostas, dadas em números, mostravam maior conhecimento de seus próprios

negócios do que ela mesma o possuía, pois os arranhões insistiam em que ela tinha

tido sete filhos, enquanto ela protestava que só tinha tido seis, até que veio à sua

3 “Saducismus Tr iumphatus”, pelo Reverendo Joseph Glanvil.

55 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

mente um que havia morrido em tenra idade. Uma vizinha, Mrs. Redfield, foi

chamada e sua distração se transformou em maravilha e, por fim, pavor, quando teve

respostas corretas a questões íntimas.

À medida que se espalhavam as notícias dessas maravilhas, os vizinhos

chegavam em bandos, um dos quais levou as duas meninas, enquanto Mrs. Fox foi

passar a noite em casa de Mrs. Redfield. Em sua ausência os fenômenos

continuaram exatamente como antes, o que afasta de uma vez por todas aquelas

hipóteses de estalos de dedos e de deslocamentos de joelhos, tão frequentemente

admitidas por pessoas ignorantes da verdade dos fatos.

Tendose

formado uma espécie de comissão de investigação, aquela gente,

na maliciosa feição ianque, levou parte da noite de 31 de março num jogo de

perguntas e respostas com a inteligência invisível. Conforme sua própria declaração,

ele era um Espírito; tinha sido assassinado naquela casa; indicou o nome do antigo

inquilino que o matara; tinha então — há cinco anos passados — trinta e um anos de

idade; fora assassinado por causa de dinheiro; tinha sido enterrado numa adega, a

dez pés de profundidade. Descendo à adega, golpes pesados e brutais soaram,

aparentemente vindos de dentro da terra, enquanto o investigador estava no meio da

peça. Não houve sons em outras ocasiões. Aquele era, pois, o lugar da sepultura! Foi

um vizinho, chamado Duesler, quem, pela primeira vez, usou o alfabeto para obter

respostas por meio de arranhões nas letras. Assim foi obtido o nome do morto —

Charles B. Rosma. A ideia de coordenar as mensagens só se desenvolveu quatro

meses mais tarde, quando Isaac Post, um quaker de Rochester, tomou a direção. Em

poucas palavras, estes foram os acontecimentos de 31 de março, que se continuaram

e se confirmaram na noite seguinte, quando não menos de duzentas pessoas se

haviam reunido em volta da casa. No dia 2 de abril foi constatado que os arranhões

tanto se produziam de dia quanto de noite.

Eis a sinopse dos acontecimentos da noite de 31 de março de 1848, à

pequena raiz da qual se desenvolveu uma árvore tão grande. E como este volume

pode ser chamado um monumento em sua memória, parece adequado que a história

seja contada nas mesmas palavras das duas primeiras testemunhas adultas. Suas

declarações foram feitas quatro dias após a ocorrência, e fazem parte daquela peça

admirável de pesquisa psíquica, escrita pela comissão local, que será descrita e

comentada posteriormente.

Eis o depoimento de Mrs. Fox:

“Na noite da primeira perturbação, todos nos levantamos, acendemos uma

vela e procuramos pela casa inteira, enquanto o barulho continuava e era ouvido

quase que no mesmo lugar. Conquanto não muito alto, produzia um certo

movimento nas camas e cadeiras a ponto de notarmos quando deitadas. Era um

movimento em trêmulo, mais que um abalo súbito. Podíamos perceber o abalo

quando de pé no solo. Nessa noite continuou até que dormimos. Eu não dormi até

quase meianoite.

Os rumores eram ouvidos por quase toda a casa. Meu marido

ficou à espera, fora da porta, enquanto eu me achava do lado de dentro, e as batidas

vieram da porta que estava entre nós. Ouvimos passos na copa, e descendo a escada;

não podíamos repousar, então conclui que a casa deveria estar assombrada por um

Espírito infeliz e sem repouso. Muitas vezes tinha ouvido falar desses casos, mas

nunca tinha testemunhado qualquer coisa no gênero, que não levasse para o mesmo

terreno.

56 – Ar thur Conan Doyle

“Na noite de sextafeira,

31 de março de 1848, resolvemos ir para a cama

um pouco mais cedo e não nos deixamos perturbar pelos barulhos: íamos ter uma

noite de repouso.

“Meu marido aqui estava em todas as ocasiões, ouviu os ruídos e ajudou a

pesquisa. Naquela noite fomos cedo para a cama — apenas escurecera. Achavame

tão quebrada e falta de repouso que quase me sentia doente. Meu marido não tinha

ido para a cama quando ouvimos o primeiro ruído naquela noite. Eu apenas me

havia deitado. A coisa começou como de costume. Eu o distinguia de quaisquer

outros ruídos jamais ouvidos. As meninas, que dormiam em outra cama no quarto,

ouviram as batidas e procuraram fazer ruídos semelhantes, estalando os dedos.

“Minha filha menor, Kate, disse, batendo palmas: ‘Senhor Pérocluido,

faça o que eu faço’. Imediatamente seguiuse

o som, com o mesmo número de

palmadas. Quando ela parou, o som logo parou. Então Margareth disse brincando:

‘Agora faça exatamente como eu. Conte um, dois, três, quatro’ e bateu palmas.

Então os ruídos se produziram como antes. Ela teve mêdo de repetir o ensaio. Então

Kate disse, na sua simplicidade infantil: ‘Oh! mamãe! Eu já sei o que é. Amanhã é

primeiro de abril e alguém quer nos pregar uma mentira’ .

“Então pensei em fazer um teste de que ninguém seria capaz de responder.

Pedi que fossem indicadas as idades de meus filhos, sucessivamente.

Instantâneamente foi dada a exata idade de cada um, fazendo uma pausa de um para

o outro, a fim de os separar até o sétimo, depois do que se fez uma pausa maior e

três batidas mais fortes foram dadas, correspondendo à idade do menor, que havia

morrido.

“Então perguntei: ‘É um ser humano que me responde tão corretamente?’

Não houve resposta. Perguntei: ‘É um Espírito? Se for dê duas batidas.’ Duas

batidas foram ouvidas assim que fiz o pedido. Então eu disse: ‘Se foi um Espírito

assassinado dê duas batidas’. Estas foram dadas instantaneamente, produzindo um

tremor na casa. Perguntei: ‘Foi assassinado nesta casa?’ A resposta foi como a

precedente. ‘A pessoa que o assassinou ainda vive?’ Resposta idêntica, por duas

batidas. Pelo mesmo processo verifiquei que fora um homem que o assassinara

nesta casa e os seus despojos enterrados na adega; que a sua família era constituída

de esposa e cinco filhos, dois rapazes e três meninas, todos vivos ao tempo de sua

morte, mas que depois a esposa morrera. Então perguntei: ‘Continuará a bater se

chamar os vizinhos para que também escutem?’ A resposta afirmativa foi alta.

“Meu marido foi chamar Mrs. Redfield, nossa vizinha mais próxima. É

uma senhora muito delicada. As meninas estavam sentadas na cama, unidas uma à

outra e tremendo de mêdo. Penso que estava tão calma como estou agora. Mrs. Red.

Field veio imediatamente seriam cerca de sete e meia pensando que faria rir às

meninas. Mas quando as viu pálidas de terror e quase sem fala, admirouse

e pensou

que havia algo mais sério do que esperava. Fiz algumas perguntas por ela e as

respostas foram como antes. Deramlhe

a idade exata. Então ela chamou o marido e

as mesmas perguntas foram feitas e respondidas. Então, Mrs. Redfield chamou Mr.

Duesler e a esposa e várias outras pessoas. Depois, Mr. Duesler chamou o casal

Hyde e o casal Jewell. Mr. Duesler fez muitas perguntas e obteve as respostas. Em

seguida, indiquei vários vizinhos nos quais pude pensar, e perguntei se havia sido

morto por algum deles, mas não tive resposta. Após isso, Mr. Duesler fez perguntas

e obteve as respostas: Perguntou: ‘Foi assassinado?’ Resposta afirmativa. ‘Seu

assassino pode ser levado ao tribunal?’ Nenhuma resposta. ‘Pode ser punido pela

lei?’ Nenhuma resposta. A seguir, disse: ‘Se seu assassino não pode ser punido pela

lei dê sinais.’ As batidas foram ouvidas claramente. Pelo mesmo processo Mr.

Duesler verificou que ele tinha sido assassinado no quarto de leste, há cinco anos

passados, e que o assassínio fora cometido à meianoite

de uma têrçafeira,

por Mr.

57 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

que fora morto com um golpe de faca de açougueiro na garganta; que o corpo tinha

sido levado para a adega; que só na noite seguinte é que havia sido enterrado; tinha

passado pela despensa, descido a escada, e enterrado a dez pés abaixo do solo.

Também foi constatado que o móvel fora o dinheiro. ‘Qual a quantia: cem

dólares?’ Nenhuma resposta. ‘Duzentos? Trezentos?’ etc. Quando mencionou

quinhentos dólares as batidas confirmaram.

“Foram chamados muitos dos vizinhos que estavam pescando no ribeirão.

Estes ouviram as mesmas perguntas e respostas. Alguns permaneceram em casa

naquela noite. Eu e as meninas saímos. Meu marido ficou toda a noite com Mr.

Redfield. No sábado seguinte a casa ficou superlotada. Durante o dia não se

ouviram os sons; mas ao anoitecer recomeçaram. Diziam que mais de trezentas

pessoas achavamse

presentes. No domingo pela manhã os ruídos foram ouvidos o

dia inteiro por todos quantos se achavam em casa.

“Na noite de sábado, 1º de abril, começaram a cavar na adega; cavaram

até dar nágua; então pararam. Os sons não foram ouvidos nem na tarde nem na noite

de domingo. Stephen B. Smith e sua esposa, minha filha Marie, bem como meu

filho David S. Fox e sua esposa dormiram no quarto aquela noite.

“Nada mais ouvi desde então até ontem. Antes de meiodia,

ontem, várias

perguntas foram respondidas da maneira usual. Hoje ouvi os sons várias vezes.

“Não acredito em casas assombradas nem em aparições sobrenaturais.

Lamento que tenha havido tanta curiosidade neste caso. Isto nos causou muitos

aborrecimentos. Foi uma infelicidade morarmos aqui neste momento. Mas estou

ansiosa para que a verdade seja conhecida e uma verificação correta seja procedida.

Ouvi as batidas novamente esta manhã, terçafeira,

4 de abril. As meninas também

ouviram.

“Garanto que o depoimento acima me foi lido e que é a verdade; e que, se

fosse necessário, prestaria juramento de que é verdadeiro.”

Margaret Fox

11 de abril de 1848

Depoimento de John D. Fox:

“Ouvi o depoimento acima, de minha esposa, Margaret Fox, lio

e por isso

certifico que o mesmo é verdadeiro em todos os seus detalhes. Ouvi as mesmas

batidas das quais ela falou, em resposta a perguntas, conforme disse. Houve muitas

outras perguntas, além daquelas, todas respondidas do mesmo modo. Algumas

foram repetidas muitas vezes, e a resposta foi sempre a mesma. Assim, jamais

houve qualquer contradição.

“Não sei de nenhuma causa a que atribuir aqueles ruídos caso tenham sido

produzidos por meios naturais. Procuramos em cada canto da casa, e por diversas

vezes, para verificar, se possível, se alguma coisa ou alguém aí estivesse escondido

e pudesse fazer aquele ruído; não nos foi possível achar coisa alguma que pudesse

explicar o mistério. Isto causou muito aborrecimento e ansiedade.

“Centenas de pessoas visitaram a casa, de modo que nos era impossível

atender às nossas ocupações diárias. Espero que, quer causados por meios naturais,

quer sobrenaturais, em breve seja esclarecida a matéria. A escavação na adega será

continuada, assim que as águas secarem; então serão constatados os vestígios de um

cadáver aí enterrado. Então, se os houver, não terei dúvida de que a origem é

sobrenatural.”

J ohn D. Fox

11 de abril de 1848

58 – Ar thur Conan Doyle

Espontaneamente os vizinhos se haviam constituído em comissão de

investigação que, por segurança e eficiência, pudesse ser um ensinamento para

muitos subsequentes pesquisadores. Não começaram impondo condições; iniciaram,

sem prevenções, o registro dos fatos, exatamente como os colhiam. Não só

coligiram e registraram as impressões de cada interessado, como tomaram

depoimentos escritos durante um mês. Em vão tentou o autor obter uma cópia do

folheto original “Relatório dos Ruídos Misteriosos, Ouvidos na Casa de Mr. John D.

Fox”, publicado em Canandaigua, Nova Iorque: apenas recebeu de presente um facsimile

do original; e é sua opinião que o fato da sobrevivência humana e o poder de

comunicação ficou provado definitivamente para qualquer inteligência capaz de

examinar um testemunho, desde a ocasião do aparecimento daquele documento.

A declaração feita por Mr. Duesler, presidente da comissão, é um

importante testemunho da ocorrência de ruídos verificados na ausência das meninas

Fox e afasta em definitivo a suspeita de sua cumplicidade nesses acontecimentos.

Como vimos, Mrs. Fox, referindose

à noite de sextafeira,

31 de março, disse: “Eu

e as meninas saímos” . Parte do depoimento de Mr. Duesler está assim concebida:

“Eu moro a poucas varas da casa em que esses ruídos têm sido ouvidos. A

primeira vez que ouvi algo a respeito foi há uma semana, na noite de sextafeira,

31

de março. Mrs. Redfield veio à minha casa convidar minha senhora para ir à casa de

Mrs. Fox. Mrs. Redfield parecia muito agitada. Minha senhora quis que eu a

acompanhasse e eu acedi. Seriam cerca de nove horas da noite. Havia umas doze ou

catorze pessoas presentes, quando as deixei. Algumas estavam tão assustadas que

não queriam entrar no quarto. Entrei e senteime

na cama. Mr. Fox fez uma

pergunta e ouvi distintamente a batida de que tinham falado. Notei que a cama

tremeu quando se produziram os sons.”

O Hon. Robert Dale Owen 4

Descrevendo a noite de 31 de março de 1848, diz ele, à página 287 de

“Footfalls”:

“Os pais haviam removido as camas das meninas para o seu quarto e as

intimaram rigorosamente a não falar de ruídos, ainda mesmo quando os ouvissem.

Mas assim que a mãe as viu acomodadas nos leitos e se preparava para repousar, as

crianças gritaram: ‘Eilos

de novo!’ A mãe ralhou com elas e deitouse.

Então os

ruidos se tornaram cada vez mais altos e mais impressionantes. As mesmas

sentaramse

na cama; Mrs. Foz chamou o marido.

“Como a noite era de ventania, ele se capacitou de que deveriam ser

estalos das persianas.

“Experimentou diversas, para ver se as taliscas estavam frouxas. A filha

menor, Kate, observou que assim que o pai sacudia uma veneziana, o ruído como

que o repetia. Sendo uma criança viva, e de certo modo acostumada ao que se estava

passando, virouse

para o ponto de onde vinha o ruído, estalou os dedos e chamou:

‘Aqui, velho PéRachado,

faça o que faço!’ O ruído respondeu instantaneamente.

Isto foi precisamente o começo.

4 Autor de “Footfalls on the Boundar y of Another Wor ld” (1860) e “The Debatable Land” (1871),

membro do Congresso Norte Americano e antigo Ministro Americano em Nápoles, em sua narrativa

oferece alguns detalhes adicionais, escritos depois de haver conversado com Mrs. Fox e suas filhas,

Margaret e Catherine (Kate).

59 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

“Quem poderá dizer onde vai terminar? Mr. Mompesson, na cama com a

sua filha, mais ou menos da idade de Kate, a quem, parece, o som acompanhava de

preferência, observou que, tamborilando, ele respondia a qualquer coisa que fosse

batida ou perguntada. Mas sua curiosidade não o levou mais longe. Não assim Kate

Foz. Silenciosamente, uniu o polegar ao indicador, tentando obter uma resposta.

Sim! Ele via, tanto quanto ouvia! Chamou a mãe: ‘Olhe só, mamãe!’ disse ela,

unindo o polegar e o indicador, como antes. E tantas vezes repetiu o movimento

silencioso, quantas o ruído respondeu.

“No verão de 1848 Mr. David Fox, auxiliado por Mr. Henry Bush, Mr.

Lyman Granger, de Rochester, e outros, retomou a escavação da adega. A uma

profundidade de cinco pés encontraram uma tábua; cavando mais, acharam carvão e

cal e, finalmente, cabelos e ossos humanos, que foram declarados por um médico

que testemunhava como pertencentes a esqueleto humano. Só cinquenta e seis anos

mais tarde foi feita uma descoberta que provou, acima de qualquer dúvida, que

alguém realmente havia sido enterrado na adega da casa dos Fox.”

Esta constatação aparece no Boston Journal — uma folha não espírita — de

23 de novembro de 1904, e está assim redigida:

“Rochester, Nova Iorque, 22 de novembro de 1904: O esqueleto do

homem que se supõe ter produzido as batidas, ouvidas inicialmente pelas irmãs Fox,

em 1848, foi encontrado nas paredes da casa ocupada pelas irmãs e as exime de

qualquer sombra de dúvida concernente à sua sinceridade na descoberta da

comunicação dos Espíritos.

“As irmãs Fox haviam declarado que tinham aprendido a comunicarse

com o Espírito de um homem, e que este lhes havia dito que tinha sido assassinado e

enterrado na adega. Repetidas escavações deixaram de localizar o corpo e, assim,

oferecer prova positiva do que diziam.

“A descoberta foi feita por meninos de escola, que brincavam na adega da

casa de Hydesville, conhecida como ‘A casa assombrada’, onde as irmãs Fox

tinham ouvido as batidas. William 2º. Hyde, respeitável cidadão de Clyde, e dono

daquela casa, fez investigações e encontrou um esqueleto humano quase completo

entre a terra e os escombros das paredes da adega, sem dúvida pertencente àquele

mascate que, segundo se dizia, tinha sido assassinado no quarto de leste da casa e

cujo corpo tinha sido enterrado na adega. Mr. Hyde avisou aos parentes das irmãs

Foz e a noticia da descoberta será mandada à Ordem Nacional dos Espíritas, muitos

dos quais se lembram de ter feito peregrinações à ‘Casa Encantada’, como é

chamada geralmente. O achado dos ossos pràticamente corrobora a declaração feita

sob juramento por Margaret Foz, a 11 de abril de 1848”.

Foi descoberta uma lata de mascate, bem como o foram os ossos. Essa lata

é agora conservada em Lilydale, a sede central regional dos Espíritas Americanos,

para onde foi transportada a velha casa de Hydesville.

Essas descobertas resolvem a questão de uma vez por todas e provam

conclusivamente que houve um crime cometido na casa, e que esse crime foi

indicado por meios psíquicos.

Quando se examinam os resultados das duas escavações, as circunstâncias

podem ser restabelecidas. É claro que no primeiro caso o corpo foi enterrado com

cal virgem no meio da adega. Depois o criminoso se alarmou pelo fato de ser o local

muito exposto às suspeitas e desenterrou o corpo, ou parte do mesmo, e o enterrou

sob a parede, onde ficaria mais fora da passagem. O serviço foi feito tão

60 – Ar thur Conan Doyle

apressadamente ou com tão pouca luz, que alguns traços foram deixados, como

vimos, da sepultura original.

Havia outras provas daquele crime? A fim de as encontrar temos que voltar

ao depoimento de Lucretia Pulver, que serviu como empregada de Mr. e Mrs. Bell,

ocupantes da casa quatro anos antes. Ela informa que o mascate veio para a casa e

ali passou a noite com as suas mercadorias. Seus patrões lhe disseram que naquela

noite podia ir para casa.

“Eu queria comprar apenas umas coisas do mascate, mas não tinha

dinheiro comigo; ele disse que me procuraria em nossa casa na manhã seguinte e

mas venderia. Nunca mais o vi. Cerca de três dias depois eles me procuraram para

voltar. Assim, voltei... Eu diria que esse mascate de quem falei deveria ter uns trinta

anos. Ouvio

conversando com Mrs. Rell a cerca de sua família. Mrs. Rell me disse

que era um velho conhecido deles e que o tinha visto muitas vezes antes disso. Uma

noite, cerca de uma semana depois, Mrs. Rell mandoume

a adega fechar a porta

externa. Atravessandoa,

caí perto do meio da adega. Pareceume

desnivelada e

cavada naquela parte. Quando subi Mrs. Rell me perguntou porque havia gritado e

eu lhe disse. Riuse

de meu susto e disse que só ali é que os ratos tinham cavado o

chão. Poucos dias depois Mr. Rell carregou uma porção de entulho para a adega,

exatamente à noite, e lá esteve trabalhando por algum tempo. Mrs. Rell me disse

que ele estava tapando os buracos dos ratos.

"Pouco tempo depois Mrs. Rell me deu um dedal, que disse haver

comprado do mascate. Cerca de três meses depois eu a visitei e ela me disse que o

mascate havia voltado e me mostrou outro dedal, que disse ter comprado a ele.

Mostroume

outras coisas que, disse, também, tinham sido compradas a ele."

Digna de registro é a declaração feita por uma tal Mrs. Lape, de que em

1847 tinha visto uma aparição naquela casa, e que era de um homem de estatura

mediana, que usava calças pardas e casaco e barrete pretos. Lucretia Pulver no

depoimento afirmou que o mascate em vida usava casaco preto e calças claras.

Por outro lado, não devemos esquecer que Mr. Bel, que então ocupava a

casa, não era um homem de caráter notório e fácil seria concordar que uma acusação

inteiramente baseada numa prova psíquica seria incorreta e intolerável. Entretanto já

se torna bem diferente quando as provas do crime foram descobertas, restando

apenas provar quem era o inquilino naquela ocasião. O depoimento de Lucretia

Pulver assume uma importância vital no que se refere a este caso.

Há um ou dois pontos que merecem discussão. O primeiro é que um

homem com um nome tão notável como Charles B. Rosma jamais foi citado, apesar

da publicidade que o caso mereceu. Então a coisa teria tido uma formidável objeção,

embora, com os nossos conhecimentos atuais, possamos avaliar quanto é difícil nas

mensagens ter os nomes corretos. Aparentemente um nome é puramente

convencional e, como tal, muito diferente de uma ideia. Todo espírita praticante tem

recebido mensagens corretas, associadas a nomes trocados. É possível que o nome

verdadeiro fosse Ross, ou mesmo Rosner, e que esse erro tivesse possibilitado a

identificação. Além disso, é curioso que ele não soubesse que o seu corpo tinha sido

removido do meio da adega para a parede, onde então foi encontrado.

Podemos apenas constatar o fato, sem o explicar.

Ainda mais, garantindo que as meninas eram os médiuns, e que a força era

retirada delas, como se produzia o fenômeno quando as mesmas se tinham

61 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

ausentado de casa? A isto apenas é possível responder que, conquanto ao futuro

coubesse demonstrar que na ocasião a força emanasse das meninas, nem por isso

deixaria de inundar a casa e de ficar à disposição da entidade manifestante, ao menos

quando as meninas estivessem ausentes.

A família Fox estava seriamente abalada com os acontecimentos; numa

semana Mrs. Fox ficou grisalha. E como parecia que a coisa estivesse ligada às duas

meninas, estas foram afastadas de casa. Mas em casa de seu irmão, David Fox, para

onde foi Margaret, e na de sua irmã Leah, cujo nome de casada era Mrs. Fish, em

Roehester, onde Kate estava hospedada, os mesmos ruídos eram ouvidos. Foram

feitos todos os esforços para que o público ignorasse essas manifestações; logo,

porém, se tornaram conhecidos. Mrs. Fish, que era professora de música, tornouse

incapaz de continuar as lições e centenas de pessoas enchiam a sua casa para ver as

novas maravilhas. Deveria ter sido verificado se aquela força era contagiosa ou se

vinha descendo sobre muitas pessoas independentemente de uma fonte comum.

Assim, Mrs. Leah Fish, a irmã mais velha, a recebeu, embora em menor grau do que

Kate e Margaret. Mas não se limitou por muito tempo à família Fox. Era como uma

nuvem psíquica, descendo do alto e se mostrando nas pessoas susceptíveis. Sons

idênticos foram ouvidos em casa do Reverendo A. 2º. Jervis, ministro metodista

residente em Rochester. Poderosos fenômenos físicos irromperam na família do

Diácono Hale, de Greece, cidade vizinha de Roehester. Pouco depois Mrs. Sarah A.

Tamlin e Mrs. Benedict, de Auburn, desenvolveram notável mediunidade. Mr.

Capron, o primeiro historiador desse movimento, descreve Mrs. Tamlin como uma

das médiuns mais controláveis que jamais encontrou e diz que embora os sons

ouvidos em sua presença não fossem tão fortes quanto os da família Fox, as

mensagens eram igualmente fidedignas.

Então e rapidamente, tornouse

evidente que essas forças invisíveis não

estavam ligadas às meninas. Em vão a família orou, com os seus irmãos metodistas,

esperando alívio. Em vão foram feitos exorcismos pelos padres de vários credos.

Além de cobrir os “Améns” com batidas fortes, as presenças invisíveis não ligavam

a esses exercícios religiosos.

O perigo de seguir às cegas a orientação de um pretenso Espírito ficou

patente poucos meses depois, nas vizinhanças de Rochester, onde um homem havia

desaparecido em circunstâncias suspeitas. Um espírita fanático recebia mensagens

pelas batidas, anunciando o seu assassinato. Estava sendo aberto um canal e foi

ordenado à esposa do desaparecido que entrasse por ele, o que quase lhe custou a

vida. Alguns meses mais tarde o ausente apareceu: tinha fugido para o Canadá, para

evitar uma prisão por dívida. Como bem se pode imaginar, isto foi um golpe no

culto nascente. Então o público não entendeu aquilo que, mesmo agora, ainda é

pouco compreendido: que a morte não opera mudanças no espírito humano, que

abundam as entidades malévolas e brincalhonas e que o investigador deve utilizar os

seus instintos e o seu bom senso a todo o instante. “Experimente os Espíritos a fim

de os conhecer”. No mesmo ano e no mesmo distrito a verdade dessa nova filosofia,

por um lado, e suas limitações e perigos, pelo outro, acentuaramse

ainda mais.

Esses perigos persistem. O homem ingênuo, o arrogante e enfatuado, o

convencido, são sempre presa segura. Cada observador tem sido vítima de ciladas. O

próprio autor teve a sua fé dolorosamente abalada por decepções até que algumas

62 – Ar thur Conan Doyle

provas compensadoras lhe vieram assegurar que não era mais demoníaco nem mais

admirável que inteligências desencarnadas fossem mistificadoras, do que as mesmas

inteligências revestidas de corpos humanos se divertissem da mesma maneira

maluca.

O curso geral do movimento estava, então, mais amplo e mais importante.

Já não era um assassinado que pedia justiça. Parece que o mascate havia sido usado

como um prisioneiro e agora, achada uma saída e um método, miríades de

inteligências formigavam às suas costas.

Isaac Post havia criado um método de deletrear pelas batidas, através do

qual estavam chegando mensagens. Conforme estas, todo o sistema tinha sido

inventado pelos artifícios de um bando de pensadores e inventores no plano do

Espírito, entre os quais se destacava Benjamin Franklin, cuja inteligência viva e

cujos conhecimentos sobre eletricidade na vida terrena o qualificavam para tal

empreendimento. Como quer que seja, o fato é que Rosna saiu do cartaz e as batidas

inteligentes passaram a ser dadas pelos falecidos amigos dos investigadores que

estavam preparados para tomar um sério interesse no assunto e se reunir de modo

reverente para receberem as mensagens. Que eles ainda viviam e ainda amavam, foi

a mensagem constante do Além, acompanhada por muitas provas materiais, que

confirmavam a fé vacilante dos novos aderentes ao movimento. Quando inquiridos

sobre os seus métodos de trabalho e as leis que os governavam, as respostas foram,

de início, as mesmas de hoje: que se trata de um assunto relacionado com o

magnetismo humano e espiritual; que alguns, ricamente dotados com essa

propriedade física, eram médiuns; que esse dom não se achava, necessàriamente,

aliado à moralidade ou à inteligência; e que a condição de harmonia era

especialmente necessária para assegurar bons resultados. Em setenta anos pouco

mais aprendemos. E, depois de todos esses anos, a lei primacial da harmonia é

invariavelmente quebrada nas chamadas sessões experimentais, cujos membros

imaginam ter dado um cheque na filosofia, quando obtêm resultados negativos ou

discordantes, ao passo que, atualmente, a confirmam.

Numa das primeiras comunicações das Irmãs Fox foi afirmado que “as

comunicações não se limitariam a elas; espalharseiam

pelo mundo”. Em breve essa

profecia se achou em bom caminho para a realização, pois essas novas forças e seus

ulteriores desenvolvimentos, inclusive a visão e a audição dos Espíritos, e o

movimento de objetos sem contacto, se manifestaram em muitos outros centros

independentes da família Fox. Num lapso de tempo incrivelmente curto, com muitas

excentricidades e fases de fanatismo, ele tinha varrido o Norte e o Leste dos Estados

Unidos, sempre mostrando um núcleo sólido de fatos tangíveis, que, se

ocasionalmente podiam ser simulados por impostores, sempre podiam ser

verificados por investigadores honestos e isentos de ideias preconcebidas. Pondo de

lado, momentaneamente, esse largo desenvolvimento, continuemos a história dos

círculos iniciais de Rochester.

As mensagens espíritas insistiam para que o pequeno grupo de pioneiros

fizesse uma demonstração pública de seus poderes numa reunião pública, em

Rochester — proposição que, naturalmente, encheu de espanto as duas desconfiadas

meninas camponesas e os seus amigos. Tão irritados ficaram os Guias

desencarnados pela oposição de seus agentes terrenos, que ameaçaram suspender

63 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

completamente o movimento durante uma geração e o interromperam por algumas

semanas. Ao cabo de pouco tempo as comunicações foram restabelecidas e os

crentes, castigados durante aquele intervalo, entregaramse

de corpo e alma nas

mãos das forças externas, prometendo tudo fazer em benefício da causa. Não era

coisa fácil. Uma parte do clero, notadamente o Ministro Metodista Reverendo A. 2º.

Jervis, pôs. se ao seu lado; mas na sua maioria trovejaram do púlpito contra aqueles

e a massa prontamente os apoiou na tarefa covarde de atacar os heréticos. A 14 de

novembro de 1849 os espíritas realizaram a sua primeira reunião no Corinthian Hall,

o maior auditórium disponível em Rochester. A assistência — registrêmolo

para

sua honra — ouviu com atenção a exposição feita por Mr. Capron, de Auburn, o

orador principal. Foi então escolhida uma comissão de cinco cidadãos

representativos para examinar o assunto e fazer um relatório na noite seguinte, em

nova reunião da assembléia. Tão certos estavam de que esse relatório seria

desfavorável que o Rochester Democrat, ao que se verificou, já tinha preparado o

seu artigo de fundo, com o título: “Exposição Completa da Mistificação das

Batidas”. Entretanto o resultado obrigou o editor a sustálo.

A comissão relatou que

as batidas eram indubitàvelmente verdadeiras, embora a informação não fosse

inteiramente exata, isto é, embora as respostas às perguntas “nem fossem todas

certas, nem todas erradas”. Acrescentava que as batidas se produziam nas paredes,

nas portas, a alguma distância das meninas, produzindo uma sensível vibração.

“Não puderam encontrar nenhum processo pelo qual elas pudessem ser

produzidas”. Esse relatório foi recebido pela assistência com sinais de desagrado,

em consequência do que se formou uma segunda comissão, entre os descontentes.

As investigações foram feitas no escritório de um advogado. Por qualquer motivo

Kate estava ausente e só contaram com Mrs. Fish e Margaret. Nem por isso os

ruídos deixaram de se manifestar como antes, muito embora o Doutor Langworthy

tivesse estado presente para controlar a possibilidade de ventriloquia. O relatório

final foi que os sons tinham sido ouvidos e uma investigação completa tinha

mostrado que nem eram produzidos por máquina, nem pela ventriloquia, embora

não tivessem podido determinar qual o agente que os teria produzido.

Novamente a assistência devolveu o relatório à comissão, escolheu uma

nova, entre os mais extremamente oponentes, um dos quais jurou que se não

descobrisse qualquer truque ia atirarse

nas cataratas do Genesee. Sua inspeção foi

minuciosa e brutal, e uma comissão de senhoras foi anexada à dos homens. Elas

despiram as meninas, submetendoas

a investigações aflitivas e de modo brutal.

Seus vestidos foram amarrados apertados nos corpos, e elas colocadas sobre vidros e

outros isolantes. A comissão se viu obrigada a referir que, “quando elas se acham de

pé sobre almofadas, com um lenço amarrado á borda de seus vestidos, amarradas

pelas cadeiras. todos nós ouvimos as batidas distintas nas paredes e no soalho”. Por

fim a comissão declarou que as suas perguntas, das quais algumas mentais, tinham

sido respondidas corretamente.

Enquanto o público olhava o movimento como uma espécie de jogo, estava

preparado para ser tolerantemente divertido. Quando, porém, esses relatórios

sucessivos levaram a coisa para um ponto de vista mais sério, uma onda de

indignação varreu a cidade, chegando a tal ponto que Mr. Wiletts, um valoroso

quaker, na quarta assembléia pública, foi obrigado a declarar que “a corja de

64 – Ar thur Conan Doyle

bandidos que pretendiam linchar as moças poderia fazêlo,

mas depois de passar

sobre o seu cadáver”. Houve um grande tumulto, as meninas foram salvas pelas

portas do fundo e a razão e justiça foram abafadas pela força e pela loucura. Então,

como agora, a mente das criaturas estava tão atufada de coisas sem importância que

não havia lugar para as coisas importantes. Mas a Sorte nunca tem pressa e o

movimento continuou.

Muitos aceitaram as conclusões das sucessivas comissões como boas e, na

verdade, é difícil ver como os fatos apontados poderiam ter sido mais severamente

verificados. Ao mesmo tempo, esse vinho novo, forte e fermentado começou a se

derramar dos velhos odres onde havia sido posto, para excusável desgôsto do

público.

Muitos centros discretos, sérios e religiosos estiveram durante algum tempo

quase eclipsados por alguns energúmenos que se supunham em contacto com todas

as excelsas entidades, dos Apóstolos para baixo, alguns até pretendendo receber o

sopro direto do Espírito Santo e emitindo mensagens que apenas deixavam de ser

blasfemas por serem estúpidas e absurdas. Uma comunidade desses fanáticos, que se

denominava “Círculo Apostólico da Gruta da Montanha” tornouse

notável por seu

extremismo e pelo enorme material que fornecia aos inimigos da nova dispensação.

A grande massa dos espíritas desaprovava esses exageros, mas era incapaz de os

coibir. Muitos fenômenos supranormais bem constatados vieram confortar o

desânimo dos que se deixavam vencer pelos excessos dos fanáticos. Numa ocasião,

o que é muito convincente e vem a propósito, dois grupos de investigadores, em

salas separadas, em Rochester, a 20 de fevereiro de 1850, receberam a mesma

mensagem simultaneamente de uma certa força central que se dizia Benjamin

Franklin. Essa dupla mensagem estava assim concebida: “Haverá grandes

mudanças no século dezenove. Coisas que, atualmente parecem obscuras e

misteriosas para vocês, tornarseão

claras aos seus olhos. Os mistérios vão ser

revelados. O mundo será esclarecido”. Devemos admitir que até agora só

parcialmente foi realizada e, ao mesmo tempo, devemos concordar que, salvo

notáveis exceções, as predições feitas pelos Espíritos não se fizeram notar por sua

exatidão, especialmente no que concerne ao fator tempo.

Muitas vezes levantouse

a questão: “Qual o objetivo de tão estranho

movimento naquela época especial, admitindo que ele seja tudo aquilo que pretende

ser?” O Governador Tallmadge, ilustre Senador dos Estados Unidos, foi um dos

primeiros adeptos do novo culto, deixou notas de que fez aquela pergunta em duas

ocasiões diferentes, em dois anos diversos e através de médiuns diversos. Em ambos

os casos a resposta foi idêntica. A primeira dizia: “É para conduzir a humanidade

em harmonia e para convencer os cépticos da imortalidade da alma”. A segunda

dizia: “É para unir a humanidade e convencer as mentes cépticas da imortalidade

da alma” . Certamente não é esta uma ambição ignóbil e não justifica aqueles

ataques mesquinhos e violentos de ministros e dos menos avançados de seu rebanho,

que os espíritas têm suportado até os nossos dias. A primeira metade da definição é

particularmente importante, porque é possível que os resultados finais deste

movimento sejam unir a religião numa base comum tão forte e, na verdade, tão

autosuficiente, que as rusgas que hoje separam as Igrejas sejam vistas em suas

verdadeiras proporções e, então, serão varridas ou superadas. Poderseia

mesmo

65 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

esperar que tal movimento poderia espalharse

além dos limites do Cristianismo e

derrubar algumas das barreiras que se erguem entre os vários grupos humanos.

De tempos em tempos foram feitas tentativas para expor os fenômenos. Em

fevereiro de 1851 o Doutor Austin Flint, o Doutor Charles A. Lee, e o Doutor C. B.

Coventry, da Universidade de Buffalo, publicaram um trabalho 5 mostrando com

satisfação que os ruídos verificados em presença das Irmãs Fox eram causados por

estalos das juntas dos joelhos. Isto provocou uma resposta característica na

imprensa, assinada por Mrs. Fish e Margaret Fox, assim dirigida aos três autores:

“Como não desejamos ficar sob a imputação de impostoras, estamos

dispostas a submeternos a uma adequada e decente investigação, desde que

possamos escolher três senhores e três senhoras de nossa amizade, que estejam

presentes aos trabalhos. Podemos assegurar ao público que ninguém está mais

interessado do que nós na descoberta da origem dessas misteriosas manifestações.

Se elas podem ser explicadas pelos princípios de anatomia ou de fisiologia, cabe ao

mundo fazer a sua investigação e que seja descoberta a mistificação. Como parece

haver muito interesse manifestado pelo público sobre esse assunto, quanto mais

cedo for convenientemente esclarecido, mais depressa a investigação será aceita

pelas abaixoassinadas.”

Ann Leah Fish

Margaret Fox

A investigação foi feita, mas os resultados foram negativos. Numa nota em

apêndice ao relatório do doutor, publicado no New York Tribune, o editor Horace

Greeley observa:

“Como foi noticiado em nossas colunas, os doutores começaram

admitindo que a origem das batidas deveria ser física e sua causa primeira uma

volição das senhoras referidas ou em duas palavras, que essas senhoras eram ‘as

impostoras de Rochester’. Assim, eles aparecem neste caso como perseguidores

numa acusação e devem ter escolhido outras pessoas como jurados e repórteres de

um crime... É muito provável que tenhamos uma outra versão da história”.

Muitos testemunhos logo apareceram em favor das Irmãs Fox, de modo que

o único efeito da “exposição” do professor foi redobrar o interesse público pelas

manifestações.

Houve também a suposta confissão de Mrs. Norman Culver, que depôs a 17

de abril de 1851, dizendo que Kate Fox lhe havia revelado todo o segredo de como

eram praticadas as batidas. Era uma pura invenção e Mr. Capron publicou uma

esmagadora resposta, mostrando que na data em que Catherine Fox havia

supostamente feito aquela confissão a Mrs. Culver, estava em sua casa, a setenta

milhas de distância. Mrs. Fox e suas três filhas iniciaram as sessões públicas em

Nova Iorque na primavera de 1850, no Hotel Barnum, e atraíram muitos curiosos. A

imprensa foi quase unânime em as denunciar. Uma brilhante exceção foi constituída

pelo já citado Horace Greeley, que escreveu um artigo em seu jornal, com as

próprias iniciais, parte do qual se acha adiante, no Apêndice.

5 Capron: “Moder n Spir itualism, etc.” páginas 310313.

66 – Ar thur Conan Doyle

Depois de sua volta a Rochester, a família Fox fez um giro pelos Estados do

Oeste e, então, fizeram uma segunda visita a Nova Iorque, onde despertaram o

mesmo interesse público.

Tinham obedecido às ordens dos Espíritos para a propagação dessas

verdades no mundo, e a nova era que tinha sido anunciada estava aberta

oficialmente. Quando se leem os minuciosos relatos dessas sessões americanas e se

considera a força mental dos seus assistentes, é interessante pensar quanto o povo,

enriquecido pelos preconceitos, é tão crédulo que imagina que tudo aquilo não passa

de mistificação. Naqueles dias foi demonstrada uma coragem moral muito conspícua

e que vem faltando desde que as forças reacionárias da ciência e da religião se

combinaram para sufocar o novo conhecimento e apresentálo

como perigoso para

os seus professôres. Assim, numa única sessão em Nova Iorque, em 1850,

encontramos reunidos em torno da mesma o Reverendo Doutor Griswold, o

novelista Fenimore Cooper, o historiador Bancroft, o Reverendo Doutor Hawks, o

Doutor J. W. Francis, o dr. Marcy, o poeta quaker Willis, o poeta Bryant, Bigelow,

redator do Evening Post, e o General Lyman. Todos estes ficaram satisfeitos com os

fatos, cujo relato diz:

“As maneiras e a conduta das senhoras (isto é, das Irmãs Fox) são tais que

criam uma predisposição em seu favor”. Desde então o mundo cavou e inventou

terríveis engenhos de guerra. Mas poderíamos dizer que tenha avançado no

conhecimento espiritual ou no respeito ao invisível? Sob a orientação do

materialismo, tem seguido um caminho errado e cada vez se torna mais claro que o

povo se encontra no dilema de voltar ou morrer.”

67 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

5

A Carreira das Irmãs Fox

or amor à continuidade, a história subsequente das Irmãs Fox agora será dada

após os acontecimentos de Hydesville. É uma história notável, embora

dolorosa para os espíritas; mas encerram esses fatos uma lição, pelo que

devem ser registrados fielmente.

Quando os homens aspiram a verdade honestamente e de todo o coração,

não há acontecimentos que os envergonhem ou que não encontrem um lugar no seu

programa.

Durante alguns anos as duas irmãs mais novas, Kate e Margaret, fizeram

sessões em Nova Iorque e em outros lugares, triunfando em cada ensaio a que eram

submetidas. Horace Greeley, posteriormente candidato à presidência dos Estados

Unidos, conforme já o demonstramos, achavase

profundamente interessado por elas

e convencido de sua honestidade. Dizse

que forneceu elementos para que a mais

nova completasse a sua educação muito imperfeita.

Durante esses atos de mediunidade pública, quando as moças faziam furor,

tanto entre as pessoas que não tinham a menor ideia do significado religioso dessa

nova revelação, quanto entre aqueles cujo interesse estava na esperança de

vantagens materiais, as irmãs estiveram expostas às enervantes influências das

sessões promíscuas e de tal maneira que nenhum espírita avisado justificaria. Então

os perigos de tais práticas não eram tão notados quanto agora, nem ao povo ocorria

que não era possível que Espíritos elevados baixassem à Terra para dar conselhos

acerca das ações das estradas de ferro ou soluções para os casos amorosos. A

ignorância era universal e não havia mentores à testa desses pobres pioneiros para

lhes indicar um caminho mais elevado e mais seguro. O pior de tudo é que as suas

energias esgotadas eram renovadas com a oferta de vinho, num momento em que,

pelo menos uma delas, era pouco mais do que uma criança. Diziase

que havia uma

certa predisposição hereditária para o alcoolismo; mas, mesmo sem essa marca, o

seu procedimento e modo de vida era ousado ao extremo. Contra sua formação

moral jamais houve qualquer suspeita, mas elas tinham enveredado por um caminho

que conduz à degeneração da mente e do caráter, muito embora só muitos anos mais

tarde se tivessem manifestado os mais sérios efeitos.

Podese

fazer uma ideia da pressão exercida então sobre as Irmãs Fox pela

descrição que Mrs. Hardinge Britten 6 nos faz de suas próprias observações. Ela fala

de uma “parada no primeiro andar, para ouvir a pobre e paciente Kate Fox, em meio

a uma multidão de investigadores curiosos e murmurantes, a repetir, hora após hora,

as letras do alfabeto, enquanto que Espíritos não menos pobres e pacientes batiam

nomes, idades e datas adequadas a cada visitante”. Será para admirar que as moças,

6 Autobiogr aphy, página 40.

P

68 – Ar thur Conan Doyle

com a vitalidade gasta, sem a bela e vigilante influência materna, solicitadas por

inimigos, sucumbissem a uma crescente tentação no sentido dos estimulantes? Uma

luz notável se faz para Margaret, durante esse período, num curioso livrinho — “As

Cartas de Amor, do Doutor Elisha Kane”. Foi em 1852 que o Doutor Kane, mais

tarde famoso explorador do Oceano Glacial Ártico, encontrou Margaret Fox, então

uma jovem muito bonita e atraente. A ela Kane escreveu aquelas cartas de amor, que

representam um dos mais curiosos amôres na literatura. Elisha Kane, como o seu

prenome indica, era de origem puritana; e os Puritanos, com o seu ponto de vista que

a Bíblia representa absolutamente a última palavra como inspiração espiritual, e que

eles entendem o que essa última palavra significa, são por instinto antagonistas do

novo culto que se propõe mostrar que novas fontes e novas interpretações ainda são

possíveis.

Era, também, médico. E a profissão de médico é, simultaneamente, a mais

nobre e a mais cinicamente incrédula do mundo. Para começar, Kane se convenceu

de que a jovem estava envolvida em fraude e criou a teoria de que sua irmã mais

velha, Leah, visando fins lucrativos, estava explorando a fraude. O fato de, pouco

depois, Leah haverse

casado com um homem rico, chamado Underhill, magnata de

seguros em Wall Street, parece que não modificou o ponto de vista de Kane, quanto

à sua avidez por lucros ilícitos. O médico tomouse

de estreita amizade por

Margaret, colocoua

sob as vistas de sua própria tia, a fim de a educar, enquanto se

ausentava para o Oceano Ártico, e finalmente casouse

com ela sob uma espécie de

casamento muito curioso, que era a lei Gretna Green, ao que parece, então vigente.

Morreu pouco depois, em 1857, e a viuva, então se assinando Mrs. Fox. Kane,

abjurou os fenômenos por algum tempo e foi recebida na Igreja Católica Romana.

Nessas cartas Kane censura continuamente a Margaret por viver em erro e

hipocrisia.

Restam poucas cartas de Margaret, de modo que não é possível saber até

onde se defendeu.

Conquanto não espírita, diz o compilador do livro: “Pobre moças! Com a

sua simplicidade, timidez e ingenuidade, não poderia, ainda que tivesse inclinação,

ter praticado a menor falcatrua com qualquer possibilidade de sucesso”. É um

testemunho de valor, de vez que o compilador naturalmente esteve em estreitas

ligações com pessoas relacionadas com o assunto. O próprio Kane, escrevendo à

mais moça, Kate, diz: “Tome o meu conselho e jamais fale de Espíritos, quer aos

íntimos, quer aos estranhos. Você sabe que com toda a intimidade com Maggie,

depois de um mês inteiro de tentativas, deles nada pude obter. Assim, eles

constituem um grande mistério.”

Considerando suas íntimas relações e que Margaret claramente ofereceu a

Kane todas as provas de sua força, é inconcebível que um médico experiente

admitisse que depois de um mês nada teria podido fazer, caso o fenômeno fosse um

simples estalo de uma articulação.

Nessas cartas não se podem encontrar indícios de fraude, mas amplas

provas de que as duas moças, Margaret e Kate, não tinham a mais leve ideia de

ligação religiosa com essas forças, ou das graves responsabilidades da mediunidade

e de que faziam mau uso de seus dons no sentido de dar indicações a todo o mundo,

receber uma assistência promíscua e responder a perguntas frívolas ou jocosas. Não

69 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

era surpresa para nenhum espírita experimentado que, em tais circunstâncias, tanto o

seu caráter quanto as suas forças estivessem tão estragados.

Não podiam dar coisa melhor. E tanto a sua idade quanto a sua ignorância

as escusam.

Para compreender a sua situação, é preciso lembrar que eram pouco mais

que crianças, pouco educadas e quase ignorantes da filosofia do assunto. Quando um

homem como o Doutor Kane assegurava a Margaret que aquilo era um grave erro,

apenas repetia o que lhe entrava pelos ouvidos em toda a parte, inclusive de metade

dos púlpitos de Nova Iorque.

Provavelmente tinha ela uma sensação desagradável de estar errada, sem ao

menos saber por que, e isto, possivelmente, depõe em seu favor, por não se mostrar

magoada por suas suspeitas. Na verdade podemos admitir que, no fundo, Kane

estivesse certo e que os processos fossem, por certo modo, injustificáveis. Naquela

época elas próprias eram incorruptíveis; e se tivessem usado os seus dons como D.

D. Home, sem relação com as coisas mundanas, e apenas com o propósito de provar

a imortalidade da alma e consolar os aflitos, então, sim, elas se teriam colocado

acima da crítica. Ele estava errado quando duvidava de seus dons, mas certo quando

encarava como suspeitas certas maneiras de os utilizar.

Como quer que seja, a posição de Kane é irremediàvelmente ilógica. Ele

desfrutava da maior intimidade e afeição da mãe e das duas moças, muito embora, se

as palavras têm algum sentido, ele as julgasse embusteiras, que viviam da

credulidade pública. “Beije a Katie por mim” , diz ele; e continuamente manda

saudades a mãe.

Moças como eram, já havia da parte dele a suspeita do perigo do

alcoolismo, a que se achariam expostas mais tarde e naquela promiscuidade. “Diga

a Katie que não tome champanha e você siga o mesmo conselho” , dizia de. Era um

conselho bom, e teria sido melhor para elas e para o movimento espírita se ambas o

tivessem seguido. Novamente, porém, há que recordar a sua mocidade inexperiente

e as constantes tentações.

Kane era uma curiosa mistura de herói e de bobo. As batidas dos Espíritos,

não apoiadas por qualquer sanção religiosa ou científica, vinda posteriormente, era

uma baixeza, uma superstição de ignorantes e ele, um homem de reputação, iria

cassarse

com um espíritobatedor?

Nisto ele vacilou extraordinariamente, começando uma carta pedindo para

ser o seu irmão e terminando por lhe recordar os mais cálidos beijos. “Agora que

você me deu o seu coração, eu serei o seu irmão” , diz ele. Tinha uma veia de

superstição, que o percorria todo e que estava muito abaixo da credulidade que

atribui aos outros. Freqüentemente alude ao fato de possuir um poder divinatório

pelo simples levantar da mão direita, coisa que havia aprendido “de um feiticeiro nas

Índias”. Por vezes tanto é pretensioso quanto tolo. “Até à mesa de jantar do

presidente eu pensava em você” . E mais adiante: “Você nunca poderia atingir os

meus pensamentos e o meu objetivo. Eu nunca poderia descer até os seus” . Na

verdade, as poucas citações de suas cartas mostram uma mente inteligente e

simpática.

Ao menos em uma ocasião encontramos Kane procurando decepcionála

e

ela combatendo a ideia.

70 – Ar thur Conan Doyle

Quatro pontos fixos podem ser estabelecidos nessas cartas:

1. Que Kane pensava de modo vago que houvesse falcatrua.

2. Que nos anos de sua maior intimidade ela jamais o admitiu.

3. Que ele jamais pôde sugerir em que consistia a falcatrua.

4. Que ela empregou as suas forças de maneira que os espíritas sérios

deploram.

Na verdade não sabia ela mais sobre a natureza dessas forças do que os que

a rodeavam.

Diz o escritor: “Ela dizia sempre que nunca tinha realmente acreditado que

as batidas fossem obra de Espíritos, mas pensava que nisso havia uma relação com

certas leis ocultas da natureza” . Esta foi a sua atitude posterior na vida, pois em sua

ficha profissional dizia que o povo devia por si mesmo julgar da natureza de suas

forças.

É natural que aqueles que falam do perigo da mediunidade e,

particularmente, da mediunidade de efeitos físicos, deveriam apontar como exemplo

as Irmãs Fox. Mas o seu caso não deve ser exagerado. Em 1871, depois de mais de

vinte anos de trabalho exaustivo, ainda as encontramos recebendo entusiástico apoio

e admiração de muitos homens e senhoras importantes da época. Só depois de

quarenta anos de trabalhos públicos é que se manifestaram condições adversas em

suas vidas. Assim, sem entrar na apreciação do que há de censurável, proclamamos

que dificilmente o seu comportamento justificaria aqueles que consideram a

mediunidade como uma profissão que degrada a alma.

Foi em 1871 que, graças à generosidade de Mr. Charles F. Livermore,

eminente banqueiro de Nova Iorque, Kate Fox visitou a Inglaterra. Era um sinal da

gratidão do banqueiro pela consolação que havia recebido de sua força maravilhosa

e um apoio para o progresso do Espiritismo. Ele proveu todas as suas necessidades e

assim evitou que ela tivesse de recorrer ao trabalho remunerado. Também

providenciou para que ela viesse acompanhada por uma senhora com quem tinha

afinidade.

Numa carta a Mr. Benjamin Coleman 7 , conhecido trabalhador do

movimento espírita, assim se exprime Mr. Livermore:

“Vista de um modo geral, Mrs. Fox é, sem a menor dúvida, o mais

maravilhoso médium vivo. Seu caráter é irrepreensível e puro. Recebi, através de

seus poderes mediúnicos, durante os últimos dez anos, tanta coisa consoladora,

instrutiva e fulminante, que me sinto muitíssimo obrigado e desejo cercála

de todos

os cuidados enquanto ausente de casa e dos amigos.”

Suas observações posteriores como que encerram um pressentimento dos

últimos tristes acontecimentos de sua vida:

“Para que você compreenda melhor as suas idiossincrasias, permitame

explicar que ela é uma sensitiva da mais alta classe e de uma simplicidade infantil;

ela sente intensamente a atmosfera de cada criatura com quem se põe em contacto e

a tal ponto que por vezes fica excessivamente nervosa e aparentemente caprichosa.

7 The Spir itual Magazine, 1871, páginas 5256.

71 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

“Por essas razões eu a preveni para que não participasse de sessões no

escuro, evitasse a irritação proveniente da suspeita dos cépticos, dos simples

curiosos e dos apreciadores do maravilhoso.

“A perfeição das manifestações que se podem obter por seu intermédio

depende do seu ambiente e, na medida de sua relação ou simpatia com os outros,

parece receber a força espiritual. As comunicações por seu intermédio são muito

notáveis e me têm chegado com frequência de minha esposa (Estelle) em perfeito

francês, e às vezes em espanhol e italiano, muito embora ela desconheça esses

idiomas. Você compreende isto; mas essas explicações serão necessárias para

outros. Como disse, ela não fará sessões como profissional. Assim espero que ela

fará todo o bem possível em favor da grande verdade de um modo suave, enquanto

se encontra na Inglaterra”.

Mr. Coleman, que tinha estado numa sessão com ela em Nova Iorque, disse

haver recebido uma das maiores provas de identidade de Espírito jamais verificada

em sua experiência de dezessete anos. Mr. Cromwell F. Varley, o eletricista que

lançou o cabo submarino do Atlântico, em sua prova perante a Sociedade Dialética

de Londres, em 1869, falou de interessantes experiências sobre eletricidade, que ele

realizou com esse médium.

A visita de Kate Fox à Inglaterra evidentemente foi considerada como uma

missão, pois encontramos Mr. Coleman aconselhandoa

a admitir apenas como

assistentes pessoas que não temessem a publicação de seus nomes como

testemunhas de fatos a que tivessem presenciado. Esse critério parece ter sido

adotado até certo ponto, pois foram conservados muitos testemunhos de suas

faculdades, entre outras pessoas, do Professor William Crookes, de Mr. S. C. Hall,

de Mr. W. H. Harrison, editor do The Spiritmtalist, de Miss Rosamund Dale Owen,

posteriormente esposa de Laurence Oliphant, e do Reverendo John Page

Hopáginass.

A recémchegada

iniciou suas sessões logo depois de seu desembarque.

Numa das primeiras, a 24 de novembro de 1871, um representante de The Times

esteve presente e publicou um relato da sessão, realizada em conjunto com D. D.

Home, grande amigo do médium. Isto se lê num artigo sob o título “Espiritismo e

Ciência”, que ocupou três colunas e meia em tipo saliente. O representante de The

Timnes diz que Miss Fox o levou até a porta da sala, convidouo

a ficar de pé a seu

lado e segurarlhe

as mãos, o que ele fez, “quando foram ouvidos fortes golpes, que

pareciam vir das paredes e como se fossem dados com os punhos. Os golpes eram

repetidos, a pedido nosso, qualquer número de vezes” . Contou haver experimentado

todos os ensaios de que se havia lembrado e que tanto Miss Fox quanto Mr. Home

lhe haviam dado todas as oportunidades para exame e que os seus pés e suas mãos

estavam presos.

Num artigo de fundo sobre o relatório acima referido e numa

correspondência decorrente, o Times de 6 de janeiro de 1873 declarou que não era o

caso para um inquérito científico:

“Muitos leitores sensíveis, segundo pensamos, julgarão que lhes devemos

uma satisfação por termos aberto as nossas colunas a uma controvérsia para um

assunto como é o Espiritismo, assim o considerando como uma questão aberta ou

suscetível de discussão, e que esta deveria antes ser relegada como uma impostura

ou como uma ilusão. Entretanto, mesmo uma impostura deve reclamar um

72 – Ar thur Conan Doyle

desmascaramento e as ilusões populares, mesmo que absurdas, são por vezes

bastante importantes para não serem desprezadas pela parte mais sábia da

humanidade... Há realmente algo, como diziam os advogados, que mereça um

julgamento? Bem; por um lado temos abundância de supostas experiências, que

dificilmente poderiam ser chamadas provas e uns poucos testemunhos de um caráter

mais notável e impressionante. Por outro lado, temos muitas histórias de impostores

confessos e muitos relatos autênticos desses desmascaramentos e descobertas, como

era de esperar.”

A 14 de dezembro de 1872 Miss Fox casouse

com Mr. H. D. Jencken, um

advogado londrino, autor de um “Compêndio de Direito Romano Moderno”, etc., e

secretário geral honorário da Associação para a Reforma e Codificação do Direito

Internacional. Foi ele um dos primeiros espíritas da Inglaterra. Relatando a

cerimônia, diz The Spiritualist que a população dos espíritos participou da

cerimônia, pois no almoço de gala, fortes batidas foram ouvidas em várias paredes

da sala e a mesa, sobre a qual se achava o bolo nupcial, foi repetidamente levantada

do solo.

Uma testemunha de vista informa que Mrs. Kate FoxJencken,

como

passou ela a ser conhecida, e seu marido na era dos setenta encontravamse

em bons

meios sociais de Londres. Seus trabalhos eram muitíssimo procurados pelos

investigadores.

John Page Hopáginass a descreve então como “uma criatura pequena,

franzina, muito inteligente, mas de um sorriso tolo; maneiras finas e delicadas e um

suave prazer nas suas experiências, que afastavam o mais leve traço de

convencimento ou de afetação de mistério”.

Sua mediunidade consistia principalmente de batidas — por vezes muito

fortes — de luzes espirituais, de escrita direta e da aparência de mãos materializadas.

As materializações completas, que ocasionalmente se verificaram em suas sessões

na América, foram raras na Inglaterra. Algumas vezes objetos na sala das sessões

foram deslocados pelos Espíritos e nalguns casos trazidos de fora, de uma outra sala.

Foi mais ou menos por esse tempo que o Professor Williani Crookes fez um

inquérito sobre os poderes da médium e publicou uma sincera declaração que

veremos adiante, quando tratarmos dos primeiros contactos de Crookes com o

Espiritismo. Essas cuidadosas observações mostram que as batidas constituíam uma

pequena parte da força psíquica de Kate Fox e que se podiam ser adequadamente

explicadas por meios normais, ainda nos deixavam envoltos no mistério. Assim

relata Crookes, quando as únicas pessoas presentes eram ele, sua senhora, uma

parenta e Miss Fox:

“Eu segurava ambas as mãos da médium numa das minhas, enquanto seus

pés estavam sobre os meus. Havia papel sobre a mesa em nossa frente e eu tinha um

lápis na mão livre.

“Uma luminosa mão desceu do alto da sala e, depois de oscilar perto de

mim durante alguns segundos, tomou o lápis de minha mão e escreveu rapidamente

numa folha de papel, largou o lápis e ergueuse

sobre as nossas cabeças,

dissolvendose

gradativamente na escuridão.”

Muitos outros observadores descrevem fenômenos similares com o mesmo

médium em várias ocasiões.

73 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

Uma fase muito extraordinária da mediunidade de Mrs. FoxJencken

foi a

produção de substâncias luminosas. Na presença de Mrs. MacDougdall Gregory, de

Mr. W. H. Harrison, diretor de um jornal londrino e de outras pessoas, apareceu uma

mão, com algum material fosforescente, de cerca de quatro polegadas quadradas,

com o qual houve uma batida no chão e um toque na face de um dos assistentes. 8

Verificouse

que era uma luz fria. Miss Rosamund Dale Owen, relatando o

fenômeno 9 , descreve os objetos como “cristais iluminados” e diz que não tinha visto

uma materialização que desse uma sensação tão real da proximidade de um Espírito

quanto essas luzes graciosas. O autor pode corroborar o fato de que essas luzes são

geralmente frias, pois, em certa ocasião, com outro médium, uma luz semelhante lhe

tocou a face. Miss Owen também fala de livros e outros pequenos objetos

transportados e de uma pesada caixa de música de cerca de vinte e cinco libras, que

foi retirada de um console. A peculiaridade desse instrumento é que estava

desarranjado há meses e não pôde ser tocado enquanto as forças invisíveis não o

consertaram e o puseram em movimento.

A mediunidade de Mrs. Jencken se mesclava em todos os atos de sua vida

diária. Diz o Professor Butlerof que, quando fez uma visita matinal ao casal, em

companhia de Mr. Aksakof, ouviu batidas no soalho. Passando uma tarde em casa

dos Jencken, diz que as batidas foram numerosas durante o chá. Também conta Miss

Rosamund Dale Owen 10 que certa vez, estando a médium na rua, com duas

senhoras, em frente a uma vitrina, as batidas se misturaram na conversa e o chão

vibrava a seus pés. Diz até que as batidas eram tão altas que atraíam a atenção dos

transeuntes. Mr. Jencken relata muitos casos de fenômenos espontâneos, em sua

vida doméstica.

Os detalhes das sessões do médium poderiam encher um volume. Mas, com

exceção de um último caso, devemos contentarnos

com a opinião do Professor

Butlerof, da Universidade de São Petersburgo que, depois de investigar os seus

poderes em Londres, escreveu em The Spiritualist, de 4 de fevereiro de 1876:

“De tudo quanto me foi possível observar em presença de Mrs. Jencken,

sou levado à conclusão de que os fenômenos peculiares a esse médium são de

natureza fortemente objetiva e convincente e que, penso, seriam suficientes para

levar o mais pronunciado céptico, desde que honesto, a rejeitar a ventriloquia, a

ação muscular e semelhantes explicações dos fenômenos”.

Mr. H. D. Jencken morreu em 1881 e sua viúva ficou com dois filhos. Esses

mostraram maravilhosa mediunidade em tenra idade, cujo registro se encontra em

escritos da época 11 .

Mr. S. C. Hall, conhecido homem de letras e destacado espírita, descreve 12

uma sessão em sua casa, em Kensington, no dia de seu aniversário, a 9 de maio de

1882, na qual a sua defunta esposa se manifestou:

8 The Spir itualist, volume 8º, página 299.

9 Liglit, 1884, página 170.

10 Light, 1884, página 39.

11 Tir e Spir itualist, Volume 4º, página 138; volume 7º, página 66.

12 Light, 1882, página 23940.

74 – Ar thur Conan Doyle

“Muitas mensagens interessantes e comoventes me chegaram através da

escrita normal de Mrs. Jencken. Tinham pedido que apagássemos as luzes. Então

começou uma porção de manifestações, como raramente tenho visto e mais

raramente ultrapassadas... Tomei uma campainha de sobre uma mesa e fiquei com

ela na mão. Senti que outra mão a tomava e a tocava por toda parte na sala, durante

cerca de cinco minutos. Então coloquei um acordeon debaixo da mesa, de onde foi

retirado e, a uma distância de três ou quatro pés da mesa à qual estávamos sentados,

tocaram umas canções. O acordeon estava sendo tocado e a campainha agitada em

diversas partes da sala quando duas velas foram acesas à mesa. Assim, não era

aquilo que se chama uma sessão às escuras, embora ocasionalmente as luzes fossem

apagadas. Durante todo o tempo Mr. Stack segurava uma das mãos de Mrs. Jencken

e eu segurava a outra — cada um dizendo de vez em quando: ‘Tenho em minha mão

a mão de Mrs. Jencken’ .

“Cerca de cinquenta amoresperfeitos

foram colocados a minha frente,

numa folha de papel. Pela manhã eu havia recebido de uma amiga alguns amoresperfeitos,

mas o vaso onde tinham sido colocados não se achava na sala da sessão.

Mandei examinálo

e estava intacto. Naquilo que se denomina ‘escrita direta’

encontrei as seguintes palavras, escritas a lápis com letra miudinha, numa folha de

papel que estava á minha frente: ‘Eu lhe trouxe minha prova de amor’. Numa

sessão, dias antes, já com Mrs. Jencken, eu tinha recebido a seguinte mensagem:

‘Pelo seu aniversário trarei uma prova de amor’ .”

Acrescenta Mr. Hall que havia marcado a folha de papel com as suas

iniciais e, como uma preocupação a mais, tinha dobrado um dos cantos de certa

maneira que pudesse reconhecêla.

É evidente que Mr. Hall ficou muito

impressionado com o que viu. Escreve ele: “ Testemunhei e registrei muitas

manifestações maravilhosas. Duvido que tenha assistido a alguma mais convincente

do que esta e, certamente, nenhuma mais refinada; nenhuma que desse mais

conclusiva demonstração de que só Espíritos puros, bons e santos se

manifestavam” . Confessa que consentiu em ser o “banqueiro” de Mrs. Jencken,

possivelmente para prover a educação de seus dois filhos. Em vista do que

aconteceu posteriormente a esse tão dotado médium, há um triste interesse em suas

palavras finais:

“Tenho uma confiança, uma quase certeza de que em todos os sentidos,

ela agirá de maneira a aumentar e não a diminuir, a sua força como médium,

enquanto retiver a amizade e a confiança de muitos que a consideram do mesmo

modo — de vez que a causa é a mesma — por que a Nova Igreja considera a

Emmanuel Swedenborg, e os Metodistas consideram a John Wesley. Sem a menor

dúvida os Espíritos devem a essa senhora um grande reconhecimento pelas

confortadoras revelações de que, em grande parte, foi ela o instrumento escolhido

pela Providência. Fizemos este relato com certa minúcia porque mostra que os dons

da médium eram então de uma ordem muito elevada e poderosa. Poucos anos antes,

numa sessão em sua casa, a 14 de dezembro de 1873, primeiro aniversário de seu

casamento, uma mensagem espírita por batidas dizia assim: Quando as sombras

caírem sobre você, pense no lado mais luminoso”.

Era uma mensagem profética, pois o fim de sua vida foi apenas de sombras.

Margaret (Mrs. FoxKane)

tinha se juntado à irmã Kate na Inglaterra em 1876 e

permaneceram juntas por alguns anos, até que ocorreu o lamentável incidente que

deve ser analisado agora. Parece que houve uma discussão amarga entre a irmã mais

75 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

velha, Leah (então Mrs. Underhill) e as duas mais moças. É provável que Leah

tivesse sabido que havia então uma tendência para o alcoolismo e tivesse feito uma

intervenção com mais força do que tato... Alguns espíritas também interferiram e

deixaram as duas irmãs meio furiosas, pois tinha sido sugerido que os dois filhos de

Kate fossem separados dela.

Procurando uma arma — uma arma qualquer — com a qual pudessem ferir

aqueles a quem tanto odiavam, parece que lhes ocorreu — ou, de acordo com seu

depoimento posterior, que lhes foi sugerido sob promessa de vantagens pecuniárias

— que se elas injuriassem todo o culto, confessando que fraudavam, iriam ferir a

Leah e a todos os confrades no que tinham de mais sensível. Ao paroxismo da

excitação alcoólica e da raiva juntouse

o fanatismo religioso, pois Margaret tinha

sido instruída por alguns dos principais Espíritos da Igreja de Roma, e convencida

— como também ocorreu conforme durante algum tempo — que suas próprias

forças eram maléficas. Ela se refere ao Cardeal Manning como tendoa

influenciado

neste sentido, mas tal declaração não pode ser levada muito a sério. De qualquer

modo, todas essas causas combinadas a reduziram a um estado vizinho da loucura.

Antes de deixar Londres escreveu ao New York Herald denunciando o

culto, mas sustentando numa frase que as batidas “eram a única parte dos fenômenos

digna de registro”. Chegando a Nova Iorque onde, conforme sua subsequente

informação, deveria receber certa quantia pela sensacional declaração prometida ao

jornal, teve uma verdadeira explosão de ódio contra sua irmã mais velha.

É um curioso estudo psicológico e, também, curiosa a atitude mental do

povo, imaginar que as declarações de uma mulher descontrolada, agindo sob o

império do ódio, mas, também — como ela própria o confessou — na esperança de

recompensa em dinheiro, pudesse prejudicar uma investigação criteriosa de uma

geração de observadores.

Não obstante, temos que considerar o fato de que então ela produz batidas

ou dá lugar a que estas se produzam, numa sessão subsequente na Academia de

Música de Nova Iorque. Deve ser levado em conta que em tão grande auditório seria

impossível qualquer ruído antecipadamente preparado para ser atribuído ao médium.

Mais importante é a prova dada a um redator do Herald, em sessão particular, que

ele assim relata: “Primeiro ouvi uma batida no solo, perto de meus pés, depois

debaixo da mesa, ante a qual estava sentado. Aí me levou á porta e ouvi o mesmo

som se produzir do outro lado. Então, quando ela se sentou ao piano, o instrumento

vibrou mais alto e as batidas ressoaram em sua caixa.”

Este relato deixa claro que os ruidos eram produzidos pelo controle, embora

o jornalista deva ter sido menos céptico do que outros do meu conhecimento, para

pensar que os sons, variando de qualidade e de posição, procedessem de um truque

do pé do médium. É claro que ele não sabia como se produziam os sons e o autor é

de opinião que Margaret também o ignorava. Está provado que realmente tinha ela

algo que podia exigir, e não só pela verificação do jornalista, como pela de Mr.

Wedg. wood, um espírita londrino, ao qual fez ela uma demonstração antes de voltar

para a América. Assim, pois, é em vão que negam base às manifestações de

Margaret. O que era essa base e o que procuramos saber.

O escândalo de Margaret FoxKane

foi em agosto e setembro de 1888 —

aproveitado pelo jornal que a havia explorado. Em outubro ela veio unirse

à sua

76 – Ar thur Conan Doyle

irmã. Era preciso explicar que a disputa, até onde se pode saber, era entre Kate e

Leah, porque esta última tinha tentado separar Kate dos filhos, alegando que a

influência materna não era boa. Portanto, embora Kate não se irritasse e

deliberadamente não desse demonstrações públicas ou particulares, se havia aliado à

irmã com o objetivo comum de derrubar Leah a qualquer preço.

“Foi ela a causadora de minha prisão na última primavera” , declarou

Kate, “originando a posterior acusação de que eu era cruel para com os meus

filhos. Não sei por que sempre teve inveja de Maggie e de mim; talvez porque nós

pudéssemos fazer coisas no Espiritismo de que ela era incapaz. ”

Ela se achava presente na Sala de Música, na sessão de 21 de outubro, na

qual Margaret firmou a sua reputação, produzindo batidas. Ficou calada na ocasião,

mas o silêncio pode ser tomado como uma aprovação àquilo que então ouvia. Se

assim o foi, se disse aquilo que o repórter publicou, seu arrependimento deve ter

vindo muito rapidamente. A 17 de novembro, menos de um mês após a famosa

sessão, escreveu ela a uma senhora de Londres, Mrs. Cottell, que residia na velha

casa de Carlyle, esta admirável carta de New York e publicada no Light, em 1888,

página 619:

“Eu lhe deveria ter escrito antes, mas minha surpresa foi tão grande, ao

chegar e saber das declarações de Maggie sobre o Espiritismo, que não tive ânimo

de escrever a ninguém.

“O empresário da exibição arranjou a Academia de Música, o maior

auditório da cidade de Nova Iorque; ficou superlotado.

“Fizeram uma renda de mil e quinhentos dólares. Muitas vezes desejei ter

ficado com você e se tivesse meios agora voltaria para me livrar de tudo isso.

“Agora penso que podia fazer dinheiro, provando que as batidas não são

produzidas pelos dedos dos pés. Tanta gente me procura por causa da declaração de

Maggie que me recuso a recebêlos.

“Insistem em desmascarar a coisa, se puderem; mas certamente não o

conseguirão.

“Maggie está realizando sessões públicas nas grandes cidades americanas,

mas só a vi uma vez desde que cheguei.”

Esta carta de Kate denuncia a tentação do dinheiro representando um

grande papel na história. Entretanto parece que cedo Maggie verificou que rendia

pouco e que não havia vantagem em dizer mentiras pelas quais não era paga e que

apenas provavam que o movimento espírita se achava tão firmemente estabelecido

que não chegava a ser abalado pôr sua traição. Por esta ou por outras razões —

esperamos que com algum remordimento de consciência pela parte que havia

tomado, agora admitia ela que estivera dizendo falsidades pelos mais baixos

motivos. A entrevista foi publicada na imprensa de Nova Iorque a 20 de novembro

de 1889, cerca de um ano depois do escândalo.

“’Praza a Deus’, — disse ela com voz trêmula de intensa excitação —

‘que eu possa desfazer a injustiça que fiz à causa do Espiritismo quando, sob

intensa influência psicológica de pessoas inimigas dele, fiz declarações que não se

baseiam nos fatos. Esta retratação e negação não parte apenas do meu próprio

senso daquilo que é direito, como também do silencioso impulso dos Espíritos que

usam o meu organismo, a des peito da hostilidade da horda traidora que prometeu

77 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

riqueza e felicidade em troca de um ataque ao Espiritismo, e cujas esperançosas

promessas foram tão falazes...

‘Muito antes que falasse a quem quer que fosse sobre este assunto, estava

sendo incessantemente advertida por meu EspíritoGuia

daquilo que devia fazer;

por fim cheguei à conclusão de que era inútil contrariar as suas recomendações’.

— ‘Não houve qualquer consideração de ordem monetária nesta

declaração?’

— ‘Não, por mínima que fosse; absolutamente.’

— ‘Então a senhora não visa vantagens pecuniárias?’

— ‘Indiretamente, sim. O Senhor sabe que embora governado pelos

espíritos, um instrumento mortal deve zelar pela manutenção da vida. Isto pretendo

conseguir de minhas conferências. Nem um centavo me veio ás mãos em

consequência da atitude que tomei’.

— ‘Por que motivo denunciou as batidas dos Espíritos?’

— “Naquela ocasião necessitava muito de dinheiro, e criaturas, cujo

nome prefiro não citar, se aproveitaram da situação. Daí a embrulhada. Também a

excitação ajudou a perturbar o meu equilíbrio mental’.

— ‘Qual o objetivo das pessoas que a induziram a fazer a confissão que a

senhora e todos os outros médiuns traficavam com a credulidade do povo?’

— ‘Visavam diversos objetivos, O primeiro e mais importante era a ideia

de esmagar o Espiritismo, fazer dinheiro para si mesmos e provocar uma grande

excitação, por lhes ser um elemento favorável’.

— ‘Havia alguma verdade nas acusações que a senhora fez do

Espiritismo?’

— ‘Aquelas acusações eram falsas em todas as minúcias. Não hesito em

dizêlo...

Não. Minha crença no Espiritismo não sofreu mudanças. Quando fiz

aquelas terríveis declarações não era responsável por minhas palavras. Sua

autenticidade é um fato incontroverso. Nem todos os Hermans vivos serão capazes

de reproduzir as maravilhas que se produzem através de alguns médiuns. Pela

habilidade manual e por meio de espertezas podem escrever em papéis e lousas,

mas mesmo assim não resistem a uma investigação acurada. A produção da

materialização está acima de seu calibre mental e desafio a quem quer que seja a

produzir batidas nas condições em que as produzo. Não há ser humano na Terra

que possa produzir as batidas do mesmo modo que elas o são por meu intermédio.’

— ‘Propõese

fazer sessões?

— ‘Não. Dedicarmeei

inteiramente ao trabalho de propaganda, pois

este me dará melhores oportunidades para refutar as calúnias que eu mesma lancei

contra o Espiritismo.’

— ‘Que diz sua irmã Kate de sua presente atitude?’

— ‘Está de pleno acordo. Ela não concordou com a minha atitude no

passado’.

— ‘Terá um empresário para o seu ciclo de conferências?’

— ‘Não, senhor. Eu lhes tenho horror. Também eles me ultrajaram muito.

Frank Stehen tratoume

ver gonhosamente. Fez muito dinheiro à minha custa e

deixoume

em Boston sem um centavo. Tudo quanto recebi dele foram quinhentos e

cinquenta dólares, dados no começo do contrato.’

Para dar maior autenticidade à entrevista, por sugestão dela foi escrita a

seguinte carta aberta, à qual ela apôs a sua assinatura:

78 – Ar thur Conan Doyle

128, West Fortythird

Street

New York City

16 de novembro de 1889.

AO PÚBLICO.

Tendome

sido lida a entrevista que se segue, nada encontrei que não

fosse a expressão correta de minhas palavras e exata expressão de meus

sentimentos. Não fiz um retrato minucioso dos meios e modos empregados para me

levar à sujeição e arrancarme

uma declaração de que os fenômenos espírit as,

manifestados através de meu organismo, eram fraudulentos. Reservarmeei

para

preencher esta lacuna quando subir á tribuna de propaganda.

A autenticidade desta entrevista foi comprovada por algumas testemunhas,

em cujo número se incluem J. L. O’Sullivan, Ministro dos Estados Unidos em

Portugal, durante vinte e cinco anos. Disse ele: “Se alguma vez eu ouvi uma mulher

dizer a verdade, foi nessa ocasião” .

Assim deve ter sido. Mas a falta de um empresário deve ter sido um fator

determinante da falta de êxito financeiro.

A constatação levantaria a questão de saber se as palavras da conferencista

deveriam merecer inteiro crédito, pois infelizmente o autor é obrigado a convir com

Mr. Isaac Funk, infatigável e imparcial investigador, que naquele período de sua

vida Margaret não podia ser controlada.

O que representa muito mais para o objetivo é que Mr. Funk fez sessões

com Margaret, ouviu as batidas “por toda a sala”, sem lhe apreender a origem e que

eles deletrearam um nome e um endereço, tudo correto e inteiramente acima do

conhecimento do médium. A informação dada estava errada mas, por outro lado,

uma força supranormal foi revelada na leitura do conteúdo de uma carta no bolso de

Mr. Funk. A mistura desses resultados é perturbadora, como outro problema mais

amplo, discutido adiante.

Há um fator no qual tocamos de leve neste exame. É o caráter e a carreira

de Mrs. Fish, mais tarde Mrs. Underhill, que, como Leah, a irmã mais velha,

representa tão importante papel no assunto. Conhecemola

principalmente por seu

livro “O Elo que falta no Espiritismo” (Knox e Co. Nova Iorque, 1885). O livro foi

escrito por um amigo, mas os fatos e os documentos foram fornecidos por Mrs.

Underhill, que conferiu toda a narrativa. São ligados simplesmente e mesmo

cruamente, e o espírita é levado a concluir que as entidades com as quais o grupo

Fox teve os primeiros contactos nem sempre eram da mais elevada classe. Talvez

em outro plano, como neste, sejam os plebeus e os humildes que se encarreguem do

pioneiro trabalho espiritual na sua própria maneira e abram o caminho para outros e

mais refinados mensageiros. De lado isto, pode dizerse

que o livro dá uma forte

impressão de candura e de bom senso e, como descrição pessoal de quem esteve tão

envolta nos momentâneos acontecimentos, está destinado a sobreviver à maioria dos

livros comuns e a ser lido com maior atenção e mesmo com respeito pelas gerações

futuras. Aquela gente humilde que participou do recente movimento — Capron, de

Auburn, que fez a primeira conferência pública; Jervis, o elegante ministro

metodista, que exclamou: “Eu sei que é verdade e enfrentarei o mundo

carrancudo!” ; Georges Villetts, o quaker; Isaac Post, que realizou a primeira sessão

espírita; o galante grupo que deu testemunho no palco de Rochester, enquanto os

79 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

agitadores ferviam o alcatrão — todos estão fadados a viver na História. De Leah

pode dizerse

que realmente reconheceu a significação religiosa do movimento

muito mais claramente do que as suas irmãs e que se opôs ao seu emprego com

objetivos puramente materiais, por ser uma degradação do que era divino. A

seguinte passagem é de grande interesse, pois mostra como a família Fox primeiro

considerou essa manifestação, e deve impressionar o leitor pela sinceridade de sua

autora: “O sentimento geral de nossa família... era visceralmente adverso a toda

essa coisa estranha e grosseira. Nós a considerávamos como uma grande

infelicidade caída sobre nós; como, quando e por que, não o sabemos... Resistimos,

lutamos contra ela e constantemente e corajosamente oramos para nos livrarmos

dela, ainda mesmo quando um estranho fascínio ligado a essas maravilhosas

manifestações a elas nos forçavam, contra a nossa vontade, por forças e agentes

invisíveis, aos quais nem podíamos resistir, nem controlar ou entender. Se a nossa

vontade, o nosso ardente desejo e as preces pudessem ter prevalecido ou servido,

tudo teria acabado então, e o mundo exterior à nossa pequena vizinhança jamais

teria ouvido falar das batidas de Rochester ou da infeliz família Fox.”

Estas palavras dão uma impressão de sinceridade e, por outro lado, em seu

livro Leah aparece — com o testemunho de muitas pessoas citadas nominalmente,

como digna do papel que desempenhou num grande movimento.

Tanto Kate FoxJencken

quanto Margaret Fox.Kane morreram no começo

do decênio último do século e seu fim foi triste e obscuro. O problema que

apresentam é exposto ao leitor, evitandose

a extrema sensibilidade espírita, que não

enfrenta os fatos e as acusações dos cépticos, que carregam na narrativa daquelas

partes que melhor servem aos seus propósitos, enquanto omitem ou reduzem tudo o

mais. Vejamos, à custa de um desvio de nossa narrativa, se é possível achar uma

espécie de explicação para o duplo fato de que aquilo que essas irmãs podiam fazer

era absolutamente anormal e que o era, ao menos até certo ponto, dependente de seu

controle. Não é um problema simples: ao contrário, é muitíssimo profundo e

exaustivo e mais que exaustivo, pois o conhecimento psíquico de que então se

dispunha estava muito acima do nível em que viviam as irmãs Fox.

A simples explicação então apresentada pelos espíritas não deve ser logo

posta de lado — ao menos por aqueles que conhecem algo mais. Era que um

médium que emprega mal os seus dons e sofre uma degradação do caráter através de

hábitos ruins, tornase

acessível a influências maléficas, que podem utilizar a sua

mediunidade para informações falsas ou para o descrédito da causa. Isto bem pode

ser certo como a causa. Mas devemos ir mais adiante, em busca do como e do

porquê.

O autor é de opinião que a verdadeira explicação será encontrada pela

reunião de todos esses acontecimentos com as recentes investigações do Doutor

Crawford sobre os meios pelos quais se produzem os fenômenos físicos.

Mostrou ele muito claramente e em detalhes no capítulo seguinte, que as

batidas — e no momento só tratamos dessa fase — são causadas pela projeção, da

pessoa do médium, de um longo fio de uma substância possuidora de propriedades

que a distinguem de qualquer outra forma de matéria. Tal substância foi

cuidadosamente examinada pelo eminente fisiologista francês Doutor Charles

Richet, que a chamou de ectoplasma. Esses fios são invisíveis aos nossos olhos,

80 – Ar thur Conan Doyle

parcialmente visíveis à placa fotográfica e ainda conduzem energia de tal maneira

que produzem sons e dão batidas à distância.

Agora, se Margaret produzia as batidas da mesma maneira que o médium

de Crawford, temos apenas que formular uma ou duas hipóteses prováveis em si

mesmas e, cabendo à ciência do futuro proválo

em definitivo, deixar a coisa

inteiramente às claras. Uma hipótese é que o centro da força psíquica é formado

nalguma parte do corpo de onde sai o fio de ectoplasma. Supondo que o centro seja

o pé de Margaret, isto lançaria uma intensa luz no testemunho coligido no inquérito

de Seybert. Examinando Margaret e se esforçando por obter batidas por ela, alguém

da comissão e com o consentimento dela, pôs a mão sobre o seu pé. Imediatamente

as batidas se seguiram. O investigador exclamou: “Isto é a coisa mais maravilhosa

que há, Mrs. Kane. Eu os percebo distintamente em seu pé. Não há o menor

movimento do pé, mas há uma pulsação invulgar” .

Esta experiência de modo algum admite a ideia de um deslocamento da

junta ou de estalos dos dedos. É exatamente o que se poderia imaginar no caso de

um centro do qual fosse projetada uma força psíquica. Essa força é de forma

material e é tirada do corpo do médium, de modo que deve haver algum nexo. Este

nexo pode variar. No caso citado estava no pé de Margaret. Foi observado pelos

doutores de Buffalo que havia um movimento sutil do médium no momento da

batida. A observação era correta embora errada a interferência. O próprio autor viu

distintamente, no caso de um médium amador, uma ligeira pulsação geral no

momento em que era dada a batida — uma espécie de contração, após a descarga da

força.

Admitindo que a força de Margaret trabalhasse dessa maneira, temos

apenas que discutir se os bastões ectoplásmicos em qualquer circunstância podem

projetarse

à vontade. Até onde o autor pode saber, não há observações que

sustentem diretamente esse ponto. Parece que o médium de Crawford sempre caía

em transe, de modo que a questão não foi levantada. Em outros fenômenos físicos há

uma certa razão para pensar que em sua forma mais simples estejam intimamente

ligados ao médium, mas à medida que se desenvolvem escapam ao seu controle e

são influenciados por forças estranhas a ele. Assim, as figuras ectoplásmicas

fotografadas por Madame Bisson e pelo Doutor Schrenck Notzing, aparecidas em

seu recente livro, em suas primeiras formas podem ser atribuidas aos pensamentos

do médium ou a lembranças que tomam forma visível no ectoplasma; como porém

estas se perdem no transe, tomam forma de figuras que, em casos extremos, são

dotadas de vida independente.

Se houver uma analogia geral entre as duas classes de fenômenos, então é

muito possível que Margaret tivesse algum controle sobre a expulsão de ectoplasma

que produzia o som; mas se o som produzia mensagens que estavam acima de seu

conhecimento, como no caso exemplificado por Funk, a força já não era empregada

por ela, mas por alguma inteligência independente.

Deve lembrarse

que ninguém ignora mais como os seus efeitos são

produzidos do que o médium, que é o seu centro. Um dos maiores médiuns de

efeitos físicos do mundo disse uma vez ao autor que jamais havia testemunhado um

fenômeno físico, pois sempre se achava em transe quando estes ocorriam: a opinião

de qualquer dos assistentes era assim mais valiosa do que a sua. Assim, no caso

81 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

dessas irmãs Fox, que eram apenas crianças quando os fenômenos começaram, elas

pouco sabiam da filosofia do assunto e Margaret dizia frequentemente que não

compreendia os seus próprios resultados. Se achava que ela própria possuía algum

poder de produzir as batidas, por mais obscura que fosse a maneira por que as

produzia, estaria em condições mentais para impugnar as acusações do Doutor

Kane, de que mistificava. Ainda a sua confissão e a da irmã seriam verdadeiras neste

particular, mas cada uma teria consciência, como posteriormente admitiram, que

havia muita coisa mais que não podia ser explicada e que não emanava delas

mesmas.

Contudo, resta um ponto muito importante a discutir — o mais importante

de todos para os que aceitam o significado religioso do movimento. Para os não

iniciados no assunto um argumento naturalíssimo é a pergunta: “São estes os vossos

frutos? Pode ser boa uma filosofia ou uma religião que produz tais efeitos sobre

aqueles que ocultam um lugar destacado em seu estabelecimento?” Ninguém pode

subterfugir a uma tal objeção à exigência de uma resposta clara, que muitas vezes foi

dada e ainda necessita de repetição.

Então estabeleçamos claramente que não existe mais conexão entre a

mediunidade de efeitos físicos e a moralidade, do que entre um ouvido apurado para

a música e a moralidade. Ambos são puros dotes físicos. O músico pode interpretar

os mais amáveis pensamentos e excitar nos outros as mais altas emoções,

influenciando os seus pensamentos e elevando as suas mentes. E ele próprio pode

ser um viciado em entorpecentes, um perverso ou um dipsômano. Por outro lado,

pode aliar ao seu talento musical um caráter pessoal angélico.

Apenas não existe absolutamente uma conexão entre as duas coisas, a não

ser que ambas têm o seu centro no mesmo corpo humano.

Assim na mediunidade de efeitos físicos. Todos nós, ou quase todos,

expelimos uma certa substância de nosso corpo, a qual tem propriedades muito

peculiares. Com muitos de nós — conforme foi verificado por Crawford pesando

cadeiras, — a quantidade é desprezível.

Mas com 1 em 100.000 é considerável. Tal pessoa é o médium de efeitos

físicos. Ele ou ela produz uma certa matéria prima que, sustentamos, pode ser usada

por forças exteriores independentes. O caráter dos indivíduos nada tem com a

matéria. Tal é o resultado de duas gerações de observações.

Se for exatamente como se verifica, de modo algum o caráter do médium

será afetado pelo dom. Infelizmente assim não é. Em nossas atuais condições o

médium de efeitos físicos está sujeito a certos riscos morais, que exigem uma forte e

vigilante resistência para os suportar. Os desastres dos mais úteis e dedicados podem

ser comparados às lesões físicas, perdas de dedos e de mãos nos que trabalhavam em

raiosX

antes que todas as propriedades destes fossem conhecidas. Foram tomadas

certas medidas para contornar esses inconvenientes físicos depois que um certo

número deles se fizeram de mártires da ciência; assim os perigos morais serão

evitados quando uma reparação tardia for feita aos pioneiros que se sacrificaram ao

forçarem as portas do conhecimento. Esses perigos residem no enfraquecimento da

vontade, na extrema debilidade após as sessões de efeitos físicos, na tentação de

recuperar temporàriamente as energias por meio do álcool, na tentação para fraudar

quando as forças se ausentam e na possivelmente prejudicial influência de Espíritos

82 – Ar thur Conan Doyle

que cercam um grupo promíscuo, reunido mais por curiosidade do que por interesse

religioso.

O remédio é segregar os médiuns, darlhes

ordenado em vez de pagar os

resultados, regular o número de sessões e o caráter dos assistentes, e assim afastar

deles as influências que sobrecarregaram as Irmãs Fox, bem como outros dos mais

fortes médiuns do passado.

Por outro lado há médiuns de efeitos físicos que agem por meio de forças

tão poderosas e trabalham sob tão religiosa orientação que constituem o sal da terra.

É a mesma força que foi empregada por Buda e pela Pitoniza de Endor. Os objetivos

e os métodos de seu uso são as determinantes do caráter.

O autor disse que há pouca conexão entre a mediunidade de efeitos físicos e

a moralidade. Poderiam imaginar que o fluxo do ectoplasma, sendo tão ativo num

pecador quanto num santo, atuaria sobre objetos materiais do mesmo modo e

produzindo resultados que teriam igualmente o bom efeito de convencer os

materialistas da existência de forças invisíveis.

Entretanto isto não se aplica à mediunidade interna, que não se revela pelos

fenômenos, mas pelo ensino e pelas mensagens, tanto dadas pela voz do Espírito ou

pela voz humana, quanto pela escrita direta ou qualquer outra maneira. Aqui o vaso

é escolhido para receber o conteúdo. Não se poderia imaginar uma natureza

mesquinha como habitação temporária de um grande Espírito. É preciso ser um Vale

Owen para receber as mensagens de Vale Owen.

Se um grande médium degenerar o caráter, esperarei que as mensagens

cessem ou degenerem. Daí, também, as mensagens de um divino Espírito, tais como

periodicamente são mandadas para sanear o mundo, de um santo medieval, de Joana

D’Arc, de Swedenborg, de Andrew Jackson Davis ou do mais humilde médium de

escrita automática de Londres, desde que o impulso seja verdadeiro, são na realidade

a mesma coisa, em graus diversos.

Cada um é um sopro do alto e cada um marca com a sua personalidade a

mensagem de que é intermediário. Assim, num vidro escuro, vemos esse prodigioso

mistério tão vital, conquanto tão indefinido. É a sua mesma grandeza que o impede

de ser definido. Fizemos um pouco, mas deixamos para traz muitos problemas para

os que vêm depois de nós. Eles podem olhar as nossas mais avançadas especulações

como elementares e ter pontos de vista que se estendam aos mais dilatados limites

da visão mental.

83 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

6

Primeiras Manifestações na América

endo tratado da Família Fox e dos problemas que essa história levanta,

teremos que voltar à América e observar os primeiros efeitos desta invasão de

seres de outra esfera.

Esses efeitos não foram inteiramente excelentes. Houve loucuras de uns

indivíduos e extravagâncias de agrupamentos humanos.

Uma destas, baseada em comunicações recebidas através da mediunidade

de Mrs. Benedict, foi o Círculo Apostólico. Começou com um pequeno grupo de

homens muito crentes num segundo advento e que, através das comunicações

espíritas, procuravam confirmar aquela crença.

Obtiveram aquilo que proclamavam como comunicação dos Apóstolos e

profetas da Bíblia.

Em 1849 James L. Scott, ministro batista do Sétimo Dia em Brooklyn,

reuniu o centro em Auburn, o qual se tornou conhecido como o Movimento

Apostólico, cujo chefe espiritual era supostamente o Apóstolo Paulo. A Scott uniuse

o Reverendo Thomas Lake Harris, e estabeleceram em Mountain Cove a

comunidade religiosa que atraiu muitos adeptos até que, alguns anos depois, suas

mistificações desiludiram e levaram à deserção os seus chefes autocráticos.

Esse Thomas Lake Harris é, certamente, uma das mais curiosas

personalidades de que temos notícia e é difícil dizer quem predominava em seu

caráter: se Mr. Jekill ou o Doutor Hyde. Era feito de extremos, de modo que tudo

quanto fazia era decididamente para o bem ou para o mal. Originàriamente fora um

ministro universalista, de onde lhe vinha o prefixo “Reverendo”, que usou por muito

tempo. Separouse

de seus companheiros, adotou os ensinos de Andrew Jackson

Davis, tornouse

um espírita fanático e, finalmente, como vimos, tornouse

um dos

dirigentes autocráticos das almas e das bolsas dos colonos de Mountain Cove.

Chegou, porém, o momento em que aqueles colonos verificaram que eram bastante

capazes de tratar de seus próprios negócios, quer espirituais, quer materiais. Assim

Harris verificou que tinha perdido tempo. Então voltou para Nova Iorque e atirouse

violentamente no movimento espírita, pregando no Dodworth Hall, o quartelgeneral

do culto, conquistando uma grande e merecida reputação por sua notável eloquência.

Sua megalomania — possivelmente uma obsessão — arrebentou uma vez mais e fez

extravagantes exigências que os espíritas sãos e equilibrados que se achavam em seu

redor não podiam tolerar.

Havia, entretanto, uma coisa que pretendia fazer bem — era a inspiração de

uma entidade muito elevada e veraz, muito embora não se soubesse quando nem

como atuava. Nessa fase de sua carreira, ele ou alguma entidade por seu intermédio,

produziu uma série de poemas, como “Um lírico da Idade de Ouro”, “A Terra ao

amanhecer”, e outros, que, ocasionalmente, tocam as estrelas. Ferido pela recusa dos

T

84 – Ar thur Conan Doyle

espíritas de Nova Iorque em admitir as suas faculdades supranormais, Harris foi

então (1859) para a Inglaterra, onde ganhou fama por sua eloquência, demonstrada

em conferências cujo principal tema era a denúncia de seus antigos companheiros de

Nova Iorque. Cada nova etapa na vida desse homem era acompanhada por um

desfile da etapa anterior.

Em 1860, em Londres, a vida de Harris despertou subitamente um maior

interesse para os britânicos, principalmente para os que tinham afinidades literárias.

Harris fez conferências no Steinway Hall, onde foi ouvido por Lady Oliphant que,

tocada por sua selvagem eloquência, pôs o pregador americano em contacto com seu

filho, Laurence Oliphant, um dos homens mais brilhantes de sua geração. É difícil

determinar o ponto de atração, pois o ensino de Harris nessa etapa nada tinha de

incomum no assunto, salvo que ele havia adotado o DeusPai

e a MãeNatureza,

ideia que tinha sido lançada por Davis. Oliphant considerava Harris um grande

poeta, a ele se referindo como “o maior poeta da época ainda desconhecido pela

glória”. Oliphant não era um crítico vulgar; mesmo assim, num período que contava

um Tennyson, um Longfellow, um Browning e tantos outros, a frase parece

extravagante. O fim de todo esse episódio foi que, depois de adiamentos e

vacilações, tanto a mãe quanto o filho se entregaram inteiramente a Harris e se

aplicaram a trabalhos manuais numa nova colônia em Brocton, em Nova Iorque,

onde ficaram numa condição tal que, se não fora voluntária, era virtualmente de

escravidão. Se tal abnegação era santa ou idiota é um problema para os anjos.

Certamente parece idiota quando se sabe que Laurence Oliphant teve a maior

dificuldade em tomar férias para se casar e que exprimiu humildemente o seu

agradecimento ao tirano quando, finalmente, a licença lhe foi concedida. Ele foi

deixado livre para fazer as reportagens da Guerra francoalemã

de 1870, o que fez na

brilhante maneira que dele se podia esperar; depois voltou à servidão uma vez mais,

e na qual um de seus deveres era vender morangos aos passageiros dos trens,

enquanto era arbitrariamente separado de sua jovem esposa, mandada para o sul da

Califórnia, enquanto ele ficava em Broeton. Assim foi até 1882, vinte anos após o

seu primeiro embaraço, quando Oliphant, ao morrer a sua mãe, rompeu com essa

situação extraordinária e, depois de uma luta tremenda, no correr da qual Harris

pretendeu encarcerálo

num asilo, conseguiu unirse

à sua esposa, recuperar algumas

de suas propriedades e voltar à sua vida normal. Pintou o profeta Harris em seu livro

“Masollam”, escrito nos seus últimos anos de vida, e o resultado é tão característico,

tanto para a brilhante descrição de Oliphant quanto para o homem extraordinário que

ele pintou, que o leitor talvez fique satisfeito em encontrar uma referência no

Apêndice.

Tais acontecimentos, como Harris e outros, foram meras excrescências na

linhatronco

do movimento espírita que, de um modo geral, foi sadio e progressista.

Entretanto ficaram na sua história as marcas das ideias de amor livre e de

sentimentos comunistas, professados por algumas seitas mais rudes, as quais foram

inescrupulosamente exploradas pelos adversários, como se fossem características do

todo. Vimos que, muito embora as manifestações espíritas tivessem tido larga

divulgação através das Irmãs Fox, já anteriormente eram conhecidas. A esses

85 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

testemunhos precedentes devemos ajuntar o que diz o Juiz Edmonds; 13 “Foi mais ou

menos há cinco anos que o assunto atraiu a atenção pública, muito embora se

verifique que uns dez ou doze anos antes houve algo no gênero em diferentes

lugares no país, mas que havia sido ocultado, tanto por mêdo do ridículo quanto

pela ignorância do que isso fosse.” Isto explica o surpreendente número de médiuns

dos quais se começou a ouvir falar tão logo houve publicidade do caso da família

Fox. Não era um novo dom que exibiam, mas apenas uma ação corajosa em tornálo

largamente conhecido que Levava outros a se adiantarem e confessar que tinham o

mesmo poder. Também esse dom universal da mediunidade pela primeira vez

começou a ser livremente desenvolvido, O resultado é que cada vez mais se ouvia

falar de médiuns. Em abril de 1849 houve manifestações na família do Reverendo

A. H. Jervis, ministro metodista de Rochester, e na casa do Diácono Hale, nas

vizinhanças da cidade de Greece. Assim, também, seis famílias na vizinha cidade de

Auburn começaram a desenvolver a mediunidade.

Em nenhum desses casos a família Fox tinha algo que ver com o que

acontecia. De modo que estes pioneiros apenas abriram o caminho que os outros

seguiram.

Fatos dignos de nota dos próximos anos foram o rápido crescimento do

número de médiuns por toda a parte e a conversão ao Espiritismo de grande número

de homens públicos, como o Juiz Edmonds, o exgovernador

Tallmadge, o Professor

Roberto Hare e o Professor Mapes. A adesão pública de homens tão notórios deu

enorme publicidade ao assunto, ao mesmo tempo que aumentou a virulência da

oposição, que então percebia que estava lidando com algo mais do que um bando de

beócios iludidos. Homens como aqueles podiam fazerse

ouvir na imprensa diária.

Houve também a mudança no caráter dos fenômenos. Em 1851 e 1852 Mrs. Hayden

e Daniel Dunglas Home foram instrumentos de muitas conversões. Teremos muito

que dizer destes médiuns nos capítulos seguintes.

Numa comunicação dirigida “Ao público”, aparecida no New York Courier

e datada em Nova Iorque de 1º de agosto de 1853, o Juiz Edmonds, um grande

caráter e uma inteligência brilhante, fez um relato convincente de suas experiências.

É curioso notar como os Estados Unidos, que então deram uma prova conspícua da

coragem moral de seus chefes, parece que caíram, neste particular, em anos mais

próximos de nós, pois o autor, em suas recentes viagens ali encontrou muitos que

tinham conhecimento da verdade psíquica, mas ainda se encolhiam ante uma

imprensa hostil, temerosos de confessar as suas convicções.

No citado artigo, o Juiz Edmonds começou descrevendo minuciosamente os

fatos que o levaram a formar a sua opinião. Transcrevemos aqui as suas palavras

com alguns detalhes, por que é muito importante mostrar a base sobre a qual um

homem altamente educado recebeu o novo ensino.

“Foi em janeiro de 1851 que a minha atenção foi inicialmente chamada

para as ‘manifestações espíritas’. Era um período em que me havia subtraído às

relações sociais e trabalhava sob grande depressão de espírito. Dedicava todo o meu

tempo livre a leituras sobre a morte e a sobrevivência do homem. No curso de

minha vida eu tinha ouvido do púlpito, a esse respeito, tão contraditórias e

chocantes doutrinas, que dificilmente saberia em que acreditar. Não podia, mesmo

13 “Spir itualism”, by Jobn W. Edmonds and George T. Dexter, M. D., Nova Iorque, 1853, página 36.

86 – Ar thur Conan Doyle

que o quisesse, crer naquilo que não entendia, e ansiosamente buscava saber se,

depois da morte, poderíamos encontrar aqueles a quem tínhamos amado e em que

circunstâncias. Fôra convidado por uma amiga a assistir as ‘Batidas de Rochester’.

Aceitei mais para lhe ser atencioso e para matar uma hora de tédio. Pensei bastante

naquilo que assisti e resolvi investigar o assunto e descobrir o que era aquilo. Se

fosse uma mistificação, uma desilusão, eu supunha poder averiguar. Durante cerca

de quatro meses dediquei pelo menos duas noites por semana e, às vezes, mais, em

testemunhar os fenômenos em todas as suas fases. Fiz um cuidadoso registro de

tudo quanto assisti e, de vez em quando, comparava os resultados, a fim de

apreender as inconsistências e as contradições. Li tudo quanto me vinha às mãos

sobre o assunto e especialmente as supostas ‘descobertas de charlatães’. Andei aqui

e ali, à procura de diversos médiuns, assistindo a diferentes sessões, —

frequentemente com pessoas das quais jamais ouvira falar e muitas vezes no escuro

e algumas no claro — por vezes com descrentes inveterados e mais frequentemente

com crentes muito zelosos.

“Finalmente, aproveitei todas as oportunidades que se me ofereciam para

esgotar o assunto desde a sua raiz. Durante todo esse tempo eu era um descrente e

pus à prova a paciência dos crentes por meu cepticismo, minha capciosidade e

minha dura recusa em modificar as minhas ideias. vi em redor de mim algumas

pessoas que passaram a crer em uma ou duas sessões; outras, nas mesmas

condições, persistiam na mesma descrença; e algumas que recusavam o testemunho

de todos e continuavam terminantemente incrédulas. Eu não podia tomar nenhum

desses partidos e me recusava a crer, enquanto não tivesse a mais irrefragável das

provas. Por fim a prova veio e com tal poder que nenhum homem equilibrado lhe

poderia negar fé”.

Como se vê, um dos primeiros entre os notáveis conversos à nova

revelação, tomou as maiores precauções antes de aceitar a evidência que o

convenceria da autenticidade das manifestações espíritas. A experiência geral mostra

que uma aceitação fácil de tais manifestações é muito rara entre pensadores sérios e

que dificilmente se encontra um espírita eminente, cujo curso de estudos e de

meditação não tenha consumido muitos anos.

Isto forma um notável contraste com aqueles cuja opinião negativa é devida

a um preconceito inicial e a relatos tendenciosos ou escandalosos de autores

fanáticos.

No excelente resumo de suas investigações, dado no artigo citado, um

artigo capaz de converter todo o povo americano, se ele estivesse preparado para a

assimilação, o Juiz Edmonds mostra a sólida base de sua crença. Destaca que nunca

estava só quando essas manifestações ocorreram e que teve muitas testemunhas.

Também mostra as minuciosas precauções que tomou:

“Depois de confiar nos meus próprios sentidos, nas diversas fases do

fenômeno, invoquei o auxílio da ciência e, com a assistência de um hábil eletricista

e seus mecanismos, e oito ou dez pessoas inteligentes, educadas e sérias, examinei o

assunto. Continuamos a nossa investigação durante vários dias e, para nossa

satisfação, constatamos duas coisas: primeiro, que os sons não eram produzidos por

qualquer pessoa presente ou perto de nós; segundo, que eles não se produziam à

nossa vontade.”

Ocupase

finalmente com as supostas “charlatanices”, segundo a expressão

dos jornais, algumas das quais de vez em quando são verdadeiras expressões contra

87 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

um ou outro vilão, mas que, em geral causam maiores decepções, conscientes ou

inconscientes ao público do que os males que pretendem evitar. Assim:

“Quando as coisas se encontravam neste pé, apareceram nos jornais várias

explicações de ‘fraudes e charlatanices’, como costumavam dizer. Lias

com

cuidado, na esperança de que me ajudassem em minhas pesquisas e apenas pude

sorrir ante a ousadia

e a futilidade de tais explicações. Por exemplo, quando certos

professores ilustres de Buffalo se congratulavam por haverem localizado no artelho

e no joelho do médium a causa das manifestações, estas se transformaram num

toque de campainha colocada debaixo da mesa. Era como a solução dada

posteriormente por um ilustre professor na Inglaterra, que atribui as batidas na mesa

a uma força especial das mãos colocadas sobre ela, pondo de lado o fato de que

muito frequentemente as mesas se movem quando não há mãos sobre elas”.

Depois de focalizar a objetividade do fenômeno, o Juiz aborda a questão

mais importante da sua fonte. Comenta o fato de ter tido respostas a perguntas

mentais e verifica que mesmo os seus mais secretos pensamentos foram revelados e

que ideias que ele propositadamente havia mantido em segredo tinham sido

manifestadas. Também observa que os médiuns tinham usado grego, latim, espanhol

e francês, mesmo ignorando essas línguas. Isto o leva a considerar se as coisas não

podem ser explicadas como um reflexo da mente de alguma outra criatura viva.

Essas considerações foram exaustivamente examinadas por todos os pesquisadores,

pois os Espíritas não aceitam a doutrina de um fato, mas passo a passo, examinando

cuidadosamente cada etapa. A tarefa empreendida pelo Juiz Edmonds é a mesma

empreendida por outros. Ele dá a seguinte explicação para a recusa da influência de

outras mentes:

“Fatos então completamente desconhecidos, foram verificados

posteriormente. Como este, por exemplo: Quando, durante o último inverno eu me

achava ausente, na América Central, os meus amigos da cidade tiveram noticia de

minhas excursões e da minha saúde, sete vezes através de um médium; quando

voltei, comparando essas informações com os registros em meu diário, foi

verificado que tudo estava invariàvelmente correto. Assim, também, em minha

recente visita ao Oeste o meu giro e as minhas condições de saúde foram ditos a um

médium dessa cidade, enquanto eu viajava por estrada de ferro entre Cleveland e

Toledo. Assim muitas ideias me foram comunicadas sobre coisas que não estavam

em minha mente e que eram absolutamente distintas de minha opinião. Isto me

aconteceu muitas vezes, bem como a outras pessoas, de modo a confirmar

seguramente o fato de que não eram as nossas mentes que davam origem á

comunicação ou a influenciavam”.

Trata, então, desse maravilhoso desenvolvimento, chamando a atenção para

o seu tremendo significado religioso, em linhas gerais, assunto que é focalizado no

capítulo seguinte desta obra. O cérebro do Juiz Edmonds era realmente notável, e

seu julgamento claro, pois muito pouco nos é possível acrescentar ao que verificou

ele, e talvez ninguém tenha dito tanto em tão pouco espaço. Como frizamos, o

Espiritismo mostrouse

consistente desde o início e os mestres e os guias não

confundiram as suas mensagens. É estranho e até divertido que a ciência arrogante,

que tentou, com simples palavras e deslumbramento, esmagar esse conhecimento

inicial em 1850, tivesse demonstrado estar essencialmente errado em seu próprio

terreno. São raros os axiomas científicos daquela época que não tenham sido

88 – Ar thur Conan Doyle

controvertidos, como a finalidade do elemento, a indivisibilidade do átomo, a

origem distinta das espécies, enquanto os conhecimentos psíquicos, tão

menosprezados, se mantiveram firmes, aduzindo novos fatos, mas nunca

contradizendo os que haviam sido anteriormente estabelecidos.

Escrevendo sobre os benéficos efeitos de tal conhecimento, diz o Juiz:

“É isto o que consola o triste e anima os desanimados; que suaviza a

passagem pelo túmulo e anula os terrores da morte; que ilumina o ateu e encoraja o

virtuoso entre todas as provas e vicissitudes da vida; e que demonstra ao homem o

seu dever e o seu destino, tirandoo

imediatamente do vago e do incerto.”

Jamais o assunto foi melhor sintetizado.

Há, entretanto, uma passagem final nesse documento notável que causa

uma certa tristeza. Falando do progresso que o movimento tinha feito em quatro

anos, nos Estados Unidos, diz ele:

“Há dez ou doze jornais e periódicos dedicados à causa, e a bibliografia

espírita abarca mais de cem publicações diversas, algumas das quais já atingiram a

circulação de mais de 10.000 exemplares. Além da multidão indistinta, há muitos

homens de alta posição e de talento alinhados entre eles — doutores, advogados,

grande número de clérigos, um bispo protestante, o ilustre e reverendo presidente de

uma universidade, juizes de nossas mais altas cortes, membros do Congresso,

embaixadores estrangeiros e exmembros

do Senado dos Estados Unidos.”

Em quatro anos a força do Espírito fez tanto assim. Como estão as coisas

hoje? A multidão indistinta avançou valentemente e a centena de publicações

tornouse

muito mais; mas onde se acham os homens esclarecidos e dirigentes para

apontar o caminho? Desde a morte do Professor Hyslop é difícil apontar nos Estados

Unidos um homem eminente com a coragem de jogar a sua carreira e a sua

reputação proclamando essas ideias. Aqueles que nunca temeram a tirania do

homem encolheramse

ante as caretas da imprensa. A máquina impressora triunfou

onde a roda de tortura teria fracassado, O prejuízo geral em sua reputação e nos seus

interesses, sofrido pelo Juiz Edmonds, que foi obrigado a resignar a sua cadeira na

Suprema Corte de Nova Iorque, bem como muitos outros que deram testemunho da

verdade, estabeleceu o reinado do terror, que afasta do assunto as classes

intelectuais. Assim estão as coisas presentemente.

Mas a imprensa no momento se achava bem disposta e o famoso relato do

Juiz Edmonds, talvez o mais belo e o mais momentoso jamais produzido por um

juiz, foi acolhido com respeito, senão com admiração. Eis o que disse o New York

Courier:

“A carta do Juiz Edmonds, por nós publicada sábado, em relação às

chamadas manifestações espíritas, vinda, como veio, de um eminente jurista, um

homem notável por seu claro bom senso nas coisas da vida prática, e um cavalheiro

de um caráter irreprochável, atraiu a atenção da comunidade e é por muita gente

considerada como um dos mais notáveis documentos da atualidade.”

Disse o Evening Mirror, de New York:

“John W. Edmonds, Presidente da Suprema Corte deste distrito, é um

jurista hábil, um juiz ativo e um bom cidadão. Ocupando durante os últimos oito

anos, ininterruptamente, as mais altas posições na magistratura, sejam quais forem

as suas faltas, ninguém poderá acusálo

justamente por falta de habilidade, de

89 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

atividade, de honestidade e de destemor. Ninguém poderá pôr em dúvida a sua

sanidade geral ou por um momento pensar que a sua atividade mental não seja tão

rápida, precisa e correta como sempre. Tanto pelos advogados como pelos

solicitadores no seu Tribunal ele é reconhecido como a cabeça, de fato e de mérito,

da Suprema Corte deste Distrito.”

Também é interessante a experiência do Doutor Robert Hare, professor de

Química na Universidade de Pensilvânia, porque ele foi um dos primeiros eminentes

homens de ciência que, disposto a desmascarar as ilusões do Espiritismo, tornouse,

por fim, um crente decidido.

Foi em 1853 que, segundo suas próprias palavras, sentiuse

“chamado, por

um ato de dever para com a humanidade, a trazer toda a influência que possuía no

sentido de estacar a maré de loucura popular que, desafiando a razão e a ciência,

estava se alastrando rapidamente em favor da grande ilusão chamada Espiritismo.”

Uma carta denunciadora sua, publicada nos jornais da Filadélfia, onde vivia, foi

transcrita por outros jornais do país e serviu de texto a numerosos sermões. Mas,

como no caso de Sir William Crookes, muitos anos mais tarde, o júbilo foi

prematuro. Conquanto um grande céptico, o Professor Hare foi induzido a fazer

experiências, ele próprio, e após um período de ensaios cuidadosos tornouse

inteiramente convencido da origem espírita das manifestações. Como Crookes, criou

aparelhos para controlar os médiuns. Mr. S. B. Brittan 14 faz o seguinte resumo de

algumas experiências de Hare:

“Primeiramente, para se convencer de que os movimentos não eram obra

dos mortais, tomou de bolas de bilhar, colocouas

sobre as lâminas de zinco e pôs

as mãos dos médiuns sobre as bolas. Com grande surpresa sua, as mesas se

moveram. A seguir arranjou uma mesa cujo tampo se movia para a frente e para

trás; a ele adaptou um dispositivo que girava um disco contendo as letras do

alfabeto, ocultas às vistas dos médiuns. As letras eram dispostas de modo variado,

não dispostas em ordem consecutiva e ao Espírito era pedido que as dispusesse

consecutivamente ou nos seus devidos lugares. E, vejam só! isto foi feito! Então

seguiramse

frases inteligentes, que o médium não podia ver ou lhes saber o

sentido, enquanto não lhes dissessem.

“Buscou um novo teste decisivo. O braço maior de uma alavanca foi

ajustado a uma escala espiral, com um indicador e um peso determinado; as mãos

do médium ficavam sobre o braço menor, de modo que era impossível fazer pressão

de cima para baixo, mas se houvesse pressão esta teria o efeito contrário —

levantaria o braço maior. Mesmo assim, o que é assombroso, o peso foi aumentado

de várias libras na escala”.

O Professor Hare reuniu suas cuidadosas pesquisas e seus pontos de vista

sobre Espiritismo num livro importante, publicado em Nova Iorque em 1855, sob o

título de “Experimental Investigation of the Spirit Manifestations” 15 . Neste livro, a

página 55 assim resume ele as suas primeiras experiências:

“A prova das manifestações contidas na narrativa seguinte não se limita a

mim somente, de vez que havia pessoas presentes quando elas foram observadas e

14 Redator de The Spir itual Telegr aph.

15 Investigação experimental sobre as manifestações de Espíritos. — N. do T.

90 – Ar thur Conan Doyle

em minha presença foram repetidas em essência, sob várias modificações, em

muitos casos não referidos de modo especial.

“A prova pode ser considerada sob várias fases. Primeiro, aquela em que

as batidas ou outros ruídos eram impossíveis de ser reproduzidos por qualquer

agente mortal; em segundo lugar aquela nas quais eram produzidos sons, indicando

letras que formavam sentenças corretas, o que permitia a prova de que eram

orientadas por um ser racional; em terceiro lugar, aquelas nas quais a natureza da

comunicação era tal que provava que o ser causador, satisfeito de acompanhar as

experiências, devia ser conhecido, amigo ou parente do investigador.

“Ainda casos nos quais foram movidos corpos pesados... de modo a

produzirem comunicações intelectuais, semelhantes as que, acima referidas, eram

obtidas por meio de sons.

“Con quanto o aparelho pelo qual essas comunicações eram obtidas com a

maior precaução e precisão, as modificasse de certa maneira, em essência todas as

provas que consegui, tendentes ás conclusões acima mencionadas, foram

substancialmente obtidas por um grande número de observadores. Muitos que

jamais buscaram qualquer comunicação espírita e jamais se inclinaram para

inscreverse

como Espíritas, não só conf irmam a existência de sons e de

movimentos, mas admitem a sua inexcrutabilidade.”

Mr. James J. Mapes, LL. D. de Nova Iorque, químico agrícola e membro de

várias associações científicas, começou suas investigações no Espiritismo a fim de

reunir seus amigos que, segundo dizia, estavam “correndo para a imbecilidade”

dessa nova maluquice. Através da mediunidade de Mrs. Cora Hatch, depois Mrs.

Richmond, recebeu respostas às suas perguntas que são descritas como

cientificamente maravilhosas. Acabou se tornando um crente completo, e sua

esposa, que não possuía dons artísticos, tornouse

médium pintora e desenhista. Sem

que ele o soubesse, sua filha se havia tornado uma médium escrevente e, quando

Lhe falou de seu desenvolvimento, ele lhe pediu uma demonstração de sua força.

Ela tomou de uma pena e ràpidamente escreveu uma mensagem, admitida como

sendo do pai do Professor Mapes. O Professor pediu uma prova de identidade.

Imediatamente a mão da filha escreveu: “Você pode se lembrar que lhe dei, entre

outros livros, uma Enciclopédia; olhe à página 120 desta e aí encontrará o meu

nome, que você jamais notou” . O referido livro estava guardado com outros num

depósito. Quando o professor abriu a caixa, que jamais havia sido tocada há vinte e

sete anos, com grande admiração viu o nome do pai escrito à página 120. Foi tal

incidente que o levou primeiro a uma séria investigação, pois, como seu amigo

Professor Hare, tinha sido até então um materialista convicto.

Em abril de 1854, o Hon. James Shields apresentou um memorial 16 com

treze mil assinaturas, pedindo um inquérito ao Congresso dos Estados Unidos.

Encabeçava a lista o nome do Governador Tallmadge. Depois de uma discussão

frívola, na qual Mr. Shield, o apresentante, se referiu à crença dos signatários como

devida a uma ilusão, filha de uma educação defeituosa ou a desarranjos das

faculdades mentais, foi decidido que o requerimento ficasse sobre a mesa, O fato foi

assim comentado por Mr. E. W. Capron 17 : “Não é provável que os signatários

16 Vide Capron, “Moder n Spir itualism” páginas 359363.

17 “Moder n Spir itualism”, página 375.

91 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

esperem melhor tratamento do que o que lhes foi dado. Cabe aos carpinteiros e

pescadores do mundo investigar as novas verdades e fazer que Senados e Tronos

creiam e as respeitem. É em vão esperar aceitação e respeito a novas verdades por

homens tão altamente colocados.”

A primeira organização espírita regular foi constituída em Nova Iorque, a

10 de junho de 1854. Denominavase

“Sociedade para a difusão do Conhecimento

Espírita”, e entre os seus membros contava gente preeminente, como o Juiz

Edmonds e o Governador Tallmadge, de Wisconssn. Entre as atividades da

sociedade se incluía a fundação de um jornal chamado “The Christian Spiritualist” 18

e o contrato de Miss Kate Fox para sessões diárias, franqueadas ao público, desde as

dez da manhã até uma da tarde.

Escrevendo em 1855, diz Capron 19 : “Seria impossível entrar em minúcias

relativamente à difusão do Espiritismo em Nova Iorque até o momento. Espalhouse

pela cidade e deixou de ser curiosidade ou maravilha. As sessões públicas se

realizam regularmente e a investigação se desenvolve; mas os dias de excitação já

passaram e de todos os lados ele é olhado como algo mais que simples truque. É

verdade que o fanatismo religioso o denuncia, mas, sem disputar concorrência,

ocasionalmente fazem uma pretensa exposição, visando especular. O fato é que o

fenômeno espírita tornouse

uma coisa reconhecida por toda a cidade.”

Talvez o fato mais significativo do período que estamos considerando tenha

sido o desenvolvimento da mediunidade em pessoas preeminentes, como por

exemplo, o Juiz Edmonds e o Professor Hare. Assim escreve este último 20 : “Tendo

ultimamente adquirido faculdades mediúnicas em grau suficiente para trocar ideias

com Espíritos amigos, não mais necessito defender os médiuns da acusação de

falsidade e de mistificação. Agora é apenas o meu caráter que está em jogo.”

Assim, retirando do cenário as irmãs Fox, temos a mediunidade particular

do Reverendo A. H. Jervis, do Diácono Hale, de Lyman Granger, do Juiz Edmonds,

do Professor Hare, de Mrs. Mapes, de Miss Mapes e a mediunidade pública de Mrs.

Tamlin, de Mrs. Benedict, de Mrs. Hayden, de D. D. Home e de dezenas de outros.

Escapa ao objetivo desta obra tratar de grande número de casos individuais de

mediunidade, alguns dos quais muito dramáticos e interessantes, ocorridos durante o

primeiro período de demonstração. O leitor poderá recorrer às duas importantes

compilações de Mrs. Hardinge Britten — “Modern American Spiritualism” e

“Nineteenth Century Mira cles” 21 , livros que serão sempre o mais valioso registro

dos primeiros dias. A série de casos fenomenais era tão grande que Mrs. Britten

contou mais de quinhentos exemplos registrados na imprensa nos primeiros anos, o

que representa provàvelmente algumas centenas de milhares não registrados. A

suposta religião uniuse

à suposta ciência, de uma vez, para desacreditar e perseguir

a nova verdade e os seus partidários, enquanto a imprensa, infelizmente, achou que o

seu interesse estava em sustentar os preconceitos da maioria dos assinantes. Foi

difícil proceder assim, porque naturalmente num movimento tão vital e convincente,

houve alguns que se tornaram fanáticos, alguns que, por suas ações, atraíram o

18 “O Espír ita Cr istão”. — N. do T.

19 “Moder n Spir itualism”, página 197.

20 “Exper imental Investigation of the Spir it Manifestation”, página 54.

21 “Moder no Espir itismo Amer icano” e “Milagr es do Século Dezenove”. N. do T.

92 – Ar thur Conan Doyle

descrédito sobre as suas opiniões, e alguns que tiraram partido do interesse geral de

imitar, com maior ou menor sucesso, os reais dons do Espírito. Esses tratantes

fraudulentos por vezes agiam com inteiro sangue frio, embora por vezes dessem a

impressão de que eram médiuns que haviam temporariamente perdido a

mediunidade.

Houve escândalos e denúncias, fatos autênticos e imitações. Como agora,

tais denúncias partiam, às vezes, dos próprios Espíritas, que se opunham tenazmente

que as suas cerimônias sagradas se transformassem em espetáculo para a hipocrisia e

para a blasfêmia de vilãos que, como hienas humanas, procuravam viver

fraudulentamente à custa dos mortos. O resultado geral foi um arrefecimento do

grande entusiasmo inicial, um abandono daquilo que era verdadeiro e o

incensamento daquilo que era falso.

O corajoso relatório do Professor Hare provocou uma desgraçada

perseguição a esse venerável cientista, que era então, com exceção de Agassiz, o

mais conhecido homem de ciência da América. Os professôres de Harvard — a

universidade que tem o menos invejável registro em assuntos psíquicos — toma uma

resolução de o denunciar e a sua “insana adesão à gigantesca mistificação”. Ele não

podia perder a sua cátedra na Universidade da Pennsylvania, por isso que a ela havia

renunciado, mas sofreu muito na sua reputação.

O coroamento e o mais absurdo exemplo de intolerância científica — uma

intolerância que foi sempre tão violenta e desarrazoada quanto a da Igreja Medieval

— foi dado pela Associação Científica Americana. Esse corpo científico berrou

contra o Professor Hare, quando àquele se dirigiu, e estabeleceu que o assunto era

indigno de sua atenção. Entretanto os Espíritos registraram que aquela sociedade, na

mesmíssima sessão, teve um animado debate para saber por que os galos cantavam

entre meianoite

e uma da manhã e que, finalmente, haviam chegado à conclusão de

que, especialmente naquela hora, passa pela Terra uma onda de eletricidade, na

direção nortesul,

e que as aves, despertas de seu sono e “tendo uma natural

disposição para cantar”, registram o acontecimento dessa maneira. Ainda não se

havia aprendido — e dificilmente terá sido aprendido — que um homem, ou uma

sociedade, podem ser muito sábios em assuntos de sua especialidade e, entretanto,

mostrar uma extraordinária falta de senso comum ao defrontarem uma nova

proposição, que requer um completo reajustamento de ideias. A ciência inglesa e, na

verdade, a ciência do mundo inteiro, mostrou a mesma intolerância e falta de

elasticidade que marcou aqueles primeiros dias na América.

Esses dias foram tão bem descritos por Mrs. Harding Britten, a qual nêles

desempenhou importante papel, que todos os interessados podem acompanhálos

em

suas páginas.

Algumas notas relativamente a Mrs. Britten podem adequadamente ser aí

introduzidas, de vez que nenhuma história do Espiritismo seria completa sem

referências a essa notável senhora, que foi chamada o São Paulo feminino do

movimento espírita. Era ela uma pequena inglesa que tinha ido para Nova Iorque

com uma emprêsa de teatro e tinha permanecido na América com sua mãe. Sendo

estritamente evangélica, repelia fortemente aquilo que considerava um ponto de

vista ortodoxo dos Espíritas e fugiu horrorizada de sua primeira sessão. Depois, em

1856, foi novamente posta em contacto com o assunto e teve provas cuja veracidade

93 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

lhe foi impossível pôr em dúvida. Logo descobriu que era, também ela, um poderoso

médium; e um dos melhores documentados e dos mais sensacionais casos no início

do movimento foi aquele no qual ela recebeu a informação de que o navio “Pacific”

tinha naufragado no Atlântico médio, perecendo todos os passageiros, e foi

perseguida pela companhia proprietária do navio, por haver repetido o que lhe havia

dito o Espírito de uma das vítimas da catástrofe. Verificouse

que a informação era

exata e o navio jamais foi encontrado.

Mrs. Emma Hardinge — que, por um segundo casamento, tornouse

Mrs.

Hardinge Britten trouxe todo o seu temperamento entusiástico para o novo

movimento e deixou nele um rastro ainda visível. Foi uma propagandista ideal, pois

reunia todos os dons. Era uma médium forte, oradora, escritora, pensadora

equilibrada e trabalhadora infatigável. Ano após ano viajou de leste a oeste e de

norte a sul dos Estados Unidos, proclamando a nova doutrina em meio a muita

oposição, dado o seu caráter de militante e antiprotestante de seus pontos de vista,

que confessava receber diretamente de seus guias espirituais.

Entretanto, como esses pontos de vista eram que a moral das Igrejas estava

demasiadamente relaxada e que se aspiravam mais altos padrões, não é de supor que

o fundador do Cristianismo fosse atingido por sua crítica. Essas opiniões de Mrs.

Hardinge Britten diziam mais com o largo ponto de vista unitário dos corpos

espiritualistas oficiais, que ainda existem, do que com qualquer outra causa.

Em 1866 voltou ela para a Inglaterra, onde trabalhou infatigàvelmente,

produzindo as suas ideias duas grandes obras “Modern Americctn Spiritualism” e,

mais tarde, “Nineteenth Century Miracles”, ambas demonstrando interessante e

volumosa pesquisa unida a um raciocínio claro e lógico. Em 1870 casouse

com o

Doutor Britten, tão forte espírita quanto ela. Parece que foi uma união realmente

feliz. Em 1878 foram à Austrália e Nova Zelândia, como missionários do

Espiritismo, aí demorando muitos anos, fundando várias igrejas e sociedades, que o

autor encontrou ainda de pé, quando, quarenta anos mais tarde, visitou os Antípodas

com o mesmo objetivo. Quando na Austrália, escreveu ela “Faiths, Facts and Frauds

of Religions History” 22 , livro que ainda exerce muita influência. Houve então,

indubitàvelmente, estreita conexão entre o movimento do livre pensamento e a nova

revelação espírita. O Hon. Robert Stout, Procurador Geral da Nova Zelândia, era, ao

mesmo tempo, Presidente da Associação dos Livre Pensadores e Espiritista ardente.

Entretanto, agora se compreende mais claramente que as manifestações espíritas e

seu ensino são demasiadamente largos, para se ajustarem a qualquer sistema,

negativo ou positivo, e que é possível a um Espiritista professar qualquer credo,

enquanto tiver o respeito essencial ao invisível e desprendimento por aqueles que o

cercam.

Entre outros monumentos de sua energia, Mrs. Hardinge Britten fundou

“The Two Worlds” 23 de Manchester, que ainda, tem tão grande circulação quanto

qualquer jornal espírita no mundo. Transpôs os umbrais em 1889, tendo deixado

suas pegadas indeléveis sobre a vida religiosa de três continentes. Essa digressão

sobre os primeiros dias do progresso na América foi longa mas necessária. Aqueles

22 “Fé, Fatos e Fraudes da História Religiosa” — N. do T.

23 “Os dois mundos” – N. do T.

94 – Ar thur Conan Doyle

primeiros dias foram marcados por grande entusiasmo, muito sucesso, mas, também,

por considerável perseguição. Todos os dirigentes que tinham algo a perder,

perderamno.

Diz Mrs. Hardinge: “O Juiz Edmonds era apontado nas ruas como um

espírita maluco” . Ricos negociantes eram compelidos a fazer declarações, a fim de

serem considerados sãos e poderem manter os seus direitos comerciais pela mais

firme e determinada atitude. Profissionais e comerciantes foram quase reduzidos á

ruína e uma perseguição perseverante, originada na imprensa e mantida pelo púlpito,

descarregava toda sorte de impropérios contra a causa e os seus prosélitos. Muitas

das casas onde se reuniam os grupos espíritas eram perturbadas por multidões,

reunidas ao cair da noite, aos urros, aos gritos, aos assovios, quando não quebrando

as vidraças e procurando molestar os quietos investigadores no seu insano trabalho

de ‘despertar os mortos’, como piedosamente um dos jornais denominava o ato de

invocar os ‘Mistérios dos Anjos’. De lado os altos e baixos do movimento, o

aparecimento de novos médiuns, a ocasional denúncia dos falsos médiuns, as

comissões de inquérito — quase sempre negativas pela falta de percepção dos

investigadores de que o êxito de um grupo psíquico depende das condições psíquicas

de todos os seus membros — o desenvolvimento de novos fenômenos e a conversão

de novos iniciados, há alguns incidentes marcantes dessa primeira fase que deve ser

particularmente frisada. Notável entre estes é a mediunidade de D. D. Home, e a dos

dois rapazes de Davenport, que constituem episódios tão importantes e atraem a

atenção de tal maneira e por tanto tempo que são tratados em capítulos especiais.

Há, entretanto, certas mediunidades menores, que reclamam uma breve referência.

Uma destas é a de Linton, o ferreiro, um homem quase analfabeto, posto que, como

A. J. Davis, tivesse escrito um livro notável e, ao que parece, ditado por um Espírito.

Esse livro de 530 páginas, intitulado “The Healing o! the Nations” 24 é, certamente,

uma notável produção, seja qual for a sua fonte, e é óbvio que não poderia ter sido

produzido normalmente por tal autor. Está ornado de um prefácio longo, da pena do

Governador Tallmadge, que mostra quanto o digno senador conhecia a antiguidade

clássica. Do ponto de vista clássico e da Igreja Primitiva, poucas vezes se tem

escrito melhor.

Em 1857 a Universidade de Harvard mais uma vez se notabilizou pela

perseguição e expulsão de um estudante, chamado Fred Willis, pela prática da

mediunidade. Dirseia

que o Espírito de Cotton Mather e dos perseguidores das

feiticeiras de Salém haviam caído em Boston, sobre aquele grande centro de saber,

pois naqueles primeiros tempos estava sempre em luta com aquelas forças invisíveis,

que ninguém pensa em dominar. A coisa começou por uma intempestiva ação da

parte de um certo Professor Eustis, para provar que Willis fraudava, quando todas as

experiências provam que era um verdadeiro sensitivo, que fugia de toda

demonstração pública de sua força. O assunto produziu grande excitação e

escândalo.

Este e outros casos de violência podem ser citados. Não obstante, é preciso

reconhecer que a esperança de êxito de um lado, e a efervescência mental causada

por tão terrível revelação do outro, arrastaram, neste período, os supostos médiuns a

um tal grau de desonestidade e a tão fanáticos excessos e grotescas afirmações, que

24 “A Cura das Nações” — N. do T.

95 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

comprometeram o sucesso imediato que os espíritas mais sãos e corretos podiam

esperar.

Uma curiosa fase de mediunidade, que atraiu muita atenção, foi a de um

fazendeiro, Jonathan Koons e sua família, que viviam num distrito rural de Ohio. Os

fenômenos obtidos pelos irmãos Eddy são discutidos mais amplamente no capítulo

seguinte e, como os dos Koons eram no mesmo sentido, não necessitam ser tratados

minuciosamente. Os instrumentos musicais foram largamente empregados em

demonstrações da força dos Espíritos, e a cabana dos Koons tornouse

célebre em

todos os Estados vizinhos — tão célebre que vivia cheia de gente, posto que situada

a setenta milhas da cidade mais próxima.

Parece que se tratava de um verdadeiro caso de mediunidade de efeitos

físicos, de natureza vulgar, como era de esperar onde o centro era um fazendeiro

bronco. Muitas investigações foram feitas, mas os fatos ficaram sempre inatingidos

pela crítica. Contudo, eventualmente, Koons e sua família eram conduzidos de casa,

pela perseguição da gente ignorante, em cujo meio viviam. A vida rude, ao ar Livre,

do fazendeiro parece especialmente adequada ao desenvolvimento da forte

mediunidade de efeitos físicos. Foi no lar de um fazendeiro americano que ela

primeiro se manifestou, e os Koons em Ohio, os Eddy em Vermont, Foss em

Massachusetts e muitos outros mostraram sempre a mesma força.

Podemos fechar este relato dos primeiros dias com muita propriedade,

citando em fato onde a intervenção dos Espíritos provou a sua importância para a

história do mundo. Foi um exemplo das inspiradas mensagens que determinaram a

ação de Abrahan Lincoln no momento supremo da guerra civil. Os fatos estão fora

de discussão e são citados com provas corroborantes do livro de Mrs. Maynard sobre

Abrahan Líncoln. O nome de solteira de Mrs. Maynard era Nettia Colburn e ela foi a

heroína da história.

A moça era poderosa médium de transe e visitou Washington no inverno de

1862, para ver seu irmão que se achava no Hospital do Exército Federal. Mrs.

Lincoln, esposa do Presidente, que se interessava pelo Espiritismo, fez uma sessão

com Miss Colburn, ficou muito impressionada com o resultado e, no dia seguinte,

mandou a carruagem buscar a médium para ver o Presidente. Ela descreve a bondosa

maneira com que o grande homem a recebeu à entrada da Casa Branca e cita o nome

das pessoas presentes. Sentouse,

caiu no transe costumeiro e não se recorda de mais

nada. E assim continua:

“Durante mais de uma hora fizeram falar com ele e, pelos amigos, soube

mais tarde que a conversa girava sobre coisas que ele parecia entender muito bem,

ao passo que eles pouco entendiam, inclusive a parte relacionada com a próxima

Proclamação da Emancipação. Foilhe

ordenado com a maior solenidade e força de

expressão que não modificasse os termos da sua proposição e não adiasse a sua

trans formação em lei até o começo do ano; foilhe

assegurado que isto seria o

coroamento de sua administração e de sua vida; e que, enquanto ele estava sendo

aconselhado por fortes elementos para adiar aquela medida, substituindoa

por

outras medidas e por uma dilação, não deveria dar atenção a tais conselhos, mas

firmarse

nas suas convicções e destemerosamente realizar o trabalho e cumprir a

missão para a qual tinha sido elevado pela Providência. Os presentes declararam que

esqueceram a presença da jovem timida, em face da majestade de sua advertência, a

força e o poder de suas linguagens e a importância da sua mensagem, que dava a

impressão de que uma poderosa força espiritual masculina falava sob um comando

96 – Ar thur Conan Doyle

divino. Jamais esquecerei a cena em meu redor, quando recuperei a consciência.

Achavame

de pé em frente a Mr. Lincoln, o qual se achava afundado em sua

cadeira, com os braços cruzados sobre o peito, olhandome

intensamente. Recuei,

naturalmente confusa com a situação — sem me lembrar de momento onde me

achava; relanceei o olhar sobre o grupo no qual reinava absoluto silêncio. Durante

um momento procurei recordarme

das coisas. Um cavalheiro presente disse então,

em voz baixa: ‘Senhor Presidente, notou algo de peculiar na maneira da

mensagem?’ Mr. Lincoln levantouse,

como que abalado. Pousou o olhar sobre o

retrato de corpo inteiro de Daniel Webster, acima do piano, e com muita ênfase,

respondeu: ‘Sim, e é muito singular, muito!’ Mr. Somes disse: ‘Senhor Presidente,

seria impróprio que eu perguntasse se houve qualquer pressão sobre Vossa

Excelência no sentido de adiar a aplicação da Proclamação?’ Ao que o Presidente

respondeu: ‘Nestas circunstâncias a pergunta tem toda propriedade, pois somos

todos amigos’ . E, sorrindo para o grupo, acrescentou: ‘Essa pressão abalame

os

nervos e as forças’. A essa altura os cavalheiros o rodearam falando em voz baixa,

sendo Mr. Lincoln o que menos falava. Por fim ele virouse

para mim e, pondo a

mão sobre minha cabeça, pronunciou as seguintes palavras que jamais esquecerei:

‘Minha filha, você possui um dom singular; e não tenho dúvidas que vem de Deus.

Agradeçolhe

por ter vindo aqui esta noite. Isto é mais importante, talvez, do que a

gente inimiga. Devo deixar vocês todos agora, mas espero vêla

novamente’ .

Sacudiu bondosamente a mão, curvouse

ante o resto do grupo e se foi. Ficamos

ainda uma hora, a conversar com Mrs. Lincoln e seus amigos e então voltei a

Georgetown. Essa foi a minha primeira entrevista com Abraham Lincoln e a sua

lembrança me ficou tão viva como na noite em que ela se deu.”

Foi este um dos mais importantes exemplos na história do Espiritismo e

também deve têlo

sido na história dos Estados Unidos, não só porque animou o

Presidente a dar um passo que levantou enormemente o moral do Exército do Norte

e pôs nos homens algo do espírito de cruzada; mas uma mensagem que se seguiu

apressou Lincoln a visitar os campos, o que ele fez com o melhor efeito sobre o

moral das tropas. Entretanto, em vão procurará o leitor qualquer referência nos

livros de história da grande luta e da vida do Presidente a esse episódio vital. Tudo

isto devido ao incorreto tratamento tanto tempo suportado pelo Espiritismo.

É impossível que se os Estados Unidos apreciassem a verdade, permitissem

que o culto, cujo valor ficou provado no mais sombrio momento de sua história, seja

perseguido e reprimido por uma polícia ignorante e por magistrados fanáticos, na

maneira agora tão comum, ou que a imprensa continue a mofar de um movimento

que produziu a Joana D’Arc de seu país.

97 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

7

A Aurora na Inglaterra

s primeiros espíritas frequentemente têm sido comparados aos primeiros

cristãos e, na verdade, há muitos pontos de semelhança. Num ponto,

entretanto, os espíritas levam uma vantagem: as mulheres da antiga

dispensação representaram nobremente o seu papel, vivendo como santas e

morrendo como mártires; mas não aparecem como pregadoras e missionárias. A

força psíquica e o conhecimento espírita, entretanto, são tão grandes num sexo

quanto no outro; daí muitos dos grandes pioneiros da revelação espírita terem sido

mulheres. Isto deve ser reclamado especialmente em relação a Emma Hardinge

Britten, criatura cujo nome cresce à medida que o tempo passa. Contudo, houve

várias outras missionárias destacadas; e a mais importante destas, do ponto de vista

inglês, é Mrs. Hayden, a primeira a trazer os novos fenômenos a estas plagas, no ano

de 1852. Tínhamos dos velhos apóstolos a fé religiosa. Finalmente aqui estava um

apóstolo do fato religioso.

Mrs. Hayden era uma senhora notável tanto quanto excelente médium. Era

esposa de um respeitável jornalista da Nova Inglaterra, que a acompanhava em sua

missão, organizada por um tal senhor Stone, o qual tinha alguma experiência das

faculdades dela na América. Por ocasião de sua visita foi descrita como “moça,

inteligente e, ao mesmo tempo, de maneiras simples e cándidas”. Acrescenta o seu

crítico britânico: “Ele desarmava a suspeita por uma atitude de naturalidade sem

afetação e muitos que vinham procurar divertirse

à sua custa eram forçados ao

respeito e, até, à cordialidade pela paciência e bom humor que ela demonstrava. A

invariável impressão deixada por uma entrevista com ela era que, conforme a

observação de Mr. Dickens, se os fenômenos produzidos por ela fossem atribuidos a

artifícios, era ela, até onde a arte poderia chegar, a mais perfeita artista, jamais

apresentada ao público” .

A ignorante imprensa britânica tratou Mrs. Hayden como simples

aventureira americana. Seu verdadeiro calibre mental, entretanto, pode ser avaliado

pelo fato de que, alguns anos mais tarde, depois de seu regresso aos Estados Unidos,

Mrs. Hayden formouse

em medicina e exerceu a profissão durante quinze anos, O

Doutor James Rodes Buchanan, famoso pioneiro da psicometria, a ela se refere

como “um dos mais hábeis e bem sucedidos médicos que jamais conheceu.” Foilhe

oferecida uma cadeira de professor de medicina numa faculdade americana e ela foi

empregada pela Globe Insurance Com pany, no serviço de proteção da companhia

contra os prejuízos nos seguros de vida. Um dos aspectos de seu sucesso era aquilo

que Buchanan descreve como o seu gênio psicométrico. E acrescenta um único

tributo ao fato de seu nome ter sido quase esquecido pela Junta de Saúde, porque,

durante muitos anos, ela não deu nenhum atestado de óbito.

O

98 – Ar thur Conan Doyle

Tudo isto, entretanto, estava acima do conhecimento dos cépticos de 1852,

que não podem ser censurados por insistirem para que essas estranhas manifestações

de alémtúmulo

fossem examinadas com o máximo rigor, antes de serem admitidas.

Ninguém poderia oporse

a essa atitude da crítica. Mas o que parece estranho é que

uma proposição que, se verdadeira, envolveria tão boas novas quanto a transposição

das barreiras da morte e a verdadeira comunicação dos santos, provoque não uma

crítica serena, conquanto rigorosa, mas uma tempestade de insultos e de abusos,

inescusáveis em qualquer momento, mas principalmente quando dirigidos a uma

senhora que visitava os nossos meios. Diz Mrs. Hardinge Britten que Mrs. Hayden

não apareceu em cena antes que os chefes da imprensa, do púlpito e das academias

não tivessem contra ela levantado uma tempestade de obscenidades, de perseguições

e de insultos, tão deprimentes para os autores quanto humilhantes para o decantado

liberalismo e para a acuidade científica de sua época.

Acrescenta que o seu delicado espírito feminino deve ter sido

profundamente ferido e que a harmonia mental, tão essencial à produção de bons

resultados psicológicos, constantemente foi destruída, pelo cruel e insultuoso

tratamento daqueles que se apresentaram como investigadores, mas na verdade

ardendo de desejo de destruila

e armando ciladas para falsearem as verdades de que

Mrs. Hayden se tornara instrumento. Extremamente sensível ao ânimo de seus

visitantes, ela podia sentir, e por vezes se abateu sob a esmagadora força do

antagonismo despejada sobre ela — sem que, então, soubesse como repelir ou

resistir.

Ao mesmo tempo não se achava a nação inteira envolvida nessa hostilidade

irracional que, de forma diluída, ainda vemos em torno de nós. Levantaramse

homens corajosos, que não temeram comprometer a sua carreira profissional ou a

sua reputação de equilíbrio, como campeões contra uma causa impopular: eram

tangidos pelo simples apêgo à verdade e por aquele espírito cavalheiresco, revoltado

contra a perseguição a uma senhora. O Doutor Ashburner, um dos médicos do rei e

Sir Charles Isham eram contados entre os que defenderam o médium pela imprensa.

Julgada pelos modernos padrões, a mediunidade de Mrs. Hayden parece ter

sido estritamente limitada. A não ser para as batidas, pouco se fala de fenômenos

físicos, do mesmo modo que não se alude a luzes, a materializações, ou Vozes

Diretas. Entretanto, em harmoniosa companhia, as respostas obtidas pelas batidas

eram exatas e convincentes.

Como todo verdadeiro médium, era sensitivo às discórdias em seu redor. E

o resultado disso era que a multidão desprezível de zombadores e pesquisadores de

maus instintos que a visitavam tinham nela uma vítima fácil. Decepção é paga com a

decepção e o louco recebe resposta conforme a sua Loucura, embora a inteligência

que está por detrás das palavras aparentemente não se preocupe muito com o fato de

que o instrumento empregado possa ser tomado como responsável pela resposta.

Esses pseudopesquisadores enchem a imprensa com seus relatos humorísticos de

como enganaram aos Espíritos quando, na realidade, eles é que foram enganados.

George Henry Lewes, posteriormente esposo de George Eliot 25 era um desses

25 George Eliot é o nome literário de Mary Ann Evans, nascida em 1819 e morta em 1880. Enviuvou em

1878; casouse

pouco antes de morrer, com J. W. Cros. — N. do T.

99 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

cínicos investigadores. Conta ele com ironia que, tendo perguntado por escrito ao

Espírito manifestante: “Mrs. Hayden é uma impostora?” , este respondeu: “Sim” .

Lewes era suficientemente desonesto para citar isto como se fosse uma confissão de

culpa de Mrs. Hayden. Qualquer um daí deduziria que as batidas eram inteiramente

independentes do médium e, ainda, que perguntas feitas com puro espírito de

frivolidade não merecem resposta séria.

Entretanto, é pela forma positiva e não pela negativa que perguntas como

esta devem ser julgadas; e o autor deve aqui usar citações mais do que normalmente

é seu hábito, pois não há outra maneira de mostrar como aquelas sementes foram

inicialmente lançadas na Inglaterra e destinadas a atingir tão grandes alturas. Já

aludiu ao testemunho do Doutor Ashburner, o famoso médico e talvez seja bom

acrescentar algumas palavras suas. Diz ele 26 : “O sexo deveria têla

protegido contra

as injúrias, se. esses rapazes da imprensa não têm consideração pelos sentimentos

de hospitalidade para com alguém de nossa classe, pois Mrs. Hayden é esposa de

um antigo editor e proprietário de jornal em Boston, o qual tem a maior circulação

na Nova Inglaterra. Eu lhes declaro que Mrs. Hayden não é uma impostora; e quem

quer que se aventure a uma conclusão oposta fáloá

sacrificando a verdade.”

Novamente, em longa carta a The Reasoner 27 depois de confessar que tinha

visitado a médium numa disposição de espírito de absoluta incredulidade, esperando

testemunhar “a mesma classe de aparentes absurdos”, que tinha encontrado em

outros supostos médiuns, escreve Ashburner: “Em relação a Mrs. Hayden tenho tão

forte convicção de sua perfeita honestidade que me admiro de que alguém possa

deliberadamente acusála

de fraude” . Ao mesmo tempo fornece detalhes de

comunicações verazes que recebeu. Entre os investigadores estava o célebre

matemático e filósofo Professor De Morgan. Ele relata suas experiências e

conclusões no longo e magistral prefácio ao livro de sua esposa “From Matter to

Spirit”, publicado em 1863, dizendo: “Há dez anos passados Mrs. Hayden, a

conhecidíssima médium americana, veio sozinha à minha casa. A sessão começou

imediatamente após a sua chegada. Oito ou nove pessoas de todos os graus de

crença e de descrença de que a coisa fosse impostura se achavam presentes. As

batidas começavam como de costume. Para mim eram limpas, claras, fracos sons

que, se tivessem durado, dirseiam

de uma campainha. Então os comparei ao ruído

feito pelas pontas de agulhas de tricô, se largadas de uma certa altura sobre o

mármore de uma mesa e que instantâneamente fosse abafado por um processo

qualquer. E a seguir a prova que fizemos mostrou que minha descrição era

razoàvelmente aceitável... No último período naquela noite, depois de cerca de três

horas de experiência, Mrs. Hayden levantouse

e falando a uma outra mesa,

enquanto tomava um refresco, subitamente uma criança disse: ‘Quererão todos os

Espíritos que estiveram aqui esta noite bater ao mesmo tempo?’ Nem bem haviam

sido pronunciadas aquelas palavras e uma saraivada de batidas de agulhas de tricô

foi ouvida durante cerca de dois segundos, ouvindose

distintamente o ruído forte

das dos homens e mais fraco das mulheres e crianças, embora em perfeita desordem

na sua produção”.

26 The Leader , 14 de março de 1853.

27 1º e 8 de junho de 1853.

100 – Ar thur Conan Doyle

Depois de uma observação no sentido de assentar que admite as batidas

como produzidas pelos Espíritos, continua o Professor De Morgan: “Solicitado a

fazer uma pergunta ao primeiro Espírito, perguntei se poderia fazer tal pergunta

mentalmente, isto é, sem a pronunciar, ou a escrever, ou apontar as letras

componentes, e se Mrs. Hayden poderia ficar com os braços estendidos enquanto

estivesse sendo dada a resposta. Os pedidos foram imediatamente garantidos por

duas batidas. Fiz a pergunta e desejei que a resposta fosse dada numa só palavra

que escolhi; tudo mentalmente. Então, tomei o alfabeto impresso, pus o livro de pé à

sua frente e, olhando para aquele, comecei a apontar as letras como de costume.

Foi dada a palavra ‘chass’ 28 ; foi dada por meio de batidas a cada letra. Eu tinha

agora uma raciocinada certeza da seguinte alternativa: ou uma leitura do

pensamento de caráter inteiramente inexplicável, ou uma acuidade sobrehumana da

parte de Mrs. Hayden, que lhe permitia perceber a letra que eu fixava, muito

embora, sentada a cerca de dois metros do livro que escondia o meu alfabeto, nem

pudesse ver a minha mão nem os meus olhos nem, de modo algum, como estava

apontando as letras. Antes que a sessão terminasse eu tinha sido obrigado a afastar

a segunda hipótese.”

Outro episódio da sessão, que ele relata, é dado com muitos detalhes, numa

carta dirigida ao Reverendo W. Heald dez anos antes, que fosse publicada no livro

de sua esposa “Memoir of Agostous De Morgan”, páginas 221 e 222:

“Então veio meu pai (ob. 1816) e, depois de uma ligeira conversa, o

seguinte diálogo foi estabelecido:

— ‘Lembrase

de um periódico que tenho em mente?’

— ‘Sim.’

— “Lembrase

das expressões que se referem a você?’

— ‘Sim’.

— ‘Pode darme

pelas cartas as iniciais daquelas expressões?’

— ‘Sim’.

“Então comecei a apontar o alfabeto, tendo um livro a tapar as cartas. Mrs.

H. se achava do outro lado de uma grande mesa redonda e uma lâmpada forte estava

entre nós. Apontei letra por letra até que cheguei a F, que supunha fosse a primeira

inicial. Nenhuma batida. Alguém perto de mim disse: ‘Você passou; houve uma

batida no começo’ . Recomecei e ouvi uma batida distinta no C. Isto me intrigou,

mas logo vi o que era. A sentença havia começado por uma batida mais cedo do que

eu esperava. Eu tinha deixado passar o ‘C’ e registrado o ‘D’ ‘T’ ‘E’ ‘O’ ‘C’,

iniciais das palavras consecutivas de referência a meu pai, numa velha revista

publicada em 1817, das quais ninguém na sala jamais ouvira falar, exceto eu. ‘C’

‘D’ ‘T’ ‘E’ ‘O’ ‘C’ estava certo e, assim que o constatei, parei, perfeitamente

satisfeito que alguma forsa, ou alguém, ou algum Espírito, estivesse lendo os meus

pensamentos. Estas e outras coisas se continuaram por cerca de três horas, durante

grande parte das quais Mrs. H. estivera lendo a ‘Key to Uncle Tom’s Cabin’ 29 , que

nunca tinha visto antes e lhe asseguro que o fazia com tanta avidez quanto v cê pode

imaginar numa americana que o vê pela primeira vez. Enquanto isto, nós nos

distraíamos por outro lado com as batidas. Declaro que tudo isto é absolutamente

verdadeiro. Desde então tenho visto isto com frequência em minha casa, sob o

testemunho de várias pessoas. A maior parte das respostas é dada pela mesa, na qual

28 Xadrez (o jogo). — N. do T.

29 “Chave da Cabana do Pai Tomás.” — N. do T.

101 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

são colocadas de leve uma ou duas mãos, para apontar as letras. Há muita coisa

confusa nas respostas, mas de vez em quando vem algo que nos surpreende. Não

tenho ideia formada a respeito, mas em um ou dois anos pode acontecer algo de

curioso. Entretanto estou satisfeito com a realidade do fenômeno. Como eu, muitas

outras pessoas conhecem estes fenômenos, experimentando em suas próprias casas.

Se você é um filósofo, pense o que quiser.”

Quando o Professor De Morgan diz que algum Espírito estava lendo seus

pensamentos, deixa de observar que o incidente da primeira letra era prova de

qualquer coisa que não estava em sua mente. Assim, da atitude de Mrs. Hayden

durante a sessão, é claro que se tratava de sua atmosfera e não de sua atual

personalidade consciente. Outras provas importantes do De Morgans vão para o

Apêndice.

Mrs. Fitzgerald, a conhecida figura dos primeiros tempos do Espiritismo

em Londres, publica no The Spiritualist de 22 de novembro de 1878, a notável

experiência feita com Mrs. Hayden, que damos a seguir:

“Meu primeiro contacto com o Espiritismo se deu há trinta anos, quando

da primeira visita a este país feita pela conhecida médium, Mrs. Hayden. Fui

convidada a vêla

numa reunião dada por uma amiga em Wimpole Street, em

Londres. Tendo antes assumido para aquela tarde um compromisso que não podia

cancelar, cheguei atrasada, depois de uma cena extraordinária, da qual todos

falavam animadamente. Meu olhar de desapontamento foi notado e Mrs. Hayden,

que então encontrava pela primeira vez, adiantouse

muito bondosa, exprimindo o

seu pesar e sugerindo que me sentasse a uma mesinha, separada das Outras pessoas,

e que iria pedir aos Espíritos que se comunicassem comigo. Tudo isso era tão novo

e surpreendente que eu quase não compreendia o que ela estava dizendo ou o que eu

devia esperar. Ela colocou um alfabeto impresso à minha frente, um lápis e uma

folha de papel. Enquanto isto fazia, senti extraordinariamente as batidas sobre a

mesa, cujas vibrações me atingiam a planta do pé, apoiado sobre o pé da mesa.

Então ela me ensinou a anotar cada letra indicada por uma batida distinta e, com

essa simples explicação, deixoume

entregue a mim mesma. Indiquei, como

desejava, e uma batida distinta marcou a letra E; outras se seguiram até formarem

um nome que eu não podia ignorar. Foi dada a data da morte, que eu ignorava e

acrescendo uma mensagem que trouxe á minha memória as últimas fracas palavras

de uma velha amiga, a saber: ‘Velarei por ti!’ Então se desenhou vivamente em

minha memória a lembrança de toda a cena. Confesso que fiquei estupefata e algo

aterrada. Levei o papel no qual tudo isso fora escrito e ditado pelo Espírito de minha

amiga ao seu último procurador e ele me garantiu que as datas, etc. , estavam

perfeitamente corretas. Não tinham ficado em minha mente porque eu não me tinha

preocupado com elas.”

É interessante notar que Mrs. Fitzgerald declara que supunha que a primeira

sessão de Mrs. Hayden em Londres tinha sido feita com Lady Cambermere, seu

filho, o Major Cotton, e Mr. Henry Thompson, de York. No mesmo volume de The

Spiritualist, à página 264, aparece o relato de uma sessão com Mrs. Hayden,

realizada em vida de Charles Young, o conhecido ator trágico, escrito por seu filho,

o Reverendo Julian Young:

“19 de Abril de 1853. Neste dia fui a Londres com o propósito de

consultar meus advogados sobre assunto de importância para mim e, tendo ouvido

falar muito de uma Mrs. Hayden, senhora americana e médium espírita, desde que

102 – Ar thur Conan Doyle

me achava na cidade resolvi descobrila

e avaliar os seus dons por mim mesmo.

Acidentalmente encontrei um velho amigo, Mr. H., a quem pedi o endereço dela.

Disseme

ele que era em 22, Queen Street, Cavendish Square. Como ele jamais a

tinha visto e desejava vêla,

mas não queria gastar um guinéu para isto, convideio

para ir comigo. Aceitou com satisfação. As batidas de espíritos tornaramse

tão

comuns em 1853 que eu abusaria da paciéncia do leitor se fosse descrever a maneira

convencional de comunicação entre vivos e mortos. Desde a data acima tenho

assistido muito a batidas de Espíritos; e, con quanto meus órgãos da imaginação

sejam muito desenvolvidos, e eu tenha um fraco pelo místico e pelo sobrenatural,

ainda não posso dizer que haja testemunhado qualquer fenômeno espírita que não

possa ser explicado por meios naturais, exceto o caso que vou relatar, no qual

qualquer conluio parece afastado, pois o amigo que me acompanhava jamais tinha

visto Mrs. Hayden e ela nem sabia o seu nome nem o meu. Entre mim e Mrs.

Hayden travouse

o seguinte diálogo:

Mrs. H.: — O senhor deseja comunicarse

com algum amigo já falecido?

J. C. Y.: — Sim.

Mrs. H.: — Então tenha a bondade de fazer perguntas na maneira

indicada na fórmula e eu lhe digo que obterá respostas satisfatórias .

J. C. Y. (Dirigindose

a um invisível que admitia estivesse presente): —

Digame

o nome da pessoa com quem desejo comunicarme.

As letras foram marcadas por batidas à medida que eram pronunciadas e

formaram o nome de George William Young.

— Em quem estão fixados os meus pensamentos?

— Frederick William Young.

— De que sofre ele?

— Tic doloroso.

— Pode indicar alguma coisa para ele?

— Enérgico mesmerismo.

— Quem lho poderia administrar?

— Alguém que tivesse grande simpatia com o paciente.

— Eu teria êxito?

— Não.

— Quem teria?

— Joseph Ries.

Era um rapaz a quem meu tio respeitava.

— Perdi algum amigo recentemente?

— Sim.

— Quem?

Eu estava pensando em Miss Young, uma prima longe.

— Christiana Lane.

— Pode dizer onde dormirei esta noite?

— Em casa de James B, 9, Clarges Street.

— Onde dormirei amanhã?

— Na casa do Coronel Weymonth, em Upáginaser Grosvenor Street.

Eu estava tão assombrado com a exatidão das respostas dadas as minhas

perguntas que disse ao senhor que estava comigo que desejava fazer algumas

perguntas íntimas, que ninguém deveria ouvir e, assim, me via obrigado a lhe pedir

que passasse á sala vizinha por alguns minutos. Isto posto, retomei o diálogo com

Mrs. Hayden.

— Levei o meu amigo a afastarse

porque não desejo que ele saiba da

pergunta que desejo fazer; mas, também, estou ansioso por que a senhora também

103 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

não a saiba e, se bem compreendo, nenhuma resposta me pode ser dada senão por

intermédio da senhora. Em tais circunstâncias, como deveremos proceder?

— Faça a sua pergunta de maneira que a resposta possa ser dada por

uma palavra que focalize a ideia que o senhor tem em mente.

— Tentarei. Realizarseá

aquilo que me ameaça?

— Não.

— Isto não satisfaz. É fácil dizer sim ou não, mas o valor da afirmação ou

da negação dependerá da convicção que tenho de que a senhora saiba em que estou

pensando. Dême

uma palavra que mostre que a senhora tem a pista dos meus

pensamentos.

— Testamento.

— Na verdade, um testamento pelo qual eu seria beneficiado estava

ameaçado de contestação. Eu desejava saber se a ameaça seria levada a efeito. A

resposta recebida era correta”.

Deve notarse

que Mr. Young, antes ou depois da sessão, não acreditava na

manifestação dos Espíritos e que, certamente, depois dessa experiência, a

assimilação de novos conhecimentos não depõe muito em favor de sua inteligência

ou de sua capacidade.

A seguinte carta de Mr. John Malcolm, de Clifton, Bristol, publicada em

The Spiritualist, menciona como são os assistentes pessoais muito conhecidos.

Discutindo a questão levantada: onde teria sido realizada a primeira sessão na

Inglaterra e quem a teria assistido, diz ele: “Não me lembro da data; mas, visitando

a minha amiga Mrs. Crowe, autora de “The Night Side of Natitre” 30 esta me

convidou para acompanhála

a uma sessão espírita em casa de Mrs. Hayden, em

Queen Anne Street, Cavendish Square. Informoume

que Mrs. Hayden acabava de

chegar da América para exibir os fenômenos espíritas ao povo da Inglaterra, que

deveria interessarse

pelo assunto. Estavam presentes Mrs. Crowe, Mrs. Milner

Gibson, Mr. Collej Grattan, autor de “High Ways and Bye Ways” 31 , Mr. Robert

Chambers, Doutor Daniel, Doutor Samuel Dickson e muitos outros cujos nomes não

ouvi. Algumas manifestações notabilíssimas ocorreram nessa ocasião.

Posteriormente tive oportunidade de visitar Mrs. Hayden e, con quanto de início

inclinado a duvidar da autenticidade dos fenômenos, tive prova tão evidente da

comunicação dos Espíritos que me tornei um firme crente nessa verdade”.

Na imprensa inglesa desencadeouse

furiosa luta. Pelas colunas do jornal

londrino Critic, Mr. Henry Spicer, autor de “Sights and Sounds” 32 , respondia às

críticas do Household Worlds, do Leader e do Zoist. Seguiuse

no mesmo jornal

uma longa contribuição de um clérigo de Cambridge, que usava as iniciais M. A., e

que era admitido como sendo o Reverendo A. W. Hobson, do St. John’s College, de

Cambridge.

A descrição desse cavalheiro é forte e expressiva, mas demasiadamente

longa para ser transcrita. A questão é de alguma importância, na opinião do autor,

por se tratar do primeiro clérigo inglês interessado no assunto. É estranho e, talvez,

característico da época, quão pouco as conseqüências religiosas chocaram os vários

30 “O Lado Obscuro da Natureza”. — N. do T.

31 “Estradas reais e caminhos secretos” — N. do T.

32 “Visões e ruídos” — N. do T.

104 – Ar thur Conan Doyle

assistentes e como ficaram eles inteiramente absorvidos em saber o segundo nome

da avó ou o número de seus tios. Mesmo os mais zelosos faziam perguntas fúteis e

ninguém demonstrava haver compreendido as reais possibilidades de um tal

intercâmbio ou que se poderia estabelecer uma base firme para a crença religiosa.

Contudo aquele clérigo, de maneira acanhada, viu o lado religioso da questão. E

termina o seu relato com este parágrafo:

“Concluo em poucas palavras aos numerosos leitores clericais de Critic.

Como clérigo da Igreja da Inglaterra, considero este um assunto ao qual meu irmão

sacerdote deve, mais cedo ou mais tarde, demonstrar interesse, por mais relutante

que seja em se dedicar a ele. E minhas razões, em poucas palavras, são as seguintes:

Se um tal interesse se generalizar neste país, como já aconteceu na América, — e

que razões temos nós para não o admitir? — então o clero de todo o reino a ele será

chamado de todos os lados, terá que dar a sua opinião e provavelmente será

obrigado, por seus mesmos deveres, a interferir e a evitar as mistificações a que, em

muitos casos, o mistério conduziu. Um dos mais sensíveis e hábeis escritores sobre

as manifestações espíritas na América, como por exemplo AdinBallou,

em seu

trabalho advertiu os leitores que não acreditassem em todos os Espíritos que se

comunicam, nem mudassem de opinião nem de crença, como tem sido feito aos

milhares, influenciados por estas batidas. A coisa apenas começou na inglaterra;

mas em poucos meses, desde que o casal Hayden chegou a Londres, espalhouse

como fogo na floresta e tenho boas razões para dizer que o entusiasmo apenas se

acha em começo. Pessoas que de início consideraram a coisa como impostura e

mistificação, testemunhando elas próprias os fenômenos, a princípio ficaram

chocadas e atônitas, depois aceitaram cegamente as mais loucas conclusões —

como, por exemplo, que tudo é trabalho do demônio ou, em sentido contrário, que

há uma revelação do Céu. Vejo muitas pessoas capazes e inteligentes, terrível e

completamente mistificadas. E ninguém sabe o que fazer. De minha parte apressome

a confessar que também me sinto mistificado. De que não é impostura estou

absoluta e perfeitamente convencido. Além dos testes acima referidos, tive uma

longa conversa com Mr. Hayden e sua senhora, separadamente, e tudo quanto me

disseram tinha a marca de sinceridade e boa fé. Aliás isto não constitui prova para

outros, mas apenas para mim. E se engano existe, tão enganados estão eles quanto

as suas vítimas.”

Não foi o clero, mas os livrespensadores

que perceberam a verdadeira

significação da mensagem, e que ou deviam lutar contra essa prova da vida eterna ou

deviam confessála

honestamente, como tantos de nós o fizemos desde então, que a

sua filosofia estava estraçalhada e que eles tinham sido batidos no seu próprio

campo. Esses homens tinham pedido provas em questões transcendentes e os mais

honestos e argutos foram forçados a admitir que as tinham tido. O mais nobre de

todos eles foi Robert Owen, tão famoso por seus trabalhos humanitários como por

sua atrevida independência em questões religiosas.

Esse homem corajoso e honesto declarou publicamente que os primeiros

raios desse sol nascente o tinham ferido e haviam dourado o sombrio futuro que ele

imaginava. Diz ele:

“Tracei pacientemente a história dessas manifestações, investiguei os fatos

a elas ligados, em numerosos casos testemunhados por pessoas de grande caráter,

tive catorze sessões com a médium Mrs. Hayden, durante as quais ela me deu todas

as oportunidades para verificar, quando possível, se poderia ter havido qualquer

mistificação de sua parte.”

105 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

“Não só me convenci de que não havia mistificação, com médiuns

fidedignos nesses processos, mas que os mesmos estão destinados, no atual período,

a realizar a maior revolução moral no caráter e nas condições da raça humana.”

Mrs. Emma Hardinge Britten comenta o interesse e a admiração produzida

pela conversão de Robert Owen, cuja influência, puramente materialista, era tida

como exercendo um efeito prejudicial sobre a religião. Diz ela que um dos mais

preeminentes estadistas ingleses dizia que “Mis. Hayden merecia um monumento,

quando mais não fosse, pela só conversão de Robert Owen”.

Pouco depois o famoso Doutor Elliotson, presidente da secular sociedade,

foi convertido, como São Paulo, depois de violento ataque à nova revelação. Ele e o

Doutor Ashburner tinham sido os mais preeminentes defensores do mesmerismo

naqueles dias em que esse indiscutível fenômeno tinha que lutar por sua existência e

quando cada médico que o apoiava estava arriscado a ser chamado de charlatão. Foi

penoso para ambos, porque enquanto o Doutor Ashburner se atirava entusiasmado

nessas altas cogitações, seu amigo se via compelido não só a repelilo,

mas a atacálo.

Contudo, a divergência foi liquidada pela completa conversão de Elliotson; e

Mis. Hardinge Britten relata como, em seus últimos dias, ele insistia para que ela

viesse vêlo

e como o encontrou como um fervoroso adepto do Espiritismo, uma fé

que o venerando senhor amava como a mais brilhante revelação, que jamais o havia

iluminado e que, finalmente, suavizando a escura passagem para o Além da Morte,

havia feito dessa transição uma cena de fé triunfante e de sorridente antecipação.

Como era de esperar, não demorou muito para que o rápido

desenvolvimento dos fenômenos das mesas obrigasse os cientistas cépticos a lhes

reconhecer a existência ou, pelo menos, tentar demonstrar o engano dos que

atribuíam os movimentos a uma causa externa. Braid, Carpenter e Faraday

sustentavam publicamente que os resultados obtidos eram devidos apenas a uma

ação muscular inconsciente. Faraday imaginou instrumentos engenhosos por meio

dos quais tinha comoprovada a sua assertiva. Mas, como muitos outros críticos, não

tinha feito experiências com um bom médium e o fato muito bem constatado do

movimento de mesas sem contacto era suficiente para desmoronar as suas teorias. Se

se pudesse imaginar um leigo sem telescópio a contradizer um astrônomo, que o

tivesse usado, teríamos uma analogia para essa gente que se aventura a criticar

assuntos psíquicos sem jamais ter feito experiências psíquicas.

Foi Sir David Brewster quem exprimiu o estado de ânimo daquela época.

Falando de um convite de Monckton Milnes para encontrarse

com Mr. Galla, o

explorador africano “que lhe havia assegurado que Mrs. Hayden lhe havia dito

nomes de pessoas e lugares da África que ninguém, a não ser ele, podia saber”,

comenta Sir David: “É fora de dúvida que o mundo está ficando maluco” .

Mrs. Hayden ficou cerca de um ano na Inglaterra, tendo voltado para a

América em fins de 1853. Um dia, quando estas questões tiverem a sua verdadeira

proporção, em relação a outros acontecimentos, sua visita será considerada como um

acontecimento histórico marcante. Dois outros médiuns americanos estiveram na

Inglaterra durante a sua visita: Mrs. Roberts e Miss Jay; seguiramna

pouco depois,

mas parece que tiveram pouca influência no movimento e que lhe foram inferiores

em força psíquica.

106 – Ar thur Conan Doyle

Um quadro daqueles primeiros dias é dado por um resumo de um artigo

sobre o Espiritismo, publicado a 25 de outubro de 1856 no The Yorkshireman,

jornal não espírita:

“Pensamos que, em geral, o público inglês não conhece a natureza das

doutrinas espíritas e, sem dúvida, muitos dos nossos leitores certamente não se

acham preparados para pensar que elas prevaleçam, até certa extensão, em nosso

país. Os fenômenos comuns de movimento de mesas, etc., na verdade são familiares

a muita gente. Há cerca de dois ou três anos não havia uma reunião noturna que não

tentasse a realização de um milagre espírita... Naqueles dias a gente era convidada

para ‘chá e mesas girantes’, como um novo divertimento e tinha que se mexer com

toda a família, em volta dos móveis, como loucos”.

Depois de afirmar que o ataque de Faraday “tinha espantado os Espíritos”,

de modo que por algum tempo não mais se ouvia falar das suas atividades,

acrescenta o jornal:

“Contudo temos provas amplas de que o Espiritismo, como uma crença

vital e ativa, não está circunscrito aos Estados Unidos, mas encontrou favor e

aceitação entre um considerável número de entusiastas em nosso país.”

Mas a atitude geral da imprensa mais influente foi muito semelhante à

atual: ridículo e negação dos fatos e o ponto de vista que, mesmo quando os fatos

fossem verdadeiros, para que serviriam? The Times, por exemplo, um jornal muito

mal informado e reacionário sobre assuntos psíquicos, num artigo de fundo, pouco

depois dessa data, sugere:

“Seria algo como tomar o nosso chapéu do cabide por um esforço de

vontade, sem ir pegálo

ou ocupar um criado.

“Se a força da mesa pudesse ser aplicada ao menos para acionar uma

máquina de moer café ganharíamos alguma coisa.

“Seria melhor que os nossos médiuns, em vez de indagar de que morreu

alguém há cinquenta anos, descobrissem as cotações da bolsa daqui a três meses”.

Quando a gente lê tais comentários num grande jornal, fica a pensar se

realmente esse movimento não foi prematuro e se, numa época tão baixa e material,

não seria impossível fixar a ideia de uma intervenção exterior. Entretanto a maior

parte dessa intervenção era devida à frivolidade dos investigadores que ainda não

haviam compreendido a inteira significação desses sinais do Além e os empregava,

como assinala o jornal de Yorkshire, como uma espécie de divertimento social e

uma nova excitação para uma mundanidade fatigada.

Mas enquanto, na opinião da imprensa, um golpe mortal havia sido dado no

desacreditado movimento, a investigação prosseguia silenciosamente em muitos

lugares.

Gente sensata, segundo indica Howitt “estava com êxito experimentando

aqueles anjos, na sua mesma forma de apresentação e verificando que eram reais”

pois, como diz muito bem, “os médiuns públicos jamais fizeram mais do que

inaugurar o movimento”. Se tivéssemos que julgar pelo público testemunho da

época, a influência de Mrs. Hayden deveria ser considerada como de pouca

extensão. De um modo geral, para o público era ela uma maravilha fugaz; mas

espalhou muita semente que germinou lentamente. O fato é que abriu o assunto e o

107 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

povo, na maioria nos mais baixos degraus da vida, começou a experimentar e a

descobrir a verdade por si mesmo; embora com as cautelas filhas da experiência,

tomou a maior parte dessas experiências para si próprio. É fora de dúvida que Mrs.

Hayden desempenhou a sua missão.

A história do movimento bem pode ser comparada a um mar que avança em

ondas sucessivas, cada vez maiores. Cada onda era tomada pelo observador como

sendo a última, até que surgisse uma nova vaga. O tempo decorrido entre a partida

de Mrs. Hayden em 1853 e o aparecimento de D. D. Home em 1855 representa o

primeiro repouso na Inglaterra. Os críticos superficiais pensavam que era o fim. Mas

em milhares de casas em todo o país realizavamse

experiências; muitos dos que

haviam perdido completamente a fé nas coisas do espírito, naquilo que era talvez o

mais material período da história do mundo, tinham começado a examinar as provas

e a compreender com alívio ou com espanto que estava passando a idade da fé, e que

o período do conhecimento, que São Pedro havia dito ser melhor, estava se

aproximando. Dedicados estudantes das Escrituras recordam as palavras do Mestre:

“Eu tenho ainda muitas coisas que vos dizer; mas vós não as podeis suportar agora”

e pensavam se esses estranhos movimentos de forças exteriores não fariam parte

daquele novo conhecimento que havia sido prometido.

Enquanto Mrs. Hayden havia plantado as primeiras sementes em Londres,

uma segunda onda de acontecimentos tinha trazido os fenômenos espíritas ao

alcance do povo de Yorkshire. Isto se deveu à visita de um certo Mr. David

Richmond, um “shaker” americano, à cidade de Keighley, quando procurou Mr.

David Weatherhead e o interessou no novo desenvolvimento. Foram obtidas

manifestações de mesa e descobertos médiuns locais, de modo que se organizou um

centro florescente, que ainda existe. De Yorkshire o movimento ganhou o

Lancashire e formou uma interessante cadeia com o passado, essa formada por Mr.

Wolstenholme, de Blackburn, falecido em 1925, em idade provecta e que, quando

garoto, escondeuse

debaixo de uma mesa numa dessas primeiras sessões, de onde

testemunhou os fenômenos, embora pensemos que não os tenha auxiliado. O jornal

The Yorkshire Spiritual Telegraph apareceu em Keighley em 1855, e suas despesas,

bem como outras, foram cobertas por David Weatherhead, cujo nome deveria ser

venerado como um dos primeiros a entregarse

de corpo e alma no movimento.

Keighley é ainda um centro ativo de trabalho e de estudos psíquicos.

108 – Ar thur Conan Doyle

8

Progressos Contínuos na Inglaterra

Relato feito por Mrs. De Morgan sobre dez anos de experiência de

Espiritismo cobre um período de 1853 a 1863. O aparecimento desse livro

com o prestigioso prefácio do Professor De Morgan, foi um dos primeiros

sinais de que o novo movimento tanto se espalhava nas altas camadas quanto nas

massas. Então surgiu o trabalho de D. D. Home e o dos Davenport, que são tratados

alhures minuciosamente. O exame pela Sociedade Dialética começou em 1869 e a

ele nos referimos mais adiante. O ano de 1870 foi a data das primeiras pesquisas de

William Crookes, empreendidas depois do escândalo produzido pela recusa dos

homens de ciência “de investigar a existência e a natureza de fatos constatados por

muitas testemunhas honestas e fidedignas.”

No mesmo periódico — o Quarterly Journal of Science — referese

ele à

crença compartilhada por milhões, e acrescenta: “Quero verificar as leis que regem

a manifestação de tão notáveis fenômenos que, presentemente, ocorrem numa

amplitude quase incrível.”

A história dessa pesquisa foi publicada in extenso em 1874 e causou

tamanho tumulto entre os mais fossilizados homens de ciência — desses de quem se

pode dizer que ficaram com a mente dominada por aquilo em que trabalham — que

chegaram a propalar que ele seria expulso da Sociedade Real. A tempestade

desabou, mas Crookes foi chocado por sua violência e verificouse

que, durante

muitos anos, até que a sua posição fosse consolidada, tornouse

muito cauteloso em

exprimir publicamente as suas opiniões. Em 187273

apareceu o Reverendo Stainton

Moses como um novo fator e sua escrita automática levantou o assunto para um

plano mais espiritual, na opinião de muita gente. O lado fenomênico pode atrair a

curiosidade, mas quando muito repetido como que choca as mentes judiciosas.

Então ficaram em moda as conferências e os transes. Mrs. Emma Hardinge

Britten, Mrs. Cora L. V. Tapáginasan e Mr. J. J. Morse fizeram orações eloquentes,

supostamente sob a ação de Espíritos, influenciando largamente enormes auditórios.

Mr. Gerald Massey, o conhecido poeta e escritor e o Doutor George Sexton também

fizeram conferências públicas. De um modo geral o Espiritismo teve grande

publicidade.

O estabelecimento da “British National Association of Spiritualists” 33 em

1873 deu impulso ao movimento, porque muitos homens públicos bem conhecidos e

senhoras da alta sociedade a ela se associaram. Entre estas devem ser mencionadas a

Condessa de Caithness, Mrs. Makdougall Gregory (viúva do Professor Gregory, de

Edimburgo), o Doutor Stanhope Speer, o Doutor Gully, Sir Charles Isham, o Doutor

33 “Associação Nacional Britânica dos Espiritistas.” — N. do T.

O

109 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

Maurice Davies, Mr. H. D. Jencken, o Doutor George Sexton, Mrs. Ross Church

(Florence Marryat), Mr. Newton Crosland e Mr. Benjamin Coleman.

A mediunidade de uma alta qualidade, no setor dos fenômenos físicos foi

fornecida por Mrs. Jencken (Kate Fox) e Miss Florence Cook. O Doutor J. R.

Newton, famoso médium curador da América, chegou em 1870, e numerosas curas

gratuitas foram registradas. Desde 1870 Mrs. Everitt exercitou uma mediunidade

maravilhosa, como a de D. D. Home, gratuitamente, convencendo a muita gente.

Herne e Williams, Mrs. Grupáginasy, Eglington, Slade, Lottie Fowler e outros

fizeram muitas conversões através de sua mediunidade. Em 1872 as fotografias do

Espírito de Hudson despertaram enorme interesse e em 1875 o Doutor Alfred Russel

Wallace publicou o seu famoso livro “On Miracles and Modern Spiritualism” 34 .

Um bom meio de traçar o desenvolvimento do Espiritismo nesse período é

examinar o depoimento de testemunhas fidedignas contemporâneas, especialmente

as que são qualificadas por sua posição e experiência para poderem opinar. Antes,

porém, de lançar um olhar sobre o período que estamos considerando, olhemos a

situação em 1866, tal qual a via Mr. William Howitt nuns poucos parágrafos tão

admiráveis que o autor se sente obrigado a citálos

ad litteram. Diz ele:

“A posição atual do Espiritismo na Inglaterra, se a imprensa fosse

onipotente, dada a sua influência, seria pouco animadora. Depois de empregar todos

os meios possíveis para prejudicar e desacreditar o Espiritismo; depois de lhe haver

aberto as suas colunas, na esperança de que o vazio e a loucura ficassem tão

aparentes que os seus espertos inimigos logo fossem capazes de atingilo

com

argumentos irrespondíveis e assim verificarem que todas as vantagens da razão de

fato estavam de seu lado; depois de havêlo

difamado e ferido sem propósito, toda a

imprensa, como se por consenso geral ou de plano préestabelecido, adotou a tática

de abrir as suas colunas a toda falsidade e a toda história insensata a respeito dele,

mas se fechando hermêticamente a qualquer explicação, refutação ou defesa. Desde

que todos os outros meios para o liquidar haviam falhado, foi decidido sufocálo.

Pregar um esparadrapo literário em sua boca e deixar que seu pescoço fosse cortado

por quem quer que desejasse fazêlo.

Assim esperava poder desferirlhe

o golpe de

graça.

“Se alguma coisa pudesse aniquilar o Espiritismo, sua atual estima pelo

público inglês, seu tratamento pela imprensa e pelas cortes de jwstiça, a tentativa de

sua supressão por todas as forças da inteligência pública, o ódio que lhe votam todos

os heróis do púlpito de todas as igrejas e credos, a sua simples aceitação ainda

mesmo por esse público que a imprensa considera maluco, e pervertido, as suas

próprias divisões internas — numa palavra, a sua preeminente impopularidade o

teriam liquidado. Mas é assim? Ao contrário: jamais ele se arraigou tão firmemente

na massa de mentes adiantadas; nunca seu número cresceu tão ràpidamente; jamais

suas verdades foram mais eloqüente e claramente defendidas; jamais as

investigações a seu respeito foram mais abundantes e ansiosas. Durante todo o

tempo em que a imprensa e os boatos estiveram lançando o insulto e o despreso

sobre ele, jamais as reuniões de Harley Street foram tão concorridas e superlotadas

por senhoras e cavalheiros das classes médias e altas, que ouviam com admiração as

eloqüentes e sempre variadas mensagens de Emma Hardinge. Ao mesmo tempo os

Davenport, milhares de vezes denunciados como impostores, outras tantas

demonstraram que os fenômenos que produziam continuavam inexplicáveis por

34 “Sobre Milagres e Moderno Espiritismo” — N. do T.

110 – Ar thur Conan Doyle

qualquer teoria, exceto a espírita. Que significa tudo isto? Que indicam esses fatos?

Que a imprensa e o púlpito, os magistrados e as cortes de justiça uniram as suas

forças, mas fracassaram. Ficaram aniquilados ante essa coisa que eles próprios

classificam de pobre, maluca, falsa e inconsistente. Se ela fosse tão pobre, maluca,

falsa e inconsistente, como é que o seu saber, as suas denúncias inescrupulosas, os

seus vastos meios de ataque e os seus não menores meios de cerceamento da defesa,

as suas ordens aos ouvintes e sua opinião para a multidão — como é que todo o seu

espírito, sarcasmo, lógica e eloquência não a podem atingir? Longe de a abalar e

atingir, não alcança um cabelo de sua cabeça ou uma franja de seu vestido. Já não é

tempo para que todas essas hostes combinadas dos grandes e dos sábios, dos

cientistas e dos ilustrados, dos dirigentes do senado e das cortes de justiça, os

eloquentes favoritos do Parlamento, os magnatas da imprensa popular, de posse de

toda essa artilharia intelectual que um grande sistema nacional de educação e um

grande sistema nacional de Igreja, de Estado e de aristocracia, acostumado a

proclamar aquilo que deve ser aceito como verdade e considerado honroso por todos

os cavalheiros e senhoras honradas — já não é tempo, perguntava eu, de que todo

esse grande e esplêndido mundo de espírito e de sabedoria comece a suspeitar de

que defrontam algo de sólido? De que existe algo vital nisso que têm tratado como

um fantasma? Não quero dizer a essas grandes corporações que governam o mundo

que abram os olhos e vejam que os seus esforços são infrutíferos e confessem a sua

derrota, porque provavelmente elas jamais abrirão os olhos e confessarão a sua

vergonha. Mas digo aos próprios Espíritas: por mais escuros que os dias vos

pareçam, jamais foram tão cheios de promessas. Ligadas como estão todas as forças

dos instrutores e dirigentes públicos, jamais, entretanto, as perspectivas foram mais

claras de nossa vitória final. Sobre ele há todas as características de conquista de

influência em nossos dias. Ele tem à sua frente todo o legitimismo da história.

Todas as grandes reformas sociais, morais, intelectuais ou religiosas triunfaram

através da luta.”

Como que mostrando a mudança ocorrida depois do que Mr. Howitt

escreveu em 1866, encontramos em The Times de 26 de dezembro de 1872 um

artigo sob o título de “Espiritismo e Ciência”, estirandose

por três colunas e meia,

no qual se exprime a opinião de que agora “é chegado o momento de mãos

competentes cortarem o nó górdio”, muito embora não explique porque as mãos de

Crookes, de Wallace ou de De Morgan seriam incompetentes.

Falando sobre o livrinho de Lord Adare, de edição particular, a respeito de

suas experiências com D. D. Home, o escritor parece impressionado pela posição

social das várias testemunhas. As características desse artigo são a grosseria e o

pedantismo:

“Um volume que se acha à nossa frente mostra quanto essa loucura

espalhouse

por toda a sociedade. Foinos

emprestado por um distinto espiritista,

sob o solene compromisso de que não publicaríamos nenhum dos nomes ali

referidos. Contém cerca de 150 páginas de relatos de sessões e foi impresso em

particular por um nobre Conde, recentemente desaparecido da Câmara dos Lords; e

que também desocupou, ao que nos parece, as cadeiras ocupadas por Espíritos e as

mesas de que gostava em vida, não sabiamente, posto gostasse muito. Nesse livro,

coisas mais maravilhosas do que quaisquer outras de que tenhamos noticia, são

relatadas minuciosamente, de modo tão natural quanto se fossem fatos rotineiros.

Não cansaremos o leitor citando algum dos casos relatados e, não obstante, ele

111 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

acreditará em nossa palavra quando dissermos que se enquadram em toda sorte de

manifestações, de profecias para baixo”.

O que desejamos observar mais especialmente é que à entrada do livro se

acha o atestado de cinquenta respeitáveis testemunhas. Entre estas se acham uma

duquesa viúva, e outras senhoras de posição, um Capitão de Guardas, um nobre, um

barão, um membro do Parlamento, vários membros de corporações científicas, um

advogado, um comerciante e um médico. As camadas mais altas da classe média

estão representadas por gente de todos os graus e por pessoas que, a julgar pela

posição que ocupam e pela profissão que exercem, deviam possuir inteligência e

perspicácia. O eminente naturalista Doutor Alfred Russel Wallace, numa carta

escrita a The Times, em 4 de janeiro de 1874, descrevendo uma visita a um médium

público, diz:

“Não acho exagero dizer que os fatos principais agora se acham tão bem

estabelecidos e tão facilmente verificáveis como qualquer dos mais excepcionais

fenômenos da Natureza ainda não reduzidos a lei. Eles têm uma significação mais

importante na interpretação da História, que está cheia de narrativas de fatos

similares, e na natureza da vida e do intelecto, sobre os quais a ciência física

derrama uma luz muito fraca e muito incerta; e é minha crença firme e deliberada

que cada ramo da filosofia deve sofrer até serem os fatos honesta e seriamente

investigados e trabalhos como constituintes de uma parte essencial dos fenômenos

da natureza humana”.

A gente se extravia com os fenômenos do ectoplasma e as experiências de

laboratório, que desviam o pensamento do essencial. Wallace foi um dos poucos

cuja mentalidade grandiosa, avassaladora e sem preconceitos, viu e aceitou a

verdade em sua maravilhosa inteireza, desde as humildes provas físicas de uma força

exterior até ao mais alto ensino mental que essa força podia trazer, ensino que

ultrapassa de muito em beleza e em credibilidade tudo quanto a mente moderna tem

conhecido.

A aceitação pública e o decidido apoio desse grande homem de ciência, um

dos primeiros cérebros de seu tempo, foram de grande importância, desde que ele

teve espírito para compreender a completa revolução religiosa que estava por detrás

desses fenômenos. Foi um fato curioso que, salvo algumas exceções, em nossos

dias, assim como no passado, a sabedoria tenha sido dada aos humildes e negada aos

doutos. Sentimento e intuição triunfaram onde falhou o cérebro. Talvez pensassem

que a questão era simples. Ela deve ser expressa numa série de perguntas, à maneira

de Sócrates: “Estabelecemos contacto com a inteligência dos que morreram?” O

Espírita diz: “Sim” . “Deram informações sobre a nova vida que levam e como esta

foi afetada por sua vida terrena?” Ainda, “Sim” . “Acharam que corresponde à

descrição feita por todas as religiões da Terra?” “Não”. Mas se é assim, não está

claro que a nova informação é de vital importância religiosa? O humilde espiritista

vê isto e adapta a sua religiosidade aos fatos.

Sir William Barrett, então professor, apresentou o problema do Espiritismo

à Associação Britânica para o Progresso da Ciência em 1876. Seu estudo tinha por

título “Sobre alguns fenômenos associados com condições mentais anormais.” Foi

difícil ser ouvido. A Comissão de Biologia recusou o estudo e passouo

para a

112 – Ar thur Conan Doyle

Subcomissão de Antropologia, que só o aceitou pelo voto de minerva do Secretário,

Doutor Alfred Russel Wallace. O Coronel Lane Fox ajudou a vencer a oposição,

perguntando por que, se no ano anterior havia sido discutida a magia antiga, este ano

não se podia discutir a magia moderna. A primeira parte do trabalho do Professor

Barrett tratava de mesmerismo, mas na segunda parte eram descritas as suas

experiências com os fenômenos espíritas. E insistia para que novo exame científico

fosse feito sobre a matéria. Deu um detalhe convincente de uma experiência sobre

batidas, feita com uma criança. 35

Na discussão que se seguiu, Sir William Crookes falou das levitações que

ele havia testemunhado com D. D. Home; disse da levitação: “A prova em seu favor

é mais forte do que a prova em favor de quase todos os fenômenos que a Associação

Britânica pôde investigar” . Fez ainda as seguintes observações relativas ao seu

próprio método de pesquisa psíquica: “Pediramme

para investigar logo que

apareceu o Doutor Slade e eu expus as minhas condições. Jamais fiz investigações

senão nessas condições. Deveriam ser feitas em minha casa; eu mesmo deveria

escolher os amigos e os assistentes; seriam realizadas dentro de minhas próprias

condições e eu faria o que quisesse em relação aos aparelhos. Sempre que foi

possível, procurei fazer que os testes fossem realizados pelos próprios aparelhos de

física e nunca acreditei mais do que era possível em meus próprios sentidos. Mas

quando é necessário crer em meus sentidos, sou obrigado a discordar de Mr.

Barrett quando diz que um investigador físico não auxilia um médium profissional.

Sustento que um investigador físico é mais que um auxiliar.”

Uma importante contribuição para a discussão foi a de Lord Rayleigh, o

distinto matemático, que disse: “Penso que somos muito obrigados ao Professor

Barrett, por sua coragem, pois é necessária alguma coragem para avançar neste

terreno e trazernos

os benefícios de sua cuidadosa experiência. Meu próprio

interesse pelo assunto data de dois anos. Fui atraído inicialmente para ele pela

leitura das investigações de Mr. Crookes. Conquanto as minhas oportunidades não

tenham sido tão felizes como as do Professor Barrett, tenho visto o bastante para

me convencer de que estão errados os que quiserem obstar as investigações

atirando o ridículo sobre os que se sentem inclinados a fazêlas.”

O orador seguinte foi Mr. Groom Napier, acolhido com gargalhadas,

quando descreveu as constatações psicométricas feitas de algumas pessoas apenas

por sua caligrafia encerrada em envelopes lacrados; e quando começou a descrever

as luzes de Espíritos, que de próprio tinha visto, o barulho foi tal que se viu obrigado

a sentarse.

Respondendo à crítica, disse o Professor Barrett: “Isto mostra o enorme

avanço que o assunto fez nestes poucos anos: que uma comunicação sobre

fenômenos espíritas, que há poucos anos causaria riso, agora é admitida na

Associação Britânica e merece uma larga discussão, como a de hoje.”

O Spectator, de Londres, num artigo intitulado “A Associação Britânica e a

Comunicação do Professor Barrett” começa com este ponto de vista de uma mente

larga:

“Agora que temos à nossa frente uma descrição completa da comunicação

do Professor Barrett, e da discussão da mesma, sejanos

permitido exprimir a nossa

esperança de que a Associação Britânica realmente exerça alguma influência sobre

35 The Spir itualist, Setembro 22, 1876 (Volume 9º, página 8788).

113 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

o assunto da comunicação, a despeito dos protestos do partido que chamaríamos

partido da incredulidade supersticiosa. Dizemos incredulidade supersticiosa porque

é realmente pura superstição, e nada mais para admitir que estejamos tão bem

informados sobre as leis da Natureza que, mesmo os fatos cuidadosamente

examinados e atestados por um observador experimentado devam ser postos de lado

como absolutamente indignos de crédito, simplesmente porque, à primeira vista, se

chocam com aquilo que já é mais conhecido.”

Os pontos de vista de Sir William Barrett foram progredindo firmemente

até que aceitou a posição de espírita em termos inequívocos, antes de sua lamentada

morte em 1925. Viveu até o mundo melhorar o seu antagonismo contra tais

assuntos, embora pequena fosse a diferença observada na Associação Britânica, que

pareceu obscurantista como sempre. Essa tendência, entretanto, não deve ter sido um

mal porque, como assinala Sir Oliver Lodge, se os prementes problemas materiais se

tivessem complicado com as soluções psíquicas, é possível que não tivessem sido

resolvidos. Deve ser digno de registro que Sir William Barrett, em conversa com o

autor, tenha lembrado que os quatro homens que o apoiaram naquele difícil

momento histórico, viveram bastante para receberem a Ordem do Mérito — a maior

distinção que o seu país podia conceder. Os quatro foram Lord Rayleigh, Crookes,

Wallace e Higgins.

Não era de esperar que o rápido crescimento do Espiritismo fosse isento de

aspectos menos desejáveis. Estes foram, pelo menos, dois. Primeiro, o grito de

mediunidade fraudulenta, ouvido com frequência. À luz de nossos últimos e mais

completos conhecimentos sabemos que muito daquilo que reveste as aparências de

fraude absolutamente não o é. Ao mesmo tempo, a ilimitada credulidade de uma

parte dos Espiritistas indubitavelmente ofereceu um campo fácil aos charlatães.

Numa conferência lida na Sociedade da Universidade de Cambridge para

Investigações Psicológicas, em 1879, disse o seu presidente Mr. J. A. Campbell. 36 :

“Desde o aparecimento de Mr. Jlome, o número de médiuns aumenta dia

a dia, como aumenta a loucura e a impostura. Aos olhos dos tolos cada farsante se

converteu numa figura angélica; e não só cada farçante, mas cada trapaceiro,

metido numa mortalha, é chamado ou quer se chamar um ‘Espírito materializado’.

Uma suposta religião foi assim estabelecida e nela a honra dos mais sagrados

nomes foi transferida para Espíritos de batedores de carteiras. Não farei aos

leitores o insulto de falar do caráter dessas divindades, nem das doutrinas que as

mesmas ensinam. Assim é sempre quando a loucura e a ignorância tomam em suas

mãos a arma da realidade eterna para abusos, distorsões e até crimes. É o mesmo

que crianças a brincarem com ferramentas aliadas; e quem, senão um ignorante,

iria gritar: faca malvada! Pouco a pouco o movimento se vai libertando dessas

excrescências; gradativamente se vai tornando mais moderado, mais puro e mais

forte; e como homens sensíveis e educados, estudam, oram e trabalham,

empenhandose

em fazer bom uso de seus conhecimentos, nesse sentido o

movimento crescerá.”

O segundo aspecto foi o aparente crescimento daquilo que pode denominarse

Espiritismo anticristão, embora não antireligioso.

Isto levou William Howitt e

36 The Spir itualist, abril 2º, 1879, página 170.

114 – Ar thur Conan Doyle

outros destacados mantenedores do movimento a se afastarem deste. Howitt e outros

escreveram fortes artigos contra essa tendência no Spiritual Magazine.

Uma sugestão, quanto à necessidade de cautelas e equilíbrio apareceu nas

observações de Mr. William Stainton Moses que, numa comunicação lida perante a

Associação Nacional Britânica dos Espiritistas, a 26 de janeiro de 1880 diz 37 :

“Precisamos muitíssimo de disciplina e de educação. Ainda não tomamos

pé após o nosso rápido crescimento. Nascida há trinta anos, a criança cresceu em

estatura, mas não em sabedoria, e muito ràpidamente. Cresceu tão ràpidamente

que a sua educação foi descurada. Na expressiva linguagem de sua pátria, foi

“arrancada” promiscuamente. E o seu crescimento fenomenal absorveu todas as

outras considerações. É chegado o momento em que aqueles que o consideraram

como um aleijão produzido pela Natureza apenas para morrer prematuramente,

começam a ver que se enganaram. A monstruosa criação quer viver; e, por baixo

de sua feiúra, o menos simpático olhar percebe um objetivo coerente em sua

existência. É a apresentação de um princípio inerente á natureza do homem, um

princípio que a sua sabedoria desenvolveu até que fosse eliminado inteiramente,

mas que brota sempre e sempre, malgrado seu — o princípio do Espírito como

oposto à Matéria, da Alma agindo e existindo independentemente do corpo que a

encerra. Longos anos de negação de alguma coisa, salvo as propriedades da

matéria levaram as grandes luzes da ciência moderna ao puro Materialismo. Assim,

para eles, o Espiritismo é um portento e um problema. É uma volta à superstição;

uma sobrevivência de selvageria; um borrão na inteligência do século dezenove.

Ridicularizado, ele ridiculariza; desdenhado, pagase

na mesma moeda.”

Em 1881 apareceu Light, um semanário espírita de alta classe, e em 1882

assistimos à criação da Society for Psychical Research 38 .

De um modo geral pode dizerse

que a atitude da ciência organizada,

durante esses trinta anos, foi tão irracional e anticientífica quanto a dos Cardeais

para com Galileu e que, se tivesse havido uma Inquisição Científica, esta teria

lançado o terror sobre o novo conhecimento. Nenhuma tentativa séria, de qualquer

espécie, até a formação da SOCIETY FOR PSYCHICAL RESEARCH foi feita no

sentido de compreender e explicar um assunto que estava atraindo a atenção de

milhões de criaturas. Em 1853 Faraday lançou a teoria de que o movimento das

mesas era produzido por uma pressão muscular, que pode realmente ser verdadeira

nalguns casos, mas nenhuma relação tem com a levitação de mesas e, em todo o

caso, só se aplica a uma classe de fenômenos psíquicos. A costumeira “objeção”

científica era que nada ocorria, mas isto desprezava o testemunho de milhares de

pessoas fidedignas. Outros sustentavam que aquilo que se passava era susceptível de

ser repetido por um feiticeiro, e qualquer imitação grosseira, como a paródia dos

Davenport, feita por Maskelyne, era calorosamente saudada como uma mistificação,

sem referência ao fato de que todo o aspecto mental da questão, com a sua prova

esmagadora, ficava inatingido. A gente “religiosa” ficava irritada por se ver sacudida

nas suas práticas tradicionais e, como selvagem, se dispunha a admitir que tudo

aquilo era obra do diabo. Assim Católicos Romanos e seitas Evangélicas se

encontraram unidos na sua oposição. É fora de dúvida que podemos chamar

37 The Psycological Review. Val. 2º, página 546.

38 Sociedade de Pesquisas Psíquicas. N. do T.

115 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

Espíritos baixos, desde que em redor de nós existem Espíritos de todas as classes e

que o semelhante atrai o semelhante. Mas os ensinamentos elevados, consistentes e

filosóficos que são dados aos investigadores sérios e de mentalidade honesta

mostram que não é o diabolismo, mas o Angelismo que está dentro do nosso

alcance. O Doutor Carpenter sustentou uma teoria complexa, mas parece que ficou

só na sua aceitação e mesmo na sua compreensão. Os cientistas tiveram uma

explicação: era o estado das juntas, o que é ridículo para quem quer que tenha tido

experiência pessoal daqueles sons percutidos, que variam desde o tictac

de um

relógio até a pancada de um martelete. Outras explicações, vez por outra, incluíam a

doutrina teosófica, que admitia os fatos mas desprezava os Espíritos, descrevendoos

como cascões astrais, com uma espécie de semiconsciência sonhadora, ou

possivelmente uma consciência atenuada, que os reduzia a criaturas subhumanas

pela inteligência e pela moralidade. Certamente a qualidade das manifestações

espíritas varia enormemente, mas o mais alto se acha tão elevado que dificilmente

podemos imaginar que apenas nos achamos em contacto com uma fração do ser

pensante. Entretanto, como é certo que, mesmo neste mundo, nosso ser subliminal é

muitíssimo superior à nossa individualidade normal, é muito natural que o mundo

dos Espíritos deve confrontarnos

com algo inferior aos seus mais altos poderes.

Uma outra teoria sustenta a Anima Mundi, vasto reservatório ou banco

central da inteligência, com uma câmara de compensação, na qual todas as consultas

são atendidas. Os rigorosos pormenores que recebemos do Outro Lado são

incompatíveis com qualquer ideia, tão vaga quão grandiosa, do destino. Finalmente,

há uma alternativa realmente formidável, que o homem tem um corpo etérico com

muitos dons desconhecidos, entre os quais deve ser incluído um poder de

manifestação exterior em formas curiosas. É a esta teoria da Criptestesia que Richet

e outros se agarraram e até um certo ponto há um argumento em seu favor. O autor

se convenceu de que há uma etapa preliminar e elementar em todo trabalho psíquico

que depende de um poder inato e possivelmente inconsciente do médium. A leitura

em invólucro fechado, a produção de batidas a pedido, a descrição de cenas

distantes, os notáveis efeitos da psicometria, as primeiras vibrações da Voz Direta

— cada um e todos em diversas ocasiões parecem emanações do próprio médium.

Assim, em muitos casos deveria aparecer uma inteligência exterior capaz de se

apropriar daquela força e utilizála

para seus próprios objetivos. Temos uma

ilustração nas experiências de Bisson e de Schrenk Notzing com Eva, nas quais as

formas ectoplásmicas a princípio eram sem dúvida reflexo de ilustrações dos jornais,

de certo modo modeladas pela passagem através da mente do médium. Mais tarde

veio um período mais profundo, no qual a forma ectoplásmica evoluiu a ponto de se

mover e falar. O grande cérebro de Richet e o seu enorme poder de observação se

concentraram muito sobre os fenômenos físicos e parece que não teve muito

contacto com as experiências pessoais mentais e espirituais que possivelmente lhe

teriam modificado os pontos de vista. Cabe, entretanto, acrescentar que tais pontos

de vista se desenvolveram continuamente na direção da explicação espírita.

Resta apenas a hipótese da personalidade complexa, que bem pode

influenciar certos casos, posto pareça ao autor que tais casos também possam ser

explicados pela obsessão.

116 – Ar thur Conan Doyle

Entretanto esses exemplos apenas tocam a superfície do assunto e ignoram

completamente o aspecto fenomênico, de modo que o assunto não deve ser levado

muito a sério. Contudo nunca será por demais repetido que o investigador deveria

esgotar cada explicação normal possível para sua completa satisfação, antes de

adotar o ponto de vista espírita. Se assim tiver procedido, sua plataforma será

estável; se assim não tiver feito, jamais estará seguro de sua estabilidade. Na

verdade pode o autor dizer que, ano após ano, agarrouse

a cada linha de defesa até

que, finalmente, foi compelido, desde que tinha de guardar a honestidade mental, a

abandonar a posição materialista.

117 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

9

A Carreira de D. D. Home

aniel Dunglas Home nasceu em 1833 em Currie, uma aldeia perto de

Edimburgo. Havia um mistério relativamente à sua ascendência: tanto se

afirmava, quanto se negava que fosse, de certo modo, da família do Conde

de Home. Na verdade foi um homem que herdou um tipo elegante, maneiras

delicadas, disposição sensível e um gosto para o luxo, fosse de que fonte fosse. Mas

pela sua força psíquica e pelo entusiasmo que esta comunicou ao seu caráter

complexo, ele podia ser realmente tomado como o tipo exato de um caçula

aristocrata, que herda as tendências, mas não a riqueza dos pais.

Home saiu da Escócia para a Nova Inglaterra aos nove anos de idade, com

uma tia que o havia adotado, outro mistério que lhe cercava a existência. Aos treze

anos de idade começou a mostrar as faculdades psíquicas herdadas de sua mãe,

descendente de velha família de Highland e que possuía a faculdade de previsão

característica de sua raça. Sua tendência mística revelouse

numa conversa com um

colega, chamado Edwin, a cerca de uma história, na qual fora feito um pacto em

consequência do qual a criatura amada mostrarseia

à outra depois da morte. Do

mesmo modo os dois rapazes fizeram o pacto de se mostrar um ao outro, Home

mudouse

para outro distrito, a algumas milhas de distância e, um mês mais tarde,

certa noite, assim que foi para a cama, teve a visão de Edwin e anunciou à sua tia a

morte do rapaz, do que tiveram informação um ou dois dias depois.

Uma segunda visão, em 1850, referiase

à morte de sua mãe, que tinha ido

com o marido viver na América. Nessa ocasião o rapaz se achava acamado e sua

mãe se achava fora, em visita a amigos distantes. Uma noite ele gritou por socorro e

quando a tia chegou encontrouo

muito abatido. Disse que a mãe havia morrido

naquele dia às doze horas; que ela lhe havia aparecido e dado aviso. Em breve

batidas fortes começaram a perturbar aquele lar quieto e os móveis a serem

arrastados por forças invisíveis. Sua tia, criatura de estreita visão religiosa, disse que

o rapaz havia trazido o Diabo para casa e jogouo

na rua.

Ele refugiouse

com os amigos e nos anos seguintes passava na casa de um

para a de outro, de cidade em cidade. Sua mediunidade se havia desenvolvido

poderosamente e nas casas em que se hospedava realizava frequentes sessões, às

vezes seis ou sete por dia, pois as limitações da força e as reações entre o físico e o

psíquico eram então mal compreendidas. Isto lhe produzia grande perda de forças, e

frequentemente o levava para a cama.

Multidões acorriam de todos os lados para presenciar as maravilhas que se

produziam na presença de Home. Entre os que então investigaram com ele estava o

poeta americano Bryant, que era acompanhado pelo Professor Wells, da

Universidade de Harvard. Em Nova Iorque encontrou muitos americanos distintos,

dos quais três fizeram sessões com ele: o Professor Hare, o Professor Mapes e o Juiz

D

118 – Ar thur Conan Doyle

Edmonds, da Suprema Corte de Nova Iorque. Estes três, como ficou dito, tornaramse

espiritistas convictos.

Nesses primeiros anos o encanto da personalidade de Home e a profunda

impressão criada por sua força permitiram que recebesse muitas ofertas. O Professor

George Bush convidouo

para sua companhia, a fim de estudar para ministro

swedenborgiano; Mr. e Mrs. Elmer, um rico casal sem filhos, que lhe haviam

tomado grande afeição, ofereceramse

para adotálo

e fazêlo

seu herdeiro, com a

condição de trocar o nome pelo de Elmer.

Seu notável poder curador tinha excitado a admiração e, persuadido pelos

amigos, começou a estudar medicina. Mas a sua saúde delicada, complicada com

uma afecção pulmonar, forçouo

a abandonar os seus planos e, a conselho médico,

deixou Nova Iorque e foi para a Inglaterra.

Chegou a Liverpool a 9 de abril de 1855, e foi descrito como um jovem

alto, esguio, de marcada elegância e exagerada limpeza do vestir, mas com um olhar

típico e uma expressão que traía a devastação feita pela moléstia. Tinha os olhos

azuis e os cabelos castanhos; era desse tipo facilmente sujeito a tuberculose e a

extrema emaciação mostrava quanto era insignificante a sua capacidade de

resistência. Um médico, bom observador, certamente lhe faria um prognóstico de

apenas uns meses de vida, num clima úmido como o nosso e de todas as maravilhas

que Home realizava, o prolongamento da sua vida certamente não foi das menores.

Seu caráter já havia tomado aqueles traços emocionais e religiosos que o

distinguiam e ele recordou como, antes de desembarcar, correu para o seu camarote

e ajoelhouse

em prece. Quando a gente considera a admirável carreira que se abre à

sua frente e o grande papel que ele desempenhou no estabelecimento das bases

materiais que diferenciam esse movimento religioso de qualquer outro, pode

proclamarse

que esse visitante estava entre os mais notáveis missionários que

jamais apareceram por estas plagas.

No momento a sua posição era muito singular. Tinha uma relação difícil

com o mundo.

Seu pulmão esquerdo estava parcialmente destruído. Seus recursos eram

modestos, embora suficientes. Não tinha negócios nem profissão e sua educação

havia sido interrompida pela doença. De caráter desconfiado, gentil, sentimental,

artístico, afetuoso e profundamente religioso, tinha uma profunda tendência para a

Arte e para o Drama. Assim, a sua capacidade para a escultura era considerável e

como declamador provou mais tarde que pouca gente o igualava. Mas acima de tudo

isto, de uma honestidade inflexível e tão rigorosa que por vezes chegava a ofender

aos seus aliados, havia um dom tão admirável que apagava todos os demais. Este

repousa naquelas forças, muito independentes de sua vontade, que iam e vinham

com desconcertante subitaneidade, mas demonstrando a todos que examinassem a

prova, que havia algo na atmosfera desse homem que permitia que as forças a ele

exteriores, como exteriores à nossa percepção, se manifestassem neste plano da

matéria. Por outras palavras, ele era um médium — o maior que o mundo moderno

já viu, no campo das manifestações físicas.

Um homem inferior teria usado os seus poderes extraordinários para fundar

uma seita especial, da qual teria sido o sumo sacerdote inconteste, ou para se rodear

de uma auréolà de poder e de mistério. Certamente muita gente na sua posição teria

119 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

sido tentada a usar aqueles dons para fazer dinheiro. Em relação a este ponto seja

dito antes de mais nada que no curso de seus trinta anos de estranho ministério,

jamais ele tocou num tostão como paga de seus dons. É absolutamente certo que lhe

foram oferecidas duas mil libras pelo Clube União, em Paris, no ano de 1857, por

uma única sessão, e que ele, pobre e inválido, as recusou terminantemente. “Fui

mandado em missão” , disse ele. “Essa missão é demonstrar a imortalidade. Nunca

recebi dinheiro por isso e jamais o receberei” . Houve certos presentes da Realeza

que não podiam ser recusados sem grosseria: anéis, alfinêtes de gravatas e outros,

que mais eram sinais de amizade do que recompensa; porque, antes de sua morte

prematura, poucos eram os monarcas da Europa com os quais esse moço

desconfiado de um subúrbio de Liverpool não estivesse em afetuosa intimidade.

Napoleão 3º cuidou de sua única irmã; o Imperador da Rússia foi testemunha de seu

casamento. Qual o novelista que seria capaz de inventar uma tal carreira?

Há, porém, tentações mais sutis do que as da riqueza. A inquestionável

honestidade de Home foi a melhor salvaguarda contra aquelas. Jamais ele perdeu,

por um só instante, a sua humildade e o seu senso de proporção. “Tenho esses

poderes” , teria ele dito, “serei feliz até o limite de minhas forças, eu vôlos

demonstrar, se vos aproximardes de mim, do mesmo modo que um cavalheiro se

aproximaria de outro. Alegrarmeei

se lançardes um pouco mais de luz sobre elas.

Prestarmeei

a qualquer experiência razoável. Eu não exerço controle sobre elas.

Elas me usam, mas eu não as uso. Elas me abandonam durante meses e voltam com

redobrada energia. Eu sou um instrumento passivo — nada mais.” Tal era a sua

atitude invariável. Ele era sempre o homem mundano fácil e amigo, que nem tinha o

manto do profeta nem o turbante do mágico. Como os homens realmente grandes,

não havia em sua natureza o mínimo de pose. Um indício de sua elegância é que,

sempre que devia confirmar os seus resultados, jamais citava nomes, a menos que

estivesse absolutamente certo de que as pessoas citadas de modo algum se

incomodariam em ser referidas a um culto impopular. Por vezes, ainda quando estas

lhe houvessem autorizado a citálas,

evitava fazêlo,

com receio de ofender a um

amigo. Quando publicou as primeiras séries dos “Incidentes em minha Vida”, o

Saturday Review cobriu de sarcasmos o anônimo “testemunho da Condessa O... do

Conde B... do Conde de K... da Princesa de B... e de Mrs. E... que eram apontados

como tendo assistido às manifestações. Em seu segundo volume, tendose

assegurado do apoio de seus amigos, Home preencheu os claros com os nomes da

Condessa Orsini, do Conde de Beaumont, do Conde de Komar, da Princesa de

Beauveau e a conhecida dama americana Mrs. Henry Senior. Jamais citou os seus

amigos reais, embora fosse muito sabido que o Imperador Napoleão e Imperatriz

Eugênia, o Tzar Alexandre, o Imperador Guilherme 1º da Alemanha e os Reis da

Baviera e do Wurtemberg também haviam sido convencidos por suas forças

extraordinárias. Nem uma só vez Home foi condenado por qualquer mistificação,

quer por palavras, quer por atos.

Por ocasião de sua primeira viagem à Inglaterra, hospedouse

no Cox’s

Hotel, em Jermyn Street, e é provável que tenha escolhido essa hospedaria por ter

sabido, através de Mrs. Hayden, que o seu proprietário era simpático à causa. Como

quer que seja, Mr. Cox logo descobriu que o seu jovem hóspede era o mais notável

médium e, a seu convite, os mais notáveis intelectuais do momento foram

120 – Ar thur Conan Doyle

convidados a examinar os fenômenos que Home lhes poderia exibir. Entre outros,

Lord Brougham veio à sessão e trouxe um cientista seu amigo, Sir David Brewster.

Em plena luz do dia investigaram os fenômenos e na sua satisfação pelo que se

havia passado, ao que se conta, teria dito Brewster: “Isto derrota a filosofia de

cinquenta anos” . Se ele tivesse dito “mil e quinhentos” terseia

aproximado da

marca. Ele descreve o que aconteceu numa carta à sua irmã, só muito mais tarde

publicada 39 . Estavam presentes Lord Brougham, Sir David Brewster, Mr. Cox e o

médium: “Nós quatro” , disse Brewster, “sentamonos

a uma mesa de tamanho

regular, e cuja estrutura nos tinham convidado a examinar. Em pouco tempo a mesa

fez esforços e um tremor percorreu os nossos braços; esses movimentos cessavam e

recomeçavam ao nosso comando. As mais incontáveis batidas se produziram em

várias partes da mesa e esta se ergueu do chão quando não havia mãos sobre ela.

Outra mesa maior foi utilizada e produziu os mesmos movimentos. Uma pequena

sineta foi posta no chão, sobre o tapête, de boca para baixo; depois de algum tempo

ela soou sem que ninguém a tivesse tocado.” Acrescenta ele que a sinêta veio para

ele e se colocou em suas mãos; depois fez o mesmo com Lord Brougham. E conclui:

“Estas foram as principais experiências. Não poderíamos explicálas

nem imaginar

por que espécie de mecanismo poderiam ter sido produzidas.”

Declara o Conde de Dunraven que foi levado a investigar os fenômenos

pelo que Brewster lhe havia contado. Descreve o encontro com este último, que

dizia serem as manifestações inexplicáveis pela fraude, ou por quaisquer leis de

física de nosso conhecimento. Home remeteu uma descrição dessa sessão a um

amigo na América, onde a mesma foi publicada e comentada. Quando os

comentários foram reproduzidos na imprensa inglesa, Brewster ficou muito

alarmado. Uma coisa é sustentar certas ideias na intimidade e outra enfrentar a

inevitável perda de prestígio, que ocorreria nos meios científicos em que se achava.

Sir David não era daquele estofo de que são feitos os mártires e os pioneiros.

Escreveu ao Morning Advertiser, declarando que, embora tivesse visto vários efeitos

mecânicos que não poderia explicar, ainda era de opinião que os mesmos poderiam

ser produzidos por pés e mãos humanos. Aliás jamais lhe ocorrera que a carta escrita

à sua irmã, a que acima nos referimos, um dia fosse publicada.

Quando toda a correspondência foi publicada, o Spectator observou, em

relação a Sir David Brewster: “Parece estabelecido pela mais clara prova que ele

sentiu e descreveu, logo depois de suas sessões com Mr. Home, uma maravilha e

quase terror, que depois desejou explicar. O herói da ciência não se absolve como a

gente desejaria, ou como era de esperar.”

Abordamos ligeiramente o incidente com Brewster porque é típico da

atitude científica de então e porque o seu efeito era despertar um maior interesse em

Home e seus fenômenos, e acordar novos investigadores. Pode alguém lembrar que

os homens de ciência se dividem em três classes: os que absolutamente não

examinaram o assunto — o que não os impede de pronunciar opiniões muito

violentas; os que sabem que a coisa é verdadeira, mas temem confessálo;

e,

finalmente, a brilhante minoria dos Lodges, dos Crookes, dos Barretts e dos

Lombrosos, que sabem que é verdade e não temem proclamálo.

39 “Home Life of Sir David Br ewster ”, por Mrs. Gordon, sua filha.

121 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

De Jermyn Street, Home foi morar com a família Rymer, em Ealing, onde

foram realizadas muitas sessões. Aí foi visitado por Lord Lytton, o famoso novelista

que, muito embora tivesse recebido notáveis provas, jamais confessou públicamente

a sua crença nos poderes do médium, a despeito de suas cartas particulares e das

novelas publicadas constituírem provas evidentes de seu modo de sentir. Assim

acontecia com muitos homens e senhoras bem conhecidos. Entre os seus primeiros

assistentes estavam o Socialista Robert Owen, o escritor T. A. Trollope e o alienista

Doutor J. Garth Wilkiuson.

Nestes dias, quando os fenômenos psíquicos são familiares a todos, exceto

aos que propositadamente os ignoram, dificilmente podemos imaginar a coragem

moral necessária a Home para desenvolver as suas forças e as exibir em público.

Para o britânico de educação média na material época Vitoriana, um homem que se

dissesse capaz de produzir fenômenos que contrariassem a lei da gravidade de

Newton e que mostrasse uma inteligência invisível atuando sobre a matéria visível

era, de saída, julgado um tratante e um impostor. O ponto de vista sobre o

Espiritismo, externado pelo vicechanceler

Giffard, na conclusão do processo

HomeLyon,

era o da classe a que ele pertencia. Nada conhecia sobre o assunto, mas

tomou como certo que tudo nesse particular era falso. É verdade que semelhantes

coisas eram descritas em terras distantes e em livros antigos, mas que elas pudessem

ocorrer na velha e sólida Inglaterra prosaica, na Inglaterra de dividendos bancários e

de livre câmbio, era demasiadamente absurdo para uma mentalidade séria. Foi

lembrado que nesse processo Lord Giffard virouse

para o advogado de Home e

perguntou: “Pareceme

que o senhor sustenta que o seu cliente foi levitado no ar?”

O advogado o confirmou e então o juiz voltouse

para o júri e fez um tal movimento,

como o teria feito um sumo sacerdote, rasgando suas vestes talares em sinal de

protesto contra a blasfêmia.

Em 1868, havia poucas pessoas do júri suficientemente educadas para

verificar as observações do juiz, e é exatamente neste particular que fizemos algum

progresso nestes cinquenta anos. Trabalho lento — mas o Cristianismo levou mais

de três séculos para se firmar.

Tomese

este caso de levitação de Home como um teste de seu poder.

Sustentase

que por mais de cem vezes, perante testemunhas respeitáveis, ele flutuou

no ar. Considerese

a prova. Em 1857, num castelo perto de Bordéos, ele foi erguido

até o teto de um salão alto, em presença de Madame Ducos, viúva do Ministro da

Marinha e do Conde e da Condessa de Beaumont. Em 1860 Robert Bell escreveu

um artigo, no Cornhill, sob o título de “Mais estranho do que uma ficção”, no qual

diz que “foi erguido de sua cadeira quatro a cinco pés do solo... Vimos o seu corpo

passar de um para o outro lado da janela, com os pés para a frente, posto

horizontalmente no ar” . O Doutor Gully, de Malvern, médico muito conhecido, e

Robert Chambers, autor e editor, eram outras testemunhas. Pode admitirse

que

esses homens mentissem por deliberado acordo ou que não soubessem dizer se um

homem flutuava no ar ou apenas pretendia fazêlo?

No mesmo ano Home foi levantado em casa de Mis. Milner Gibson, em

presença de Lord e Lady Clarence Paget, tendo o Lord passado as mãos por baixo de

Home, a fim de se certificar do fato. Poucos meses mais tarde, Mr. Wason,

advogado de Liverpool, com sete outros, assistiram ao mesmo fenômeno. Diz ele:

122 – Ar thur Conan Doyle

“Mr. Home atravessou a mesa, passando por cima das cabeças das pessoas

sentadas em sua volta” . E acrescenta: “Alcancei a sua mão a sete pés do solo e dei

cinco ou seis passos enquanto ele flutuava no espaço, acima de mim.” Em 1861

Mrs. Parkes, de Cornwald Terrace, Regent’s Park, conta como se achava presente,

com Bulwer Lytton e Mr. Hall, quando Home, em sua própria sala de visitas, foi

levantado até que a mão chegou ao alto da porta e então flutuou horizontalmente.

Em 1866 Mr. e Mis. Hall, Lady Dunsany e Mrs. Scnior, em casa de Mr. Hall, viram

Home, com o rosto transfigurado e brilhante, erguerse

duas vezes até o teto e deixar

uma cruz, feita com lápis, na segunda levitação, de modo a assegurar às testemunhas

que não eram vítimas de sua própria imaginação.

Em 1868 Lord Adare, Lord Lindsay, o Capitão Wynne e Mr. Smith Barry

viram Home levitado várias vezes. Uma descrição minuciosa foi deixada pela

primeira daquelas testemunhas da ocorrência de 16 de dezembro daquele ano 40 ,

quando em Ashley House, em estado de transe, Home flutuou do quarto para a sala

de estar, passando pela janela, a setenta pés acima da rua. Depois de chegar à sala,

voltou para o quarto com Lord Adare e, depois que este observou que não

compreendia como Home poderia ter passado pela janela, apenas parcialmente

levantada, “ele me disse que se afastasse um pouco. Então passou pelo espaço

aberto, primeiro a cabeça, muito rapidamente, estando o seu corpo aparentemente

rígido e quase na horizontal. Voltou novamente, com os pés para a frente” . Tal a

informação dada por Lord Adare e Lord Lindsay. Diante de sua publicação, o

Doutor Carpenter, que gozava de uma reputação nada invejável por uma perversa

oposição a tudo quanto se relacionava com este assunto, escreveu exultante

indicando que havia uma terceira testemunha que não tinha sido ouvida, admitindo

sem o menor fundamento que o depoimento do Capitão Wynne seria em sentido

contrário. Por fim disse que “um simples céptico honesto declara que Mr. Home

esteve sentado todo o tempo em sua cadeira” afirmação que apenas pode ser tomada

como falsa.

Então o Capitão Wynne escreveu corroborando os outros depoimentos e

acrescentando: “Se o senhor não acredita na prova corroborante de três

testemunhas insuspeitas, então será o fim de toda a justiça e das cortes da lei” .

Para ver quanto a crítica procurou uma saída para escapar ao inevitável,

basta dizer que ela se agarrou ao que Lord Lindsay escreveu algum tempo depois,

dizendo que a coisa tinha sido Vista à luz da Lua. Entretanto o calendário mostra

que naquele dia a Lua era invisível.

Observa Mr. Andrew Lang: “Entretanto, mesmo com cerração, a gente

numa sala pode ver um homem entrar por uma janela e sair novamente, com a

cabeça para a frente, com o corpo rígido” 41 .

A todos nós parece que se víssemos uma coisa tão maravilhosa, não nos

preocuparíamos em determinar se a víamos à luz da Lua ou de lâmpadas da rua.

Contudo deve admitirse

que a descrição de Lord Lindsay é redigida grosseiramente

— tão grosseiramente que a gente quase desculpa Mr. Joseph Mc Cabe, quando diz

numa conferência que os observadores não olhavam a coisa diretamente e a sua

40 O almanaque mostra que era domingo, dia 13.

41 “Histor ical Myter ies”, página 236.

123 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

sombra no peitoril da janela, mas que se achavam de costas para a janela e apenas

viam a sombra da coisa na parede. Entretanto, quando a gente considera a segurança

das três testemunhas de vista que depuseram sobre o caso, tem o direito de perguntar

se, quer no passado, quer no presente, qualquer fato extraordinário já foi mais

claramente provado.

Tantos são os outros casos de levitação de Home que facilmente seria

escrito um longo artigo sobre este particular aspecto de sua mediunidade. O

Professor Crookes foi outras tantas vezes testemunha do fenômeno e se refere a

cinquenta exemplos que haviam chegado ao seu conhecimento. Haverá porém

alguém de cérebro equilibrado que, tendo lido o incidente aqui referido, não diga,

com o Professor Challis: “Ou os fatos devem ser admitidos tais quais são relatados,

ou devemos dizer adeus à possibilidade de nos certificarmos de fatos através do

testemunho humano”

“Voltamos, então, à era dos milagres?”, perguntará o leitor. Não há

milagres. Nada neste plano é sobrenatural. Aquilo que vemos agora e o que lemos de

tempos passados é apenas a operação da lei que ainda não foi bem estudada e

definida. Já imaginamos algo de suas possibilidades e de suas limitações, que são

tão exatas na sua maneira quanto as de qualquer força puramente física. Devemos

fazer um balanço entre os que em nada acreditam e os que acreditam demais.

Gradativamente a bruma se vai clarificando e poderemos definir os contornos da

costa sombria. Quando pela primeira vez uma agulha foi movida pelo magneto, não

houve infração às leis da gravidade. É que houve a intervenção local de outra força

mais poderosa. Esse é também o caso quando as forças psíquicas atuam no plano da

matéria. Se a fé que Home tinha em sua força tivesse faltado, ou se o seu círculo

tivesse sido perturbado indevidamente, ele teria falhado. Quando Pedro perdeu a fé

afundouse

nas ondas. Através dos séculos a mesma causa ainda produziu o mesmo

efeito.

A força espiritual ainda está conosco se não lhe voltamos a face e nada foi

concedido à Judéia que fosse negado à Inglaterra.

A esse respeito é como uma confirmação do poder do invisível e como uma

resposta final ao materialismo, tal qual o entendemos, que a carreira pública de

Home é de suprema importância. Ele foi uma testemunha a afirmar a verdade

daqueles chamados “milagres” que foram o pesadelo para tantas mentes espertas e

agora se destinam a ser a prova sólida e forte da exatidão das narrativas primitivas.

Milhões de almas em dúvida, na agonia dos conflitos espirituais reclamavam provas

definitivas de que nem tudo era um vazio em redor de nós, de que havia forças fora

do nosso alcance, de que o ego não era uma mera secreção do tecido nervoso e de

que os mortos realmente levavam sua indestrutível existência pessoal.

Tudo isso foi provado pelo maior desses grandes missionários modernos, a

qualquer um capaz de observar ou de raciocinar. É possível achar graça em mesas

dançantes e em muros que tremem, mas estes foram os mais próximos e os mais

naturais objetos que podiam, em termos materiais, registrar aquela força que estava

acima do alcance humano.

Um cérebro que fosse imobilizado por uma sentença inspirada seria levado

à humildade e a novos caminhos de pesquisa em presença até do mais caseiro desses

inexplicáveis fenômenos. É fácil chamálos

de pueris, mas realizaram o objetivo

124 – Ar thur Conan Doyle

para que foram destinados, sacudindo em seus fundamentos a complacência

daqueles materialistas homens de ciência que eram postos em contacto com eles.

Eles não devem ser achados como um fim em si, mas como um meio elementar pelo

qual a mente deveria ser conduzida a novos canais do pensamento. E esses canais do

pensamento levaram ao reconhecimento da sobrevivência do Espírito.

“Trouxestes incalculável alegria e consolo ao coração de muita gente” ,

disse o Bispo Clark, de Rhode Island. “Iluminastes lugares habitados que antes

eram trevas” . “Mademoiselle” , disse Home à moça que ia ser sua esposa, “há uma

missão a mim confiada. Ela é grande e santa” . O famoso Doutor Elliotson,

imortalizado por Thackeray sob o nome de Doutor Goodenough, era um dos chefes

do materialismo britânico. Encontrou Home, viu os seus poderes e teve a coragem

de dizer imediatamente que tinha vivido toda a sua vida em trevas e pensava que

nada havia na vida que não fosse material; mas que agora tinha a firme esperança

que, assim pensava, haveria de alimentar enquanto vivesse.

Poderiam citarse

inúmeros exemplos do valor espiritual do trabalho de

Home; mas ele jamais foi melhor sintetizado do que num período escrito por Mrs.

Webster, de Florença, que viu muito da sua atuação. “Ele é o mais maravilhoso

missionário dos tempos modernos e da maior de todas as causas, e o bem que ele

tem feito não pode ser avaliado. Quando Mr. Home passa, derrama em seu redor a

maior de todas as bênçãos —a certeza da vida futura” .

Agora que é possível conhecer detalhes de sua vida, pode dizerse

que é

para o mundo inteiro que se dirige a mais vital de todas as mensagens. Sua atitude,

em relação à sua própria missão, foi expressa numa conferência feita em Londres, na

Sala Willis, a 15 de fevereiro de 1866. Disse ele: “Sinceramente penso que essa

força aumentará cada vez mais para nos aproximar de Deus. Perguntareis se ela

nos torna mais puros. Minha única resposta é que somos mortais apenas e, como

tal, sujeitos ao erro. Mas ela ensina que aqueles de coração puro verão a Deus. Ela

nos ensina que Deus é amor e que não há morte. Aos velhos ela vem como uma

consolação, quando se aproximam as tempestades da vida e quando vem o

descanso. Aos moços ela fala do dever que temos uns para com os outros e diz que

colheremos o que houvermos semeado. A todos ensina resignação. Vem desfazer as

nuvens do erro e trazer a manhã radiosa de um dia interminável” .

É curioso notar como a sua mensagem afetou os de sua geração. Lendo o

relato de sua vida, escrita por sua esposa — um documento muito convincente, de

vez que foi ela, de todas as criaturas, a que mais deveria ter conhecido o homem real

— ressalta que o mais cordial apoio e o maior apreço lhe veio dos aristocratas da

França e da Rússia, com os quais tinha tomado contacto. O caloroso brilho de

admiração pessoal e até a reverência em suas cartas é tal, que dificilmente pode ser

igualada em qualquer outra biografia. Na Inglaterra tinha ele um círculo íntimo de

ardentes defensores, alguns das altas camadas sociais, como os Halts, os Howitts,

Robert Chambers, Mrs. Milner Gibson, o Professor Crookes e outros. Mas havia

uma lamentável falta de coragem entre estes, que admitiam os fatos na intimidade e

se mantinham alheios em público. Lord Brougham e Bulwer Lytton eram do tipo de

Nicodemos, principalmente o novelista. De um modo geral a “inteligência” saiuse

muito mal neste assunto e muitos nomes festejados sofreram com a história. Tyndall

e Faraday foram fantasticamente anticientíficos nos seus métodos de prejulgar a

125 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

questão, logo de saída, e posteriormente se ofereceram para a examinar, sob a

condição de que fosse aceita a sua opinião. Sir David Brewster, como ficou dito,

disse algo de honesto, e depois, em pânico, negou que o houvesse dito, esquecendose

de que a prova já estava feita. Browning escreveu um longo poema — se é que

aquilo se pode chamar poesia — descrevendo uma manifestação que jamais ocorreu.

Carpenter conquistou uma notoriedade pouco invejável como opositor sem

escrúpulos, ao proclamar uma singularíssima tese espírita de sua invenção. Os

secretários da Sociedade Real recusaram o convite para assistirem às demonstrações

de Crookes sobre os fenômenos físicos, enquanto se manifestavam terminantemente

contra os mesmos. Lord Giffard despejou da Tribuna contra um súdito os primeiros

elementos daquilo que ignorava.

Quanto ao clero nenhuma ordem deve ter sido dada, durante os trinta anos

em que a mais maravilhosa dispensação espiritual desde muitos séculos foi dada ao

público. Não é possível recordar o nome de um único clérigo britânico que tivesse

mostrado um interesse inteligente.

E em 1872, quando começou a aparecer em The Times uma descrição

minuciosa das sessões de São Petersburgo, a coisa foi cortada logo, segundo Mr. H.

T. Humphreys, “devido ás fortes queixas feitas a Mr. Delane, seu diretor, por

algumas figuras da alta direção da Igreja da Inglaterra.” Tal foi a contribuição dos

nossos dirigentes espirituais. O Doutor Elliotson, o nacionalista, era muito mais vivo

do que eles. Eis o amargo comentário da senhora Home: “O veredito de sua própria

geração foi o do cego e do surdo contra quem vê e ouve” .

A caridade era uma das mais belas características de Home. Como toda

verdadeira caridade, era secreta e só se tornava conhecida indiretamente, e por

acaso. Um de seus numerosos caluniadores declarou que lhe havia endossado uma

letra de cinquenta libras em favor de seu amigo Mr. Rymer. Em legítima defesa

apurouse

que não era uma letra, mas um cheque, enviado muito generosamente por

Mr. Home para tirar aquele amigo de um apuro.

Considerando a sua constante pobreza, cinquenta libras talvez

representassem uma boa parte de suas reservas bancárias. Sua viúva se detém com

perdoável orgulho sobre muitas provas encontradas em suas cartas, após a sua

morte. “Agora é um artista desconhecido, para cujo pincel o generoso esforço de

Home havia encontrado emprego; depois, é um trabalhador infeliz que escreve

sobre a sua esposa doente, cuja vida foi salva pelo conforto proporcionado por Mr.

Home; ou uma mãe que agradece o seu apoio para a iniciação de seu filho na vida.

Quanto tempo e quanta atenção devotou ele aos outros quando as circunstâncias de

sua vida levariam muitos homens a pensar apenas em si próprios e em suas

necessidades.”

“Mandeme

uma palavra do coração que tantas vezes soube consolar um

amigo!” exclamava um de seus protegidos. “Poderei um dia mostrarme

digno de

todo o bem que você me fez?” pergunta outro numa carta.

Encontramolo

vagando pelos campos de batalha, perto de Paris, às vezes

debaixo de fogo, com os bolsos cheios de cigarros para os feridos. Um oficial

alemão escreve afetuosamente para lhe lembrar como o salvou de morrer de

hemorragia, carregandoo

em seus fracos ombros para fora da zona de fogo.

126 – Ar thur Conan Doyle

Certamente Mrs. Browning era um melhor juiz do caráter do que seu esposo e Sir

Galahad um nome melhor do que Lama.

Ao mesmo tempo seria absurdo pintar Home como um caráter sem jaça.

Tinha ele a fraqueza de seu temperamento e algo de feminino em sua disposição que

se mostrava de muitas maneiras. Estando na Austrália, o autor teve oportunidade de

ler uma correspondência datada de 1856, entre Home e o filho mais velho dos

Rymer. Tinham viajado juntos pela Itália e Home tinha abandonado o amigo em

circunstâncias que demonstravam inconstância e ingratidão. Mas é justo dizer que

sua saúde era então tão precária que dificilmente poderíamos considerálo

normal.

“Tinha ele os defeitos de um caráter emotivo” , disse Lord Dunraven, “como a

vaidade altamente desenvolvida, talvez sabiamente lhe permitindo subtrairse

ao

ridículo que então era despejado sobre o Espiritismo e tudo quanto a este se ligava.

Era sujeito a grandes depressões e crises nervosas dificilmente compreensíveis, mas

era, também, simples, bondoso, de bom humor, de disposição amorável, que me

atraía... Minha amizade ficou inalterável e sem diminuição até o fim.”

Há poucos daqueles variados dons, que chamamos “mediúnicos” e que São

Paulo chama “do Espírito”, que Home não possuísse. Na verdade, a característica de

sua força psíquica era uma invulgar versatilidade. Geralmente falamos de um

médium de Voz Direta, de um que fala em transe, de um clarividente ou de um de

efeitos físicos, quando Home era os quatro.

Tanto quanto podemos verificar, tinha ele pouca experiência quanto à fôrça

de outros médiuns e não estava isento daquele ciúme psíquico, que é um traço

comum desses sensitivos. Mrs. Jencken, antes Miss Kate Fox, foi o único médium a

quem teve amizade.

Sentia amargamente qualquer mistificação, e denotou sempre esse

excelente fraco do caráter, qual o de guardar suspeitas de todas as formas de

manifestações que não correspondessem exatamente às suas. Essa opinião, expressa

de modo não comprometedor em seu último livro “Lights and Shadows of

Spiritualism” 42 naturalmente magoaram outros médiuns, que pretendiam ser tão

honestos quanto ele. Um mais largo e profundo contacto com os fenômenos o teriam

tornado mais caridoso. Assim, ele protestou fortemente contra toda sessão feita no

escuro, o que é um conselho de perfeição, de vez que as experiências sobre o

ectoplasma, que é a base física de todas as materializações, mostram, em geral, que

aquele é afetado pela luz, exceto pela vermelha.

Home não tinha grande experiência das materializações completas, tais

como foram obtidas naqueles dias por Miss Florence Cook ou por Madame

d’Esperance, ou em nossos dias pela mediunidade de Madame Bisson. Assim, podia

ele dispensar a obscuridade completa em seu trabalho. Por isso sua opinião foi

injusta para com os outros. Por outro lado, Home declarou enfaticamente que a

matéria não podia passar através da matéria, porque os seus fenômenos não

tomavam esse aspecto. Ainda a prova de que, em certos casos, a matéria podia

passar através da matéria era esmagadora. Até pássaros de variedades raras foram

trazidos para as salas de sessões, em circunstâncias que excluem qualquer fraude e

as experiências de madeira que atravessa a madeira, como as que foram apresentadas

42 “Luzes e Sombras do Espiritismo”. N. do T.

127 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

a Zõllner e outros professores em Leipzig, foram tão concludentes que se acham

relatadas pelo famoso físico na Física Transcendental, de suas experiências com

Slade. Deste modo, deve levarse

como uma pequena fraqueza do caráter de Home o

fato de gritar e duvidar das forças que porventura ele não possuísse.

Podem alguns acusálo

de dirigir sua mensagem antes aos dirigentes da

sociedade do que às massas trabalhadoras. É provável que, de fato, Home tivesse a

fraqueza, assim como as graças de sua natureza artística, que o faziam sentirse

mais

feliz numa atmosfera de elegância e de finura e uma repulsa visceral por tudo quanto

fosse sórdido e desfavorecido.

Se outras razões não existissem, o precário estado de saúde o tornava inapto

para qualquer tarefa pesada; as contínuas hemorragias o levaram a preferir a

agradável e refinada vida na Itália, na Suíça e na Riviera. Mas, em relação ao

desenvolvimento de sua missão, de lado o autosacrifício

pessoal, não há a menor

dúvida de que a sua mensagem, levada ao laboratório de um Crookes ou à Corte de

um Napoleão, foi mais útil do que se tivesse sido levada à multidão. A aprovação da

ciência e do caráter era necessária antes que o público ficasse seguro de que essas

coisas eram verdadeiras. Se isso não foi inteiramente conseguido a falta cabe

certamente aos encapuçados homens de ciência e aos pensadores da época e de

modo algum Home, que representou o seu papel de demonstrador com perfeição,

deixando a outros homens menos dotados a análise e a publicidade do que lhes havia

mostrado. Não era ele um homem de ciência, mas a matériaprima

da ciência,

desejando ansioso que os outros dele pudessem aprender tudo quanto pudesse trazer

ao mundo, de modo que a própria ciência pudesse dar testemunho da religião,

enquanto se apoiasse sobre a ciência. Quando a mensagem de Home tiver sido

aprendida completamente, um homem sem fé não será acusado de impiedade, mas

de ignorância.

Havia algo de patético no esforço de Home para descobrir alguma crença

na qual pudesse satisfazer o seu próprio instinto gregário — porque ele não era tido

como um individualista cabeçudo — e ao mesmo tempo achar um nicho no qual

pudesse depositar seu próprio volume de autênticas verdades. Sua peregrinação

reivindica a afirmação de alguns espíritas de que um homem pode pertencer a

qualquer crença e possuir conhecimentos espíritas, mas também apóia os que

replicam que a perfeita harmonia com aqueles conhecimentos espíritas só pode ser

encontrada, tal qual a coisa se encontra agora, numa comunidade espírita especial.

Ah! Se pudesse ser assim, pois é ele demasiado grande para afogarse

numa seita,

por maior que seja ela. Na mocidade Home seguiu a Wesley, mas logo se passou

para a mais liberal atmosfera do Congregacionalismo. Na Itália a atmosfera artística

da Igreja Católica Romana e, possivelmente o registro de tantos fenômenos

semelhantes aos seus próprios, levaramno

a se converter com a intenção de entrar

para uma ordem monástica — intenção que o seu bom senso o levou a abandonar. A

sua mudança de religião se deu num período em que as forças psíquicas o haviam

abandonado durante um ano e seu confessor lhe garantiu que elas eram de origem

perversa e que jamais lhe voltariam, agora que se transformara num filho da

verdadeira Igreja. Não obstante, no próprio dia em que se completava um ano, elas

voltaram com renovado vigor. Desde então parece que Home foi católico apenas de

nome, se é que o foi, e depois de seu segundo casamento —ambos com senhoras

128 – Ar thur Conan Doyle

russas — foi ele fortemente atraído para a Igreja Grega e foi no seu ritual que o seu

corpo foi encomendado em St. Germain, em 1886. “A outro o discernimento dos

Espíritos” (1 Epístola aos Coríntios, capítulo 12º versículo 10) é a curta inscrição

sobre aquele túmulo, do qual o mundo ainda não ouviu a última palavra.

Se fossem necessárias provas da vida inatacável de Home, estas não

poderiam ser melhor apresentadas do que pelo fato de que seus numerosos inimigos,

sempre à espera de uma oportunidade para o ataque, jamais puderam encontrar algo

em toda a sua carreira para um comentário, a não ser o caso absolutamente inocente,

e que se tornou conhecido como o caso HomeLyon.

Qualquer juiz imparcial, lendo

os depoimentos nesse caso, — e estes se encontram verbum ad verbum na segunda

série dos “Incidents in My Life” 43 — conviria que não há censura mas comiseração

devida a Home. Não se poderia desejar maior nobreza de caráter do que a sua em

relação àquela mulher desagradável e caprichosa, que inicialmente lhe havia doado

boa soma de dinheiro e depois, mudando de ideia, ao ver frustrada a esperança de ser

apresentada na alta sociedade, nada levou em consideração com intuito de reaver

aquele dinheiro. Se ela apenas tivesse pedido a sua devolução, não há dúvida de que

os delicados sentimentos de Home o teriam levado a devolvêlo,

ainda que lhe

tivesse custado muito trabalho e despesas, pois se tratava de mudar o seu nome para

HomeLyon,

a fim de satisfazer a vontade daquela mulher que queria adotálo

como

filho. Suas exigências, entretanto, eram tais, que ele não as poderia aceitar

honrosamente, pois implicava o reconhecimento de que procedera mal aceitando o

presente. Consultando as cartas originais — o que, parece, não foi feito pelos poucos

que comentaram o caso — verificase

que Home, o seu procurador S. C. Hall e seu

advogado Mr. Wilkinson imploraram àquela senhora que moderasse a sua

desarrazoada benevolência que se havia transformado tão ràpidamente numa

malevolência ainda mais desarrazoada. Ela estava absolutamente determinada a que

Home ficasse com o dinheiro e se constituísse seu herdeiro. Jamais houve um

homem menos mercenário: ele lhe pediu repetidamente que pensasse em seus

parentes, ao que ela respondia que o dinheiro lhe pertencia e que ela poderia fazer

com ele o que bem quisesse e que nenhum parente dependia dela. Desde o momento

em que aceitou a situação, agiu e escreveu como um filho devotado e não é falta de

caridade supor que essa atitude inteiramente filial não tivesse sido aquela que a

velhota havia planejado. De qualquer modo, cedo ela se cansou de esperar e exigiu o

dinheiro sob a escusa — escusa monstruosa para quem quer que leia as cartas e

considere as datas — de que mensagens espíritas é que a tinham levado a tomar

aquela resolução.

O caso correu na Corte de Chancery e o juiz aludiu a “inúmeras falsidades

de Mrs. Lyon, em tão importantes detalhes —falsidades declaradas sob juramento e

tão perversas que causavam um grande embaraço à Corte e desacreditavam o

testemunho da queixosa”.

A despeito desse comentário cáustico e da elementar justiça, o veredito foi

contra Home, por isso que, de um modo geral, é taxada como falha de provas a

defesa em tais casos e uma completa falta de provas é impossível quando a ação é

contestada. Sem dúvida Lord Giffard se teria mostrado superior à simples letra da

43 “Incidentes em minha Vida”. — N. do T.

129 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

lei, se não fosse tão profundamente contrário a qualquer referência às forças

psíquicas, que, no seu modo de ver, eram manifestamente absurdas e ainda eram

sustentadas pela defesa em sua cara, na sua própria Corte de Chancery. Até os piores

inimigos de Home foram forçados a admitir que o fato de haver ele retido o dinheiro

na Inglaterra, em vez de o depositar em lugar onde não pudesse ser requisitado,

prova as suas intenções honestas no mais infortunado episódio de sua vida.

Não há notícia de que tenha ele perdido a amizade de um só dos homens de

honra, que o tinham como amigos, por causa das maquinações de Mrs. Lyon. Os

próprios motivos dessa senhora eram óbvios. Como todos os documentos estavam

em ordem, seu único caminho para recuperar o dinheiro foi acusar Home de

extorsão por meio de simulação; e ela era bastante esperta para saber que chance

teria um médium — mesmo um médium amador e que não se fazia pagar — na

ignorante e material atmosfera de uma corte de justiça do período médiovitoriano.

Ah! Omitamos esse médiovitoriano

e a verificação é a mesma.

As faculdades de Home foram atestadas por tantos e tão famosos

observadores e foram mostradas sob condições tão francas que nenhum homem

razoável poderá pôlas

em dúvida.

Só a prova de Crookes é conclusiva. 44

Há também, o notável livro, recentemente reeditado, no qual Lord

Dunraven conta a história de sua mocidade em ligação com Home.

Mas, de lado estes, entre aqueles que na Inglaterra investigaram nos

primeiros anos e cujo testemunho público ou cartas a Home mostram que não só

estavam convencidos dos fenômenos, mas também de sua origem espiritual,

devemos mencionar a Duquesa de Sutherland, Lady Shelley, Lady Gomm, o Doutor

Robert Chambers, Lady Otway, Miss Catherine Sinclair, Mrs. Milner Gibson, Mr. e

Mrs. William Howitt, Mrs. De Burgh, o Doutor Gully (of Malvern), Sir Charles

Micholson, Lady Dunsany, Sir Daniel Cooper, Mrs. Adelaide Senior, Mr. e Mrs. 5.

C. Hall, Mrs. Macdougall Gregory, Mr. Pickersgill, R. A., Mr. E. L. Blanchard e Mr.

Robert Bell.

Outros que chegaram a admitir que a teoria da impostura era insuficiente

para explicar os fenômenos foram: Mr. Ruskin, Mr. Thackeray (então redator do

Cornhill Magazine), Mr. John Bright, Lord Dufferin, Sir Edwin Arnold, Mr.

Heaphy, Mr. Durham (escultor), Mr. Nassau Senior, Lord Lyndhurst, Mr. J.

Hutchinson (exsecretário

da Bôlsa) e o Doutor Lockhart Robertson.

Tais foram as testemunhas e tal o seu trabalho. E ainda quando a sua vida

utilíssima e altruísta chegava a seu fim, deve ser lembrado, para eterna vergonha da

Imprensa Britânica, que dificilmente se encontra um jornal que não se referisse a ele

como um impostor e um charlatão. Contudo chega o momento em que ele será

reconhecido pelo que realmente foi — um dos pioneiros do lento e árduo avanço da

Humanidade na selva da ignorância, que tanto a retardou.

44 “Researches in the Phenomena of Spir itualism, e SOCIETY FOR

PSYCHICAL RESEARCH Pr oceedings, volume 6º, página 98

130 – Ar thur Conan Doyle

10

Os Irmãos Davenport

fim de apresentar uma história contínua foi necessário descrever toda a vida

de D. D. Home. Agora é preciso voltar aos primeiros dias na América, e

considerar o desenvolvimento dos dois Davenports. Home e os Davenports

tiveram um papel internacional e sua história cobre o movimento na Inglaterra e nos

Estados Unidos. Os Davenports trabalharam num nível muito mais baixo do que

Home, fazendo profissão de seus notáveis dons e ainda pelos rudes métodos através

dos quais tiveram resultado no meio da multidão, de maneira que não teria sido

usada por um médium mais fino. Se considerarmos todo esse trem de eventos como

tendo sido produzidos por uma força sábia — mas não infalível ou onipotente —

situada no Além, observaremos como cada ocasião é utilizada por um instrumento

adequado, e como, ao falhar uma demonstração, outra a substitui.

Os Davenports tiveram sorte com os seus cronistas. Dois escritores

publicaram livros 45 , descrevendo os acontecimentos de sua vida e a literatura

periódica do tempo está cheia de seus relatos.

Ira Erastus Davenport e William Henry Davenport nasceram em Buffalo,

no Estado de Nova Iorque, o primeiro a 17 de setembro de 1839 e o segundo a 1º de

fevereiro de 1841. Seu pai, descendente dos primeiros colonos ingleses da América,

ocupava posição no departamento de polícia de Buffalo. Sua mãe, nascida em Kent,

na Inglaterra, veio criança para a América. Foram observados alguns sinais de

faculdades psíquicas na vida da mãe. Em 1846 a família foi perturbada alta noite por

aquilo que descreveram como “batidas, socos, ruídos altos, rupturas e estalos”. Isto

foi dois anos antes do surgimento das manifestações nas Fox que, neste caso, como

em muitos outros, os levou a investigar e descobrir que tinham faculdades

mediúnicas.

Os dois rapazes Davenport e sua irmã Elizabeth, a mais moça dos três,

experimentaram pondo as mãos sobre a mesa. Ruídos fortes e violentos eram

ouvidos e mensagens eram deletreadas. A notícia espalhouse

e, do mesmo modo

que com as irmãs Fox, centenas de curiosos e de incrédulos se amontoavam na casa.

Ira desenvolveu a escrita automática e distribuiu entre os presentes mensagens

escritas com extraordinária rapidez, contendo informações que ele não podia

possuir. Logo se seguiu a levitação e o rapaz era suspenso no ar, por cima das

cabeças dos que se achavam na sala, a uma altura de nove pés do solo.

Depois o irmão e irmã foram igualmente influenciados e os três flutuavam

no alto da sala. Centenas de cidadãos respeitáveis de Buffalo são citados como tendo

45 “A Biogr aphy of the Br other s Davenpor t”, by T. L. Nichols, M. D., London, 1864;

“Supr anr undane Facts in the Life of Rever endo J . B. Fer guson, LL. D.” by T. L. Nichols, M. D.

London, 1865. “Spir itual Exper iences: Including Seven Months with tir e Br other s Davenpor t” by

Robert Cooper, London, 1867.

A

131 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

presenciado esses fatos. Uma vez, quando a família tomava uma refeição, as facas,

os garfos e os pratos dançaram e a mesa foi erguida no ar. Numa sessão, pouco

depois, disso um lápis foi visto escrevendo em plena luz do dia, sem qualquer

contacto humano. Então as sessões passaram a ser feitas com regularidade,

começaram a aparecer luzes, e instrumentos de música boiavam no ar e eram

tocados acima das cabeças dos circunstantes. A Voz Direta e outras manifestações

extraordinárias se seguiram muito numerosas. Atendendo o pedido das inteligências

comunicantes, os irmãos começaram programando os vários lugares onde seriam

realizadas sessões públicas. Entre estranhos, insistiam pedidos de testes. A princípio

os rapazes eram segurados por pessoas escolhidas entre os presentes, mas isto foi

considerado insatisfatório, porque pensavam que aqueles que os seguravam eram

comparsas. Então passaram a amarrálos

com cordas. A leitura da lista das

engenhosas maneiras de controle que eram propostas, sem que pudesse haver

interferência, mostra como é quase impossível convencer cépticos opiniáticos.

Desde que um processo de controle dava resultado, outro era proposto. Em 1857 os

professôres da Universidade de Harvard examinaram os rapazes e os seus

fenômenos. Assim se expressa o seu biógrafo: 46

“Os professores demonstraram ingenuidade, propondo testes. Seriam eles

capazes de se submeterem a ser algemados? Sim. Permitiriam que fossem

agarrados? Sim. Fizeram uma dúzia de propostas, que foram aceitas e logo

rejeitadas por seus próprios autores. Se algum teste fosse adotado pelos irmãos, isto

bastava para o pôr de lado. Admitiam que estivessem preparados para isso, de modo

que qualquer outro devia ser encontrado.”

Finalmente os professôres trouxeram cento e cinquenta metros de corda,

encheram de buracos o gabinete preparado numa de suas salas e ai amarraram

brutalmente os rapazes. Todos os laços da corda foram amarrados com fio de linho e

um deles, o Professor Pierce, isolouse

dentro do gabinete, entre os dois rapazes.

Imediatamente mostrouse

a mão de um fantasma, moveramse

instrumentos, que

eram notados pelo professor junto à sua cabeça ou ao seu rosto. A cada instante, ele

procurava os rapazes com as mãos, sempre constatando que estavam imobilizados.

Por fim os operadores invisíveis libertaram os rapazes das suas amarras e quando o

gabinete foi aberto, as cordas foram encontradas enroladas no pescoço do professor!

Depois de tudo isso os professôres não fizeram nenhum relatório. É interessante ler a

descrição de um aparelho de controle realmente interessante, consistindo do que se

pode chamar de mangas e calças de madeira, muito bem pregadas, inventado por um

homem chamado Darling, em Bangor, nos Estados Unidos. Como outros aparelhos,

foi incapaz de evitar as manifestações. Devemos lembrar que muitos desses testes

foram aplicados quando aqueles irmãos eram garotos, demasiado moços para terem

aprendido complicados meios de mistificar.

Não é estranho lerse

que os fenômenos levantaram violenta oposição mais

ou menos por toda a parte; e frequentemente os rapazes eram denunciados como

trapaceiros e mistificadores. Foi depois de dez anos de trabalho público nas maiores

cidades americanas que os irmãos Davenport vieram para a Inglaterra. Eles se

haviam submetido com êxito a todas as provas que o engenho humano podia

46 “A Biogr aphy o! the Br other s Davenpor t”, by T. L. Nichols, M. D. páginas 8788.

132 – Ar thur Conan Doyle

inventar e nenhuma foi capaz de explicar como eram obtidos os resultados. Por seu

próprio comportamento haviam conquistado uma grande reputação. Agora iriam

recomeçar tudo.

Os irmãos Ira e William tinham, então, vinte e cinco e vinte e três anos,

respectivamente. O World, de Nova Iorque, assim os descreve:

“Eram notavelmente parecidos em quase tudo, muito bonitos, com a

cabeleira grande, crespa e preta, tinham a testa larga mas não alta, olhos pretos e

vivos, sobrancelhas grossas, bigode e cavanhaque, lábios acentuados e corpos

musculosos e bem proporcionados. Vestiam fraque preto e um deles usava relógio

com corrente.”

O seu biógrafo, Doutor Nichols, deles nos dá essa primeira impressão:

“Os jovens, com os quais tive um ligeiro contacto, e que jamais tinha visto

antes de sua chegada a Londres, se me afiguraram, tanto no intelecto, quanto no

caráter, acima da média de seus companheiros camponeses; não são notáveis pela

inteligência, posto que razoàvelmente habilidosos e Ira possui algum talento

artístico. Os moços parecem absolutamente honestos e singularmente

desinteressados e não mercenários — muito mais satisfeitos de que a gente fique

contente com a sua integridade e com a realidade das manifestações, do que

preocupados em ganhar dinheiro. Sem dúvida têm uma ambição, que é gratificada

por terem sido escolhidos como instrumentos daquilo que consideram um grande

bem para a humanidade.”

Foram à Inglaterra acompanhados pelo Reverendo Doutor Ferguson, antigo

pastor de uma grande igreja em Nashville, no Tennessee, que era frequentada por

Abraham Lincoln, por Mr. D. Paimer, conhecido maestro, que exercia as funções de

secretário, e por Mr. William M. Fay, que também era médium.

Em sua biografia dos Davenports, publicada anônimamente em Boston, em

1869, Mr. Randall indica que a sua missão na Inglaterra era “encontrarse,

no seu

próprio campo, conquistandoo

por meios adequados, com o materialismo duro e o

cepticismo da Inglaterra”. O primeiro passo no reconhecimento, diz ele, é

convencerse

da ignorância. E acrescenta: “Se as manifestações obtidas por

intermédio dos irmãos Davenport podem provar às classes intelectuais e científicas

que há forças e forças inteligentes ou poderes inteligentes —acima da faixa de suas

filosofias, e que aquilo que elas consideram impossibilidades físicas é rapidamente

realizado pelo invisível, para elas desconhecido, mas que são inteligências, um novo

universo abrirseá

para o pensamento humano e para a investigação.”

Há uma pequena dúvida sobre se os médiuns exerceram tal efeito sobre

muitas mentes. As manifestações da mediunidade de Mrs. Hayden eram calmas e

sossegadas, enquanto as de D. D. Home eram mais notáveis, se limitavam,

entretanto, a pessoas que não pagavam entrada. Mas esses dois rapazes alugavam

salões e desafiavam todo o mundo a vir assistir os fenômenos que ultrapassavam os

limites da crença ordinária. Não era preciso ser arguto para prever uma forte

oposição: assim aconteceu. Mas eles atingiram o objetivo que certamente tinham em

vista os dirigentes invisíveis. Chamaram a atenção do público como nunca na

Inglaterra para um tal assunto. Melhor testemunho não poderia ser dado do que o de

133 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

seu maior oponente, Mr. N. N. Maskelyne, o célebre mago, que escreve: 47 “É

verdade, a Inglaterra foi inteiramente dominada, por algum tempo, pelas

maravilhas apresentadas por esses charlatães” . Depois acrescenta: “Os irmãos

fizeram mais que ninguém para familiarizar a Inglaterra com o chamado

Espiritismo; ante imenso auditório e sob várias condições, na verdade produziram

fatos maravilhosos. As sessões dos outros médiuns eram feitas no escuro ou na

semiobscuridade,

ante uma assistência simpática ou, frequentemente, devota; aí

parece que ocorriam manifestações, que não podem ser comparadas com as

exibições dos Davenport, pelo seu efeito sobre a opinião pública.”

Sua primeira sessão em Londres, de caráter privado, foi a 28 de setembro

de 1864, na residência de Mr. Dion Bouci. cault, em Regent Street. No salão desse

famoso ator e autor encontravamse

as principais figuras da imprensa e distintos

homens de ciência, O noticiário da imprensa foi notavelmente completo e — o que é

uma maravilha — correto.

A descrição do Morning Post, no dia seguinte, diz que aos convidados

tinham pedido uma crítica severa e que todas as necessárias precauções fossem

tomadas contra a fraude e a mistificação, e continua: “As pessoas convidadas a

assistir as manifestações da noite passada eram em número de doze ou catorze,

todas tidas como de considerável distinção nas respectivas profissões que exercem.

Em sua maioria jamais haviam assistido a qualquer coisa no gênero. Todas,

entretanto, estavam determinadas a descobrir e, se possível, denunciar, qualquer

tentativa de mistificação. Os irmãos Davenport são de pequena estatura, de

aparência distinta, e as últimas pessoas no mundo de quem se poderia esperar uma

grande demonstração de força. Mr. Fay aparenta alguns anos mais e é de

constituição mais robusta.”

Depois de descrever as ocorrências, continua o articulista: “Tudo quanto

pode ser garantido é que as demonstrações que descrevemos ocorreram, na

presente ocasião, em circunstâncias que excluem toda presunção de fraude”.

The Times, o Daily Telegraph e outros jornais publicaram notícias longas e

honestas. Omitiram as suas citações porque o seguinte depoimento de Mr. Dion

Boucicault, publicado no Daily News, bem como em muitos outros jornais

londrinos, cobre todos os fatos. Descreve ele uma sessão posterior, em sua própria

casa, a 1º de outubro de 1864, a que estiveram presentes, entre outras pessoas, o

Visconde Bury, deputado, Sir Charles Wike, Sir Nicholson, o Chanceler da

Universidade de Sidney, Mr. Robert Chambers, Charles Reade, escritor, e o Capitão

Inglefield, explorador do Ártico.

“Senhor. Ontem realizouse

em minha casa uma sessão com os Irmãos

Davenport e Mr. W. Fay, à qual estiveram presentes... (Aqui menciona vinte e

quatro nomes, entre os quais os acima referidos). À três horas todos se achavam

reunidos. Mandamos buscar numa casa de música próxima seis violões e dois

tamborins, de modo que o material usado não fosse aquele com que os operadores

estavam familiarizados. As três e meia chegaram os Irmãos Davenport e Mr. Fay, e

verificaram que nós tínhamos alterado os seus planos, trocando a sala previamente

escolhida por eles para as manifestações. A sessão começou pelo exame das roupas

dos Irmãos Davenport, tendo sido verificado que nenhum dispositivo ou quaisquer

47 “Moder n Spir itualism”, página 65.

134 – Ar thur Conan Doyle

artifícios se achavam em suas pessoas ou nas proximidades. Entraram na cabine e

sentaramse

de frente um para o outro. Então o Capitão Inglefiekl, com uma corda

nova, que ele próprio trouxera, amarrou Mr. W. Davenport de pés e mãos, com as

mãos para as costas. Do mesmo modo Lord Bury amarrou Mr. I. Davenport. Os

laços foram amarrados e selados com lacre e carimbados. Um violão, um violino,

um tamborim, dois sinos e uma trombeta de latão foram colocados no piso da

cabine. Então as portas foram fechadas e se fez luz bastante na sala para que

pudéssemos ver o que acontecia. Omitirei a descrição minuciosa da babel de sons

que se produziram na cabine e a violência com que as portas se abriam

continuamente e os instrumentos eram jogados para fora; as mãos aparecendo

geralmente por um orifício em forma de losango ao centro da porta da cabine. Os

incidentes que se seguem pareceramnos

particularmente dignos de menção:

Quando Lord Bury estava inclinado dentro da cabine, estando a porta aberta e os

dois operadores amarrados e lacrados, foi vista uma mão destacada descer sobre

ele; ele recuou, observando que uma mão lhe havia batido. De noite, em plena luz

do candelabro de gás e durante um intervalo da sessão, estando abertas as portas

da cabine e quando as ligaduras dos irmãos Davenport estavam sendo examinadas,

uma mão feminina, muito branca e fina e o punho tremeram por alguns segundos

no espaço Essa

aparição provocou uma exclamação geral. Então Sir Charles

Wyke entrou na cabine e sentouse

entre os dois moços, pondo cada uma das mãos

sobre eles e os segurando. Depois, as portas foram fechadas e recomeçou a babel

de sons. Várias mãos apareceram no orifício — entre as quais a de uma criança.

Depois de algum tempo Sir Charles voltou para o nosso meio e informou que

enquanto segurava os dois irmãos diversas mãos lhe tocaram o rosto e puxaram os

seus cabelos; em seu redor os instrumentos se ergueram e foram tocados em volta

de seu corpo e da cabeça, enquanto um deles se apoiou sobre o seu ombro. Durante

os seguintes incidentes as mãos que apareceram foram tocadas e seguradas pelo

Capitão Inglefield o qual verificou, pelo tato, que eram aparentemente humanas,

embora escapassem de suas mãos. Deixo de mencionar outros fenômenos já

descritos em outra parte.

“A parte seguinte da sessão foi realizada no escuro. Um dos Davenport e

Mr. Fray ficaram sentados entre nós. Duas cordas foram atiradas a seus pés e em

dois minutos e meio estavam eles amarrados de pés e mãos, com as mãos para trás,

fortemente atadas às cadeiras e estas amarradas a uma mesa próxima. Enquanto

esta operação se realizava o violão foi erguido da mesa e tocou e flutuou em volta

da sala e por cima da cabeça de todos, tocando de leve um ao outro. Então uma luz

fosforescente foi atirada de um para outro lado, por cima de todos; o peito, as mãos

ou as costas de vários dos presentes foram simultaneamente tocados, batidos ou

arranhados por mãos, enquanto o violão flutuava no ar, agora próximo do teto e

batia na cabeça e nos ombros dos menos felizes. As campainhas soavam aqui e ali,

e uma leve vibração era mantida no violino. Os dois tamborins pareciam rolar para

lá e para cá pelo chão, ora sacudidos violentamente, ora tocando nas mãos e nos

joelhos dos circunstantes — sendo que todas essas coisas eram sentidas ou ouvidas

simultaneamente. Segurando um tamborim, Mr. Rideout perguntou se o mesmo

poderia ser tirado de suas mãos; quase que instantâneamente o instrumento foi

arrebatado. Ao mesmo tempo Lord Bury fez a mesma pergunta e houve uma

tentativa de arrebatamento do tamborim que ele segurava fortemente. Então Mr.

Fay perguntou se lhe poderiam tirar o paletó. Imediatamente ouvimos um puxão

violento e aconteceu a coisa mais notável. Uma luz foi acesa antes que o paletó

saisse de Mr. Fay, tirado por cima. Voou para o candelabro onde ficou pendurado

por um instante e depois caiu no chão. Enquanto isto Mr. Fay era visto como antes,

de pés e mãos atados. Um do grupo tirou então o próprio casaco, que foi colocado

135 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

sobre a mesa. A luz foi apagada e esse casaco foi levado para as costas de Mr. Fay

com a mesma rapidezembro Durante as ocorrências acima no escuro, culocamos

uma fôllia de papel debaixo dos pés dos dois operadores e com um lápis fizemos o

seu contôrno, a fim de verificar se eles os tinham movido. Por iniciativa própria

eles quiseram ficar com as mãos cheias de farinha ou substância similar, a fim de

provarem que não as tinham usado, mas essa precaução foi julgada desnecessária.

Contudo, nós lhes pedimos que contassem de um a doze continuamente, para que

suas vozes fossem ouvidas ininterruptamente e pudéssemos saber que vinham do

lugar onde estavam amarrados. Cada um de nós segurou firmemente o vizinho, de

modo que ninguém podia moverse

sem que duas pessoas adjacentes o

percebessem. No fim da sessão estabeleceuse

uma conversa geral, a respeito do

que tínhamos visto e ouvido. Lord Bury sugeriu que a opinião parecia ser que

deveríamos assegurar aos Irmãos Davenport e a Mr. Fay que, depois de rigoroso

julgamento e rigorosa investigação de seus procedimentos, os senhores presentes

não podiam chegar a outra conclusão senão de que não havia qualquer indicio de

truque e, certamente, nem havia com parsas nem maquinismos, e que todos aqueles

que haviam testemunhado os resultados declaravam livremente, na sociedade em

que se achavam, até onde as investigações lhes permitiam formar opinião, que os

fenômenos ocorridos em sua presença não eram produto de malabarismo. Esta

sugestão foi aceita por todos imediatamente.”

Esse maravilhosamente completo e lúcido relato é dado sem abreviações,

porque responde a muitas objeções e porque o caráter do narrador e testemunha não

pode ser posto em dúvida. Certamente deve ser aceito como conclusivo, no que

respeita a honestidade. Toda obsessão subsequente é mera ignorância dos fatos.

Em outubro de 1864 os Davenport começaram a realizar sessões públicas

no Queen’s Concert Rooms, em Hanover Square. Eram escolhidas comissões entre

os assistentes e eram feitos esforços visando descobrir como as coisas eram feitas,

mas tudo sem resultado. Essas sessões, entremeadas por sessões particulares,

continuaram todas as noites, até o fim do ano. A imprensa diária estava repleta de

seus relatos e o nome dos irmãos estava em todas as bôcas. No começo de 1865

fizeram uma excursão pelas províncias inglesas, e em Liverpool, Hudderfield e

Leeds sofreram violências físicas da multidão. Em fevereiro, em Liverpool, dois dos

assistentes lhes ataram as mãos tão brutalmente que sangraram e Mr. Ferguson

cortou as cordas e os soltou. Os Davenports recusaramse

a continuar e a multidão

invadiu o palco e destruiu a cabine. As mesmas táticas foram seguidas em

Hadderfield a 21 de fevereiro e depois em Leeds, com crescente violência,

organizada pelos opositores. Essas desordens levaram os Davenports a cancelar

quaisquer outros compromissos na Inglaterra. Depois disso foram a Paris, onde

receberam o conselho de ir ao Palácio de St. Cloud, onde o Imperador e a

Imperatriz, com um séquito de cerca de quarenta pessoas, testemunharam a sessão.

Quando em Paris, Hamilton, sucessor do célebre mágico Robert Houdin, os visitou e

numa carta a um jornal parisiense, diz: “Os fenômenos ultrapassaram a minha

expectativa e foram cheios de interesse para mim. Considero um dever declarar que

são inexplicáveis.” Depois de breve visita à Inglaterra, a Irlanda foi visitada em

começos de 1866. Em Dublin tiveram muitos assistentes da alta sociedade, inclusive

o redator do Irish Tines e o Reverendo Doutor Tisdal, que proclamava publicamente

sua crença nas manifestações.

136 – Ar thur Conan Doyle

Em abril do mesmo ano eles foram a Hamburgo e depois a Berlim, mas,

como esperavam uma guerra (desde que os guias a tinham previsto), a excursão não

foi lucrativa. Gerentes de teatro lhes ofereceram elevadas somas para umas

exibições mas, seguindo o conselho de seu sempre presente Espírito monitor, que

disse que as suas manifestações deviam ser conservadas acima do nível dos

divertimentos teatrais, desde que eram supernaturais, eles recusaram o convite com

o que muito se contrariou o seu empresário. Durante o mês que passaram em Berlim

foram visitados por membros da Família Real. Depois de três semanas em

Hamburgo seguiram para a Bélgica, onde alcançaram notável sucesso em Bruxelas,

bem como nas principais cidades. A seguir foram à Rússia, chegando a São

Petersburgo a 27 de dezembro de 1866. A 7 de janeiro de 1867 deram a primeira

sessão pública a um auditório de mil pessoas. A sessão seguinte foi na residência do

Embaixador da França, a uma assistência de cinquenta pessoas, inclusive figuras da

Corte Imperial, e a 9 de janeiro deram outra sessão no Palácio de Inverno para o

Tzar e para a Família Imperial. Depois disso visitaram Polônia e Suécia. A 11 de

abril de 1868 reapareceram em Londres no Hanover Square Rooms e receberam

entusiástica recepção de uma grande multidão. Mr. Benjamin Coleman, eminente

espírita, que lhes proporcionou a primeira sessão pública em Londres, escrevendo a

esse tempo sobre a sua estada de quatro anos na Europa 48 diz: “Desejo exprimir aos

meus amigos da América, que mos apresentaram, a segurança de minha convicção

de que a missão dos irmãos na Europa foi um grande serviço ao Espiritismo; que a

sua conduta pública como médiuns — e só nessas condições eu os conheço — tem

sido correta e excepcional.”

Acrescenta que desconhece qualquer forma de mediunidade mais adequada

a grandes auditórios do que a deles. Depois de sua visita a Londres os Davenport

voltaram para a América. Visitaram a Austrália em 1876 e em 24 de agosto deram a

primeira sessão pública em Melbourne. William morreu em Sidney em julho de

1877.

Durante sua carreira os Irmãos Davenport excitaram profunda inveja e

malícia da confraria dos mágicos. Maskeline, com um cínico desembaraço,

pretendeu os haver desmascarado na Inglaterra. Sua alegação nesse particular foi

muito bem respondida pelo Doutor George Sexton, antigo redator do Spiritual

Magazine, que descreveu em público, em presença do próprio Maskeline, como

eram feitos os seus truques, comparandoos

com. os resultados obtidos pelos

Davenport, e disse: “Há tanta semelhança entre um lado e o outro quanto entre as

produções do poeta Close e os sublimes e gloriosos dramas do imortal bardo de

Ávon” . 49

Os mágicos fizeram ainda mais barulho em público do que os Espíritas e,

com a imprensa que os sustentava, fizeram o público, em geral, pensar que os

Irmãos Davenport tinham sido desmascarados.

Anunciando a morte de Ira Davenport na América, em 1911, Light comenta

as demonstrações de ignorância que essa morte ensejou. Cita o Daily News por

haver dito o seguinte: “Eles cometeram o erro de aparecer como feiticeiros, em vez

48 Spir itual Magazine, 1868, página 321.

49 Palestra na Sala Cavendish, Londres, a 15 de junho de 1873.

137 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

de como honestos mágicos. Se, como seu vencedor Maskelyne, tivessem pensado em

dizer ‘Isto é muito fácil’, os irmãos não só teriam ganho uma fortuna como

consideração” . Respondendo a isto, Light pergunta por que, se eles fossem simples

mágicos e não crentes honestos em sua mediunidade, iriam suportar ataques, injúrias

e insultos e sofrer as indignidades que lhes atiravam quando, se renunciassem a

mediunidade, poderiam tornarse

considerados e ricos?

Uma observação inevitável por parte daqueles que não são capazes de

descobrir truques é perguntar que elevado objetivo pode encontrarse

em fenômenos

semelhantes aos observados com os Davenport. O conhecido autor e arrojado

espírita William Howitt deu uma boa resposta: “Esses que fazem truques e tocam

instrumentos são Espíritos do céu? Na verdade Deus os pode mandar? Sim; Deus os

envia para que nos ensinem, pelo menos, isto: que Ele tem servos de todos os graus

e todos os gostos para fazerem toda sorte de trabalhos; e aqui Ele mandou aqueles

que chamais Espíritos atrasados e palhaços a uma época degradada e muito

sensual. Se Ele tivesse mandado algo mais elevado, teria passado por cima da

assistência. Assim, nove décimos não acreditam no que veem. É triste verificar que

os avenport — talvez os maiores médiuns de seu gênero que o mundo já viu —

sofressem toda a vida uma oposição e uma perseguição brutais. Em muitas ocasiões

suas vidas estiveram até em perigo. A gente é forçada a pensar que não haveria

mais clara prova da influência das sombrias forças do mal do que essa permanente

hostilidade a todas as manifestações espíritas.”

A esse propósito diz Mr. Randall 50 : “Parece que há uma espécie de mávontade

crônica, quase ódio, na mente de algumas pessoas contra toda e qualquer

coisa espiritual. Parece que há um vapor flutuando no ar — uma espécie de esporo

mental, fluindo pelo espaço, respirado pela grande maioria da humanidade, que

acende um contínuo fogo letal em seus corações contra todos aqueles cuja missão é

trazer a paz na terra e a boa vontade entre os homens. Os homens e as mulheres do

futuro ficarão muito admirados dos que vivem atualmente, quando lerem que os

Davenport e todos os outros médiuns foram forçados a enfrentar a mais inveterada

hostilidade; que eles, e o autor destas linhas, foram obrigados a suportar horrores

indescritíveis, por nenhum outro motivo senão porque buscavam convencer a

multidão de que não eram animais que morrem sem deixar sinais, mas almas

imortais, que sobrevivem aos túmulos. Só os médiuns são capazes de demonstrar

que a existência do homem continua após a morte. E ainda — estranha incoerência

da natureza humana! — as próprias pessoas que perseguem a estes, que são os seus

mais verdadeiros e melhores amigos, que os atiram no desespêro ou lhes dão morte

prematura, são as mesmas que prodigalizam tudo quanto a fortuna pode dar

àqueles cujo ofício é apenas admitir que a humanidade é imortal.”

Discutindo as alegações de vários mágicos profissionais de que haviam

desmascarado ou imitado os Davenport, disse Sir Richard Burton: “Passei a maior

parte de minha vida no Oriente, e vi muitos de seus mágicos. Finalmente tive a

oportunidade de presenciar os trabalhos dos senhores Anderson e Tolmaque. O

último mostrou, como dizem, notáveis mágicas, mas nem se aproximam do que

fazem os irmãos Davenport e Mr. Fay: por exemplo, o bonito manejo de

50 Biography, página 82.

138 – Ar thur Conan Doyle

instrumentos de música. Finalmente li e ouvi todas as explicações dos chamados

truques dos Davenport perante o público inglês e — acreditemme

— se alguma

coisa me faria dar um pulo tremendo ‘da matéria para o Espírito’ é a inteira e

completa semrazão

das razões pelas quais são explicadas as manifestações.”

É de notarse

que os próprios Davenport, contrastando com amigos e

companheiros de viagem, jamais pretenderam qualquer origem sobrenatural para os

seus efeitos. A razão disso deve ter sido que, como um entretenimento, era mais

picante e menos provocante quando cada assistente podia formar a sua própria

opinião. Escrevendo ao mágico americano Houdini, disse Ira Davenport, em sua

velhice: “Nós nunca afirmamos de público a nossa crença no Espiritismo. Não

considerávamos isso de interesse para o público, nem oferecemos nosso

entretenimento como o resultado de habilidade manual nem, por outro lado, como

Espiritismo. Deixávamos que os amigos e os mortos resolvessem isso lá entre eles,

como melhor pudessem, mas, infelizmente, fomos por vezes vítimas de sua

discordância”.

Posteriormente Houdini alegou que Davenport admitia que seus resultados

eram conseguidos normalmente; mas Houdini de fato encheu tanto de erros o seu

livro “A Magician Among the Spirits” 51 e mostrou tanto preconceito em todo o

assunto que o seu depoimento não tem valor. A carta que exibe não lhe dá razão.

Uma declaração posterior, citada como tendo sido feita por Ira Davenport, é

demonstràvelmente falsa. É a de que os movimentos jamais saíram da cabine. Na

verdade o representante do The Times foi severamente batido no rosto por um

violão que andava no ar, a sobrancelha ficou ferida e em diversas ocasiões, quando

se acendia a luz, os instrumentos caíam por toda a sala. Se Houdini não entendeu

esse último depoimento, não é de supor que esteja tão bem informado quanto aos

primeiros.

Objetamme

— e tenho recebido essa objeção tanto de Espíritas quanto de

cépticos, que todo esse amontoado de exibições é indigno e sem valor. Muitos de

nós assim pensam e muitos outros fazem eco às seguintes palavras de Mr. B.

Randall: “A falha não é dos imortais, mas nossa. Porque, conforme o pedido, assim

é a entrega. Se não podemos ser alcançados de um modo, devemos e somos

alcançados de outro. E a sabedoria do mundo eterno dá aos cegos aquilo que eles

podem suportar e não mais. Se somos crianças intelectuais devemos alimentarnos

com sopinhas mentais, até que a nossa capacidade digestiva suporte e exija

alimentação mais forte. E, se o povo pode ser melhor convencido da imortalidade

por processos grosseiros, os fins justificam os meios. A visão do braço de um

espectro num auditório de três mil pessoas falará a mais corações, causará mais

profunda impressão e converterá mais gente à crença no postmortem,

em dez

minutos, do que todo um regimento de pregadores, por mais eloquentes que sejam,

em cinco anos.”

51 “Um Mago entre os Espíritos. — N. do T.

139 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

11

As pesquisas de Sir William Crookes

– de 1870 até o ano de 1874

s pesquisas sobre os fenômenos do Espiritismo por Sir William Crookes —

ou Professor Crookes, como era então chamado — durante os anos de 1870

a 1874 constituem um dos mais significativos incidentes na história do

movimento. São notáveis devido ao elevado padrão científico do investigador, o

severo e justo espírito com que o inquérito foi conduzido, os extraordinários

resultados e a corajosa profissão de fé que as seguiu. A tecla favorita dos adversários

foi atribuir certa fraqueza física ou crescente senilidade a cada nova testemunha da

verdade psíquica, mas ninguém pode negar que essas pesquisas foram conduzidas

por um homem em pleno apogeu de seu desenvolvimento mental e que a famosa

carreira que se seguiu constituiu uma prova suficiente de sua estabilidade intelectual.

É de notarse

que o resultado não só veio provar a integridade do médium Florence

Cook, com quem foram obtidos os mais sensacionais resultados, mas também a de

D. D. Home e a de Miss Kate Fox, que foram, também, severamente controlados.

Sir William Crookes, que nasceu em 1832 e morreu em 1919, era figura

preeminente no mundo científico. Eleito Membro da Sociedade Real (F.R.S.) em

1863, recebeu dessa organização, em 1875, a Royal Gold Medal, por suas várias

pesquisas no campo da química e da física, a Davy Medal, em 1888, e a Sír Joseph

Copley Medal em 1904. Foi nomeado Cavaleiro pela Rainha Vitória em 1897 e

recebeu a Ordem do Mérito em 1910. Ocupou diversas vezes a cadeira de Presidente

da Royal Society, da Chemical Society, da Institution of Electrical Engineers, da

British Association e da Society for Psychical Research. Sua descoberta do novo

elemento químico a que deu o nome de “Thallium”, suas invenções do radiômetro,

do espintariscópio e do tubo de Crookes representam apenas uma pequena parte de

sua grande pesquisa. Em 1859 fundou o Chemical News, que editou, e em 1864

tornouse

redator do Quarterley Journal of Science. No ano de 1880 a Academia de

Ciências da França lhe concedeu uma medalha de ouro e um prêmio de 3.000

francos, em reconhecimento por seu importante trabalho.

Confessa Crookes que iniciou as suas investigações sobre fenômenos

psíquicos pensando que tudo fosse truque. Seus colegas sustentavam o mesmo ponto

de vista e ficaram satisfeitos com a atitude que ele havia adotado. Foi manifestada

profunda satisfação porque a investigação ia ser conduzida por um homem tão

altamente qualificado. Quase não duvidavam de que aquilo que consideravam as

falsas pretensões do Espiritismo fosse desmascarado. Disse um escritor: “Se homem

como Mr. Crookes trata do assunto... em breve saberemos em que acreditar.” Numa

comunicação a Nature, o Doutor Balfour Stewart, mais tarde Professor, elogiou a

coragem e a honestidade que levou Mr. Crookes a tomar aquela resolução. O próprio

A

140 – Ar thur Conan Doyle

Crookes assentou que era dever dos cientistas fazer tal investigação. E escreveu:

“Temse

lançado em rosto dos homens de ciência a sua pretensa liberdade de

opinião, quando sistemàticamente se recusam a fazer uma investigação científica

sobre a existência e a natureza de fatos sustentados por tantos testemunhos

competentes e fidedignos, e os convidam a um exame livre, onde e quando quiserem.

Por minha parte dou muito valor à pesquisa da verdade e à descoberta de qualquer

fato novo na Natureza, para me insurgir contra a investigação apenas por parecer

que ela se choca com as opiniões predominantes”.

Foi com esse Espírito que ele iniciou a sua investigação.

Contudo deveria ser verificado que, conquanto o professor Crookes fosse

severo crítico dos fenômenos físicos, já tinha ele tomado contacto com os

fenômenos mentais e parece que os havia aceitado. É provável que essa simpatia

espiritual o tenha ajudado na obtenção de seus notáveis resultados, porque, nunca

será por demais repetido, de vez que é sempre esquecido — a pesquisa psíquica da

melhor qualidade é sempre “psíquica” e depende de condições espirituais. Não é o

homem teimoso e opiniático, que investiga com uma grande falta de senso de

medida para coisas espirituais o que consegue resultados; mas aquele que verifica

que o estrito uso da razão e da observação não é incompatível com a humildade

mental e com aquela delicadeza e cortesia que produzem a harmonia e a afinidade

entre o investigador e o seu sensitivo.

Parece que as investigações menos materiais de Crookes começaram no

verão de 1869. Em julho daquele ano fez sessões com o conhecido médium Mrs.

Marshall e em dezembro com outro médium famoso, J. J. Morse. Em julho de 1869

D. D. Home, que havia feito sessões em S. Petersburgo, voltou a Londres com uma

carta de apresentação do Professor Butlerof para o Professor Crookes.

Ressalta um fato interessante do diário pessoal de Crookes, quando de sua

viagem à Espanha, em dezembro de 1870, com a Expedição do Eclipse. Em data de

31 de dezembro 52 , escreve ele:

“Não posso deixar de recordar esta data no ano passado. Nelly 53 e eu

estávamos em sessão, comunicandonos

com queridos amigos mortos e, ao soarem

as doze horas, eles nos desejaram feliz Ano Novo. Sinto que agora nos olham e,

como o espaço não lhes é obstáculo, penso que ao mesmo tempo olham para Nelly.

Sobre nós ambos sei que há alguém e que todos nós — Espíritos e mortais — em

sua presença nos curvamos como ante um Pai e Mestre; e minha humilde prece a

Ele — o Grande Deus, como O chama o Mandarim é que continue sua

misericordiosa proteção sobre Nelly e sobre mim, bem como sobre nossa pequena e

querida família... Possa Ele também permitir que continuemos a receber

comunicações espíritas de meu irmão, que atravessou os umbrais em alto mar, a

bordo de um navio, há mais de três anos”.

Depois acrescenta amorosos cumprimentos de Ano Bom a sua esposa e às

crianças e conclui:

“E quando os anos terrenos houverem passado, possamos nós viver

outros mais felizes no mundo dos Espíritos, do qual tenho tido ocasionalmente

alguns reflexos.”

52 “Life of Sir William Cr ookes” by E. E. Fournier d’Albe, 1923.

53 Sua esposa. — N. do T.

141 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

Miss Florence Cook, com a qual Crookes realizou a sua série clássica de

experiências, era uma jovem de quinze anos, de quem se dizia possuir enorme força

psíquica, que tomava as raras formas de materializações completas. Parece que era

uma característica de família, porque sua irmã, Miss Kate Cook, não era menos

famosa. Houve algumas dissensões sobre um suposto desmascaramento, nas quais

um tal Mr. Volckman tomou posição contra Miss Cook e, no propósito de se vingar,

colocouse

inteiramente sob a proteção de Mrs. Crookes, declarando que seu marido

podia fazer quaisquer experiências sobre os seus dons e nas condições que quisesse,

nada pedindo a não ser que pudesse demonstrar o seu caráter como médium, através

de exatas conclusões apresentadas ao mundo. Felizmente ela estava tratando com

um homem de inatacável honestidade intelectual. Temos tido experiências, nestes

últimos tempos, com médiuns que se entregavam com reservas às investigações

científicas e foram atraiçoados por investigadores que não possuíam a coragem

moral de admitir aqueles resultados que teriam conduzido à aceitação pública da

interpretação espírita.

O Professor Crookes publicou um relatório completo de seus métodos no

Querterly Journal of Science, do qual era então redator. Em sua casa em Mornington

Road, um pequeno gabinete se abria para o laboratório, por uma porta com uma

cortina. Miss Cook jazia em transe num divã no quarto interno; no externo, com luz

reduzida, ficava Crookes com as pessoas que houvesse convidado. No fim de um

período de vinte minutos a uma hora estava completa a figura com o ectoplasma da

médium. A existência dessa substância e o seu método de produção eram então

desconhecidos. Pesquisas posteriores lançaram muita luz sobre o assunto, razão por

que foram incorporadas no capítulo sobre o ectoplasma.

Completada a operação, abriase

a cortina e entrava no laboratório uma

figura feminina, geralmente tão diferente da médium quanto duas pessoas podem sêlo.

Essa aparição, que se movia, falava e agia em todos os sentidos como uma

entidade independente, é conhecida pelo nome que ela própria adotou, de “Katie

King”.

A explicação natural dos cépticos é que as duas mulheres realmente eram

uma e mesma e que Katie era uma clara imagem de Florence. O opositor podia

apoiarse

no fato de que, como observaram Crookes, Miss Marryat e outros, por

vezes Katie era muito parecida com Florence.

Aqui está um dos mistérios da materialização que exige mais consideração

cuidadosa do que zombarias. Experimentando com Miss Besinnet, famosa médium

americana, o autor destas linhas observou a mesma coisa: quando era pouca a força

psíquica, o rosto começava por se assemelhar ao da médium e por fim se tornava

completamente diferente. Alguns especuladores imaginaram que a forma esférica da

médium, seu corpo espiritual, teria tido liberdade pelo transe e constituía a base

sobre a qual as outras entidades manifestantes construiam seu próprio simulacro.

Seja como for, a coisa não foi admitida; é semelhante aos fenômenos de Voz Direta,

nos quais por vezes a voz se assemelha à do médium, logo de início, tomando depois

um tom inteiramente diferente, ou se dividindo em duas vozes simultâneas.

Entretanto o estudioso por certo tem o direito de proclamar que Florence

Cook e Katie King eram a mesma individualidade, até que provas evidentes lhe

142 – Ar thur Conan Doyle

demonstrem que isto é possível. Tal prova o Professor Crookes tem muito cuidado

em oferecer.

Os pontos diferentes que observou entre Miss Cook e Katie são os

seguintes:

“A altura de Katie varia; em minha casa eu a vi quinze centímetros mais

alta que Miss Cook. Na noite passada estando descalça e sem pisar na ponta dos

pés, ela era doze centímetros mais alta que Miss Cook. O pescoço de Katie estava

nu; a pele era perfeitamente lisa à vista quanto ao tato, enquanto o de Miss Cook é

uma grande escara que, nas mesmas condições, é distintamente visível e áspera ao

tato. As orelhas de Katie não são furadas, enquanto que Miss Cook habitualmente

usa brincos. A compleição de Katie é muito alva, enquanto a de Miss Cook é muito

morena. Os dedos de Katie são muito mais longos do que os de Miss Cook e seu

rosto também é maior. Há também marcadas diferenças nos modos e nos

ademanes” .

Posteriormente, acrescenta:

“Ultimamente tendo examinado muito Katie, iluminada à luz elétrica,

posso acrescentar aos pontos, já mencionados, de diferenças entre ela e o seu

médium, que tenho a mais absoluta certeza de que Miss Cook e Miss Katie são duas

individualidades distintas, no que se refere aos corpos. Vários sinais no rosto de

Miss Cook não existem no de Katie. O cabelo de Miss Cook é de um castanho tão

escuro que parece negro; um cacho do cabelo de Katie, que tenho agora em minha

frente, e que ela me permitiu cortasse de suas tranças exuberantes, inicialmente

examinado e, para minha satisfação, verificado que cresceu, é de um rico dourado

escuro.

“Uma noite contei o pulso de Katie. Tinha 75 pulsações, enquanto que o

de Miss Cook pouco depois marcava 90 pulsações. Aplicando o ouvido ao peito de

Katie, pude ouvir o coração a bater ritmado e pulsando mais firmemente que o de

Miss Cook, quando esta me permitiu que a auscultasse depois da sessão.

Examinados do mesmo modo os pulmões de Katie pareceram mais fortes que os da

médium, pois ao tempo em que a examinei, Miss Cook estava sob tratamento

médico de uma tosse rebelde.”

Crookes tirou quarenta e quatro fotografias de Katie King, empregando a

luz elétrica.

Escrevendo em The Spiritualist, em 1874, à página 270, assim descreve os

métodos adotados:

“Durante a semana anterior à partida de Katie, ela fez sessões quase que

todas as noites em minha casa, a fim de me permitir fotografála

à luz artificial.

Cinco aparelhos completos foram dispostos para esse fim; consistiam de câmaras,

umas chapas completas, outra de metade de chapas, uma terceira de quartos de

chapas e duas câmaras estereoscópicas binoculares, preparadas para fotografarem

Katie ao mesmo tempo, cada vez que ela posasse. Cinco banhos reveladores e de

viragemfixagem

foram usados e bom número de chapas foi preparado

antecipadamente, de modo que não houvesse complicações ou demoras durante a

operação de fotografia que foi realizada por mim mesmo, com o auxílio de um

assistente. Minha biblioteca foi usada como câmara escura. Tem portas de sanfona,

que abrem para o laboratório; uma dessas portas foi tirada das dobradiças, e uma

cortina foi colocada em seu lugar, de modo a permitir que Katie passasse para um

lado e para o outro facilmente. Os nossos amigos presentes ficaram sentados no

143 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

laboratório, em frente à cortina e as câmaras foram colocadas um pouco atrás

deles, prontas para fotografarem Katie quando ela saísse e fotografar também

qualquer coisa na cabine, quando a cortina fosse levantada para isso. Cada noite

havia três ou quatro tomadas de fotografias em cada uma das cinco máquinas,

obtendose

pelo menos quinze fotografias separadas em cada sessão. Algumas se

estragaram ao serem reveladas, outras na regulagem da luz. Ao todo tenho

quarenta e quatro negativos, alguns inferiores, outros sofríveis, e alguns

excelentes.”

Algumas dessas fotografias estão em poder do autor destas linhas e

certamente não há mais maravilhosa impressão em qualquer chapa do que aquela

que mostra Crookes no auge de seu vigor com esse anjo — porque na verdade ela o

era — apoiandose

em seus braços. O vocábulo “anjo” pode parecer um exagêro,

mas quando um Espírito do outro mundo se submete ao momentâneo desconforto de

uma existência artificial a fim de trazer a lição da sobrevivência a uma geração

materialista e mundana, não há termo que melhor se lhe aplique.

Surgiu uma discussão se Crookes alguma vez teria visto ao mesmo tempo o

médium e Katie. Diz Crookes a certa altura de seu relatório que frequentemente

acompanhou Katie até a cabine “e algumas vezes as via juntas, ela e a sua médium,

mas na maioria das vezes não vi ninguém, a não ser a médium em transe, caída no

chão, pois Katie e seus vestidos brancos tinham desaparecido instantaneamente” .

Entretanto, um testemunho muito mais direto é dado por Crookes numa

carta a Banner of Light, USA. 54 e que é reproduzida em The Spiritualist, 55 de

Londres, de 17 de julho de 1874, página 29. Diz ele:

“Em resposta a sua pergunta quero afirmar que vi Miss Cook e Katie

juntas, no mesmo momento, sob a luz de uma lâmpada de fósforo, que era suficiente

para que visse distintamente aquilo que descrevi. O olho humano tem naturalmente

um grande ângulo de horizonte, de modo que as duas figuras eram abarcadas ao

mesmo tempo no meu campo visual; mas como a luz era fraca, e os dois rostos por

vezes estavam distanciados alguns pés um do outro, naturalmente eu movia a luz e

meu olhar fixava alternadamente uma e outra, quando queria trazer o rosto de Miss

Cook ou de Katie para aquela parte do campo visual onde a visão é mais nítida.

Desde que a ocorrência acima referida foi verificada, Katie e Miss Cook foram

vistas juntas por mim e por oito outras pessoas, em minha casa, iluminada

fartamente por lâmpadas elétricas. Nessa ocasião o rosto de Miss Cook não era

visível, pois sua cabeça ficava envôlta num xale grosso, mas eu, principalmente,

tinha a satisfação de verificar que ela lá estava. Uma tentativa de dirigir a luz

sobre a sua face descoberta, quando em transe, teve sérias conseqüências.”

A máquina fotográfica também demonstra as diferenças entre a médium e a

forma. Diz ele:

“Uma das mais interessantes fotografias é aquela em que me acho de pé

ao lado de Katie; ela está descalça, em certo ponto do soalho. Depois vesti Miss

Cook como Katie e nos colocamos, eu e ela, exatamente na mesma posição e fomos

fotografados pelas nossas máquinas, colocadas exatamente como na outra

experiência, e iluminadas pela mesma luz. Quando essas duas chapas são

54 “A Bandeira de Luz” — N. do T.

55 “O Espírita” — N. do T.

144 – Ar thur Conan Doyle

superpostas, a minha imagem coincide, no que se refere á estatura, etc.; mas Katie

é meia cabeça mais alta que Miss Cook e parece uma mulher grande, em

comparação com esta última. Em muitos dos relatos diferem quanto à largura da

face e quanto a vários outros detalhes.”

Crookes rende uma grande homenagem à médium Florence Cook:

“As sessões quase diárias com as quais Miss Cook me obsequiou lhe

produziram severo desgaste de energias e quero demonstrar publicamente a minha

gratidão para com ela, pela solicitude em ajudar as minhas experiências. Cada

ensaio que eu propunha tinha a sua imediata aprovação e se submetia com o maior

entusiasmo; fala franca e diretamente e jamais percebi a menor coisa que

denunciasse o desejo de mistificar. Na verdade não acredito que ela conseguisse

mistificar, ainda quando tentasse; e se o fizesse seria pilhada incontinenti, pois tais

atitudes destoam completamente de sua natureza. Aliás, imaginar que uma mocinha

de quinze anos fosse capaz de conceber e, durante três anos, realizar tão gigantesca

impostura; que, durante esse tempo, se submetesse a qualquer teste que lhe fosse

proposto e mantido no mais rigoroso segredo; que se sujeitasse a ser examinada a

qualquer momento, antes como depois da sessão e tivesse os melhores êxitos em

minha casa, do que em casa de seus pais, sabendose

que ela me visitava com o

objetivo de se submeter a ensaios estritamente científicos — imaginar, digo eu, que

a Katie King dos últimos três anos fosse fruto de uma impostura é maior violência

para a razão humana e para o bom senso do que acreditar que ela seja aquilo que

diz ser” . 56

Admitindo que uma forma temporária foi construída com o ectoplasma de

Florence Cook, e que essa forma foi então utilizada como um ser independente, que

se dizia “Katie King”, ainda enfrentamos a questão: “Quem foi Katie King?” A isto

só se pode dar a resposta que ela deu, quando reconhecia que não tínhamos provas.

Declarouse

filha de John King, que desde muito era conhecido entre os Espíritas

como um Espírito que presidia a sessões de fenômenos materiais. Sua personalidade

e adiante discutida, num capítulo sobre os Irmãos Eddy e Mrs. Holmes, que

recomendamos ao leitor. Seu nome era Morgan e King era antes um título comum a

certa classe de Espíritos, do que um nome familiar. Sua vida decorrera duzentos

anos antes, no reinado de Carlos 2º, na Ilha da Jamaica. Se isto é verdade ou não,

certamente ela se adaptou ao papel e sua conversação era em geral concorde com a

informação. Uma das filhas do Professor Crookes escreveu ao autor e aludiu a uma

vivida lembrança das histórias da Espanha, contadas por esse gentil Espírito às

crianças da família.

Ela mesma se fez amada por todos. Mrs. Crookes escreveu:

“Numa sessão em nossa casa, com Miss Cook, quando um dos nossos

filhos tinha apenas três anos, Katie King, um Espírito materializado, demonstrou

por ele o mais vivo interesse e pediu para ver a criança. Então o menino foi trazido

para a sala da sessão, posto nos braços de Katie que, segurandoo

por algum

tempo muito naturalmente, o devolveu toda risonha.”

O Professor Crookes deixou registrado que a sua beleza e o seu encanto

eram únicos em sua experiência.

56 “Resear ches in the Phenomena of Spir itualism”.

145 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

O leitor pode muito bem pensar que a luz reduzida empregada pelo

Professor Crookes comprometa o resultado da experiência. Contudo o Professor nos

assegurou que na série de sessões foi verificada a tolerância e que a imagem era

capaz de suportar uma luz muito mais intensa. Essa tolerância tinha os seus limites,

que aliás nunca foram ultrapassados pelo Professor Crookes, mas que foram

verificados numa ousada experiência descrita por Miss Florence Marryat (Mrs.

RossCurch).

É preciso dizer que o Professor Crookes não se achava presente, nem

Miss Marryat jamais o afirmou. Entretanto ela cita o nome de Mr. Carter Hall, como

um dos presentes. Katie havia consentido com muito bom humor que examinassem

qual o efeito que seria produzido sobre a sua imagem por uma luz intensa.

“Ficou de pé junto à parede da sala de visttas, com os braços abertos

como se estivesse crucificada. Então foram acesos três bicos de gás em todo o seu

poder, num espaço de cerca de dezesseis pés quadrados. O efeito sobre Katie King

foi maravilhoso. Ela manteve o seu próprio aspecto durante um segundo, no

máximo, e depois começou a fundirse

gradualmente. Não posso comparar a sua

desmaterialização senão a uma boneca de cera que se fundisse junto a um fogo

intenso. Primeiro as formas se tornaram alteradas e indistintas; parecia que se

interpenetravam. Os olhos desapareceram nas órbitas, o nariz desapareceu, o osso

frontal sumiu. Depois os membros como que desapareciam debaixo dela, que se

tornava cada vez menor, como um edifício que ruisse. Por fim havia apenas a

cabeça no chão — depois apenas um pedaço de pano, que desapareceu de súbito,

como se uma mão o tivesse puxado — e nós ficamos admirados, a olhar os bicos de

gás, no lugar onde Katie King havia estado” . 57

Miss Marryat acrescenta o interessante detalhe de que nalgumas dessas

sessões o cabelo de Miss Cook ficou preso ao solo, o que de modo algum atrapalhou

o aparecimento subsequente de Katie fora da cabine.

Os resultados obtidos em sua própria casa foram honesta e

destemerosamente relatados pelo Professor Crookes em seu Journal e produziram a

maior impressão no mundo científico.

Alguns dos maiores espíritas, como Russel Wallace, Lord Rayleigh, o

jovem e brilhante físico William Barrett, Cromwell Varley e outros tiveram

confirmados os seus pontos de vista anteriores ou foram encorajados a avançarem

por um novo caminho do conhecimento.

Houve, entretanto, um grupo ferozmente intolerante, chefiado pelo

fisiologista Carpenter, que zombou do assunto e facilmente imputou tudo desde a

maluquice até a fraude de seu ilustre colega. A ciência oficial pôsse

de fora da

questão. Publicando o seu relatório, Crookes anexou as cartas nas quais pedia a

Stokes, Secretário da Sociedade Real, que viesse ver as coisas com os próprios

olhos. Recusandoo,

Stokes colocouse

exatamente na mesma posição daqueles

cardeais que não quiseram ver as luas de Júpiter pelo telescópio de Galileu.

Defrontando um fato novo, a ciência material se mostrou tão fanática

quanto a teologia medieval.Antes de deixar o assunto Katie King, algumas palavras

devem ser ditas quanto ao futuro do grande médium, do qual aquela extraia o seu

invólucro físico. Miss Cook tornouse

Mrs. Comer, mas continuou a exibir os seus

57 “Ther e is no Death”, página 143

146 – Ar thur Conan Doyle

admiráveis poderes. O autor conhece apenas um caso em que a honestidade de sua

mediunidade foi posta em dúvida; foi quando ela foi pegada por Sir George Sitwell e

acusada de fingirse

de Espírito. O autor é de opinião que um médium de

materializações deveria ser manietado, de modo que não pudesse vagar pela sala —

e isto com o objetivo de proteger o próprio médium. É pouco provável que o

médium se mova em transe profundo, mas em semitranse nada impede que

inconsciente ou semiconscientemente, ou ainda obedecendo a uma sugestão dos

assistentes, passeie fora da cabine. É um reflexo de nossa própria ignorância admitir

que uma infinidade de provas pudessem ser comprometidas por um único episódio

dessa natureza. É digno de nota, entretanto, a circunstância de que, nessa ocasião, os

observadores concordaram que a figura estava de branco, enquanto que, ao ser

agarrada, Mrs. Comer não estava de branco. Um investigador experimentado teria

concluído que isso não era uma materialização, mas uma transfiguração, o que

significa que o ectoplasma, sendo insuficiente para construir uma figura completa,

foi usado para revestir o médium de modo que este pudesse carregar o simulacro.

Estudando casos semelhantes, o grande investigador alemão Doutor Schrenck

Notzing 58 diz:

“Isto (uma fotografia) é interessante porque esclarece a gênese das

chamadas transfigurações, isto é... o médium toma a si o papel de Espírito,

esforçandose

para representar o caráter da pessoa em questão, revestindose

do

material fabricado. Essa fase de transição é encontrada em quase todos os médiuns

de materialização. A literatura sobre tais casos registra um grande número de

tentativas de fraude de médiuns que assim representavam Espíritos, como, por

exemplo, a do médium Bastian pelo Príncipe Herdeiro Rudolph, a da médium de

Crookes, Miss Cook, a de Madame d’Espérance, etc. Em todos esses casos o

médium foi agarrado, mas os estojos usados para o disfarçar desapareceram

Imediatamente e não mais foram encontrados.”

Assim, parece que a verdadeira censura, em tais casos, deve ser dirigida

mais aos assistentes negligentes do que à médium inconsciente.

A natureza sensacional das experiências de Crookes com Miss Cook e, sem

dúvida, o fato de que eram mais acessíveis ao ataque, tenderam para fazer sombra

aos resultados muito positivos com Home e com Miss Fox, que assentaram os dons

desses médiuns sobre bases sólidas. Cedo Crookes deparou com as naturais

dificuldades com que se encontram os investigadores, mas teve bastante senso para

admitir que num assunto inteiramente novo a gente tem que se adaptar às condições

e não abandonar o trabalho, aborrecido pelo fato de as condições não se adaptarem

às nossas ideias preconcebidas. Assim, falando de Home, diz ele:

“As experiências que realizei foram muito numerosas mas, devido ao

nosso imperfeito conhecimento das condições que favorecem ou não as

manifestações dessa força, é aparentemente caprichosa maneira por que se exerce,

e ao fato de que Mr. Home está sujeito a incontáveis flutuações dessa energia, só

algumas vezes aconteceu que o resultado obtido numa ocasião fosse

subseqüentemente confirmado e verificado com aparelhos imaginados para tal

fim” . 59

58 “Phenomena of Mater ialization” (Tradução para o Inglês).

59 “Resear ches in the Phenomena of Spir itualism”, página 10.

147 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

O mais notável desses resultados foi a alteração no peso dos objetos,

posteriormente confirmada completamente pelo Doutor Crawford, trabalhando com

o grupo Goligher, e também no curso da investigação Margery, em Boston. Objetos

pesados tornavamse

leves e os leves tornavamse

pesados, pela ação de uma força

invisível que parecia estar sob a influência de uma inteligência independente. Os

controles por meio dos quais era eliminada toda possibilidade de fraude foram

sempre usados nas experiências e devem convencer qualquer leitor liberto de

preconceitos. O Doutor Huggins, muito conhecida autoridade em espectroscopia, e

Serjeant Cox, o eminente jurista, reunidos com diversos outros assistentes,

testemunharam as experiências. Entretanto, como já ficou dito, foi impossível a

Crookes levar alguns dos mais eminentes homens de ciência a dar ao assunto ao

menos uma hora de atenção.

O manejo de instrumentos de música, especialmente um acordeon, em

condições que era impossível atingir as teclas, foi um outro fenômeno perfeitamente

examinado e constatado por Crookes e seus distintos assistentes. Admitindo que o

próprio médium fosse capaz de tocar o instrumento, o autor não se acha em

condições de admitir que o fenômeno seja uma prova de uma inteligência

independente. Uma vez garantida a existência de um corpo etérico, com membros

correspondentes aos nossos, não há uma razão plausível por que não se realizasse

um desdobramento parcial e por que os dedos etéricos não se aplicassem sobre as

teclas enquanto os dedos materiais repousassem sobre os joelhos do médium. O

problema se resolve simplesmente, então, admitindose

que o cérebro do médium

pode comandar os seus dedos etéricos e esses dedos podem adquirir a força

suficiente para fazer pressão sobre as teclas. Muitos fenômenos psíquicos, como a

leitura com os olhos vendados, o toque em objetos distantes, etc. podem, na opinião

do autor, ser referidos ao corpo etérico e ser classificados antes como um

materialismo elevado e sutil do que como Espiritualismo.

Achamse

numa classe muito distinta da dos fenômenos mentais, tais como

as evidentes mensagens dos mortos, que constituem verdadeiramente o centro do

movimento espírita.

Falando de Miss Kate Fox, diz o Professor Crookes: “Observei muitos

casos em que, parece, a inteligência do médium participa largamente dos

fenômenos.” E acrescenta que isto não ocorre de maneira consciente e desonesta, e

continua: “Observei alguns casos que parecem indicar seguramente a ação de uma

inteligência exterior, não pertencente a quem quer que seja presente na sala” . 60

Eis o ponto a que chegou o autor, e que é expresso por uma autoridade

maior que a sua própria.

Os fenômenos que melhor ficaram estabelecidos na investigação de Miss

Kate Fox foram o movimento de objetos a distância e a produção de sons percutidos

ou batidas. Estas últimas cobriam uma larga escala: “leves batidas, sons agudos

como os de uma bobina de indução em trabalho, detonações no ar, agudas

pancadas metálicas, estalos como os de uma máquina de fricção, sons como de

arranhaduras, chilrear de pássaros, etc.” 61

60 “Resear ches in the Phenomena of Spir itualism”, página 95.

61 Idem, página 86.

148 – Ar thur Conan Doyle

Todos quanto tivemos experiência com esses sons fomos obrigados a nos

perguntar até onde estariam eles sob o controle do médium. O autor chegou à

conclusão, como já ficou dito, de que até certo ponto estão sob o controle do

médium e, dai por diante, não. Ele não pode esquecer o malestar

e o embaraço de

um grande médium camponês do norte quando, em presença do autor, batidas fortes

e sons como os estalos dos dedos se fizeram ouvir em torno de sua cabeça na sala do

café de um hotel em Doncaster. Se ele tivesse dúvidas de que as batidas eram

independentes do médium, estas não teriam prevalecido naquela ocasião. A respeito

da objetividade desses ruídos, diz Crookes de Miss Kate Fox: “Parece que lhe basta

pôr a mão sobre uma coisa para que se ouçam ruidos altos, como uma tríplice

pulsação, por vezes tão altos que são ouvidos de outras salas. Assim os ouvi numa

árvore, num pano de vidraça, num pedaço de fio de ferro, num pedaço de

membrana, num tamborim, no forro de um tilbori, no piso de um teatro. Além disso

não é necessária a permanência do contacto. Ouvi tais sons provenientes do chão,

das paredes, etc., quando as mãos do médium e os pés eram seguros — quando ela

estava de pé numa cadeira — quando ela estava num gancho presa do teto —

quando presa numa jaula de ferro — e quando caía desmaiada num sofá. Ouvios

numa caixa harmônica e os senti em meus ombros e debaixo das próprias mãos.

Ouvios

numa folha de papel, segura entre os dedos por um fio atravessado numa

das pontas. Conhecendo todas as hipóteses aventadas, principalmente na América,

para explicar tais sons, experimenteias

de todos os modos possíveis, até que não

houve meio de fugir a convicção de que eram ocorrências reais, não produzidas por

truques ou por meios mecânicos” .

Assim ficam liquidadas as lendas do estalo dos artelhos, da queda das

maçãs e de outras explicações absurdas que têm sido aventadas para se

compreenderem os fatos. Apenas é preciso dizer que os lamentáveis incidentes

ligados aos últimos dias das Irmãs Fox de certo modo justificam aqueles que, sem

conhecimento real dos fatos, tiveram a sua atenção voltada para aquele único

episódio — que é abordado alhures.

Pensouse

por vezes que Crookes houvesse modificado as suas opiniões a

respeito dos fenômenos psíquicos, segundo expressou em 1874. Pode, ao menos,

dizerse

que a violência da oposição e a timidez dos que deviam têlo

sustentado o

alarmaram e o levaram a considerar em perigo a sua posição do ponto de vista

científico. Sem buscar subterfúgios, ele esquivouse.

Recusou reeditar os seus

artigos sobre o assunto e não quis que circulassem as fotografias maravilhosas nas

quais o Espírito materializado de Kate King aparecia de braço com ele. Tornouse

excessivamente cauteloso em definir a sua posição. Numa carta citada pelo

Professor Brofferio 62 diz ele:

“Tudo quanto me interessa é que seres invisíveis e inteligentes dizem que

são Espíritos de pessoas mortas. Mas nunca tive provas de que sejam realmente as

pessoas que dizem ser, como as exigia, para que pudesse acreditálo.

Entretanto

inclinome

a acreditar que muitos dos meus amigos tenham recebido, como

declaram, as provas desejadas e eu próprio frequentemente me tenho inclinado

para essa convicção”.

62 “Fur den Spir itismus”, Leipzig, 1894, página 319.

149 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

À medida que envelhecia, essa convicção se arraigou ou, talvez, se tornou

mais consciente das responsabilidades que essas excepcionais experiências podem

determinar. Em seu relatório presidencial perante a Associação Britânica em 1898,

em Bristol, Sir William se refere ligeiramente às suas primeiras pesquisas. E diz:

“Ainda não toquei num outro interesse — para mim o mais sério e o de

maior alcance. Nenhum incidente em minha carreira científica é mais conhecido do

que a parte que tomei durante anos em certas pesquisas psíquicas. Já se passaram

trinta anos desde que publiquei um relatório das experiências tendentes a mostrar

que fora do nosso conhecimento científico existe uma força utilizada por

inteligências que diferem da comum inteligência dos mortais... Nada tenho de que

me retratar. Confirmo minhas declarações já publicadas. Na verdade, muito teria

que acrescentar a isto.”

Cerca de vinte anos mais tarde sua crença era ainda mais forte. Durante

uma entrevista 63 disse ele:

“Jamais tive que mudar de ideia a tal respeito. Estou perfeitamente

satisfeito do que disse nos primeiros dias. É muito certo que um contacto foi

estabelecido entre este mundo e o outro.”

Em resposta à pergunta se o Espiritismo não havia liquidado o velho

materialismo dos cientistas, acrescentou:

“Penso que sim. Pelo menos ele convenceu a maioria do povo, que sabe

alguma coisa relativa à existência do outro mundo”.

Por gentileza de Mr. Thomas Blyton, tive ultimamente a oportunidade de

ver a carta de pêsames escrita por Sir William Crookes, por ocasião da morte de

Mrs. Comer. É datada de 24 de abril de 1904, e nela diz: “Transmita a mais sincera

simpatia de Lady Crookes e minha própria, à família, por essa perda irreparável.

Acreditamos, como verdadeira crença, que os nossos entes queridos, ao passarem

para o Além, ainda nos observam — e essa crença que deve muito de sua certeza à

mediunidade de Mrs. Comer (ou Florence Cooh, como aparecerá ela por vezes à

nossa lembrança) — fortificará e consolará aqueles. Que aqui ficaram” .

Anunciando a sua morte, disse a filha: “Ela morreu em grande paz e felicidade” .

63 The Inter national Psychic Gazette, Dezembro, 1917, 612.

150 – Ar thur Conan Doyle

12

Os Irmãos Eddy e os Holmes

entr o de certos limites é difícil acompanhar o aparecimento de vários

médiuns nos Estados Unidos. O estudo de um ou dois casos proeminentes é

suficiente para servir de exemplo do todo. Os anos de 1874 e 1875 foram

marcados por grande atividade psíquica, e produziram convicção por um lado e

escândalo pelo outro. No conjunto parece que predominou o escândalo; mas se com

ou sem razão, é uma questão que também pode ser discutida. Os adversários da

verdade psíquica contam com o clero de várias igrejas, com a ciência oficiaL e com

a enorme massa inerte da humanidade material; tinham a imprensa profana às suas

ordens; de modo que tudo quanto lhe fosse favorável ou era sonegado ou distorcido

e tudo quanto lhe fosse contrário tinha a mais larga publicidade. Daí ser necessária

uma constante verificação de passados episódios e uma reconsideração de valores.

Mesmo agora a atmosfera é saturada de preconceitos. Se um homem de

responsabilidade entrasse agora na redação de um jornal londrino e dissesse que

tinha pilhado um médium em fraude, a coisa seria aceita com satisfação e espalhada

por todo o país. Se o mesmo homem proclamasse que, debaixo do mais rigoroso

controle os fenômenos eram autênticos, é pouco provável que lhe consagrassem um

período. A edição já estaria sobrecarregada... Na América, onde pràticamente não

existe uma lei contra a difamação, e onde a Imprensa é por vezes violenta e

sensacional, esse estado de coisas era e, possivelmente, ainda é — talvez mais

evidente.

O primeiro incidente notável foi a mediunidade dos irmãos Eddy, que

talvez jamais tenha sido superada no terreno da materialização ou, como podemos

agora chamar, das formas ectoplásmicas. A dificuldade então em aceitar esses

fenômenos repousava no fato de que os mesmos pareciam regidos por leis

desconhecidas e se acharem isolados de toda a nossa experiência da Natureza. Os

trabalhos de Geley, de Crawford, de Madame Bisson, de Schrenck Notzing e de

outros removeram essa dificuldade e nos deram, quando mais não seja, uma hipótese

perfeitamente científica, apoiada em prolongadas e cuidadosas investigações, de

modo que podem pôr alguma ordem no assunto. Isto não existia em 1874 e podemos

admitir a dúvida, mesmo nos espíritos mais honestos e cândidos, quando lhes

pediam que acreditassem que dois rudes camponeses, desajeitados e sem instrução,

podiam produzir requintados que eram negados ao resto do mundo e completamente

inexplicáveis pela ciência: Os irmãos Eddy, Horatio e William, eram primitivos

moradores de uma pequena propriedade na aldeia de Chittenden, perto de Rutland,

no Estado de Vermont. Um observador os descreveu como “sensitivos, frios e

abruptos com os estranhos, mais parecendo trabalhadores braçais de fazenda do que

profetas ou sacerdotes de uma nova dispensação; de compleição maciça, cabelos e

olhos negros, articulações duras, atitude dês graciosa, encolhida e que embaraça os

D

151 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

recémchegados.

Não se dão com alguns vizinhos e para outros não são simpáticos...

Na verdade se acham separados da opinião pública, que não está preparada ou

desejosa de estudar os fenômenos, as maravilhas científicas, ou as revelações do

outro mundo”.

Os rumores dos estranhos acontecimentos que se passaram em casa dos

irmãos Eddy se espalharam e despertaram uma curiosidade semelhante à causada

pela sala de música de Koons nos primeiros dias. Veio gente de toda parte

investigar. Parece que os Eddy tinham acomodações amplas, embora primitivas,

para os seus visitantes, e que os alojavam num grande quarto, onde o reboco das

paredes caía aos pedaços e a comida era tão simples como a das cercanias.

Cobravam essa hospedagem môdicamente e parece que não tiravam nenhuma

vantagem disso a não ser a demonstração de suas faculdades psíquicas.

Uma grande curiosidade tinha sido despertada em Boston e em Nova Iorque

pelo relato do que acontecia e um jornal de Nova Iorque, o Daily Graphic,

encarregou o Coronel Olcott de fazer investigações. Olcott não se havia identificado

até então com qualquer movimento psíquico — ao contrário, tinha o espírito

prevenido contra isso e iniciou a sua tarefa antes com o fito de desmascarar um

impostor. Era um homem de mente clara, de notável habilidade e com um alto

sentido de honra. Ninguém poderá ler os ricos e íntimos detalhes de sua vida,

contados em suas memórias, “Old Diary Leaves” 64 , sem sentir respeito por aquele

homem tão leal, desinteressado, e com uma rara coragem moral de seguir a verdade

e aceitar os resultados, mesmo quando opostos à nossa expectativa e aos nossos

desejos. Não era um sonhador místico, mas um homem de negócios muito prático e

algumas de suas observações psíquicas despertaram menos atenção do que

mereciam.

Olcott ficou dez semanas na atmosfera de Vermont, o que demonstrou uma

considerável força de vontade em suportar o meio primitivo e a vida dura daquela

gente. Voltou com algo próximo do aborrecimento pessoal pela morosidade de

entendimento com os seus hóspedes, mas, por outro lado, com absoluta confiança

em seus poderes psíquicos. Como todo investigador sensato, recusase

a dar

atestados em branco sobre o caráter e não responde pelas ocasiões em que não se

achava presente, nem pela futura conduta daqueles a quem julga. Limitase

à sua

experiência do momento e, em quinze notáveis artigos publicados no New York

Daily Graphic, em outubro e novembro de 1874, deu os resultados completos e as

medidas que havia tomado para os controlar. Lendoos,

é difícil lembrar uma

precaução que não tenha sido tomada. Seu primeiro cuidado foi examinar a história

dos Eddy. Foi um bom registro, a que não faltaram manchas. Nunca será demais

insistir em que o médium é um mero instrumento e que o seu dom nenhuma relação

tem com o seu caráter. Isto se aplica aos fenômenos físicos, mas não aos mentais,

porque jamais um alto ensino poderia chegar através de um canal inferior.

Nada havia de mau na investigação daqueles irmãos, mas admitese

que

certa vez deram uma falsa exibição de mediunidade, anunciandoa

como tal, mas

praticando truques. É provável que tal tivesse sido feito para dar o que falar e ainda

para conciliar os vizinhos fanáticos, que viviam enfurecidos contra os legítimos

64 “Fôlhas Velhas de um Diário” — N. do T.

152 – Ar thur Conan Doyle

fenômenos. Seja qual for a causa ou motivo, Olcott foi naturalmente levado a tornarse

muito circunspecto em seus contactos, desde que mostrava um bom conhecimento

dos truques.

A ancestralidade era muito importante, porque, não só havia uma

ininterrupta cadeia de poderes psíquicos, que se estendia sobre várias gerações,

como, também, a avó deles, que fora processada quatro vezes como feiticeira, fora

queimada como tal ou, pelo menos, sentenciada, no famoso processo de Salém, em

1692. Muitos de nossos contemporâneos gostosamente fariam o mesmo com os

nossos médiuns, como foi o caso de Cotton Mather.

Mas as perseguições policiais constituem o seu equivalente moderno, O pai

dos Eddy foi, infelizmente, um desses fanáticos perseguidores. Olcott declara que os

meninos foram marcados para toda a vida pelos golpes que o pai lhes havia dado,

visando desencorajar aquilo que chamava de poderes diabólicos. A mãe, que era

possuidora de grande força psíquica, ficou sabendo como esse bruto “religioso” agia

injustamente: seu lar tornouse

um inferno na terra. Não havia refúgio para as

crianças em parte alguma, pois os fenômenos psíquicos geralmente as

acompanhavam, até mesmo à escola e excitava a grita dos jovens bárbaros

ignorantes em seu redor. Em casa, quando o jovem Eddy caía em transe o pai e um

vizinho despejavam água fervente sobre ele e punham brasas vermelhas sobre a

cabeça, deixandolhe

marcas indeléveis. Felizmente o rapaz estava adormecido. É de

admirar que depois de uma tal infância as crianças se tivessem tornado homens

sombrios e desconfiados?

Depois que cresceram, o infeliz pai tentou fazer dinheiro por meio dos

poderes que tão brutalmente havia desencorajado e alugava os rapazes como

médiuns. Ninguém jamais descreveu adequadamente os sofrimentos a que se

sujeitam os médiuns públicos nas mãos de investigadores idiotas e cépticos cruéis.

Olcott testemunhou que as mãos e os braços das irmãs, bem como dos irmãos,

estavam cheios de marcas das ligaduras e de escaras produzidas por lacre quente

para selar os nós, enquanto que duas das meninas tinham pedaços de pele e carne

esgarçadas pelas algemas. Eram enjauladas, batidas, queimadas, apedrejadas,

enquanto as cabines eram destroçadas. O sangue escorria dos cantos das unhas,

devido à compressão das artérias. Assim foram os primeiros dias na América, mas a

GrãBretanha

não ficou atrás, se recordarmos os irmãos Davenport e a violência

brutal da massa em Liverpool.

Parece que os Eddy eram possuidores de todas as mediunidades. Olcott dá

esta lista: batidas, movimento de objetos, pintura a óleo e aquarela sob influência de

Espíritos, profecia, fala de línguas estranhas, poder de cura, discernimento dos

Espíritos, Levitação, escrita de mensagens, psicometria, clarividência, e, finalmente,

a produção de formas materializadas. Desde que São Paulo enumerou os dons do

Espírito, jamais se organizou uma lista mais extensa.

O método das sessões era o seguinte: o médium ficava sentado numa cabine

de um lado da sala, e a assistência em bancos, enfileirados à sua frente. Perguntarseá

por que uma cabine. E a experiência continuada mostrou que, de fato, esta pode

ser dispensada, salvo no fenômeno de materialização. Home jamais usou a cabine e

atualmente os principais médiuns ingleses raramente a empregam. Há, contudo, uma

razão muito aceitável para a sua presença.

153 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

Sem querer ser muito didata num assunto que ainda se acha na fase de

exame, pode ser admitido, como hipótese muito aceitável, que os vapores

ectoplásmicos, que se solidificam numa substância plástica, da qual surgem as

formas, podem condensarse

mais facilmente num espaço limitado. Entretanto,

achouse

que a presença do médium não era necessária dentro desse espaço. Na

maior sessão de materialização a que o autor esteve presente, na qual cerca de vinte

formas de várias idades e tamanhos apareceram numa noite, o médium estava

sentado fora da porta da cabine, da qual saíam as formas. É de presumir que, de

acordo com a hipótese, seu vapor ectoplásmico fosse levado para aquele espaço

confinado, independentemente da posição de seu corpo físico. Isso não tinha sido

reconhecido ao tempo da investigação, de modo que a cabine foi utilizada.

É óbvio, entretanto, que a cabine oferecia um meio para fraudes e disfarces,

com o que era cuidadosamente examinada. Ficava num segundo andar, e tinha uma

janelinha. Olcott tinha a janela tapada com tela antimosquito, pregada por fora, O

resto da cabine era de madeira sólida e só atingível pela sala onde se achavam os

espectadores. Parece que não havia possibilidades de fraudes. Olcott a tinha feito

examinar por um perito, cujo certificado aparece no livro.

Em tais circunstâncias Olcott contou em seus artigos e, depois, no seu

notável livro “People fron the Other World” 65 que, certamente, durante dez

semanas, viu nada menos de quatrocentas aparições saindo da cabine, de todas as

formas, tamanhos, sexos e raças, vestidos maravilhosamente, crianças de colo,

guerreiros índios, cavalheiros em trajes de rigor, um curdo com uma lança de nove

pés, uma índia pele vermelha fumando, senhoras com vestidos elegantes, etc. Tal o

testemunho de Olcott.

E não havia um caso que ele não fosse capaz de dar as mais seguras provas.

Seu relato foi recebido com incredulidade, mas agora já produz menor descrença.

Mas Olcott dominava o assunto e, tomando suas precauções, preveniu, assim como

prevenimos, a crítica daqueles que, não tendo estado presentes, preferem dizer que

os que estavam ou foram enganados ou eram malucos. Diz ele: “Se alguém lhes fala

de crianças carregadas por senhoras que saem da cabine, ou de moças de formas

flexíveis, cabelos dourados e pequena estatura, de velhas e velhos apresentandose

em corpo inteiro e falando conosco, de criançolas, vistas aos pares,

simultaneamente com outras formas e roupas diferentes, de cabeças calvas, de

cabelos grisalhos, de feias cabeças negras de cabelos encarapinhados, de fantasmas

imediatamente reconhecidos como amigos, e fantasmas que falam de modo audível

línguas estranhas que o médium desconhece — sua indiferença não se altera... A

credulidade de alguns homens de ciência, também, seria ilimitada — antes

prefeririam acreditar que uma criança possa levantar uma montanha sem uma

alavanca do que umEspírito possa levantar um peso.”

Mas, de lado o céptico irredutível, que ninguém convence, e que, no último

dia classificará o Anjo Gabriel como uma ilusão de ótica, há algumas objeções

muito naturais que um novato pode fazer honestamente e um pensador honesto pode

responder. Podemos aceitar uma lança de nove pés como sendo um objeto

espiritual? Que dizer dessas roupagens? De onde vêm elas? A resposta se encontra,

65 “Gente do Outro Mundo” — N. do T.

154 – Ar thur Conan Doyle

até onde podemos entender as coisas, nas admiráveis propriedades do ectoplasma. É

a mais protéica substância, capaz de ser moldada instantaneamente em qualquer

forma, e o poder de moldagem é a vontade do Espírito, dentro ou fora de um corpo.

Tudo pode ser instantâneamente feito com ele, desde que assim o decida a

inteligência predominante. Em todas as sessões dessa natureza parece que se acha

presente um ser espiritual controlador, que comanda as figuras e confecciona o

programa. Às vezes fala e dirige abertamente. Outras vezes fica calado e se

manifesta apenas por atos. Como ficou dito, muitas vezes os contrôles são Índios

PelesVermelhas,

que parecem ter em sua vida espiritual uma afinidade especial

com os fenômenos físicos.

William Eddy, o médium principal desses fenômenos, parece nada haver

sofrido quanto à saúde e à força, naquilo que em geral é um processo de exaustão.

Crookes constatou como ficava Home “como que desfalecido no chão, pálido e sem

fala.” Entretanto Home não era um rude camponês, mas um inválido sensitivo e

artista. Parece que Eddy comia pouco, mas fumava continuamente. Nas sessões

eram empregados a música e o canto, porque de longa data foi observado que há

uma íntima conexão entre as vibrações musicais e os resultados psíquicos. Também

se verificou que a luz branca é prejudicial aos resultados, o que agora é explicado

pelo efeito dissociativo que a luz exerce sobre o ectoplasma. Muitas cores têm sido

examinadas com o fito de evitar a completa escuridão. Mas, se se pode confiar no

médium a escuridão é mais favorável, especialmente aos fenômenos de

fosforescência e de jatos de luz, que se contam entre os mais belos fenômenos. Se se

empregar luz, a mais tolerada é a vermelha. Nas sessões de Eddy havia uma luz

atenuada de uma lâmpada velada.

Seria cansativo para o leitor entrar em detalhes sobre os vários tipos que

apareceram nessas interessantes reuniões. Madame Blavatsky, então uma criatura

desconhecida em Nova Iorque, tinha vindo observar as coisas. Naquela época ainda

não havia ela desenvolvido a linha teosófica do seu pensamento e era uma espiritista

ardorosa. O Coronel Olcott e ela se encontravam pela primeira vez na casa da

fazenda de Vermont, onde começou uma amizade que produziria no futuro estranhos

desenvolvimentos. Em sua homenagem, ao que parece, apareceu um séquito de

imagens russas, mantendo com ela uma conversação nessa língua. A principal

figura, entretanto, era um chefe índio, chamado Santum, e uma índia de nome

Honto, que se materializaram tão completamente e tantas vezes que a assistência

seria desculpada por esquecer que estava tratando com Espíritos. Tão grande foi o

contacto, que Olcott mediu Honto numa escala pintada ao lado da porta da cabine.

Tinha um metro e sessenta centímetros. Certa vez expôs o seio e pediu a uma

senhora presente que observasse as batidas do coração. Honto era leviana, gostava

de dançar, de cantar, de fumar e exibir sua rica cabeleira negra aos assistentes.

Santum, por outro lado, era um guerreiro taciturno, de um metro e noventa

centímetros. O médium tinha apenas um metro e setenta e cinco centímetros.

Digno de menção é o fato de o índio usar sempre um polvarinho de chifre,

que lhe fora dado então por um dos assistentes. Estava pendurado na cabine e lhe

fora dado quando estava materializado. Alguns dos Espíritos de Eddy falavam,

outros não, e a fluência variava muito.

155 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

Isto concordava com a experiência do autor em sessões semelhantes. Parece

que a alma que volta tem muito que aprender quando maneja esse simulacro de si

própria e que aqui, como alhures, a prática vale muito. Ao falar, essas figuras

movem os lábios exatamente como faziam em vida. Também foi mostrado que a sua

respiração em água de cal produz a reação característica de dióxido de carbono. Diz

Olcott: “Os próprios Espíritos dizem que têm de aprender a arte de se materializar,

como a gente procederia com qualquer outra arte ”. A princípio apenas podem

moldar mãos, como no caso dos Davenport, das Fox e outros. Muitos médiuns

jamais vão além desse estágio. Entre os numerosos visitantes da casa de Vermont

naturalmente alguns havia que assumiam uma atitude hostil. Nenhum destes,

entretanto, parece ter dominado inteiramente o assunto. Um dos que mais chamavam

a atenção foi um tal Doutor Beard, médico de Nova Iorque, que, apenas com uma

sessão, sustentava que todas as figuras eram disfarces do próprio William Eddy.

Para sustentar esse ponto de vista nenhuma prova foi produzida, mas apenas a sua

opinião pessoal; e ele declarava ser capaz de produzir os mesmos resultados com

aparelhos de teatro do custo de três dólares. Tal opinião bem podia ser formulada

honestamente numa única sessão, especialmente se esta tivesse sido mais ou menos

bem sucedida. Mas é perfeitamente insustentável quando comparada com as das

pessoas que assistiram a várias sessões.

Assim, o Doutor Hodgson, de Stoneham, em Massachussetts, com mais

quatro outras testemunhas, assinam um documento que diz: “Atestamos que...

Santum estava do lado de fora, na plataforma, quando um outro índio mais ou

menos da mesma estatura saiu e os dois passavam e repassavam um pelo outro,

andando para cima e para baixo. Ao mesmo tempo era mantida uma conversa entre

George Dix, Mayflower, o velho Mr. Morse e Mrs. Eaton, dentro da cabine. Nós

reconhecemos a voz familiar de cada um”.

Há muitas testemunhas de fatos semelhantes, além de Olcott; e todos põem

a teoria dos disfarces está fora de cogitação. É preciso acrescentar que muitas das

formas eram crianças e até crianças de colo. Olcott mediu uma criança cuja altura

era de setenta e um centímetros.

Poderia acrescentarse

honestamente que uma coisa que preocupa

ocasionalmente o leitor é a hesitação de Olcott, além de sua reserva. A coisa era

nova para ele e de vez em quando uma onda de receio e de dúvida passava por sua

mente e ele pensava que tivesse ido muito longe e que devia contornála,

caso, de

algum modo, mostrassem que ele estava errado. Assim, diz ele: “As formas que vi

em Chittenden, enquanto aparentemente desafiando qualquer outra explicação que

nïo a de uma origem suprasensível,

permanecem, do ponto de vista científico como

ainda ‘não provadas’.” Noutra passagem referese

a falta de “condições para

testes” . Esta expressão tornouse

uma espécie de advertência que perde toda

significação.

Assim, quando se diz ter visto, fora de qualquer dúvida ou engano, o rosto

da própria mãe falecida, o oponente replica: “Ah! Mas foi sob condições para teste?”

O teste repousa no próprio fenômeno. Quando se pensa que durante dez semanas

Olcott pôde examinar a pequena cabine, vigiar o médium, medir e pesar as formas

ectoplásmicas, ficase

a pensar o que é que se poderia exigir para fazer prova

completa. O fato é que enquanto Olcott escrevia o seu relato veio o suposto

156 – Ar thur Conan Doyle

desmascaramento de Mrs. Holmes e a parcial retratação de Mr. Dale Owen, o que o

levou a tomar essas precauções.

Foi a mediunidade de William Eddy que tomou a forma de materializações.

Horace Eddy fez sessões de caráter bem diverso. Em seu caso foi usada uma espécie

de tela, em cuja frente ele se sentava com um dos assistentes, ao seu lado, sob boa

luz e segurando a sua mão. Do outro lado da tela era colocado um violão ou outro

instrumento, que então começava a ser tocado, aparentemente sem executante,

enquanto mãos materializadas eram vistas às bordas da cortina, O efeito geral era

muito semelhante ao produzido pelos irmãos Davenport, mas era mais

impressionante, uma vez que o médium era visto inteiramente e se achava sob

controle de um espectador. A hipótese da moderna ciência psíquica, baseada em

muitas experiências, é que faixas invisíveis de ectoplasma, que são antes condutoras

de força do que forças elas próprias, são emitidas do corpo do médium e aplicadas

sobre o objeto que deve ser manipulado, sendo empregadas para o levantar, para o

tocar, conforme um poder invisível o deseje — poder invisível que, conforme

pretende o Professor Charles Richet, é um prolongamento da personalidade do

médium e, conforme a mais avançada escola, uma entidade independente. Nada

disso era conhecido ao tempo dos Eddys e os fenômenos apresentavam uma

indubitável aparência de toda uma série de efeitos sem causa. Quanto à realidade do

fato, é impossível ler a minuciosa descrição de Olcott sem ficar convencido de que

não poderia haver erro nisso. Esse movimento de objetos a distância do médium, ou

telecinésia, para usar a expressão moderna, é um raro fenômeno à luz; mas certa

ocasião, numa reunião de amadores, que eram espíritas experimentados, o autor viu

uma espécie de bandeja de madeira, à luz de uma vela, ser levantada pela borda e

responder a perguntas por meio de batidas, quando se achava a menos de dois

metros de distância.

Nas sessões em escuridão de Horatio Eddy, onde a completa ausência de

luz dava todo vigor à força psíquica, Olcott verificou que havia uma louca dança

guerreira de índios, com o sapateado de uma dúzia de pés e, simultaneamente, o som

de um instrumento selvagem, acompanhado por guinchos e gritos. “Como pura

exibição de força bruta” , diz ele, “essa dança índia provavelmente é insuperável

nos anais de tais manifestações” . Uma luz produzida instantaneamente encontraria

os instrumentos cobertos no chão, e Horatio em profundo sono, sem uma gôta de

suor, inconsciente em sua cadeira. Asseguranos

Olcott que tanto ele quanto outros

cavalheiros presentes, cujo nome declina, tiveram a permissão de se sentarem sobre

o médium, mas que em um ou dois minutos todos os instrumentos estavam sendo

tocados novamente. Depois dessa experiência — e as houve muitíssimas —

qualquer verificação posterior parece desnecessária. A menos que houvesse uma

absoluta falta de senso da parte de Olcott e de outros espectadores, não há dúvida

que Horatio Eddy exercitava poderes de que a ciência tinha, e ainda tem, um

conhecimento imperfeito.

Algumas das experiências de Olcott são tão definitivas e narradas tão franca

e claramente que merecem respeitosa consideração e se adiantam aos trabalhos de

muitos dos nossos modernos pesquisadores. Por exemplo, ele trouxe de Nova Iorque

uma balança, que foi devidamente aferida e dada como exata num certificado

publicado para esse efeito. Então persuadiu a uma das formas materializadas, a índia

157 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

Honto, a ficar de pé sobre ela, enquanto o seu peso era verificado por uma terceira

pessoa, Mr. Pritchard, cavalheiro respeitável e não interessado no assunto. Olcott faz

um relato dos resultados e adiciona um certificado de Pritchard, como jurado perante

um juiz. Honto foi pesada quatro vezes, de pé sobre a plataforma, de modo que não

podia de modo algum aliviar o seu peso. Era uma mulher de um metro e sessenta

centímetros de altura e era de esperar que registrasse um peso de cerca de sessenta e

um quilos. Os quatro resultados foram, respectivamente, de 39,9; 26,3; 26,3 e 29,5

quilos — todos tomados na mesma noite. Isso parece mostrar que seu corpo era um

mero simulacro, cuja densidade podia variar de momento a momento. Também

demonstrou aquilo que mais tarde foi verificado por Crawford, que todo o peso do

simulacro não poderia derivar do médium. É inconcebível que Eddy, cujo peso era

de cerca de 82 quilos, fosse capaz de dar quase 40. Toda a assistência, conforme a

sua capacidade, que varia enormemente, é chamada a contribuir; e outros elementos

podem muito provavelmente ser trazidos da atmosfera. Atualmente a maior perda de

peso demonstrada por Miss Goligher, nas experiências de Crawford, foi de 23,7

quilos; mas cada um dos assistentes sofreu uma perda de peso, conforme registrou o

mostrador das cadeirasbalanças:

era a contribuição individual para a formação do

ectoplasma.

Também preparou o Coronel Olcott duas balanças de mola e fez testes da

capacidade de tração das mãos dos Espíritos, enquanto as do médium eram

seguradas por alguém da assistência. Uma mão esquerda puxou com uma força de

18 quilos e a direita, de 23,6 quilos, a uma luz tão boa que Olcott pôde ver que na

mão direita faltava um dedo. Ele estava familiarizado com o caso, pois se tratava do

Espírito de um marinheiro que havia perdido um dedo em vida. Quando a gente lê

tais coisas, o aviso de Olcott de que seus resultados não eram definitivos e de que

não tinha ele as perfeitas condições de experimentação, nos torna mais difícil a

compreensão. Entretanto, fecha as suas conclusões com estas palavras: “Não

obstante o número de cépticos se batendo contra esses fatos graníticos; não

obstante o disfarce que possam vestir os ‘desmascaradores’, a trombetear

cornetinhas de brinquedo, essa Jericó resistirá” .

Uma observação feita por Olcott foi que essas formas ectoplásmicas

obedeciam facilmente a um comando mental de um assistente de mente forte, pois

iam e vinham aonde estes quisessem. Outros observadores em várias sessões

notaram o mesmo fato, o que pode ser tomado como um dos pontos verificados

nesse problema crucial.

Há um outro ponto curioso que possivelmente Olcott deixou de noticiar. Os

médiuns e os Espíritos que tinham sido muito seus amigos durante a sua longa

visita, subitamente se tornaram azedos e esquivos. Parece que essa mudança se

operou logo depois da chegada de Madame Blavatsky, com quem Olcott havia

estabelecido íntimas relações. Como se sabe, aquela senhora era uma espírita

convicta na ocasião, mas é possível que os Espíritos tenham previsto e pressentido o

perigo oferecido pela dama russa. Os seus ensinos teosóficos, apresentados um ou

dois anos mais tarde, eram tais que, embora os fenômenos fossem reais, os Espíritos

eram meros cascões astrais e não tinham vida própria. Seja qual for a verdadeira

explicação, a mudança nos Espíritos foi notável. “Muito embora a importância de

meu trabalho tenha sido reconhecida e todas as facilidades razoáveis me tenham

158 – Ar thur Conan Doyle

sido concedidas, eu era constantemente mantido a distância, como se fosse um

inimigo, em vez de um observador sem preconceitos” .

O Coronel Olcott narra muitos casos onde os assistentes reconheceram

Espíritos, mas neles não se pode confiar muito, porque com uma luz fraca e as

condições emocionais é fácil de ser enganado um observador honesto. O autor tem

tido a oportunidade de demorar o olhar sobre rostos de cerca de cem dessas imagens

e apenas se lembra de dois casos nos quais estava absolutamente certo de sua

identidade. Em ambos esses casos os rostos tinham sua própria luz e o autor não

dependia de lâmpada vermelha. Houve duas outras ocasiões em que, com a lâmpada

vermelha, ele estava moralmente certo; mas, na maioria dos casos, era possível, se

se admitir o trabalho da imaginação, ver o que se quisesse na vaga moldagem que se

defrontava. Foi talvez o que ocorreu no grupo de Eddy: realmente C. C. Massey, um

juiz muito competente, em sessão com Eddy em 1875, queixavase

desse fato. O

verdadeiro milagre não era a identidade, mas a simples presença do ser.

Não há dúvida que o interesse despertado pela imprensa, ao relatar os

fenômenos de Eddy deveria ter produzido um mais sério tratamento da ciência

psíquica e, possivelmente, adiantado de uma geração a causa da verdade.

Infelizmente, no momento exato em que a atenção do público era atraída para o

assunto, sobreveio real ou imaginário — o escândalo dos Holmes em Filadélfia, o

qual foi rigorosamente explorado pelos materialistas, ajudados pela exagerada

honestidade de Robert Dale Owen. Os fatos foram os seguintes: Dois médiuns em

Filadélfia Mr. e Mrs. Nelson Holmes, tinham feito uma série de sessões, nas quais

supostamente aparecia, de contínuo, um Espírito que havia tomado o nome de Katie

King, declarandose

a mesma com que o Professor William Crookes havia feito

experiências em Londres. Em face disto a afirmação tornouse

duvidosa, desde que a

original Katie King havia dito que a sua missão estava concluída. Entretanto, de lado

a identidade do Espírito, parece que havia fortes indícios de que o fenômeno fosse

genuíno e não fraudulento, por ser geralmente endossado por Mr. Dale Owen, pelo

General Lipáginasitt e por vários outros observadores, que citaram experiências

pessoais acima de qualquer suspeita.

Havia então em Filadélfia um certo Doutor Child, que representou um

papel muito ambíguo nos fatos obscuros que se seguiram. Child tinha sustentado a

autenticidade dos fenômenos de maneira pronunciada. Chegara a ponto de declarar,

num folheto que publicou em 1874, que o próprio James, como Katie King, que ele

vira na sala das sessões, tinham vindo ao seu próprio consultório e aí haviam ditado

particularidades de sua vida terrena, o que também foi publicado. Tais declarações,

naturalmente, levantam dúvidas no espírito de qualquer estudante de psiquismo,

porque uma forma espiritual só se manifesta através de um médium, e não há indício

de que Child o fosse. De qualquer modo pode imaginarse

que, depois de uma tal

asserção, Child seria a última criatura no mundo com autoridade para dizer que as

sessões eram fraudulentas.

Um grande interesse público tinha sido despertado por um artigo do

General Lipáginasitt, em Galaxy de dezembro de 1874 e por um outro de Dale

Owen no Atlantic Monthly, de janeiro de 1875. Subitamente a coisa estourou. Foi

prenunciada por uma notícia publicada por Dale Owen a 5 de janeiro, dizendo que

159 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

lhe tinham sido apresentadas provas que o obrigavam a retirar as expressões de

confiança nos Holmes. Coisa semelhante fez o Doutor Child.

Escrevendo a Olcott, o qual, depois de sua investigação com Eddy, era

considerado uma autoridade, disse Dale Owen: “Penso que ultimamente eles nos

mistificaram, talvez apenas misturando o bom e o falso, o que levanta dúvidas sobre

as manifestações do último verão. Assim, provàvelmente não as empregarei em meu

próximo livro sobre Espiritismo. É uma perda, mas você e Mr. Crookes têm

contribuído o bastante para o Espiritismo.”

A posição de Dale Owen é bastante clara, desde que era um homem de

honra muito sensível, horrorizado com a ideia de que, por um instante, pudesse ter

atestado que uma impostura era uma verdade. Parece que o seu erro repousa na

circunstância de ter agido ao primeiro cicio de suspeita, em vez de esperar que os

fatos se esclarecessem. A posição do Doutor Child, entretanto, émais discutível, pois

se as manifestações realmente fossem fraudulentas, como poderia ele ter tido

entrevistas sozinho com os mesmos Espíritos em seu consultório?

Foi então verificado que uma senhora, cujo nome não foi dado, tinha estado

representando Katie King nas sessões; que havia consentido que seu retrato fosse

tirado e vendido como Katie King, que podia mostrar os vestidos e enfeites usados

por Katie King nas sessões e que estava pronta para fazer uma confissão plena. Nada

parecia mais desesperador e mais completo. Foi nessa altura que Olcott tomou a

investigação e parece que estava preparado para verificar que a opinião geral era

certa.

Logo as suas investigações revelaram alguns fatos que, entretanto lançaram

uma luz nova sobre a questão, provando que, a fim de ser minuciosa e exata, a

pesquisa psíquica deve examinar as “imposturas” com o mesmo senso crítico que

aplica aos fenômenos. O nome da pessoa que tinha confessado haver representado o

papel de Katie King foi declinado: era Elisa White. Numa declaração que ela

publicou, sem dar o nome, disse haver nascido em 1851, o que lhe dava então vinte

e três anos de idade. Tinhase

casado aos quinze e tinha um filho de oito anos. Seu

marido havia morrido em 1872 e ela devia sustentarse

e ao filho. Desde março de

1874 os Holmes moravam na mesma casa que ela. Em maio a contrataram para

representar o Espírito. A cabine tinha uma parede falsa na parte posterior, por onde

ela podia insinuarse

vestida de musselina. Mr. Dale Owen tinha sido convidado

para as sessões e ficara inteiramente empolgado. Tudo isto resultoulhe

num drama

de consciência, que, todavia, não a impediu de arriscarse

a maiores cometimentos,

tais como os de aprender a desvanecerse

ou mudar de forma, por meio de panos

pretos ou fazerse

fotografar como Katie King.

Um dia, de acordo com o seu relato, veio à sua sessão um homem chamado

Leslie, empreiteiro de estrada de ferro. Esse cavalheiro mostrou suspeitas e na

sessão seguinte reveloulhe

a sua fraude, e lhe ofereceu auxílio em dinheiro se ela o

confessasse. Aceitou e mostrou a Leslie os seus métodos de mistificação. A 5 de

dezembro foi realizada uma sessão fraudulenta, na qual ela representou seu papel

como nas sessões reais. Isto impressionou de tal modo a Dale Owen e ao Doutor

Child, que se achavam presentes, que publicaram aquelas notícias nas quais

reconsideravam a sua crença — e essa reconsideração foi um golpe naqueles que

acreditavam nas primeiras declarações de Dale Owen e que agora entendiam que ele

160 – Ar thur Conan Doyle

deveria ter feito uma investigação mais completa, antes de sustentar tais coisas. A

coisa era tanto mais penosa quanto Dale Owen contava setenta e três anos de idade e

tinha sido um dos mais eloqüentes e corajosos discípulos da nova dispensação.

A primeira tarefa de Olcott foi examinar cuidadosamente as declarações já

feitas e destruir o anonimato de sua autora. Logo descobriu, como foi dito, que era

Elisa White e que, conquanto em Filadélfia, recusouse

a recebêlo.

Por outro lado

os Holmes agiram muito abertamente e se ofereceram para criar todas as facilidades

de examinar os seus fenômenos em quaisquer condições que lhes aprouvesse. Uma

investigação sobre o passado de Elisa White mostrou que seu depoimento, no que

diz respeito à sua pessoa, era uma teia de mentiras. Ela era muito mais velha do que

dissera — não tinha menos de trinta e cinco anos — e não é certo de que um dia se

tivesse casado com White. Durante anos tinha sido vocalista numa companhia

ambulante. White ainda era vivo, de modo que não havia a questão da viuvez. Olcott

publicou um atestado do Chefe de Polícia a tal respeito.

Entre outros documentos fornecidos pelo Coronel Olcott estava um de Mr.

Allen, Juiz de Paz de New Jersey, dado sob juramento. Elisa White, conforme essa

testemunha, era “tão indigna de crédito que aqueles a quem falava nunca sabiam se

deviam acreditar, e sua reputação moral era tão ruim quanto possivel.” Contudo o

Juiz Allen pôde dar um depoimento mais diretamente referido ao assunto em

discussão. Declarou que havia visitado os Holmes em Filadélfia e tinha visto o

Doutor Child preparar a cabine, que era sôlidamente construída e que não havia

possibilidade de qualquer entrada pelos fundos, como dissera Mrs. White. Além

disso, que estivera na sessão em que aparecera Katie King e que os trabalhos haviam

sido interrompidos pelo canto de Mrs. White num outro quarto, de modo que era

impossível que Mrs. White pudesse, como dizia, ter feito o papel de um Espírito.

Sendo este um depoimento jurado de um Juiz de Paz, parece uma peça de peso como

prova.

Parece que a cabine foi feita em junho, pois o General Lipáginasitt,

excelente testemunha, descreveu um dispositivo bem diferente quando assistiu às

experiências. Diz ele que duas portas se dobravam em harmônica, de modo que se

tocavam; a cabine era apenas o recanto formado por elas e um quadro por cima.

“Nas primeiras duas ou três sessões fiz um exame minucioso, e uma vez com um

mágico profissional, que ficou perfeitamente satisfeito por não haver possibilidade

de truques” . Isto foi em maio, de modo que as duas descrições não são

contraditórias — salvo quanto à declaração de Elisa White de que podia deslizar

para dentro da cabine.

Além dessas razões para precauções ao formar opinião, os Holmes foram

capazes de exibir cartas que lhes foram escritas por Mrs. White, em agosto de 1874,

onde se vê a incompatibilidade para a existência entre eles de qualquer segredo

criminoso. Por outro lado, uma dessas cartas disse que haviam sido feitos esforços

para que ela forjasse uma confissão de que tinha sido Katie King. Mais tarde no

mesmo ano, parece que Mrs. White assumiu um tom mais ameaçador, conforme um

depoimento escrito e formal dos Holmes, quando ela declarou que, a menos que lhe

pagassem uma pensão determinada, havia um bom número de cavalheiros ricos,

inclusive membros da Associação Cristã de Moços, que estavam prontos para lhe

pagar uma larga soma e que ela não mais incomodaria os Holmes.

161 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

Mil dólares era a soma exata que Elisa White iria receber se concordasse

em admitir que tinha representado Katie King. Certamente há que convir que tal

verificação, em conjunto com as declarações da mulher, exige que se peçam provas

de tudo quanto ela diz.

Resta um fato culminante. Na hora exata em que a falsa sessão foi realizada

e na qual Mrs. White estava mostrando como Katie King era representada, os

Holmes realizavam uma sessão real, assistida por vinte pessoas e na qual o Espírito

apareceu da maneira de sempre.

O Coronel Olcott recolheu várias declarações de pessoas então presentes e

não há dúvida a respeito do fato. A do Doutor Adolphus Fellger é curta e pode ser

dada quase que por inteiro.

Diz ele sob juramento que “viu o Espírito conhecido como Katie King, ao

todo, cerca de oito vezes; é perfeitamente familiar com os seus modos e não se sente

enganado em relação á identidade de Katie King, que apareceu na tarde de 5 de

dezembro, pois enquanto o dito Espírito aparecia exatamente da mesma altura e com

os mesmos gestos, em duas sessões seguidas, sua voz era sempre a mesma e a

expressão de seus olhos e os tópicos da conversa lhe davam maior certeza de tratarse

da mesma pessoa”. Esse Fellger era muito conhecido e respeitado em Filadélfia

como médico, cuja palavra simples, no dizer de Olcott, vale mais que “vinte

juramentos escritos da vossa Elisa White”.

Também ficou demonstrado que Katie King aparecia constantemente

quando Mrs. Holmes estava em Blissfield e Mrs. White em Filadélfia e que Mrs.

Holmes havia escrito a Mrs. White descrevendo suas aparições reais, o que parece

uma prova final de que a última não era uma parceira.

Por esse tempo deve admitirse

que a confissão anônima de Mrs. White é

um tiro numa coisa furada e com tantos buracos que a coisa se afunda. Há, porém,

um detalhe que, na opinião do autor, ainda flutua. É o caso da fotografia. Foi

confessado pelos Holmes, numa entrevista com o General Lipáginasitt, — cuja

palavra é um pedaço sólido naquele charco — que Elisa White foi contratada pelo

Doutor Child para posar num retrato como Katie King. Parece que Child representou

um papel dúplice em todo esse negócio, fazendo, em diferentes ocasiões, afirmações

muito contraditórias e tendo, ao que parece, um interesse pecuniário no caso. Por

isso a gente se inclina a considerar seriamente essa acusação, e pensar se os Holmes

teriam participado da fraude. Garantindo que a imagem de Katie King era real,

talvez tivessem duvidado se ela seria ou não fotografável, de vez que sua produção

exigia que a luz fosse fraca. Por outro lado, havia uma clara fonte de lucro, desde

que os retratos eram vendidos aos numerosos assistentes por meio dólar. Em seu

livro, o Coronel Olcott reproduz a fotografia de Mrs. White ao lado de outra

supostamente de Katie King, e chama a atenção para a falta de semelhança. É claro,

entretanto, que tivessem solicitado ao fotógrafo que a retocasse, para disfarçar a

semelhança, pois do contrário a fraude seria notada. O autor tem a impressão, que

não é certeza, de que os dois rostos são os mesmos, apenas com algumas alterações

obtidas pela manipulação. Assim, admite que a fotografia seja fraudulenta, mas isto

de modo algum corrobora o resto da narrativa de Mrs. White, muito embora abale a

nossa fé a respeito do caráter de Mr. e Mrs. Holmes, do mesmo modo que do Doutor

Child. Mas o caráter dos médiuns de efeitos físicos tem apenas uma influência

162 – Ar thur Conan Doyle

indireta na questão da realidade de sua força psíquica, que deveria ser apreciada

através de sua própria natureza, pouco importando se o indivíduo é santo ou

pecador.

A sábia conclusão do Coronel Olcott foi que, à vista do conflito de provas,

deveria pôr tudo de lado e controlar os médiuns à sua maneira, sem se importar com

o que havia passado.

E o fez de maneira convincente, de modo que, quem quer que leia a sua

investigação — “People From the Other World” 66 , página 460 e seguintes, — não

poderá negar que ele tomou todas as precauções possíveis contra as fraudes. A

cabine era revestida de tela pelos lados, de modo que ninguém poderia entrar, como

Mrs. White disse haver feito. Mrs. Holmes era posta num saco, atado ao pescoço e,

como o marido se achava ausente, ficava reduzida aos seus próprios recursos.

Em tais circunstâncias numerosas cabeças se formaram, algumas das quais

semimaterializadas, apresentando uma aparência horrível. Isto deve ter sido feito

como um teste ou, possivelmente, a longa contenção deve ter prejudicado os poderes

do médium. Os rostos costumavam aparecer a uma altura que o médium não podia

alcançar. Dale Owen achavase

presente a essa demonstração e já deveria ter

lamentado a sua declaração prematura.

Sessões posteriores e com os mesmos resultados foram realizadas por

Olcott em seus próprios aposentos, de modo a eliminar a possibilidade de qualquer

mecanismo sob o controle do médium. Numa ocasião, quando a cabeça de John

King, o Espírito dirigente, apareceu no ar, Olcott, lembrandose

da declaração de

Elisa White, de que esses rostos eram apenas máscaras de dez centavos, pediu e

obteve permissão para passar a sua bengala em redor dele, e assim ficou satisfeito de

verificar que não era sustentado por ninguém.

Essa experiência parece tão conclusiva que o leitor que pretender mais

provas deve ser remetido ao livro onde encontrará muito mais. Era claro que,

qualquer que fosse o papel representado por Elisa White na fotografia, não havia

sombra de dúvida de que Mrs. Holmes era um médium genuíno e poderoso para

fenômenos de materializações. Deveria acrescentarse

que a cabeça de Katíe King

foi vista repetidas vezes pelos investigadores, conquanto a forma inteira, ao que

parece, só se materializou uma vez. O General Lipáginasitt estava presente a essa

reunião e associouse

püblicamente, pela Banner of Light de 6 de fevereiro de 1875,

às conclusões de Olcott.

O autor demorouse

um pouco sobre esse caso porque o mesmo representa

a maneira típica pela qual o povo é desviado do Espiritismo. Os jornais estão cheios

de “desmascaramentos”. A coisa é investigada e tanto se mostra o que é falso,

quanto o que é parcialmente verdadeiro. Isto não é publicado e o público fica com a

primeira impressão incorreta. Mesmo agora, quando se menciona Katie King, é

frequente essa crítica: “Foi provado que era uma fraude, em Filadélfia”, e, por uma

natural confusão de ideias, isto foi até usado como argumento contra as experiências

clássicas de Crookes. A questão — especialmente a momentânea fraqueza de Dale

Owen — atrasou de muitos anos o Espiritismo na América.

66 “Gente do Outro Mundo” — N. do T.

163 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

Foi feita uma referência a Jehn King, o Espírito dirigente das sessões dos

Holmes. Essa estranha entidade parece ter sido o principal controlador de todos os

fenômenos físicos nos primeiros dias do movimento e ainda é visto e ouvido

ocasionalmente. Seu nome está ligado com o salão de música de Koons, com os

irmãos Davenport, com Williams em Londres, com Mrs. Holmes e muitos outros.

Pessoalmente, quando materializado, tem aparência de um homem alto, moreno,

uma cabeça nobre e grande barba negra. Sua voz é alta e profunda, enquanto as suas

batidas têm um caráter peculiar. É senhor de todas as línguas, tendo sido

experimentado nas línguas mais originais, como o georgiano, e nunca foi pilhado em

erro.

Essa criatura formidável controla bandos de Espíritos inferiores, índios

PelesVermelhas

e outros, que assistem a tais fenômenos. Afirma que Katie King é

sua filha e que em vida, como Henry Morgan, fora pirata, perdoado e armado

cavaleiro por Carlos 2º e que terminara como Governador da Jamaica. Se assim foi,

teria sido um rufião crudelíssimo, que muito terá que expiar. Contudo, o autor deve

declarar que possui um retrato de Henry Morgan, feito na época — e que se encontra

na obra de Howard Pyles “Buccaneers”, à página 178, e que, se controlada, nenhuma

semelhança apresenta com John King. Todas estas questões de identificação

material são muito obscuras. 67

Antes de encerrar o relato das experiências de Olcott, nessa etapa de sua

evolução, deve ser feita uma referência ao caso da chamada transfiguração de

Compton, que mostra em que águas profundas nos encontramos quando tentamos

pesquisas psíquicas. Essas profundezas ainda não foram avaliadas, nem delineadas.

Nada pode ser mais claro do que os fatos, nem mais satisfatório do que as provas. A

médium Mrs. Compton se achava fechada em sua cabine, com um fio passado pelos

furos de suas orelhas e amarrado ao encôsto de sua cadeira. Então uma esguia figura

branca emergiu da cabine. Olcott tinha providenciado uma balança de plataforma, na

qual o Espírito ficou de pé. Foi pesado duas vezes, registrando 35,7 quilos e 27,3

quilos respectivamente. Então, conforme as disposições prévias, Olcott foi à cabine,

deixando o espectro do lado de fora. A médium tinha desaparecido. A cadeira lá

estava, mas nem sinal da senhora. Então Olcott voltou e pesou novamente a

aparição, que então apresentava 23,5 quilos. Depois disso o Espírito voltou à cabine,

da qual surgiam outras figuras. Finalmente, diz Olcott:

“Eu ali entrei com uma lâmpada e encontrei a médium exatamente como havia

deixado no começo da sessão, com os fios intactos e cada nó perfeito! Estava sentada, com a

cabeça apoiada na parede, pálida e fria como mármore, os olhos revirados, a testa coberta de

uma umidade de morte, sem respiração pulmonar nem batidas do pulso. Quando todos

acabaram de examinar os fios e os nós frágeis eu os cortei com uma tesoura e, levantando a

cadeira pelo encôsto e pelo assento, transportei a senhora em catalepsia para um lugar

arejado fora da câmara. Ela ficou inanimada durante dezoito minutos. Gradativamente a vida

foi voltando, até que a respiração, o pulso e a temperatura se tornaram normais... Então a

levei para a balança... Pesava 55 quilos!”

67 Como o autor deu uma deixa contra a identidade de John King como Morgan, é justo que dê outra que

a comprove — e esta lhe vem quase que em primeira mão e de fonte fidedigna. A filha de um recente

Governador da Jamaica achavase

ultimamente numa sessão em Londres e se defrontou com John King.

O Espírito King lhe disse: — “ Você trouxe da Jamaica algo que me pertencia.” — “O que foi?”

perguntou ela. — “ Meu testamento” , respondeu ele. Era um fato, absolutamente desconhecido dos

presentes, que seu pai havia trazido tal documento.

164 – Ar thur Conan Doyle

Que fazer de tais resultados? Havia onze testemunhas além de Olcott. Os

fatos parecem acima de dúvidas. Mas, que deduzir deles? O autor viu uma

fotografia, tomada em presença de um médium amador, na qual todos os detalhes da

sala tinham sido apanhados, mas a médium havia desaparecido. O desaparecimento

da médium tem alguma analogia com esse caso? Se a figura ectoplásmica só pesava

35 quilos e a médium 55, tornase

claro que apenas 20 quilos lhe eram deixados,

quando o fantasma estava fora. Se 20 quilos não bastavam para continuar o processo

de vida, não poderiam os seus guias ter usado a sua química oculta sutil a fim de a

desmaterializar e assim salvála

do perigo ate que a volta do fantasma permitisse a

reabsorção? É uma estranha suposição, mas parece que atende aos fatos — o que

pode ser feito por mero palpite ou por uma incredulidade não raciocinada.

165 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

13

Henry Slade e o Doutor Monck

impossível relacionar todos os médiuns das várias gradações de força e,

ocasionalmente, de honestidade, que têm demonstrado os efeitos que

inteligências estranhas podem produzir quando as condições materiais são tais

que permitem a sua manifestação neste plano. Há alguns, entretanto, que foram tão

preeminentes e tão envolvidos em polêmicas públicas que nenhuma história do

movimento poderá esquecêlos,

mesmo quando sua carreira não estivesse, sob todos

os pontos, isenta de suspeitas. Trataremos neste capítulo da história de Slade e de

Monck, os quais representaram em sua época um papel destacado.

Henry Slade, célebre médium da escrita nas lousas, foi exibido

publicamente na América durante quinze anos, antes que chegasse a Londres a 13 de

julho de 1876. O Coronel H. S. Olcott, antigo presidente da Sociedade Teosófica,

declara que, com a Senhora Blavatsky era responsável pela visita de Slade à

Inglaterra. Parece que, como o GrãoDuque

Constantino da Rússia desejasse fazer

uma investigação científica do Espiritismo, uma comissão de professôres da

Universidade de São Petersburgo pediu ao Coronel OLcott e à Senhora Blavatsky

que escolhessem entre os melhores médiuns americanos um que pudesse ser

recomendado para ensaios. Eles escolheram Slade, depois de o submeter a testes

durante várias semanas, perante uma comissão de cépticos, que em seu relatório

certificavam que “eram escritas mensagens nas faces inteiras de duas lousas, por

vezes amarradas e seladas juntas, quando postas sobre uma mesa, à vista de todos;

acima das cabeças de membros da comissão; presas à parte inferior do tampo da

mesa; ou, ainda, nas mãos de um membro da comissão, sem que o médium as

tocasse”. Foi se dirigindo para a Rússia que Slade veio à Inglaterra.

Um representante do jornal World, de Londres, que esteve numa sessão de

Slade logo após à sua chegada, assim o descreve: “Muito bem conformado,

temperamento nervoso, rosto místico e sonhador, gestos regulares, olhos

expressivos e luminosos, um sorriso antes triste e uma certa graça melancólica de

maneiras, eram as impressões despertadas por esse homem alto e flexível, que me

foi apresentado como sendo o Doutor Slade. É o tipo de homem que a gente

marcaria numa assembléia como um entusiasta.” Diz o relatório da Comissão

Seibert que “tinha cerca de 1 metro e 83 centímetros de altura, com um rosto de

inusitada simetria” e que sua face chamava a atenção em qualquer parte por sua

beleza incomum e acresenta que é “um homem digno de nota sob todos os

aspectos” . Logo depois de sua chegada a Londres, Slade começou a fazer sessões

em seus aposentos, Bedford Place, Russel Square, com um sucesso imediato e

pronunciado.

Não só a escrita era obtida de modo evidente, sob fiscalização e com lousas

dos próprios assistentes, mas a levitação de objetos e a materialização de mãos foi

É

166 – Ar thur Conan Doyle

observada sob intensa luz do dia, O redator de The Spiritual Magazine, o mais

sereno e elevado periódico dos Espíritas da época, escreveu:

“Não hesitamos em dizer que o Doutor Slade é o mais notável médium

dos tempos modernos”.

Mr. J. Enmore Jones, conhecido pesquisador do psiquismo daqueles dias e,

posteriormente, redator de The Spiritual Magazine, disse que Slade estava ocupando

o lugar deixado por D. D. Home. A descrição que faz de sua primeira sessão indica

o severo método de exame: “No caso de Mr. Home, recusou receber um salário e,

via de regra, as sessões eram feitas ao anoitecer, no calmo ambiente familiar. Mas

no caso do Doutor Slade elas se realizavam a qualquer hora, durante o dia, nos

aposentos que ele ocupava numa pensão. Cobra vinte shillings e prefere que apenas

uma pessoa fique na sala que ocupa. Não perde tempo: assim que o visitante se

senta, começam os incidentes, continuam e terminam em cerca de quinze minutos” .

Stainton Moses, que depois foi o primeiro presidente da Aliança Espírita de

Londres, externou a mesma ideia a respeito de Slade. Escreveu: “Em sua presença

os fenômenos ocorrem com uma regularidade e precisão, com uma ausência de

preocupação com as ‘condições’ e com uma facilidade para observação que satisfaz

inteiramente os meus desejos. É impossível imaginar circunstâncias mais favoráveis

para a minuciosa investigação do que aquelas sob as quais testemunhei os

fenômenos que ocorrem em sua presença com tão surpreendente rapidezembro..

Não havia hesitação nem tentativas. Tudo era rápido, agudo, decisivo. Os

operadores invisíveis sabiam exatamente o que iam fazer, e o faziam com presteza e

precisão” . 68

A primeira sessão de Slade na Inglaterra foi realizada a 15 de julho de

1876, para Mr. Charles Blackburn, eminente espiritista, e Mr. W. II. Harrison,

redator de The Spiritualist. Em plena luz do dia o médium e os dois assistentes

ocuparam os três lados de uma mesa comum de cerca de três pés de lado. Slade pôs

um pedacinho de lápis, mais ou menos do tamanho de um grão de trigo, sobre uma

ardósia e segurou esta por um canto, com uma mão, encostandoa

no tampo por

baixo da mesa. Ou. viase

a escrita na lousa e, examinada, verificouse

que uma

curta mensagem fora escrita. Enquanto isso acontecia, as quatro mãos dos

assistentes e a mão livre de Slade eram agarradas no centro da mesa. A cadeira de

Mr. Blackburn foi arrastada umas quatro ou cinco polegadas, estando ele sentado, e

ninguém senão ele a tocava. A cadeira vazia no quarto lado da mesa uma vez pulou

no ar, batendo o assento na borda inferior da mesa. Duas vezes uma mão com a

aparência de vida passou em frente a Mr. Blackburn, enquanto ambas as mãos de

Slade eram observadas. O médium segurou um acordeon debaixo da mesa e,

enquanto se via claramente a outra mão sobre a mesa, foi tocada a “Home, Sweet

Home”. Então Mr. Blaekburn segurou o acordeom da mesma maneira, quando o

instrumento foi empurrado violentamente e tocada uma nota.

Enquanto isto ocorria, as mãos de Slade estavam sobre a mesa. Finalmente

os três presentes levantaram as mãos cerca de trinta centímetros acima da mesa e

esta ergueuse

até tocar as suas mãos. Em outra sessão no mesmo dia uma cadeira

68 The Spir itualist, Volume 9º, página 2.

167 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

ergueuse

cerca de um metro e vinte, quando ninguém a tocava e, quando Slade

tinha uma mão no espaldar da cadeira de Mr. Blackburn, a cadeira elevouse

cerca

de meio metro acima do solo.

Assim descreve Mr. Stainton Moses uma das primeiras sessões com Slade:

“Um sol de meiodia,

bastante quente para torrar a gente, derramavase

na sala; a

mesa estava descoberta; o médium estava sentado e visto inteiramente; nenhum ser

humano se achava presente, além de mim e ele. Que melhores condições poderia

haver? As batidas foram instantâneas e fortes, como se dadas por um homem forte.

A escrita na lousa ocorreu conforme a sugestão feita, sobre uma lousa sustentada

por mim e pelo Doutor Slade; sobre outra sustentada por mim e que eu mesmo

trouxera; e sobre uma terceira sustentada apenas por mim, no canto da mesa mais

distanciado do médium. A última escrita demorou algum tempo e o ruído

característico do lápis ao formar as palavras era ouvido distintamente. Uma

cadeira em minha frente foi levantada cerca de meio metro do solo; a lousa foi

arrancada de minha mão e levada para o outro lado da mesa, onde nem eu nem o

Doutor Slade poderíamos alcançála;

o acordeon, tocava em redor de mim,

enquanto o doutor o segurava pela parte inferior e, finalmente, tendo ele tocado no

encôsto de minha cadeira, fomos levitados com cadeira e tudo, algumas

polegadas”.

O próprio Mr. Stainton Moses era um médium poderoso e sem dúvida esse

fato auxíliou as condições. Acrescenta ele: “Tenho visto todos esses fenômenos e

muitos outros várias vezes antes desta, mas nunca tão rapidamente, tão

consecutivamente em plena luz do dia. Toda a sessão não durou mais que meia hora

e, do começo ao fim, não houve interrupção dos fenômenos.” 69 Tudo foi bem

durante seis semanas, e Londres estava cheia de curiosidade pelos dons de Slade,

quando se deu, infelizmente, uma interrupção.

No começo de setembro de 1876 o Professor Ray Lankester, com o Doutor

Donkin, tiveram duas sessões com Slade e, na segunda, tomando uma lousa,

encontraramna

escrita, quando se pensava que nada tivesse sido produzido. Ele era

absolutamente inexperiente em pesquisas psíquicas, do contrário saberia que é

impossível dizer o momento exato em que se dá a escrita nessas sessões.

Ocasionalmente uma folha inteira parecia precipitada num instante, enquanto de

outras vezes o autor ouvia claramente o ruido do lápis, linha por linha. Para Ray

Lankester, entretanto, pareceu um caso típico de fraude e ele escreveu uma carta ao

The Times 70 denunciando Slade e o perseguiu por tomar dinheiro de modo

fraudulento. Foram publicadas cartas em resposta a Lankester pelo Doutor Alfred

Russel Wallace, pelo Professor Barrett e outros, O Doutor Wallace chamou a

atenção para o fato de que o relato do Doutor Lankester daquilo que acontecera era

extremamente diferente do que lhe ocorreu durante a sua visita ao médium, bem

como o registro das experiências de Serjeant Cox, do Doutor Carter Blake e muitos

outros, de modo que o podia considerar como um notável exemplo da teoria do

Doutor Carpenter, sobre as ideias preconcebidas. Diz ele: “O Professor Lankester

foi com a firme convicção de que tudo o que ia assistir era impostura e, assim,

69 The Spir itualist, Volume 9º, página 2.

70 16 de setembro de 1876.

168 – Ar thur Conan Doyle

pensa que viu imposturas” . O Professor Lankester demonstrou o seu erro quando,

referindose

à comunicação lida na Associação Britânica a 12 de setembro pelo

Professor Barrett, no qual trata dos fenômenos espíritas, disse na sua carta a The

Times: “As discussões na Associação Britânica foram degradadas pela introdução

do Espiritismo” .

O Professor Barrett escreveu que Slade tinha uma resposta pronta, baseada

no fato de ignorar quando a escrita era produzida. Descreve uma sessão muito

probante, que ele realizou, na qual a lousa ficou sobre a mesa e debaixo de seu

cotovêlo. Uma das mãos de Slade era sustentada por ele, enquanto os dedos da outra

mão tocavam de leve na lousa, O Professor Barrett fala, depois, de um eminente

cientista seu amigo, que obteve a escrita numa lousa limpa, que ele próprio

segurava, quando ambas as mãos do médium se achavam sobre a mesa. Por certo

tais exemplos devem ser absolutamente convincentes para o leitor desprevenido; e é

claro que, se fica bem estabelecido o que é positivo, as ocasionais alegações

negativas não têm cabida na conclusão geral.

O julgamento de Slade se deu na Corte de Polícia de Bow Street, a 1º de

outubro de 1876, perante o Juiz Flowers. A acusação esteve a cargo de Mr. George

Lewis e a defesa foi feita por Mr. Munton. As provas sobre a autenticidade da

mediunidade de Slade foram dadas pelo Doutor Alfred Russel Wallace, por Serjeant

Cox, pelo Doutor George Wyld e outros, mas só quatro testemunhas foram

permitidas. O magistrado classificou a prova testemunhal como “esmagadora” dada

a evidência dos fenômenos, mas no julgamento excluiu tudo, exceto a acusação de

Lankester e de seu amigo Doutor Donkin, dizendo que era obrigado a basear a sua

decisão em “inferências deduzidas dos conhecidos fatos naturais.” Uma declaração

feita pelo conhecido mágico Maskelyne, de que a mesa usada por Slade era

preparada para truques, foi desmascarada pelo testemunho do carpinteiro que a tinha

feito. Essa mesa atualmente pode ser vista nos escritórios da Aliança Espírita de

Londres e a gente fica estupefato pelo fato de uma testemunha ter sido capaz de

comprometer a liberdade de um homem por um depoimento tão falso que alterou

profundamente o curso do processo. Na verdade, ante as declarações de Ray

Lankester, de Donkin e de Maskelyne é difícil ver como Mr. Flowers podia deixar

de condenar, pois diria, com razão, “O que se apresenta à Corte não é o que

aconteceu em outras ocasiões — por mais convincentes que sejam esses

testemunhos — mas o que ocorreu nessa ocasião particular, e aqui temos duas

testemunhas de um lado e apenas um prisioneiro do outro.” A mesatruque

certamente arranjou as coisas.

Slade foi condenado nos termos da lei contra a vagabundagem a três meses

de prisão com trabalhos forçados. Houve apelo e ele foi solto sob fiança. Quando o

apelo foi julgado a condenação foi anulada sob fundamento de ordem técnica. É de

notarse

que, embora se livrasse sob um fundamento de ordem técnica, isto é, de que

as palavras “pela leitura da mão ou por outro meio”, que aparecem na lei haviam

sido omitidas, não se deve pensar que, se o fundamento técnico tivesse falhado, ele

não teria escapado pelos méritos de seu caso. Slade, cuja saúde ficou seriamente

afetada com a prisão, deixou a Inglaterra pelo continente um ou dois dias depois.

Depois de um repouso de alguns meses em Haya, Slade escreveu ao Professor

Lankester oferecendose

para voltar à Inglaterra e lhe dar exaustivas demonstrações

169 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

particulares, com a condição de que não fosse molestado. Não obteve resposta a essa

sugestão, que seguramente não seria feita por um criminoso.

Em 1877 os Espíritas de Londres mandaram a Slade o seguinte manifesto:

“À vista da deplorável maneira por que terminou a visita de Henry Slade

a este país, os abaixoassinados

desejam exprimir o alto conceito de sua

mediunidade e a reprovação ao tratamento que lhe foi dispensado.

“Consideramos Henry Slade um dos mais valiosos médiuns para

experiências atualmente. Os fenômenos que ocorrem em sua presença se

desenvolvem com uma rapidez e uma regularidade raramente igualadas...

“Ele partiu, não só inatingido na sua reputação pelo procedimento de

nossa Corte de Justiça, como também com volumoso testemunho em seu favor que

provavelmente não teria sido obtido de outra maneira. Este é assinado por Mr.

Alexander Calder, Presidente da Associação Nacional dos Espíritas Britânicos e

grande número de espíritas de representação.

Infelizmente, entretanto, são os “contras” e não os “pros” que a imprensa

ouve e, ainda agora, cinquenta anos mais tarde, seria difícil encontrar um jornal

bastante esclarecido para fazer justiça.

Entretanto os espiritistas mostraram muita energia na defesa de Slade. Em

face do processo foi criado um Fundo de Defesa e os Espíritas da América

mandaram um memorial ao Ministro Americano em Londres. Entre a sentença de

Bow Street condenandoo

e a apelação, um memorial foi mandado ao Ministro do

Interior, protestando contra a ação do Governo ao prosseguir na perseguição depois

da apelação. Cópias desse protesto foram mandadas a todos os membros da Câmara

dos Comuns, a todos os magistrados do Middlesex, a diversos membros da

Sociedade Real e a outros organismos públicos. Miss Kislingbury, secretária da

Associação Nacional dos Espiritistas, enviou uma cópia à rainha.

Depois de sessões de êxito em Haya, Slade foi a Berlim, em novembro de

1877, onde despertou o mais vivo interesse. Diziase

que ele não sabia alemão, mas

apareceram mensagens nessa língua sobre as lousas e escritas em caracteres do

século quinze. O Bertiner Fremdenblatt de 10 de novembro de 1877, publicou o

seguinte: “Desde a chegada de Mr. Slade ao Hotel Kronprinz uma grande parte do

mundo culto de Berlim vem sofrendo de uma epidemia que podemos chamar de

febre espírita” . Descrevendo suas experiências em Berlim, disse Slade que havia

começado por converter o propriétário do hotel, usando as suas próprias lousas e

mesas. O dono convidou o Chefe de Polícia e muitas pessoas eminentes de Berlim

para testemunharem as manifestações, e estas se declararam satisfeitas. Escreve

Slade: “Samuel Bellachini, prestigitador da Corte do Kaiser, fez uma semana de

experiências gratuitas comigo. Deilhe

de duas a três sessões diárias e uma em sua

própria casa. Depois de sua mais completa investigação ele foi a um tabelião e fez

um juramento de que os fenômenos eram autênticos e não havia fraudes” . A

declaração jurada de Bellachini, que foi publicada, confirma essa informação. Diz

ele que, depois de minuciosa investigação, considera “absolutamente impossível”

qualquer explicação de prestidigitação. A conduta dos prestidigitadores parece ter

sido determinada, em geral, por uma espécie de inveja sindicalizada, como se os

resultados do médium constituíssem uma espécie de violação de um monopólio.

170 – Ar thur Conan Doyle

Mas esse alemão esclarecido, juntamente com Houdin, Kellar e outros mais,

mostraram uma mente mais aberta.

Seguiuse

uma visita à Dinamarca e em dezembro começaram as históricas

sessões com o Professor Zõllner, em Leipzig. Um relato completo encontrase

na

obra de Zóliner, “Física Transcendental”, que foi traduzida por Mr. C. C. Massey.

Zõllner era Professor de Física e de Astronomia na Universidade de Leipzig e em

sua companhia, nas experiências com Slade, estavam outros homens de ciência,

inclusive William Edward Weber, Professor de Física; o Professor Scheibner, ilustre

matemático; Gustave Theodore Fechner, Professor de Física e eminente filósofo

naturalista, todos na expressão do Professor Zõllner, “perfeitamente convencidos da

realidade dos fatos observados, inclusive de que não havia impostura ou

prestidigitação.” Entre os fenômenos contavamse

os nós dados numa corda sem

fim, o rompimento das cortinas do leito do Professor Zóllner, o desaparecimento e

imediato aparecimento de uma pequena mesa, descendo do teto em plena luz, numa

casa particular e debaixo de observação, notandose

principalmente a aparente

imobilidade do Doutor Slade durante essas ocorrencias.

Certos críticos tentaram apontar aquilo a que chamavam de precauções

insuficientes nessas experiências. O Doutor J. Maxwell, arguto crítico francês, deu

uma excelente resposta a essas objeções. Argumenta ele 71 que, desde que

investigadores de psiquismo, habilidosos e conscientes, deixaram de indicar

explicitamente, nos seus relatórios, que todas as hipóteses de fraude foram estudadas

e postas de lado, na suposição de que “sua afirmação implícita da realidade do

fenômeno lhes parece suficiente”, e para evitar que seus relatórios se tornassem de

difícil manuseio, críticos capciosos não hesitaram em os condenar e sugerir

possíveis fraudes, quase inadmissíveis nas condições que foram observadas.

Zõllner deu uma resposta digna à suposição de que havia sido ludibriado na

experiência de nós na corda: “Se, não obstante o fundamento do fato, por mim

deduzido na pressuposição de uma concepção mais larga de espaço, pudesse ser

negado, só uma outra espécie de explicação restaria, surgindo de um código moral

de consideração que, presentemente, é bem verdade, é muito habitual. Essa

explicação consistiria na presunção de que eu próprio e os honrados cidadãos de

Leipzig, em cuja presença muitas dessas cordas foram lacradas, ou eram vulgares

impostores, ou não tinham senso suficiente para perceber que o próprio Mr. Slade

tinha feito aqueles nós, antes que as cordas fossem lacradas. A discussão,

entretanto, de uma tal hipótese, já não pertence ao domínio da ciência: cai na

categoria da decência social” . 72

Como uma amostra dessas impetuosas declarações dos oponentes do

Espiritismo, deve mencionarse

que Mr. Joseph McCabe, que é ultrapassado apenas

pelo americano Houdini pelas grosseiras imprecisões, fala de Zôllner 73 como “um

professor decrépito e míope”, quando na verdade ele faleceu em 1882 aos quarenta e

oito anos de idade e suas experiências com Slade haviam sido feitas entre 1877 e

1878, quando esse cientista se achava no vigor de sua vida intelectual.

71 “Metapsychicat Phenomena” (Translation 1905), página 405.

72 Massey’s Zóllner , páginas 2021.

73 “Spir itualism. A Popular Histor y fr om 1847”, página 161.

171 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

Os oponentes levaram tão adiante a sua inimizade que chegaram a declarar

que Zõllner estava desequilibrado e que a sua morte, poucos anos depois, foi

acompanhada de fraqueza cerebral. Um inquérito feito pelo Doutor Funk os remeteu

ao silêncio, embora e infelizmente seja fácil encontrar libelos como esse em

circulação, mas seja difícil encontrar as contraditas.

Eis o documento: 74

“Sua carta dirigida ao Reitor da Universidade, em data de 20 de outubro

de 1903 foi recebida. O Reitor desta Universidade estava instalado aqui depois da

morte de Zóllner e não tinha relações pessoais com ele; mas as informações

recebidas dos colegas de Zôllner comprovam que durante todos os seus estudos

aqui na Universidade até a sua morte era uma mente sólida; além disso, tinha a

melhor saúde. A causa de sua morte foi uma hemorragia cerebral, na manhã de 25

de abril de 1882, quando almoçava com sua mãe, do que veio a falecer pouco

depois. É verdade que o Professor Zôllner era um adepto ardente do Espiritismo e,

como tal, tinha íntimas ligações com Slade”.

Doutor Kar l Bucher ,

Professor de Estatística e Economia Nacional na Universidade.

A tremenda força que, ocasionalmente, se manifesta quando favoráveis as

condições, mostrouse

uma vez em presença de Zõllner, Weber e Scheibner, os três

professôres da Universidade. Havia um forte bastidor de madeira a um lado da sala:

“De repente ouviuse

um estalo violento como numa descarga de uma grande

bateria de Leyden. Voltandose

alarmado para aquele lado, o mencionado bastidor

caiu desfeito em dois pedaços. Os fortes para 1 usos de madeira de meia polegada

de grossura tinhamse

partido de cima abaixo, sem qualquer contacto visível de

Slade com o bastidor. As partes quebradas achavamse

pelo menos a um metro e

meio de Slade, que estava de costas; mas, ainda que tivesse tentado quebrálo

com

um hábil movimento lateral, teria sido necessário prendêlo

do lado oposto. Como

se achava, o bastidor estava quase sôlto e as fibras da madeira, sendo paralelas ao

eixo dos suportes cilíndricos de madeira, a fratura só se podia dar por uma força

que atuasse longitudinalmente à parte em questão. Estávamos todos admirados

dessa manifestação violenta e imprevista da força mecânica e perguntamos a Slade

o que significava aquilo tudo. Mas ele apenas deu de ombros e disse que tais

fenômenos por vezes ocorriam em sua presença, embora um tanto raramente.

Enquanto falava e se achava de pé, colocou um pedaço de lápis sobre a superfície

polida da mesa, e pôs em cima uma lousa que eu tinha comprado e acabara de

limpar e fez pressão com os cinco dedos abertos da mão direita na superfície da

lousa, enquanto a mão esquerda se apoiava no centro da mesa. A escrita começou

na face interna da lousa e quando Slade a virou estava escrita a seguinte sentença

em inglês: ‘Não tínhamos a intenção de causar um prejuízo. Perdoai o que

aconteceu.’ Estávamos mais surpreendidos com a escrita naquelas circunstâncias,

principalmente porque estávamos observando que ambas as mãos de Slade ficavam

imóveis enquanto a escrita prosseguia.” 75

74 “The Widow’s Mite”, página 276.

75 “Tr anscendental Physics”, páginas 3435.

172 – Ar thur Conan Doyle

Em sua desesperada tentativa para explicar esse incidente Mr. McCabe diz

que provavelmente o bastidor já estava quebrado e repregado com um parafuso. Na

verdade não há limites para a credulidade dos incrédulos.

Depois de uma série de êxitos nas sessões de São Petersburgo, Slade voltou

a Londres por alguns dias, em 1878, e então se dirigiu à Austrália. Um interessante

relato de seu trabalho ali é o livro de James Curtis “Rustlings in the Golden City” 76 .

Então voltou à América. Em 1885 compareceu perante a Comissão Seybert, em

Filadélfia e em 1887 visitou novamente a Inglaterra sob o nome de “Doutor

Wilson”, posto se soubesse muito bem quem era ele. É possível que o disfarce fosse

devido ao receio de renovação de velhos processos.

Na maioria de suas sessões Slade demonstrou possuir clarividência e as

mãos materializadas eram coisa familiar. Na Austrália, onde as condições psíquicas

são boas, obteve materializações. Diz Mr. Curtis que o médium não gostava dessa

forma de sessões, porque durante algum tempo sentiase

enfraquecido e porque

preferia sessões em plena luz.

Entretanto concordou em experimentar com Mr. Curtis, que assim descreve

o que aconteceu em Ballarat, em Victoria:

“Nossa primeira experiência com o aparecimento de Espíritos

materializados ocorreu no Lester’s Hotel. Coloquei a mesa a cerca de quatro a

cinco pés da parede do lado oeste do quarto. Mr. Slade sentouse

ao lado mais

afastado da parede, enquanto me colocava no Lado norte. A luz do gás foi reduzida

o suficiente para que fossem percebidos os objetos do quarto. Nossas mãos foram

colocadas umas sobre as outras, numa pilha única. Sentamonos

muito quietos

durante uns dez minutos, quando observei algo como uma nuvem vaporosa entre

mim e a parede. Quando minha atenção foi atraida para o fenômeno, ele tinha a

altura e a côr de um cavalheiro com uma cartola acinzentada. Essa como que

nuvem cresceu ràpidamente e se transformou, de modo que vi à nossa frente uma

mulher — uma dama. O ser assim vestido e perfeito, ergueuse

do solo até a altura

da mesa, onde me foi possível examinála

mais distintamente. Os braços e as mãos

tinham formas elegantes; o rosto, a boca, o nariz, as faces e os cabelos castanhos

se mostravam harmoniosamente, cada parte em concordância com o todo. Só os

olhos eram velados, porque não podiam materializarse

completamente. Os pés

calçavam sapatos brancos de cetim. Toda a figura era graciosa e a toalete perfeita.

O vestido brilhava à luz e era o mais bonito que eu jamais vira, nas suas cores

brilhantes, com cambiantes de prata, cinza e branco, O Espírito materializado

deslizou e andou um pouco, fazendo a mesa vibrar e mesmo oscilar. Também pude

ouvir o frufru do vestido, quando a visitante celeste se movia de um lugar para

outro. A forma espiritual, a dois pés de nossas mãos ainda empilhadas, foi se

dissolvendo até desaparecer aos nossos olhos” .

As condições dessa bela sessão, na qual as mãos do médium estavam

seguras e havia luz suficiente para a visibilidade, parecem satisfatórias, desde que

aceitemos a honestidade da testemunha. Como o prefácio contém o valioso

testemunho de um membro responsável de um Governo Australiano, que também se

refere, de início, ao extremo cepticismo de Mr. Curtis, bem podemos aceitálo.

Na

mesma sessão, a figura reapareceu quinze minutos depois:

76 “Ruídos na Cidade de Ouro”. — N. do T.

173 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

“Então a aparição flutuou no ar e pousou sobre a mesa, deslizou

rapidamente e três vezes curvou a suo figura em cumprimento gracioso, cada

mesura com passada e profunda, trazendo a cabeça até seis polegadas de meu

rosto. Ouviase

o frufru do vestido, a cada movimento como se fora sêda. A face

estava parcialmente velada, como antes. A visibilidade foi diminuindo e por fim

desapareceu, como na primeira materialização” .

São descritas outras sessões como esta.

Diante dos complicados e rigorosos testes a que foi submetido com sucesso,

a história do desmascaramento de Slade na América em 1886 não convence, mas

nós a referimos por motivos históricos e para mostrar que tais incidentes não se

acham excluídos de nosso exame do assunto. O Boston Herald de 2 de fevereiro de

1886 assim abre os títulos de seu relato: “O célebre Doutor Slade pilhado em

Weston, West Virgínia; escreve sobre lousas que descansam em seus joelhos

debaixo da mesa e inove mesas e cadeiras com os artelhos”.

Observadores numa sala anexa, olhando através de fendas embaixo das

portas viram esses atos de agilidade sendo executados pelo médium, embora os que

com ele se achavam na sala não o percebessem. Parece, entretanto, que houve neste,

como em outros casos, ocorrências que tomaram a aparência de fraudes e havia

Espíritas entre os que o denunciaram. Numa sessão pública, que se seguiu, para

Escrita Espírita Direta, no Palácio da Justiça de Weston, Mr. E. S. Barret descreve

como um “espírita” viu e explicou de que forma a impostura de Slade havia sido

descoberta. Convidado a explicarse,

Slade parecia mudo e apenas pôde dizer,

segundo o relato, que se os seus acusadores tinham sido enganados, ele também o

tinha, pois se o engano era coisa sua, o tinha praticado inconscientemente.

Mr. J. Simmons, administrador dos negócios de Slade, fez uma declaração

franca, que parece indicar a operação de membros ectoplásmicos, como ficou

provado, anos mais tarde, ser o caso com a famosa médium italiana Eusapia

PalLadino. Diz ele: “Não duvido que esses senhores tenham visto aquilo que dizem;

mas, ao mesmo tempo, estou convencido de que Slade é inocente daquilo de que é

acusado, assim como o senhor (o redator) teria sido em similares circunstâncias.

Mas sei que minha explicação não teria valor numa Corte de Justiça. Eu mesmo vi

uma mão, que eu juraria ser de Slade, se fosse possível que sua mão ficasse naquela

posição. Quando uma de suas mãos estava sobre a mesa e a outra segurava a lousa

a um canto da mesa, apareceu uma terceira mão com uma escôva de roupa (e que

momentos antes me havia escovado do joelho para cima), no meio do lado oposto

da mesa, a qual tinha um metro e seis centímetros de comprimento.” Slade e o seu

empresário foram presos e soltos mediante fiança, mas nenhuma medida posterior

foi tomada contra eles.

Também Fruesdell, em seu livro “Spiritualism, Bottom Facts” 77 , declara

que viu Slade efetuar um movimento de objetos com o pé, e pede aos leitores que

acreditem que o médium lhe fez uma completa confissão de como eram produzidas

as suas manifestações. Se realmente Slade o fez, deve levarse

à conta de

manifestação de doentia leviandade, procurando enganar um certo tipo de

investigador, dizendolhe

exatamente aquilo que ele queria que fosse dito. A tais

77 “Espiritismo, Fatos básicos” — N. do T.

174 – Ar thur Conan Doyle

exemplos podemos aplicar o julgamento do Professor Zõllner, no incidente

Lankester: “Os fenômenos físicos por nós observados em tão admirável variedade

em sua presença negam em toda a linha a suposição de que ele, num caso único,

tenha recorrido à voluntária impostura” . E acrescenta — o que certamente ocorreu

naquela circunstância especial — que Slade foi vítima dos limitados conhecimentos

de seu acusador e de seu juiz.

Ao mesmo tempo, há muitos indícios de que no fim da vida o caráter de

Slade degenerou.

Sessões promíscuas, com finalidade comercial, esgotamentos conseqüentes

e o estimulo alcoólico, que produz um estimulo passageiro, tudo aquilo agindo sobre

uma organização muito sensível, teve um efeito deletério. Esse enfraquecimento do

caráter, com a correspondente perda da saúde, deve ter conduzido a uma diminuição

de suas forças psíquicas e aumentado a tentação para usar os truques. Concordando

com a dificuldade de distinguir o que é fraude daquilo que é de pura origem

psíquica, uma impressão desagradável fica em nossa mente pela prova dada pela

Comissão Seybert e pelo fato de espíritas locais haverem condenado o seu

procedimento. A fragilidade humana, entretanto, é uma coisa e a força psíquica,

outra. Os que buscam provas desta última encontrálasão

abundantes naqueles anos

em que o homem e os seus dons estavam no zênite.

Slade morreu em 1905 num sanatório em Michigan, para onde havia sido

mandado pelos Espíritas Americanos, e a notícia foi acompanhada pela costumeira

espécie de comentários na imprensa londrina. O Star, que tem uma triste tradição em

matéria de psiquismo, publicou um artigo sensacional, sob o título de “Spook

Swindles” 78 fazendo um relato mutilado da perseguição de Lankester em Bow

Street. Referindose

a isso 79 diz Light:

“Aliás tudo isso é um amontoado de ignorância, de malevolência e de

preconceitos. Não nos interessa discutir ou contraditar. Seria inútil fazêlo

por amor

aos malévolos, aos ignorantes e aos preconcebidos; e é desnecessário aos que o

sabem. Basta dizer que o Star só um exemplo mais acrescenta sobre a dificuldade de

captar todos os fatos perante o público. Mas os jornais prevenidos têm, eles

próprios, de censurarse

por sua ignorância e por sua impressão. É, novamente, a

história dos Irmãos Davenport e de Mashelyne”.

Se é difícil avaliar a carreira de Slade, sendose

forçado a admitir que

houve uma esmagadora preponderância de resultados psíquicos, também houve um

resíduo que deixou uma desagradável impressão que o médium suplementava a

verdade com a fraude, o mesmo deve ser admitido em relação ao médium Monck,

que representou um considerável papel na era dos setenta. De todos os médiuns

nenhum é mais difícil de julgar, porque, de um lado muitos de seus resultados estão

acima de qualquer discussão, enquanto alguns outros parecem absolutamente

desonestos. Em seu caso, como no de Slade, houve causas físicas que puderam

responder por uma degeneração das forças morais e psíquicas.

Monck era um clérigo não conformista, discípulo favorito do famoso

Spurgeon. De acordo com o seu próprio relato, desde a infância tinha sido sujeito a

78 “Fraudes de Espírito” — N. do T.

79 1886, página 433.

175 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

influências psíquicas, que aumentaram com a idade. Em 1873 anunciou sua adesão

ao Espiritismo e fez uma palestra em Cavendish Rooms. Pouco depois começou a

fazer demonstrações, aparentemente gratuitas e em plena luz. Em 1875 fez um giro

pela Inglaterra e pela Escócia, onde suas demonstrações excitaram muita atenção e

debates e, em 1876 visitou a Irlanda, onde seus dons foram aplicados em curas.

Assim, ficou geralmente conhecido como o “Doutor Monck”, fato que levantou

gerais protestos da classe médica.

O Doutor Alfred Russel Wallace, muito competente e honesto observador,

descreveu uma sessão de materialização com Monck, a qual parece uma pedra de

toque tanto quanto possível. Nenhuma suspeita ou convicção posterior poderá

jamais eliminar tão incontestável exemplo de força psíquica. Deve notarse

quanto

os efeitos concordaram com as posteriores demonstrações da expansão ectoplásmica

no caso de Eva e de outros médiuns modernos. Os companheiros do Doutor Wallace

nessa ocasião eram Mr. Stainton Moses e Mr. Hensleigh Wedgewood. Escreve o

Doutor Wallace: “Era uma brilhante tarde de verão e tudo aconteceu em plena luz

do dia. Depois de uma curta conversa, Monck, que estava vestido com o costumeiro

hábito clerical negro, pareceu cair em transe; então ficou de pé a alguns passos à

nossa frente e, depois de uns instantes, apontou para o lado e disse: ‘Olhem!’

“Vimos aí uma tênue mancha em seu casaco, ao lado esquerdo. Essa

tornouse

mais brilhante; então pareceu ondular e estenderse

para cima e para

baixo, até que, gradualmente, tomou a forma de uma coluna de névoa, que ia de seu

ombro até os pés e junto ao seu corpo.”

O Doutor Wallace continua descrevendo como a figura nevoenta por fim

tomou a forma de uma mulher envolta em panos grossos que, depois de uns

instantes, pareceu absorvida no corpo do médium.

E acrescenta: “Todo o processo de formação de uma figura amortalhada

era visto em plena luz do dia.”

Mr. Wedgewood asseguroulhe

que tinha tido outras manifestações dessa

espécie ainda mais notáveis com Monck, quando o médium estava em transe

profundo e todo à vista. Depois de tal demonstração é quase impossível duvidar ao

mesmo tempo dos dons do médium, O arquidiácono Colley, que tinha visto

semelhantes exibições, ofereceu um prêmio de mil libras a Mr. J. N. Maskelyne, o

famoso ilusionista, para repetir a façanha. O desafio foi aceito por Maskelyne, mas

as provas foram que a imitação nenhuma relação tinha com o original. Ele tentou

conquistar uma decisão do tribunal, mas a sentença lhe foi desfavorável.

É interessante comparar o relato feito por Russel Wallace e a experiência

posterior de um americano muito conhecido, o Juiz Dailey. Escreveu ele: 80

“Lançando o olhar para o Lado do Doutor Monck, notamos algo semelhante a uma

massa opalescente de vapor compacto, emergindo justamente debaixo do coração,

ao lado esquerdo. Aumentou de volume, subindo e crescendo para baixo, enquanto

a porção superior tomava a forma da cabeça de uma criança, e a face se distinguia

como a de um filho que eu havia perdido há cerca de vinte anos. Ficou assim

apenas por uns instantes e subitamente desapareceu, parecendo ter sido

instantaneamente absorvida pelo lado do doutor. Esse notável fenômeno repetiuse

80 “Banner of Light”, 15 de dezembro, 1881.

176 – Ar thur Conan Doyle

quatro ou cinco vezes, em cada uma das quais a materialização se tornava mais

distinta do que nas anteriores. Isto foi testemunhado por todos na sala, com o gás

bastante claro para que todos os objetos fossem bem visíveis. Era um fenômeno

visto raramente e permitiu que todos quantos o viram não só atestassem o notável

dom do Doutor Monck, como médium de materializações, mas a maravilhosa

maneira por que um Espírito muda de posição quando nossas mãos jamais se

moveram enquanto eu não desatei as lousas para verificar o resultado.”

Certamente, depois de um tal testemunho, seria vão negar que o Doutor

Monck possuísse uma grande força psíquica. Além das materializações, o Doutor

era um notável médium para escrita em lousas. Numa carta ao Spectator 81 diz o

Doutor Russel Wallace que com Monck numa casa particular em Richmond, limpou

duas lousas e, depois de colocar entre elas um fragmento de lápis, amarrouas

bem

com um cordão forte, cruzandoos

de maneira a lhes evitar qualquer movimento.

“Então as coloquei sobre a mesa, sem as perder de vista nem por um

instante. O Doutor Monck colocou os dedos de ambas as mãos sobre elas, enquanto

eu e uma senhora sentada do lado oposto púnhamos as suas mãos sobre os cantos

das lousas. Nessa posição nossas mãos não se moveram enquanto eu não desatei as

lousas para examinar os resultados.”

Monck pediu a Wallace que dissesse uma palavra para ser escrita na lousa.

Ele escolheu a palavra Deus e em resposta a um pedido decidiu que a mesma deveria

ser escrita longitudinalmente na lousa. Ouviuse

o ruído da escrita e quando as mãos

do médium foram retiradas, Wallace abriu as lousas e achou na inferior a palavra

que tinha pedido e escrita da maneira indicada.

Diz o Doutor Wallace:

“Às precauções essenciais dessa experiência são que eu mesmo limpei e

amarrei as lousas; mantive as mãos sobre elas todo o tempo; elas nem por um

instante saíram de minhas vistas; e que eu escolhi a palavra a ser escrita e a

maneira de escrevêla,

depois que elas foram amarradas e fixadas por mim.”

Mr. Edward T. Benett, secretárioassistente

da Sociedade de Pesquisas

Psíquicas acrescenta a esse relato: “Eu me achava presente nessa ocasião e certifico

que o relato de Mr. Walkwe daquilo que ocorreu está correto.”

Outro bom teste é descrito por M. W. Adshead, de Belper, investigador

muito conhecido, que diz de uma sessão em Derby, a 18 de setembro de 1876:

“Havia oito pessoas presentes, sendo três senhoras e cinco cavalheiros. Uma

senhora a quem o Doutor Monck nunca tinha visto tinha uma lousa que lhe fora

entregue por um dos presentes; examinoua

e achoua

limpa. O lápis que se achava

sobre a mesa poucos minutos antes que nos sentássemos não foi encontrado. Um

investigador sugeriu que seria um bom teste se fosse usado um lápis comum. Assim,

um lápis de grafite foi posto sobre a lousa, e a senhora segurou ambos por baixo da

mesa. Instantaneamente ouviuse

o ruído da escrita e em poucos segundos a

comunicação tinha sido escrita, enchendo um lado da ardósia. A escrita fora feita

com o lápis, era muito miúda e legível e tratava de assunto estritamente particular.

Eis três testes simultâneos: 1) a escrita foi obtida sem que o médium tocasse na

81 7 de outubro de 1877.

177 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

lousa, do começo ao fim, e nenhuma outra pessoa, a não ser a senhora; 2) a escrita

foi feita com um lápis de grafite, por uma sugestão espontânea de um outro

estranho; 3) foi dada como testemunho importante uma comunicação sobre assunto

estritamente particular. O Doutor Monck não fez mais do que tocar na ardósia do

começo ao fim.”

Mr. Adshead também fala dos fenômenos físicos que ocorreram com esse

médium, quando suas mãos estavam bem presas no aparelho chamado “stocks”, que

não permitia o menor movimento em qualquer direção.

Em 1876 Slade estava sendo processado em Londres, como ja ficou dito, e

os desmascaramentos estavam no ar. Considerando o caso seguinte antes como de

perplexidade e certamente suspeito, deve lembrarse

que, quando um homem que se

exibe publicamente, que é um ilusionista ou um mesmerista, pode proclamar que

desmascarou um médium, ganha enorme publicidade e atrai aquela numerosa parte

do público que deseja ver o desmascaramento, Mas é preciso ter isto em mente e

guardar uma certa média onde existe apenas um conflito de evidência.

Neste caso o ilusionista e o mesmerista era um Lodge, e a ocasião uma

sessão realizada a 3 de novembro de 1876, em Huddersfield. Subitamente Mr.

Lodge pediu que o médium fosse examinado. Temendo uma agressão ou uma

denúncia de fraude, Monck correu para cima e trancouse

no quarto. Então pulou

pela janela e procurou a delegacia de polícia, onde apresentou queixa. A porta de seu

quarto foi forçada, as coisas rebuscadas, sendo encontrado um par de luvas de lã.

Monck declarou que essas luvas tinham sido feitas para uma conferência na qual

havia exposto a diferença entre prestidigitação e mediunidade. Ainda, conforme

observa um jornal espírita da época: “Os fenômenos de sua mediunidade não

repousam apenas na sua probidade. Se ele fosse o maior trapaceiro e o mais hábil

prestidigitador, simultaneamente, isto não iria explicar as suas manifestações, que

têm sido referidas” .

Monck foi condenado a três meses de prisão e dizse

que fez uma confissão

a Mr. Lodge Depois de solto, Monck realizou um certo número de sessões com

Stainton Moses, nas quais ocorreram notáveis fenômenos. “Aqueles cujos nomes

referimos como testemunhas da autenticidade dos fenômenos mediúnicos do Doutor

Monck, são velhos conhecidos dos Espíritas como argutos experimentadores,

escrupulosamente cautelosos e Mr. Hensleigh Wedgwood é um nome de muita

responsabilidade, pois é conhecido como um homem de ciência e era cunhado de

Charles Darwin.”

Há um elemento de dúvida quanto ao caso de Huddersfield, sobre se o

acusador era realmente criatura imparcial; mas Sir William Barrett dá o testemunho

de que por vezes Monck descia com sangue frio à trapaça deliberada. Assim escreve

Sir William: “Apanhei o ‘Doutor’ numa fraude grosseira: um pedaço de musselina

branca numa instalação de arame, ligada a um parafuso preto, sendo empregada

pelo médium para simular a materialização parcial”. 82

Tal desmascaramento, vindo de fonte tão segura, produz um sentimento de

malestar,

que nos induz a abandonar toda evidência a respeito dele na cesta de

papéis. Contudo, a gente deve ter paciência e ser razoável em tais assuntos. As

82 SOCIETY FOR PSYCHICAL RESEARCH Proceedings, Volume 4º, página 58. (rodapé).

178 – Ar thur Conan Doyle

primeiras sessões de Monck, como ficou claramente demonstrado, foram em plena

luz e qualquer mecanismo estava fora de cogitação. Não se deve argumentar que,

pelo fato de um homem forjar uma vez, jamais tenha assinado um cheque honesto.

Mas devemos admitir claramente que Monck foi capaz de fraudes, que ele seguia o

caminho mais fácil, quando as coisas se tornavam difíceis, e que cada uma de suas

manifestações deveria ser controlada cuidadosamente.

179 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

14

Investigações Coletivas sobre o

Espiritismo

omissões diversas têmse

reunido em diferentes ocasiões para examinar o

Espiritismo. Dessas as duas mais importantes foram a da Sociedade Dialética,

em 1869 a 1770 e a Comissão Seybert em 1884, das quais a primeira era

inglesa e a segunda americana. A estas deve acrescentarse

uma francesa, o Instituto

Geral Psicológico, em 1905 a 1908. A despeito dos intervalos entre essas várias

investigações, é conveniente tratálas

num capítulo único, porque certas observações

em comum se aplicam a cada uma delas.

Há óbvias dificuldades no caminho das investigações coletivas —

dificuldades por vezes tão graves que são quase insuperáveis. Quando um Crookes

ou um Lombroso explora o assunto, ou o faz sozinho com o médium, ou tem

consigo outras pessoas cujo conhecimento das condições psíquicas, bem como de

suas leis podem ser um auxílio no trabalho. Geralmente assim não se dá com as

comissões. Elas não compreendem que são, elas próprias, parte da experiência e que

lhes é possível criar vibrações tão intoleráveis e se cercarem de uma atmosfera tão

negativa que essas forças exteriores, que são governadas por leis muito definidas, se

tornam incapazes de a penetrar. Não é em vão que a palavra “unânimemente” é

intercalada no relato da reunião apostólica da sala de cima. 83

Se uma pequena peça de metal pode perturbar toda uma instalação

magnética, também uma poderosa corrente psíquica adversa pode estragar um

círculo psíquico. É por esta razão, e não por qualquer credulidade superior, que os

praticantes espíritas frequentemente alcançam resultados jamais obtidos por simples

pesquisadores. Também esta deve ser a razão por que uma comissão na qual os

espíritas se achavam bem representados foi a única a obter certos resultados

positivos. Esta foi a comissão escolhida pela Sociedade Dialética de Londres, a qual

iniciou as suas investigações no começo de 1869 e apresentou o seu relatório em

1871. Se o bom senso e as leis comuns da evidência tivessem sido respeitados na

recepção desse relatório, o progresso da verdade psíquica teria sido acelerado de

cinquenta anos.

Trinta e quatro cavalheiros de posição tinham sido nomeados para essa

comissão, cujos termos de referência eram investigar os fenômenos tidos como

“manifestações espíritas”. A maioria dos membros certamente tinha disposição para

desmascarar qualquer impostura, mas eles defrontaram uma porção de provas que

83 A expressão do A. é “with one accord” e se refere aos Atos dos Apóstolos, Capítulo 1º, versículo 14.

Traduzimola

por “unânimemente” por ser esta a expressão usada na versão portuguêsa de Figueiredo, e

que, posto não seja literal, bem traduz o pensamento original. Com efeito o texto grego é cutol návtes. —

N. do T.

C

180 – Ar thur Conan Doyle

não podiam ser desprezadas e terminaram convindo que “o assunto era digno de

maior atenção e cuidadosa investigação do que tinha recebido até então”. Essa

conclusão de tal maneira pasmou a sociedade que eles representavam, que não foi

possível dela obter a publicação das observações. Então a comissão resolveu

publicála

à sua própria custa, oferecendo assim um permanente registro da mais

importante investigação.

Os membros da comissão tinham sido escolhidos das mais variadas

profissões, inclusive um doutor em teologia, dois médicos, dois cirurgiões, dois

engenheiros civis, dois membros de sociedades científicas, dois advogados e outros

de alta reputação. Charles Bradlaugh, o Racionalista, dela fazia parte. O Professor

Huxley e G. H. Lewes, marido de George Eliot 84 tinham sido convidados a

cooperar, mas ambos recusaram. Huxley, em resposta ao convite, disse que

“supondo que os fenômenos sejam verdadeiros, eles não me interessam”, expressão

que mostra que esse grande homem iluminado tinha suas limitações.

As seis subcomissões se reuniram quarenta vezes para experiências, por

vezes sem o auxílio de um médium profissional e com absoluto senso de

responsabilidade concordaram que os seguintes pontos aparentemente tinham sido

estabelecidos:

1. “Que sons de um caráter muito variado, aparentemente vindos de móveis,

do soalho e das paredes da sala — as vibrações acompanhadas de sons são

muitas vezes distintamente perceptíveis ao tato — ocorrem sem serem

produzidos por ação muscular ou dispositivo mecânico.”

2. “Que movimentos de corpos pesados se dão sem dispositivo mecânico de

qualquer espécie ou adequada aplicação de força muscular pelas pessoas

presentes, e frequentemente sem contacto ou conexão com qualquer

pessoa.”

3. “Que esses sons e esses movimentos muitas vezes ocorrem em ocasiões e

da maneira pedida pelas pessoas presentes e, por meio de um simples

código de sinais, respondem a perguntas e deletreiam comunicações

coerentes.”

4. “Que as respostas e comunicações assim obtidas são, em sua maioria,

constituídas de fatos comuns; mas por vezes são contados corretamente

fatos conhecidos apenas de uma das pessoas presentes”.

5. “Que as circunstâncias sob as quais ocorrem os fenômenos são variáveis e

o fato mais importante é que a presença de certas pessoas parece necessária

à sua ocorrência e que a de outras, geralmente, é adversa; mas essa

diferença não parece depender de nenhuma crença ou descrença relativa ao

fenômeno.”

6. “Que, não obstante, a ocorrência dos fenômenos não égarantida pela

presença ou ausência de tais pessoas, respectivamente.”

O relatório resume em poucas palavras, como se vê adiante, as provas orais

ou escritas recebidas, e que não só testemunham fenômenos da mesma natureza dos

84 George Eliot é o pseudônimo da notável escritora inglesa Mary Ann Evans — nasceu em 1819 e

morreu em 1880. — N. Do T

181 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

observados pelas subcomissões,

mas outros do mais variado e extraordinário

caráter:

1. “Treze testemunhas declaram que viram corpos pesados —nalguns casos

homens — ergueremse

lentamente no ar e aí ficarem por algum tempo,

sem apoio visível ou tangível”.

2. “Catorze testemunhas atestam terem visto mãos ou rostos, não pertencentes

a nenhum ser humano, mas com aparência de vida e cem mobilidade, que

por vezes tocaram ou roçaram e, assim, estão convencidos que não eram o

resultado de impostura, nem de ilusão.”

3. “Cinco testemunhas sustentam que foram tocadas por algum agente

invisível, em várias partes do corpo, e onde pediam que o fossem, quando

as mãos de todos eram visíveis.”

4. “Treze testemunhas declaram que ouviram peças de música bem tocadas

em instrumentos não manipulados por qualquer agente visível.”

5. “Cinco testemunhas sustentam que viram carvões incandescentes postos

nas mãos e na cabeça de várias pessoas, sem produzir dor ou queimadura, e

três testemunhas sustentam que fizeram a mesma experiência em si

mesmas, com os mesmos resultados.”

6. “Oito testemunhas declaram que receberam informações precisas através de

batidas, de escrita e por outros meios, e cuja exatidão era então

desconhecida por elas próprias ou por qualquer dos presentes e que, em

investigação posterior, verificaram ser exatas.”

7. “Uma testemunha declara que recebeu uma informação precisa e minuciosa

que, não obstante, ficou provado ser inteiramente inverídica.”

8. “Três testemunhas declaram que se achavam presentes quando, em pouco

tempo, foram feitos desenhos a lápis e aquarela e em tais condições que a

ação humana era impossível.”

9. “Seis testemunhas declaram ter recebido informações de acontecimentos

futuros e que, nalguns casos, a hora exata foi predita com precisão, com

alguns dias e até com semanas de antecedência.”

Além disso, foram dadas provas de conversa em transe, de curas, de escrita

automática, de transporte de flôres e de frutos para recintos fechados, de vozes no ar,

de visões em cristais e em espelhos e de alongamento do corpo humano.

O relatório termina com estas observações:

“Apresentando o seu relatório, vossa comissão, levando em consideração

o elevado caráter e a grande inteligência de muitas das testemunhas dos mais

extraordinários fatos, a extensão que esse testemunho alcança pelos relatórios das

subcomissões, e a ausencia de qualquer prova de impostura ou fraude, no que

respeita a grande parte dos fenômenos; e, além disso, considerando o caráter

excepcional dos fenômenos, o grande número de pessoas de várias camadas sociais

e acima de tudo o mundo civilizado, que é mais ou menos influenciado pela crença

em sua origem sobrenatural, e o fato de que até agora não se chegou à sua

explicação filosófica, ela é de opinião que lhe cumpre declarar a sua convicção de

que o assunto é digno de mais séria atenção e cuidadosa investigação do que tem

tido até agora.”

182 – Ar thur Conan Doyle

Entre os que deram provas ou leram trabalhos perante a comissão, estavam:

o Doutor Alfred Russel Wallace, Mrs. Emma Hardinge, Mr. H. D. Jencken, Mr.

Benjamim Coleman, Mr. Cromwell F. Varley, Mr. D. D. Home, e o governador de

Lindsay. Foi recebida correspondência de Lord Lytton, Mr. Robert Chambers,

Doutor Garth Wilkinson, Mr. William Howitt, M. Camille Flammarion e outros.

A comissão teve a felicidade de obter provas dos que acreditavam nos

fenômenos, mas quase que falhou por completo, como se vê do relatório, quando as

quis daqueles que os atribuíam à fraude ou à prestidigitação.

No registro de provas de mais de cinquenta testemunhas, há um volumoso

testemunho da existência de fatos trazidos por cavalheiros e senhoras de alta

reputação. Uma testemunha 85 achou que o mais admirável fenômeno revelado pelos

trabalhadores da comissão foi o extraordinário número de homens eminentes que se

mostraram crentes firmes na hipótese espírita. E uma outra 86 declarou que, fossem

quais fossem as forças empregadas em tais manifestações, elas não podiam ser

explicadas pelo recurso à impostura, de um lado, e à alucinação, do outro.

Um aspecto interessante do desenvolvimento do movimento é aquele

observado por Mrs. Emma Hardinge de que, ao tempo (1869) apenas conhecia dois

médiuns profissionais em Londres, ao passo que conhecia muitos não profissionais.

Como ela própria era médium, certamente tinha razão ao se exprimir assim.

Mr. Cromwell Varley constatou que provavelmente não haveria mais que

cem médiuns conhecidos em todo o império e acrescentou que muito poucos desses

eram bem desenvolvidos. Temos aqui um testemunho conclusivo para o grande

trabalho realizado na Inglaterra por D. D. Home, pois a maioria dos conversos o

tinha sido através de sua mediunidade. Outra médium que desempenhou um papel

importante foi Mrs. Marshall.

Muitas testemunhas falam das sessões convincentes que fizeram em sua

casa. Mr. William Howitt, o conhecido escritor, era de opinião que tinha então

recebido a consagração de cerca de vinte milhões de criaturas em toda a parte, após

um exame pessoal.

O que pode ser chamado a prova para a oposição não foi absolutamente

formidável. Lord Lytton disse que em sua experiência os fenômenos constavam de

influências materiais, de cuja natureza nós éramos ignorantes; o Doutor Carpenter

defendeu a sua tecla da “cerebração inconsciente”. O Doutor Kidd pensava que em

sua maioria os fenômenos eram subjetivos e três testemunhas, conquanto

convencidas da autenticidade dos fatos, os tomavam por ações demoníacas. Essas

objeções foram bem respondidas por Mr. Thomas Shoster, autor das “Confessions of

a Truth Seeker” 87 , e secretário do Colégio dos Trabalhadores, numa admirável

análise do relatório em The Spiritual Magazine 88 .

É digno de nota que, ao ser publicado esse relatório tão importante quanto

ponderado, tivesse sido ridicularizado por uma boa parte da imprensa de Londres.

Uma honrosa exceção foi o Spectator. O noticiarista de The Times considerouo

“nada mais que uma mixórdia de conclusões inconsistentes, adornada por uma

85 Grattan Geary.

86 E. L. Blanchard.

87 “Confissões de um Pesquisador da Verdade”. — N. do T.

88 1872, páginas. 3 a 15.

183 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

porção de monstruosidades sem valor que, para infelicidade nossa, jamais se

reuniram para um julgamento.”

O Morning Post disse: “O relatório que foi publicado não vale nada.”

O Saturday Review esperava que aquele relatório “desacreditasse um pouco

mais uma das mais inequivocamente degradantes superstições que jamais circularam

entre gente que raciocina.

O Standard fez uma crítica sólida, que merece ser lembrada. Objetando à

observação dos que não acreditam no Espiritismo, embora digam que “existe algo

novo” o jornal observou sabiamente: “Se nisto existe algo além de impostura e

imbecilidade, há todo um outro mundo aí” .

O Daily News considera o relatório como “uma importante contribuição

para a literatura de um assunto que, mais dia menos dia, pelo próprio número de

seus adeptos, exigirá mais longa investigação”.

O Spectator, depois de descrever o livro como extremamente curioso,

acrescenta: “Poucos, entretanto, lerão a massa de provas coligidas nesse volume,

mostrando a sólida fé na realidade dos supostos fenômenos espíritas, ocorridos com

um bom número de indivíduos de caráter respeitável e sólido, sem concordar,

também, com a opinião de Mr. Jeffrey de que os notáveis fenômenos testemunhados,

alguns dos quais não tinham sido inquinados de impostura ou de fraude e o

testemunho coletivo de pessoas respeitáveis justificam a recomendação do assunto a

investigações posteriores cautelosas” .

São estes ligeiros extratos de um noticiário mais longo nalguns poucos

jornais de Londres — pois houve muitos outros — e, ruins como são, não deixam de

indicar que nenhuma mudança de atitude houve por parte da imprensa, que

habitualmente ignorava o assunto.

É preciso lembrar que o relatório apenas tratava do aspecto fenomênico do

Espiritismo e este, na opinião dos dirigentes espíritas, constitui, decididamente, o

seu lado menos importante. Apenas no relatório de uma subcomissão se registra que,

de um modo geral, o tema central das mensagens era que a morte física não passava

de trivial assunto retrospectivo, mas que para o Espírito havia um renascimento em

novas experiências de existências, que a vida do Espírito era, sob todos os pontos,

humana; que as relações amigáveis eram tão comuns e agradáveis quanto em vida;

que, não obstante os Espíritos demonstrassem grande interesse pelas coisas

mundanas, não desejavam retornar à anterior condição de vida; que a comunicação

com os amigos da Terra era agradável e desejada pelos Espíritos, devendo ser por

aqueles tomada como uma prova da continuidade da vida, a despeito da dissolução

do corpo, e que os Espíritos não pretendiam ter o poder seguro de profetizar. Eis os

principais pontos das informações recebidas.

No futuro será reconhecido, de um modo geral, que em seus dias e naquela

geração, a Comissão da Sociedade Dialética realizou um trabalho excelente. A

grande maioria de seus membros se opunha às alegações psíquicas, mas, em face da

evidência, com poucas exceções, tais como o Doutor Edmunds, estes reforçaram o

testemunho dos sentidos.

Houve poucos exemplos de intolerância, como a infeliz declaração de

Huxley e a de Charles Bradlaugh de que nem mesmo examinaria certas coisas,

184 – Ar thur Conan Doyle

porque se situavam na região do impossível; mas, em conjunto, o trabalho das

subcomissões foi excelente.

No relatório da Comissão da Sociedade Dialética há um longo artigo do

Doutor Edmunds, adversário do Espiritismo, e das constatações dos colegas. Merece

leitura, como típico de uma certa classe de mentalidade. O digno doutor,

imaginandose

imparcial, é tão absolutamente prevenido que jamais pôde entrar em

sua cachola a concebível possibilidade de que os fenômenos fossem supranormais.

Quando assiste a um deles com os próprios olhos, pergunta: “Como foi o truque?”

Se não consegue responder à pergunta, não o considera digno de qualquer outra

explicação, e apenas registra que não lhe foi possível descobrir o truque. Assim seu

testemunho, que é perfeitamente honesto em relação ao fato, registra que algumas

flôres e frutas ainda úmidas, caíram sobre a mesa — fenômeno de transporte, tantas

vezes verificado com Mrs. Gupáginasy. O único comentário do doutor é que elas

devem ter sido tiradas do aparador, embora se possa imaginar que uma cesta de

frutas sobre o aparador deveria ter chamado a atenção e ele não se arrisque a dizer

que tinha visto tal objeto. De novo foi fechado na cabine com Davenport e admite

que este nada podia fazer, mas, em todo caso, deve haver um truque de mágica.

Então, quando verifica que os médiuns que percebem que a sua atitude mental é de

irremediável recusa de examinar novamente o caso, toma a observação como um

reconhecimento de culpa. Há um certo tipo de mentalidade científica que é muito

aguda dentro de sua especialidade; mas, fora dela, é a coisa mais maluca e ilógica do

mundo.

Para a Comissão Seybert, que estudaremos agora, foi uma infelicidade ter

sido composta inteiramente de gente tal, com a exceção de um espírita, um certo Mr.

Hazard, que fora convocado por eles e que tinha pouca possibilidade de influenciar a

sua atmosfera geral de obstrução. As circunstâncias em que foi nomeada a Comissão

foram as seguintes: um tal Henry Seybert, cidadão de Filadélfia havia deixado a

soma de sessenta mil dólares com o objetivo de ser criada uma Cadeira de Filosofia

na Universidade de Pensilvânia, com a condição que a mesma Universidade

nomeasse uma comissão para fazer uma completa e imparcial investigação sobre

todos os sistemas morais, religiosos ou filosóficos que pretendem representar a

verdade e, particularmente, o Espiritismo. O pessoal da comissão escolhida é

indiferente, não obstante ser intimamente ligado à Universidade, ao Doutor

Pepáginaser, deão da Universidade, como presidente honorário, ao Doutor Furnnes,

como presidente efetivo e ao Professor Fullerton, como secretário. A respeito de que

o dever da Comissão era “fazer uma completa e imparcial investigação” do moderno

Espiritismo, o relatório preliminar diz friamente:

“A Comissão é com posta de homens cujos dias já se acham cheios de

obrigações, que não podem ser postas de lado e que assim, apenas podem dedicar

uma pequena parte de seu tempo a essas investigações”.

O fato de estarem os membros satisfeitos de principiar com essa restrição,

mostra quão pouco entendiam a natureza do trabalho que defrontavam. Em tais

circunstâncias o fracasso era inevitável. As reuniões começaram em março de 1884

e um relatório preliminar, ou coisa que o valha, foi publicado em 1887. Pelo que se

viu o relatório ficou sendo final, por isso que, reimpresso em 1920, nada lhe foi

acrescentado, a não ser um prefácio incolor em três períodos, por um descendente do

185 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

primeiro presidente. O motivo central desse relatório é que a fraude de um lado e a

credulidade do outro constituem tudo no Espiritismo e que realmente nada havia de

sério que merecesse referência. O documento merece uma leitura completa por todo

estudioso de psiquismo. A impressão que fica na mente éque os vários membros da

Comissão se achavam em seus campos limitados, esforçandose

honestamente para

apreender os fatos, mas que as suas mentes, como a do Doutor Edmunds, eram

formadas de tal modo que quando, a despeito de sua atitude repelente e impossível,

algum acontecimento psíquico tentava romper as suas barreiras, nem por um instante

consideravam a possibilidade de que fosse genuíno, mas simplesmente passavam

adiante como se não existisse. Assim, com Mrs. FoxKane

obtiveram

acentuadissimas batidas mas se satisfazem com a suposição, milhares de vezes

desmentida, de que viessem de dentro de seu próprio corpo e passaram sem

comentários sobre o fato de que por seu intermédio receberam longas mensagens,

escritas rapidamente pelo avêsso, de modo que só podiam ser lidas através do

espelho. Essa escrita rapidíssima, continha um latim abstruso, uma sentença que

aparentemente estava muito acima da capacidade do médium. Tudo isto ou foi

ignorado ou ficou sem explicação.

Novamente, observando Mrs. Lord, a Comissão obteve a Voz Direta e luzes

fosforescentes, depois de ter examinado a médium. Temos informações de que a

médium produziu “um quase contínuo bater de palmas”, além de que, pessoas mais

afastadas parecem ter sido tocadas. O preconceito que presidiu o inquérito pode ser

caracterizado pela observação do presidente efetivo W. M. Kewler, que era tido

como um fotógrafo de Espíritos, pois “não ficaria satisfeito senão com um querubim

em minha cabeça, um em cada membro e um anjo batendo asas na minha frente...”

Um Espírita ficaria muito surpreendido se realmente um investigador de maneiras

tão frívolas conseguisse resultados. Em tudo, a explicação de que o médium

produzia alguma coisa como um mágico. Nunca, por um momento sequer eles

admitiram que a simpatia e o consentimento de agentes invisíveis pudesse ser

essencial — agentes que se podem curvar ante mentes simples, encolherse

ou fazer

o jogo de quem sabe se divertir.

Enquanto houve alguns resultados que podem ser genuínos, mas que são

postos de lado no relatório, houve alguns episódios penosos para os espíritas, mas

que nem por isso podem ser esquecidos. A Comissão descobriu fraudes óbvias no

caso da médium da lousa, Mrs. Patterson e é impossível negar que o caso de Slade

seja substancial. Os últimos dias desse médium foram certamente sombrios e as

forças que outrora tinham sido tão notáveis devem ter sido substituidas pelos

truques. O Doutor Eurness chega mesmo a asseverar que esses truques eram

admitidos, mas a anedota, como é dada no relatório, antes sugere uma leviandade da

parte do médium. Que o Doutor Slade pudesse divertirse

com o Doutor através de

sua janela aberta e imediatamente respondesse a uma frase faceta, admitindo que

toda a sua vida tinha sido uma fraude, é absolutamente inacreditável.

Há alguns aspectos nos quais a Comissão — ou pelo menos alguns de seus

membros — não procedeu com ingenuidade. Assim, declaram de início que apóiam

o seu relatório em seu próprio trabalho e desprezam a massa de material

aproveitável. A despeito disso, incorporam um longo relatório adverso, escrito por

seu secretário sobre as declarações de Zöllner, dado no capítulo que trata das

186 – Ar thur Conan Doyle

experiências de Slade em Leipzig. Ele teve o cuidado de eliminar o fato de que o

maior ilusionista da Alemanha, após considerável investigação, deu um atestado de

que os fenômenos de Slade não eram truques. Por outro lado, quando o testemunho

de um mágico é contra a explicação espírita, como nos comentários de Kellar, esta

vem na íntegra, aparentemente sem conhecimento de que no caso de um outro

médium, Eglinton, esse mesmo Kellar havia declarado que os resultados estavam

acima de sua arte.

Na entrada do relatório diz a Comissão: “Sentimonos

felizes por têrnos

contado, desde o início, com Mr. Thomas R. Hazard, amigo pessoal de Mr. Seybert,

como conselheiro, desde que é muito conhecido na região como um espírita

convicto”. Evidentemente Mr. Hazard conhecia a importância de garantir as

condições adequadas e o exato tipo de assistentes para um trabalho experimental

como aquele. Descrevendo uma entrevista com Mr. Seybert, poucos dias antes de

sua morte, quando aceitou ser seu representante, diz Mr. Hazard que o fez apenas

“com inteira e clara compreensão de que me fosse permitido indicar os métodos a

seguir na investigação, designar os médiuns que deveriam ser consultados e recusar

a presença de pessoas que julgasse em conflito com a harmonia e a boa ordem dos

grupos espíritas” . Mas esse representante de Mr. Seybert parece que ficou

inteiramente esquecido pela Universidade. Depois de haver a Comissão realizado

algumas sessões, Mr. Hazard ficou descontente com alguns de seus membros e com

os seus métodos. Encontramolo

publicando o que se segue em Filadélfia no North

American de 18 de maio de 1885, possivelmente depois de vãos contactos com os

diretores da Universidade:

“Sem querer atingir, no mínimo que seja, o inatacável caráter moral de

cada um dos membros da Faculdade, inclusive a Comissão na estima pública ou no

alto padrão social e literário que eles ocupam na sociedade, devo dizer que, com

uma estranha convicção, um julgamento vesgo ou uma perversão intelectual as

Autoridades da Universidade colocaram na Comissão de Investigação do

Espiritismo uma maioria de membros cuja educação, hábitos mentais e

preconceitos os inabilitam singularmente para uma investigação completa e

imparcial do assunto que as Autoridades Universitárias por uma questão legal e

por uma questão de honra, são obrigadas a fazer; que o objetivo foi diminuir,

desacreditar e atrair o despreso e a animadiversão geral para a causa que eu sei

que o finado Henry Seybert tinha no coração e amava acima de qualquer coisa no

mundo. As Autoridades dificilmente poderiam escolher instrumentos mais

adequados para o seu objetivo, entre os cidadãos de Filadélfia do que os

cavalheiros que constituem a maioria da Comissão Seybert. E isto eu repito, não

por motivos que lhes afete o padrão moral, social ou literário na sociedade, mas

simplesmente devido aos seus preconceitos contra a causa do Espiritismo.”

Posteriormente avisou as Autoridades que deveriam ser excluídos da

Comissão os senhores Fullerton, Thompson e Koenig. Mr. Hazard informou que,

numa conferência feita a 3 de março de 1885, no Clube da Universidade de Harvard,

o Professor Fullerton havia dito: “É possível que o meio pelo qual os médiuns

contam a vida de uma pessoa seja o processo de transmissão de pensamento, pois

cada um que tem noticia dessas coisas vai a um médium pensando exatamente

naqueles pontos que o médium aborda. Quando alguém tem um resfriado, sente um

zumbido nos ouvidos, e um louco, constantemente, ouve sons que jamais ouvira.

187 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

Então é possível que uma doença mental ou dos ouvidos, ou uma forte emoção,

sejam a causa de um grande número de fenômenos espíritas.”

Estas palavras foram ditas depois que o Professor tinha servido na

Comissão por mais de doze meses.

Mr. Hazard também cita o Doutor George A. Koenig, cujo ponto de vista

foi publicado em Philadelphia Press, cerca de um ano depois de sua nomeação para

a Comissão: “Devo admitir francamente que estou preparado para negar a verdade

do Espiritismo, tal qual é agora popularmente entendido. É minha convicção que,

sem exceção, todos os chamados médiuns são charlatães. Jamais vi Slade realizar

algum de seus truques; mas, pelas descrições publicadas, convencime

de que é um

impostor, e o mais esperto da turma. Não penso que a Comissão veja com muito

agrado o exame dos chamados médiuns espíritas. Os homens mais sábios são

capazes de ser enganados. Numa hora um charlatão pode inventar tantos truques

que um homem honesto levará um ano para descobrilos”

.

Mr. Hazard soube, de fonte que considerava segura, que o Professor Robert

E. Thompson era responsável por esse tópico que apareceu em fevereiro de 1880 no

Penn’s Monthly: “Ainda que o Espiritismo fosse tudo quanto pretendem os seus

campeões, ele nenhuma importância tem para os que professam a fé cristã. A

consideração e a discussão do assunto são comprometedoras de suas noções e

arrastam a discussões com as quais nada tem que ver um crente cristão.”

Temos nestas expressões o meio de julgar como estavam capacitados os

membros da Comissão para fazer aquilo que pedira Mr. Seybert — “uma completa e

imparcial” investigação do assunto.

Um periódico espírita americano, o Banner of Light, comentando o

comunicado de Mr. Hazard, escreveu:

“Tanto quanto estamos informados, não se tomou conhecimento do apelo

de Mr. Hazard — certamente nenhuma medida, pois os membros citados continuam

na Comissão até agora e seus nomes aparecem no relatório preliminar. De fato o

Professor Fullerton foi e é ainda o secretário; cento e vinte das cento e cinquenta

páginas do volume que temos sob os nossos olhos são escritos por ele e exibem essa

falta excessiva de percepção espiritual e de conhecimento do oculto e, podemos

ainda dizer, das leis naturais, o que o levou a informar o auditório de estudantes de

Harvard que ‘quando alguém tem um resfriado sente um zumbido nos ouvidos’; que

‘um louco constantemente ouve sons que jamais ouvira’; e sugere que os fenômenos

espíritas devem proceder de tais causas”.

E continua o Banner of Light:

“Consideramos que a falta da Comissão Seybert, desatendendo o conselho

de Mr. Hazard, como era de sua inteira obrigação, é a chave do fracasso completo

de todos os seus subsequentes esforços. A insignificância dos resultados

fenomênicos, aproximandose

daquele que seria desejável, até por um céptico, e que

são registrados nesse livro, certamente é notável. É um relatório do que não foi

feito, mais do que daquilo que foi. Nos memorandos dos registros de cada sessão,

redigidos pelo Professor Fullerton, está mais do que visto o esforço para realçar

tudo quanto uma mentalidade superficial pode considerar como prova de trapaça do

médium e subtrair tudo quanto possa tornar evidente a verdade das alegações... É

mencionado que, quando certos membros da Comissão se achavam presentes, os

fenômenos cessavam. Isto prestigia a correta posição de Mr. Hazard. E não há

ninguém que, tendo experiências com médiuns, bastante para que sua opinião seja

188 – Ar thur Conan Doyle

tida como valiosa, não a endosse. Os Espíritos sabiam com que elementos se iam

encontrar; esforçaramse

por afastar aqueles que reduziriam as suas experiências;

falharam devido à ignorância, à teimosia e aos preconceitos da Comissão, e as

experiências falharam. Assim a Comissão, muito ‘cônscia de si mesma’, decidiu que

tudo era fraude.”

Referindose

ao relatório, diz Light 89 aquilo que se precisa dizer agora,

tanto quanto em 1887:

“Noticiamos com alguma satisfação, con quanto sem qualquer admiração

pelo que possa resultar do prosseguimento de maus métodos de investigação, que a

Comissão pretende comtinuar o seu inquérito ‘com a mente tão sincera e

honestamente aberta, como até aqui, para a convicção’. Desde que assim é,

permitimonos

oferecer algumas palavras de conselho baseadas numa larga

experiência. A investigação desses obscuros fenômenos é conduzida com

dificuldades e toda instrução que possa ser dada se deriva de um conhecimento que

é, principalmente, empírico. Sabemos, porém, que prolongadas e pacientes

experiências com um grupo constituído adequadamente são uma condição

sineqüanon. Sabemos que nem tudo depende do médium, mas que o círculo deve ser

formado e variado experimentalmente de vez em quando, até que os próprios

constituintes sejam garantidos. Não podemos dizer o que sejam esses elementos na

Comissão Seybert. Eles devem descobrilo

por si mesmos. Que estudem a literatura

espírita e as variadas características da mediunidade antes de fazerem experiências

pessoais. E quando o tiverem Jeito e, talvez, quando tiverem verificado como assim

é fácil conduzir um exame dessa natureza, para chegar a resultados negativos,

estarão numa posição melhor para devotarem um cuidado paciente e inteligente a

um estudo que não pode ser conduzido com proveito de outra maneira.”

Não há dúvida de que o relatório da Comissão Seybert atrasou por algum

tempo a causa da verdade psíquica. Mas o prejuízo real caiu também sobre a

instituição científica que aqueles cavalheiros representavam. Nos dias atuais, quando

o ectoplasma, a base física dos fenômenos psíquicos, foi estabelecido acima de

qualquer sombra de dúvida para quem quer que examine os fatos, é demasiado tarde

para pretender que nada existe a ser examinado.

Agora rara é a capital que não possui a sua sociedade de Pesquisas

Psíquicas — resposta final à conclusão da Comissão de que não há campo para

pesquisas. Se a Comissão Seybert tivesse tido o efeito de levar a Universidade de

Pensilvânia a encabeçar esse movimento, inspirandose

na grande tradição do

Professor Hare, como seria brilhante a sua posição final!

Como Newton associou Cambridge com a lei da gravitação, assim

Pensilvânia terseia

ligado a um maior avanço do conhecimento humano. A vários

centros científicos da Europa coube partilhar essa honra.

A restante investigação coletiva é de menor importância, desde que se

dedica a um médium particular. Esta foi conduzida pelo Instituto Geral Psicológico,

em Paris. Consistiu em três séries de sessões com a famosa Eusapia Palladino, nos

anos de 1905, 1906 e 1907, num total de quarenta e três sessões. Não são conhecidas

as listas com os nomes de todos os assistentes, nem houve um adequado relatório

geral: o único registro é o do secretário.

89 1887, página 391.

189 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

Entre os investigadores incluíamse

figuras distintas, como Charles Richet,

o Casal Curie, Bergson, Perrin, o Professor d’Arsonval, do Colégio de França, que

era o presidente da Sociedade, o Conde de Grammont, o Professor Charpentier e o

Reitor Debierne, de Sorbonne. O resultado obtido não foi desastroso para a médium,

desde que o Professor Richet endossou a realidade de sua força psíquica, mas os

pequenos desuses de Eusapia são registrados no subsequente relato de sua carreira e

bem podemos imaginar o efeito desconcertante que teriam tido sobre aqueles para

quem essas coisas eram novidade.

Está incluída no relatório uma espécie de conversa entre os assistentes, na

qual falam do assunto, muitos porém de maneira nebulosa e imprópria para mentes

disciplinadas. Não se pode alegar que qualquer luz nova tivesse sido derramada

sobre a médium ou que qualquer novo argumento tivesse sido aduzido, quer pelos

cépticos, quer pelos crentes. Entretanto o Doutor Geley, que se aprofundou tanto

quanto quem mais o fez no psiquismo, proclama que “as experiências” — e não o

relatório — constituem valiosa contribuição para o assunto 90 . Baseiase

ele no fato

que os resultados verificados, por vezes, confirmam notavelmente os obtidos em seu

próprio Instituto Metapsíquico, com Kluski, Guzik e outros médiuns. As diferenças,

diz ele, são de detalhes: nunca essenciais, O controle das mãos foi o mesmo em

ambos os casos, onde ambas as mãos eram presas. Isto foi mais fácil no caso dos

últimos médiuns, especialmente com Kluski em transe, enquanto Eusapia era

geralmente muito irrequieta. Parece que o meio termo era a condição característica

de Eusapia e o que foi observado pelo autor no caso do Frau Silbert, Evan Powell e

outros médiuns, onde a personalidade parece normal, e ainda peculiarmente

susceptível de sugestão ou outras impressões mentais. A suspeita de fraude pode ser

levantada muito facilmente em tais condições, porque o desejo geral da parte da

assistência de que aconteça alguma coisa reage fortemente sobre a mente do

médium, que no momento não raciocina. Um amador que tinha alguma força

psíquica garantiu ao autor que necessita de considerável inibição para manter tais

impulsos latentes e aguardar de fora a verdadeira força. Nesse relatório lemos:

“Estando controladas as mãos, os joelhos e os pés de Eusápia, a mesa ergueuse

subitamente, pelos quatro pés, que ficaram acima do chão. Eusapia cerra os punhos

e os apóia na mesa, que então se ergue completamente do chão, cinco vezes

seguidas, ao mesmo tempo que eram dadas cinco batidas. É de novo levantada

completamente, enquanto cada uma das mãos de Eusapia se apóia na cabeça de um

assistente. É levantada de cerca de trinta centímetros do solo e suspensa no ar

durante sete segundos, enquanto mantém a mão sobre a mesa e uma vela acesa é

colocada debaixo” , e assim por diante, com provas mais conclusivas com a mesa e

outros fenômenos.

A timidez do relatório foi satirizada pelo grande espírita francês Gabriel

Delanne. Disse ele: “O relatório insiste em dizer ‘parece’ e ‘dá a impressão’, de um

homem que não está seguro daquilo que descreve. Os que realizaram quarenta e

três sessões, com bons olhos e aparelhos de verificação devem ter uma opinião

firmada — ou, pelo menos, ser capazes de dizer, se consideram determinado

fenômeno como fraudulento; que numa determinada sessão tinham visto o médium

90 L’Ectoplasmie et la Clair voyance” 1924, página 402.

190 – Ar thur Conan Doyle

em ato de fraude. Mas não há nada disso. O leitor é deixado na incerteza — uma

vaga suspeita pairando sobre tudo, muito embora sem qualquer base séria” .

Comentando isto, diz Light 91 :

“Mostra Delanne, pelos resumos do próprio Relatório, que algumas

experiências tiveram êxito, ainda quando as maiores precauções foram tomadas, tais

como usar lâmpada escura para verificarse

realmente Eusapia tocara os objetos que

se moviam. Deliberadamente o Relatório ainda desconta essas observações diretas e

positivas, com exemplos de casos ‘ocorridos em outras ocasiões e outros lugares’,

nos quais ‘se dizia’ ou ‘se pensava’ que Eusapia tivesse indevidamente influenciado

o fenômeno.

“O relatório Courtier provará cada vez mais ser aquilo que já dissemos ser

— ‘um monumento de inépcia’ e a realidade dos fenômenos de Eusapia não pode

honestamente ser posta em dúvida por frases sem sentido, con as quais o relatório

foi enfeitado com liberalidade.”

Aquilo que pode ser chamado uma investigação coletiva de um médium, foi

empreendido nos anos de 1923 a 1925, com Mrs. Crandon, senhora de um médico

de Boston, por uma comissão escolhida pelo Scientific Ámerican e depois por uma

pequena comissão de homens de Harvard, tendo como chefe o conhecido astrônomo

Doutor Shapley. A controvérsia sobre este inquérito ainda ruge e o assunto foi

referido no capítulo que trata dos grandes médiuns modernos. Em resumo, pode

dizerse

que dos investigadores do Scientif ia American, o secretário, Mr. Malcolm

Bird e o Doutor Hereward Carrington proclamaram a sua completa conversão, Os

outros fizeram declarações imprecisas, que envolvem a humilhante confissão de que,

após numerosas sessões, feitas sob suas próprias condições e em presença de

constantes fenômenos, não poderiam dizer se tinham sido enganados ou não.

O defeito da comissão era não contar com um espírita experimentado e

familiar com as condições psíquicas. O Doutor Prince era muito surdo, enquanto o

Doutor McDougall estava numa situação em que toda a sua carreira acadêmica se

achava ameaçada pela aceitação de uma explicação impopular. A mesma observação

se aplica à comissão do Doutor Shapley, toda composta de rebentos científicos. Sem

imputar consciente desonestidade mental, há uma saída subconsciente em busca da

segurança. Lendo o relatório desses cavalheiros, com sua concordância com todas as

sessões e seus resultados, e seu veredicto final de fraude, não é possível descobrir

nenhum caminho normal para que tivessem chegado às suas conclusões.

Por outro lado, o endôsso da mediunidade por gente que não tinha razões

pessoais para extrema precaução era frequente e entusiástico. O Doutor Mark

Richardson, de Boston, referiu que tinha estado em mais de trezentas sessões e não

tinha a menor dúvida quanto aos resultados.

O autor viu numerosas fotografias do fluxo ectoplásmico de “Margery” e,

comparandoas com fotografias semelhantes, tiradas na Europa, não hesita em dizer

que são inquestionavelmente genuínas, e que o futuro justificará o médium contra os

seus críticos insensatos.

91 1909, página 356.

191 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

15

A Carreira de Eusapia Palladino

mediunidade de Eusapia Palladino marca um estágio importante na história

da pesquisa psíquica, porque foi ela a primeira dos médiuns de fenômenos

físicos a ser examinada por um grande número de homens de ciência. As

principais manifestações que ocorreram com ela consistiam no movimento de

objetos sem contacto, a levitação de uma mesa e outros objetos, a levitação do

médium, o aparecimento de mãos materializadas, de rostos, de luzes, além da

execução de músicas em instrumentos, mas sem contacto humano.

Todos esses fenômenos ocorreram, como vimos, muito anteriormente com

o médium D. D. Home, mas quando Sir William Crookes convidou seus colegas

para que viessem examinálo,

eles declinaram do convite. Agora, pela primeira vez

esses fatos estranhos eram submetidos a prolongada investigação por homens de

reputação na Europa.

Desnecessário é dizer que esses experimentadores inicialmente eram

cépticos no mais alto grau e os chamados testes — frequentemente mesquinhas

precauções que comprometem o objetivo visado — estavam na ordem do dia.

Nenhum médium em todo o mundo foi mais duramente examinado do que essa

mulher e, desde que foi capaz de convencer a grande maioria dos assistentes, é claro

que a sua mediunidade não era do tipo comum.

Desnecessário dizer que nenhum pesquisador deveria ser admitido à sala

das sessões sem, pelo menos, um conhecimento elementar das complexidades da

mediunidade e das corretas condições para a sua manifestação ou sem, por exemplo,

uma compreensão da verdade básica que não é o médium só, mas igualmente os

assistentes, que são fatores no êxito da experiência. Nem um só homem de ciência

em mil reconhece isto; e o fato de ter Eusapia triunfado a despeito dessa tremenda

desvantagem, éum eloqüente tributo à sua força.

A carreira mediúnica dessa napolitana humilde e iletrada, de tão grande

interesse e de extrema importância quanto aos resultados, ainda oferece outro

exemplo da humildade empregada como instrumento para esmagar os sofismas dos

sábios. Eusapia nasceu a 21 de janeiro de 1854 e morreu em 1918. Sua mediunidade

começou a manifestarse

quando tinha cerca de catorze anos. A mãe morrera quando

ela nasceu e o pai quando ela estava com doze anos. Em casa de amigos, com quem

foi morar, persuadiramna

a que se sentasse à mesa com outras pessoas. No fim de

dez minutos a mesa foi levitada, as cadeiras começaram a dançar, as cortinas da sala

a ser puchadas, os copos e garrafas a se moverem.

Cada assistente foi examinado por sua vez, para se descobrir quem era

responsável pelos movimentos; no fim constatouse

que Eusapia era o médium. Ela

não tomou interesse nas experiências e só consentiu em fazer novas sessões para

agradar aos hóspedes e evitar ser mandada para um convento. Só aos vinte e dois ou

A

192 – Ar thur Conan Doyle

vinte e três anos é que começou a sua educação espírita e então, de acordo com

Flammarion, foi dirigida por um ardoroso espírita, Signor Damiam.

Em conexão com esse período Eusapia relata um incidente interessante. Em

Nápoles uma senhora inglesa que se havia casado com o Senhor Damiani foi

aconselhada nossa sessão, por um Espírito que dava o nome de John King, a

procurar uma senhora chamada Eusapia, num determinado endereço. Disse que se

tratava de uma poderosa médium, através da qual ele pretendia manifestarse.

A

Senhora Damiani foi ao endereço marcado e encontrou Eusapia Palladino, de quem

jamais ouvira falar. As duas senhoras fizeram uma sessão e John King controlou a

médium, de quem passou, daí em diante, a ser o guia.

Sua primeira apresentação ao mundo científico europeu foi através do

Professor Chiaia, de Nápoles, que em 1888 publicou num jornal de Roma uma carta

ao Professor Lombroso, dando detalhes de suas experiências e convidando esse

célebre alienista a fazer investigações diretas com a médium. Só em 1891 Lombroso

aceitou o convite e em fevereiro daquele ano fez duas sessões com Eusapia, em

Nápoles. Converteuse

e escreveu: “Estou cheio de confusão e lamento haver

combatido com tanta persisténcia a possibilidade dos fatos chamados espíritas”.

Sua conversão levou muitos cientistas importantes da Europa a investigar e daí em

diante a Senhora Palladino esteve ocupada durante muitos anos em sessões

experimentais.

As sessões de Lombroso em Nápoles em 1891, foram seguidas pela

Comissão de Milão em 1892, que contava com o Professor Schiaparelli, Diretor do

Observatório de Milão, o Professor Gerosa, Catedrático de Física, Ermacora, Doutor

em Filosofia Natural, Aksakoff, Conselheiro de Estado do Tzar da Rússia, Charles

du Prel, Doutor em Filosofia de Munique, e o Professor Charles Richet, da

Universidade de Paris. Foram realizadas dezesseis sessões.

Depois veio a investigação em Nápoles, em 1893; em Roma, entre 1893 e

1894; em Varsóvia e na França em 1894 esta última sob a direção do Professor

Richet, de Sir Oliver Lodge, de Mr. F. W. H. Myers e do Doutor Ochorowicz; em

1895, em Nápoles; e no mesmo ano na Inglaterra, em Cambridge, em casa de Mr. F.

W. H. Myers, em presença do Professor e de Mrs. Sidgwick, de Sir Oliver Lodge e

do Doutor Richard Hodgson. Foram continuadas em 1895, na França, em casa do

Coronel de Rochas; em 1896 em Tremezzo, em Auteuil e em Choisy Yvrac; em

1897 em Nápoles, Roma, Paris, Montfort e em Bordéus; em Paris, em novembro de

1898, em presença de uma comissão de cientistas, composta dos senhores

Flammarion, Charles Richet, A. de Rochas, Victorien Sardou, Jules Claretie,

Adolphe Bisson, G. Delanne, G. de Fontenay e outros, também em 1901 no Clube

Minerva, de Genebra, em presença dos Professores Porro, Morselli, Bozzano,

Venzano, Lombroso, Vassalo e outros. Houve muitas outras sessões experimentais

com homens de ciência, tanto da Europa quanto da América.

Em sua carta ao Professor Lombroso, já referida, o Professor Chiaia fez

uma vívida descrição dos fenômenos que ocorriam com Eusapia. Convidouo

a

observar um caso especial, que considera digno de atenção da mente de Lombroso, e

continua: “Refirome

ao caso de uma mulher inválida, da mais humilde camada

social. Tem cerca de trinta anos e é muito ignorante; seu olhar nem é fascinante

nem dotado daquele poder que os modernos criminalistas chamam irresistível. Mas

193 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

quando ela quer, seja dia ou noite, pode divertir um grupo durante uma hora ou

mais, com os mais curiosos fenômenos. Tanto amarrada a uma cadeira, quanto

segura pelas mãos pelos assistentes, atrai a si móveis e objetos que a cercam,

levantaos,

mantendoos

suspensos no ar, como o féretro de Maomé, e fálos

descer

novamente com um movimento ondulatório, como se obedecessem à sua vontade.

Aumenta ou diminui à vontade o seu peso. Ouvemse

arranhaduras e batidas nas

paredes, no teto, no soalho, com muito ritmo e cadência. Em resposta a perguntas

dos assistentes, algo como jatos de eletricidade emana de seu corpo e a envolve ou

aos espectadores dessas cenas maravilhosas. Desenha sobre cartões que os outros

seguram, aquilo que se deseja —figuras, assinaturas, números, sentenças — apenas

estirando a mão na direção indicada. Se se colocar num canto da sala uma bacia

contendo uma camada fina de cal, no fim de algum tempo aí se encontra a

impressão de uma pequena ou de uma grande mão, um rosto, de frente ou de perfil,

do qual se poderia tirar um molde. Assim têm sido conservados retratos tirados de

vários ângulos e os que desejam podem assim fazer sérios estudos. Essa mulher

erguese

no ar, sejam quais forem as amarras que a sustenham. Parece librarse

no

ar como se sobre um colchão, contrariando todas as leis da gravidade. Toca

instrumentos de música — órgãos, sinos, tamborins — como se eles tivessem sido

tocados por suas mãos ou movidos pelo sopro de invisíveis gnomos... Essa mulher

por vezes aumenta a sua estatura de mais de dez centímetros.”

Como vimos, o Professor Lombroso interessouse

bastante por essa

descrição e investigou.

O resultado foi que se converteu. A Comissão de Milão, que foi a seguinte

a experimentar, em 1892, assim diz em seu relatório:

“É impossível dizer o número de vezes que uma mão apareceu e foi

tocada por um de nós. Basta dizer que a dúvida já não era possível. Realmente era

uma mão viva que víamos e tocávamos, enquanto, ao mesmo tempo, o busto e os

braços do médium estavam visíveis e suas mãos eram seguras pelos que se achavam

ao seu lado.”

Muitos fenômenos ocorreram à luz de duas velas ou lâmpadas de óleo e as

mesmas ocorrências foram testemunhadas em plena luz, quando o médium estava

em transe. O Doutor Ochorowicz persuadiu Eusapia a visitar Varsóvia em 1894 e as

experiências aí foram feitas em presença de homens e senhoras eminentes nos

círculos científicos e filosóficos. O relato dessas sessões diz que levitações parciais e

completas da mesa e muitos outros fenômenos físicos foram conseguidos. Essas

levitações se deram quando os pés do médium eram vistos à luz ou quando eram

amarrados e seguros por um assistente ajoelhado debaixo da mesa.

Depois das sessões em casa do Professor Richet, em 1894, na Ilha de

Roubaud, fazendo um relatório à Sociedade de Pesquisas da Inglaterra, disse Sir

Oliver Lodge: “Conquanto os fatos devam ser explicados, sou forçado a admitir a

sua possibilidade. Em minha mente não há mais lugar para dúvidas. Qualquer

pessoa sem invencível preconceito que tenha tido a mesma experiência terá chegado

à mesma larga conclusão, isto é, que atualmente acontecem coisas consideradas

impossíveis... O resultado de minha experiência é convencerme

de que certos

fenômenos geralmente considerados anormais, pertencem à ordem natural e, como

194 – Ar thur Conan Doyle

um corolário disto, que esses fenômenos devem ser investigados e verificados por

pessoas e sociedades interessadas no conhecimento da natureza 92 .”

Na sessão em que Sir Oliver Lodge leu o seu relatório, Sir William Crookes

chamou a atenção para a semelhança entre os fenômenos que ocorriam com Eusapia

e os que se davam em presença de D. D. Home.

O relatório de Sir Oliver Lodge foi combatido pelo Doutor Richard

Hodgson, então ausente nos Estados Unidos, e, como consequência, Eusapia

Palladino e o Doutor Hodgson foram convidados para uma série de sessões na

Inglaterra, em Cambridge, as quais se realizaram em agosto e setembro de 1895, em

casa de Mr. F. W. II. Myers. Essas “Experiências de Cambridge”, como foram

chamadas, na sua maioria foram mal sucedidas e alegouse

que a médium foi

seguidamente pilhada em fraude. Escreveuse

muito pró e contra, na acesa

controvérsia que se seguiu. Basta dizer que observadores competentes recusaram

esse veredicto contra Eusapia, e condenaram formalmente os métodos empregados

em Cambridge pelo grupo de experimentadores.

É interessante lembrar que um repórter americano, por ocasião da visita de

Eusapia aos Estados Unidos em 1910, lhe perguntou à queimaroupa

se alguma vez

havia sido surpreendida em fraude. Eusapia respondeu francamente: “Muitas vezes

dizemme

que sim. O senhor vê, é assim. Alguns dos que estão à mesa esperam

truques; na verdade os desejam. Eu estou em transe. Nada acontece. Eles ficam

impacientes; pensam em truques, e eu —Eu —automaticamente respondo. Mas não

é frequente. Apenas querem que eu os pratique. Eis tudo” . Isso parece uma

engenhosa adaptação de uma defesa, que Eusapia ouviu outros fazerem a favor dela.

Ao mesmo tempo há nisso, inquestionavelmente, um elemento de verdade, que é o

aspecto psicológico da mediunidade ainda pouco compreendido.

Em relação ao caso podem ainda fazerse

duas observações importantes.

Primeiro, como bem indicou o Doutor Hereward Carrington, várias experiências

conduzidas com o fito de repetir os fenômenos por meios fraudulentos resultaram

em completo fracasso em quase todos os casos. Em segundo lugar, ao que parece, os

assistentes das sessões de Cambridge eram completamente ignorantes da existência

e do modo de agir daquilo que pode ser chamado de “alavanca ectoplásmica”,

fenômeno observado no caso de Slade e de outros médiuns. Diz Carrington: “Todas

as objeções de Mrs. Sidgwick podem ser resolvidas se admitirmos, em certas

ocasiões, um terceiro braço, que produz esses fenômenos e que se recolhe ao seu

próprio corpo quando esses se realizaram” . Agora, por mais estranho que pareça, é

justamente essa a conclusão a que conduzem abundantes indicações. Já em 1884 Sir

Oliver Lodge viu aquilo que descreve como “uma aparência de membros extra”, em

continuação do corpo de Eusapia ou muito junto a este. Com essa segurança que

muitas vezes a ignorância se permite, o comentário editorial no Jornal da Sociedade

de Pesquisas Psíquicas, no qual foi publicado o relato de Sir Oliver, diz: “É

absolutamente necessário observar que a continuidade dos membros do ‘Espírito’

com o corpo do médium é, prima facie, uma circunstância altamente sugestiva de

fraude” .

92 Journal SOCIETY FOR PSYCHICAL RESEARCH Volume 6º, Novembro de 1894. páginas 334 e 360.

195 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

Mas, posteriores cientistas investigadores confirmam amplamente a

suposição de Sir Oliver Lodge. Declara o Professor Botazzi: “De outra feita, mais

tarde, a mesma mão se colocou sobre o meu antebraço direito, sem fazer pressão.

Nessa ocasião não só levei a mão esquerda para o lugar, como olhei, de modo que

podia ver e sentir ao mesmo tempo: e vi uma mão humana, de côr natural, e com os

meus dedos senti os dedos e as costas de uma mão tépida nervosa e áspera. A mão

se dissolveu — eu vi com os próprios olhos — retraindose

como se para dentro do

corpo da senhora Palladino, descrevendo uma curva. Confesso que tive dúvidas se a

mão esquerda da senhora Palladino se tinha libertado da minha direita, para

alcançar o meu ante braço, mas no mesmo instante fui capaz de provar a mim

mesmo que essa dúvida não tinha fundamento, porque nossas duas mãos

permaneciam em contacto, como de costume. Se todos os fenômenos observados

nessas sete sessões desaparecessem da minha memória, eu jamais esqueceria este.”

Em 1907 o Professor Galeotti viu aquilo a que chamou o duplo do braço

esquerdo do médium. E exclamou: “Olhem! Eu vejo dois braços esquerdos, de

idêntica aparência! Um está sobre a mesinha e é tocado pelo senhor Bottazzi e o

outro parece que sai de seu ombro — para se aproximar dela, tocála

e voltar a

fundirse

novamente em seu corpo. Isto não é uma alucinação” . Numa sessão em

julho de 1905, em casa do senhor Berisso, quando as mãos de Eusapia eram

inteiramente controladas e visíveis a todos, o Doutor Venzano e outros presentes

“viram distintamente uma mão e um antebraço, coberto por uma manga escura que

saia da frente e da parte superior do ombro direito da médium”. Um testemunho

muito semelhante poderia ser dado.

Como contribuição para o estudo das complexidades da mediunidade,

principalmente de Eusapia, o caso seguinte merece séria atenção. Numa sessão com

o Professor Morselli, Eusapia tinha sido apanhada libertandose

da mão do professor

e tentando apanhar uma cameta que se achava sobre a mesa. Foi obstada de o fazer.

Então, diz o relatório: “Neste momento, quando certamente mais rigoroso era o

controle, a cameta foi erguida da mesa e desapareceu dentro da cabine, passando

entre a médium e o Doutor Morselli. Evidentemente a médium tinha tentado fazer

com a mão o que a seguir fez mediunicamente. Um esforço tão fútil e tão inútil para

fraudar é inexplicável. Não há dúvidas a respeito; desta vez a médium não tocou,

nem podia tocar na cameta; e, mesmo que a tivesse alcançado, não a teria levado

para a cabine, que fica às suas costas.”

Deve ser lembrado que o canto da sala tinha uma cortina, que formava a

chamada cabine, isto é, um recinto fechado para reunir força, e que Eusapia, ao

contrário dos outros médiuns, sentavase

do lado de fora, a cerca de trinta

centímetros, ficando a cortina as suas costas.

Em 1895, a Sociedade de Pesquisas Psíquicas tinha decidido que todos os

fenômenos de Eusapia eram fraudulentos e não queria mais contacto com ela. Mas

no continente europeu grupo após grupo de cientistas investigadores, tomando as

mais rigorosas precauções, atestaram os dons de Eusapia. Então em 1908 a

Sociedade de Pesquisas Psíquicas decidiu examinar a médium mais uma vez.

Nomeou três de seus cépticos mais capacitados. Um deles, Mr. W. W. Baggally,

membro do Conselho, tinha investigado os fenômenos psíquicos por mais de trinta e

cinco anos e, durante esse tempo — com exceção, talvez, de uns poucos incidentes

196 – Ar thur Conan Doyle

numa sessão com Eusapia, poucos anos antes — jamais havia testemunhado um

único fenômeno físico legítimo. “Em todas as suas investigações sempre tinha

verificado fraudes e nada mais que fraudes” . Ainda mais, era um hábil ilusionista.

Mr. Everard Fielding, secretário honorário da Sociedade, tinha feito investigações

por alguns anos, mas “durante todo esse tempo jamais tinha visto um fenômeno

físico que lhe parecesse conclusivamente provado” a não ser, talvez, um caso em

sessão com Eusapia. O Doutor Hereward Carrington, o terceiro nomeado, conquanto

tivesse assistido a inúmeras sessões, podia dizer que até assistir a uma sessão com

Eusapia, “jamais tinha visto uma única manifestação de ordem física que pudesse

considerar autêntica” .

À primeira vista esse registro dos três investigadores parece esmagador

para o que pensavam os Espíritas. Mas nas investigações de Eusapia Palladino esse

trio de cépticos teve o seu Waterloo. A história completa de sua longa e paciente

pesquisa desse médium em Nápoles encontrase

no livro do Doutor Hereward

Carrington “Eusapia Palladino and Her Phenomena” (1909) 93 . Como prova da

cuidadosa investigação dos cientistas do continente, devemos lembrar que o

Professor Morselli observou nada menos que trinta e nove tipos diversos de

fenômenos que se passavam com Eusapia Palladino. Os incidentes que se seguem

devem ser lembrados porque bem podem ser classificados sob o título de “Provas

malucas”. De uma sessão em Roma, em 1894, em presença do Professor Richet, do

Doutor Schrenck Notzing, do Professor Lombroso e de outros, o relatório diz o

seguinte:

“Esperando obter o movimento de um objeto sem contacto, colocamos um

pedacinho de papel dobrado em forma de ‘A’ sob um copo em cima de um disco de

papelão fino... Nada se tendo verificado, não quisemos fatigar a médium e deixamos

as coisas em cima de uma grande mesa. Então tomamos os nossos lugares em redor

da mesinha, depois de havermos fechado cuidadosamente todas as portas, cujas

chaves pedimos aos convidados que guardassem nos bolsos, para que não nos

acusassem de não havermos tomado todas as precauções. A luz foi apagada. Logo

ouvimos soar o copo sobre a nossa mesa e, tendo acendido uma luz, encontramolo

em nosso meio e na mesma posição, emborcado e cobrindo o pedacinho de papel.

Só que o papelão estava faltando. Em vão o procuramos. Terminada a sessão

conduzi os convidados mais uma vez para a antecâmara. O Senhor Richet foi o

primeiro a abrir a porta, bem aferrolhada por dentro. Qual não foi a sua surpresa

quando percebeu, perto da soleira da porta e do outro lado, na caixa da escada, o

disco que tanto procuráramos! Apanhouo

e todos reconheceram o papelão que fora

posto debaixo do copo.”

Uma forte prova digna de registro é a de que o Senhor de Fontenay

fotografou várias mãos que apareciam sobre a cabeça de Eusapia e numa das

fotografias as mãos da médium aparecem bem seguras pelos investigadores. Essas

fotografias são reproduzidas nos “Annais of Psychical Science”, de abril de 1908,

página 181 e seguintes. Na sexta e última sessão dessa série em Gênova, com o

Professor Morselli, em 1906 e 1907, foi obtida uma prova decisiva. A médium

estava amarrada no divã com uma larga faixa, como as camisas de força usadas nos

asilos. Morselli, com a experiência de um alienista, realizou a operação e ainda

93 “Eusapia Palladino e os seus Fenômenos” (1909). — N. do T.

197 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

amarroulhe

os punhos e os tornozelos. Depois foi acesa uma lâmpada vermelha de

dez velas. A mesa, que estava livre de qualquer contacto, moviase

de vez em

quando, foram vistas pequenas luzes e uma mão. Num dado momento, abriuse

uma

cortina em frente à cabine, deixando ver a médium estirada e bem amarrada. Diz o

relatório:

“Os fenômenos eram inexplicáveis, de vez que, dada a sua posição,

qualquer movimento era impossível. Em conclusão, aqui estão os relatos de dois

casos, entre muitos, de materializações convincentes. O primeiro é descrito pelo

Doutor Joseph Venzano, nos ‘Annais of Psychical Science’, volume 6º, página 164,

de setembro de 1907. Havia a luz de uma vela, que permitia se visse a figura da

médium:

“A despeito da pouca luz, eu podia ver distintamente a Senhora Palladino

e meus companheiros. De súbito, percebi que detrás de mim havia uma forma,

bastante alta, que estava inclinando a cabeça sobre o meu ombro esquerdo e

soluçando violentamente, tanto que os presentes ouviam os soluços: beijavame

repetídas vezes. Percebi claramente os traços fisionómicos, que me tocavam o rosto

e senti os seus cabelos finos e abundantes em contacto com a minha face esquerda,

de modo que eu tinha certeza que era uma mulher. Então a mesa começou a moverse

e pela tiptologia deu o nome de uma ligação de família, de todos desconhecida,

exceto por mim. Tinha morrido algum tempo antes e, devido a uma

incompatibilidade temperamental houve sérios desacordos com ela. Eu estava tão

longe de esperar essa resposta tiptológica que a princípio pensei que fosse mera

coincidência de nome; mas enquanto mentalmente eu fazia tal reflexão, senti uma

boca, com o sopro quente, tocarme

a orelha esquerda e sussurrar, em voz baixa, em

dialeto genovês, uma porção de frases que os assistentes podiam ouvir. Essas

sentenças foram interrompidas por um soluço e o tema era, repetidamente, o pedido

de perdão de injúrias feitas a mim, com uma riqueza de detalhes ligados a assuntos

familiares que só poderiam ser conhecidos da pessoa em questão. O fenômeno

parecia tão real que me vi obrigado a responder aos pedidos de desculpas com frases

afetuosas e, por meu turno, pedir perdão se qualquer ressentimento pelos malentendidos

tinham sido excessivos. Mal eu tinha pronunciado as primeiras sílabas e

duas mãos, com excessiva delicadeza, se aplicaram sobre os meus lábios, evitando

que eu continuasse. Então a forma me disse obrigado, abraçoume,

beijoume e

desapareceu.”

Com outros médiuns têm havido melhores materializações do que esta e

com melhor luz; mas no caso havia uma prova interior e mental de identidade.

O último exemplo que daremos ocorreu em Paris, em 1898, numa sessão

em que se achava presente Flammarion, quando o Senhor Le Bocain se dirigiu em

árabe a um Espírito materializado e disse: “Rosália, se és tu que te encontras entre

nós, puxame

três vezes o cabelo na parte posterior da cabeça” . Cerca de dez

minutos depois e quando o Senhor Le Bocain quase havia esquecido o pedido, sentiu

que lhe puxavam o cabelo três vezes, exatamente como havia pedido. E disse:

“Certifico este fato que, além disso, constituiu para mim a mais convincente prova

da presença de um Espírito familiar junto a mim” . E acrescenta que é desnecessário

dizer que Eusapia não sabe árabe.

Os adversários e uma parte dos pesquisadores de psiquismo acham que os

fenômenos que ocorrem numa sessão têm pouco valor probante, porque os

observadores comuns não conhecem os recursos dos mágicos. Em 1910, em Nova

198 – Ar thur Conan Doyle

Iorque, o Doutor Hereward Carrington levou a uma sessão de Eusapia Mr. Howard

Thurston, que descreve como o mais notável mágico da América. Mr. Thurston que,

com o seu assistente, controlava as mãos e os pés da médium em boa luz, descreve:

“Fui testemunha pessoal das levitações da mesa da Senhora Paladino... e estou

absolutamente convencido de que os fenômenos que vi não eram devidos à fraude e

não foram executados nem por seus pés, nem por seus joelhos ou mãos.”

Ele se prontificou a dar mil dólares a uma instituição de caridade se

provassem que essa médium não era capaz de levitar uma mesa sem um dispositivo

para truque ou fraude.

Perguntarseá

qual o resultado de tantos anos de investigação com essa

médium. Certo número de cientistas, sustentando com Sir David Brewster que o

Espírito seria a última hipótese que admitiriam, inventaram hipóteses engenhosas

para explicar os fenômenos, de cuja autenticidade estavam convencidos. O Coronel

de Rochas procurou explicálos

pelo que chamou “exteriorização da motricidade”. O

Senhor Le Bocain falava de uma teoria dinâmica da matéria; outros pensavam numa

“força endêmica” e numa “consciência coletiva” ou na ação da mente subconsciente;

mas aqueles casos, bem autenticados, onde a operação de uma inteligência

independente se mostrava claramente, tornou insustentáveis essas tentativas de

explicação. Vários experimentadores foram forçados a aceitar a hipótese espírita

como a única que explicava todos os fatos de maneira razoável. Diz o Doutor

Venzano: “No maior número das formas materializadas por nós percebidas, quer

pela vista, quer pelo tato, ou pela audição, foinos

possível reconhecer pontos de

semelhança com pessoas mortas, geralmente nossos parentes, desconhecidos da

médium e apenas conhecidos dos presentes relacionados com os fenômenos.”

O Doutor Hereward Carrington vacila. Considerando a opinião de Mrs.

Sidgwick de que é inútil especular se os fenômenos são de caráter espírita ou se

representam “alguma lei biológica desconhecida”, até que os fatos se hajam

estabelecido por si mesmos, diz: “Devo dizer que, antes de eu mesmo realizar

sessões, também concordava com o ponto de vista de Mr. Sidgwick” . E acrescenta:

“Minhas próprias sessões me convenceram finalmente e de modo conclusivo de que

os fenômenos verdadeiros devem ocorrer, e que, neste caso, a questão de sua

interpretação se esclarece á minha frente... Penso que não só a hipótese espírita se

justifica como uma teoria aceitável, mas que é, de fato, a única capaz de uma

explicação racional dos fatos.” 94

Como dissemos de início, a mediunidade de Eusapia Palladino era

semelhante à de outros, mas tinha ela a vantagem de chamar a atenção de homens de

influência, cujo relato público de seus fenômenos teve um prestígio de que não

gozaram as descrições feitas por gente menos conhecida. Especialmente Lombroso

registrou as suas convicções na conhecida obra “Morte — E depois?”, aparecida em

1909. Eusapia foi o instrumento de demonstração de certos fatos não aceitos pela

ortodoxia científica. Para o mundo é mais fácil negar esses fatos do que os explicar

— o que constitui a norma geralmente seguida.

Aqueles que procuram explicar toda a mediunidade de Eusapia por meio do

hábito aparente de enganar, consciente ou inconscientemente, os assistentes, apenas

94 “Eusapia Palladino and Her Phenomena”. By Hereward Carrington Ph. D. páginas 250 e 251.

199 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

procuram enganarse

a si mesmos. Que houve esses truques é fora de dúvida. E

Lombroso, que endossa a legitimidade de sua mediunidade, assim descreve os

truques: “Muitos são os engenhosos truques que ela emprega, quer no estado de

transe, isto é, inconscientemente, quer não. Por exemplo, libertando uma das mãos,

seguras pelos controladores, com o objetivo de mover objetos próximos; fazendo

toques; levantando devagarinho as pernas da mesa, quer com os joelhos, quer com

um pé; fingindo arranjar os cabelos e aproveitando a circunstância para colocar

uma mecha sobre o prato de uma balança pesacartas,

a fim de o mover. Foi vista

por Faifofer, antes da sessão, colhendo furtivamente flores num jardim, para fingir

algum transporte, aproveitando a obscuridade da sala... E ainda a sua profunda

tristeza é a de ser acusada de trapaça durante a sessão — por vezes, também,

acusada injustamente, força é confessar, porque agora temos certeza de que

membros fantásticos são ajustados ao seu corpo e atuam como substitutos, quando

foram sempre tornados como sendo os seus próprios membros, apanhados no

momento de realizar uma trapaça” .

Em sua visita à América, já no seu declínio, quando os seus dons estavam

em declínio também, foi pilhada nesses truques e de tal modo ofendeu os assistentes

que estes se afastaram; mas Toward Thurston, o famoso ilusionista, diz que resolveu

pôr tudo isto de lado e continuar a sessão, cujo resultado foi uma autêntica

materialização. Outro conhecido assistente depõe que no próprio instante em que a

censurava por mover um objeto com a mão, outro objeto, bastante longe dela,

moveuse

ao longo da mesa. Seu caso é na verdade peculiar, pois deve ser dito com

mais verdade a seu respeito, do que em relação a qualquer outro médium, que ficou

provado que possuía poderes psíquicos e também que, mais do que nenhum outro,

aproveitou esses poderes para enganar. Nisto, como sempre, o que conta é o

resultado positivo.

Eusapia tinha uma depressão característica do parietal, causada, ao que se

diz, por um acidente na infância. Tais defeitos físicos muito comumente estão

associados com poderosa mediunidade. É como se a fraqueza física causasse aquilo

que pode ser descrito como um deslocamento da alma, de modo que esta fica mais

destacada e capaz de ações independentes.

Assim, a mediunidade de Mrs. Piper seguiuse

a duas operações internas; a

de Home acompanhou a sua diátese tuberculosa. Muitos outros casos podem ser

citados. Sua natureza era histérica, impetuosa e irrequieta, mas possuía alguns traços

bonitos. Dela diz Lombroso que possuia uma singular bondade de coração, que a

levava a distribuir o que ganhava com os pobres e com as crianças, para aliviar os

seus infortúnios, o que a impelia a sentir uma ilimitada piedade pelos velhos e pelos

doentes, a ponto de passar noites em claro, pensando neles. A mesma bondade de

coração a leva a proteger os animais que estão sendo maltratados, advertindo

asperamente o cruel opressor. Esta passagem deve chamar a atenção dos que pensam

que as forças psíquicas cheiram a diabo.

200 – Ar thur Conan Doyle

16

Grandes Médiuns de 1870 a 1900: Charles

H. Foster, Madame d’Esperamce,

William Eglinton, Stainton Moses

ouve muitos médiuns notáveis e alguns notórios, no período que vai de 1870

a 1900. Dêstes D. D. Home, Slade e Monck já foram mencionados. Quatro

outros, cujos nomes viverão na história do movimento, são o americano C.

H. Foster, Madame d’Esperance, Eglinton e o Reverendo W. Stainton Moses.

Daremos agora um ligeiro histórico de cada um deles.

Charles H. Foster teve a sorte de ter um biógrafo que o admirava tanto a

ponto de o chamar “o maior médium espírita desde Swedenborg”. Há uma tendência

da parte dos escritores de exagerar o valor de um dado sensitivo com que se põem

em contacto. Nada obstante, Mr. George C. Bartlett, no seu “The Salem Seer” 95

mostra que tinha estreita ligação pessoal com Foster, e que este era realmente um

médium muito notável. Sua fama não se limitava à América, pois ele viajou muito e

tanto visitou a Austrália quanto a GrãBretanha.

Neste último país fez amizade com

Bulwer Lytton, visitou Knebworth e foi o modelo de Margrave em “A Strange

Story” 96 .

Parece que Foster foi um clarividente de grande poder, e tinha a faculdade

peculiar de dar o nome ou as iniciais do Espírito que descrevia, exibindo nome ou

letras sobre a própria pele, geralmente no antebraço. Esse fenômeno era tão

frequentemente repetido e tão severamente examinado que o fato não pôde ser posto

em dúvida, O que seria a causa do fato é uma outra questão. Havia muitos outros

pontos na mediunidade de Foster que sugeriam uma projeção da personalidade antes

que uma inteligência exterior. Por exemplo, é francamente incrível que Espíritos dos

grandes que se foram, como Virgílio, Camões e Cervantes, tivessem estado à espera

desse iletrado da Nova Inglaterra, e contudo, para confirmar o fato, temos a

autoridade de Bartlett, ilustrada com muitas citações, de que manteve conversas com

tais entidades, e que lhe eram capazes de citar passagens e qualquer estrofe

escolhida de suas copiosas obras poéticas.

Tais exemplos de familiaridade com a literatura, muito acima da capacidade

do médium, tem alguma analogia com testes de livros empregados nos últimos anos,

onde uma linha de uma obra numa biblioteca é prontamente localizada. Isto não

necessita a sugestão da presença do autor de tal volume; deve antes depender de

algum poder indefinido do eu etérico liberto do médium, ou possivelmente de

alguma outra entidade de natureza de um guia, que pudesse rapidamente colhêr a

informação de maneira supranormal. Os espíritas extremaram tanto o caso que não é

95 “O Vidente de Salém”. — N. do T.

96 “Uma história esquisita” — N. do T.

H

201 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

possível emprestar a todos os fenômenos psíquicos o valor que lhes atribuem; e o

autor confessa ter observado com frequência que algures, em data anterior, o

médium consultou impressos ou escritos que nos são trazidos depois fora das

condições normais.

O dom peculiar de Foster, pelo qual as iniciais eram estampadas em sua

carne, tinha resultados cômicos. Bartlett conta como um certo Mr. Adams consultou

a Foster. “Quando ia saindo, Mr. Foster lhe disse que em toda a sua experiência

jamais tinha visto um indivíduo trazer tantos Espíritos... A sala estava literalmente

cheia deles, indo e vindo. Às duas da manhã seguinte Mr. Foster me chamou

dizendo: ‘George, quer fazer o favor de acender o gás? Eu não posso dormir: o

quarto está cheio da família Adams e parece que estão escrevendo seus nomes em

mim’. E com grande admiração minha, a lista de nome da família de Adams estava

gravada em seu corpo. Contei onze nomes diferentes: um estava escrito na testa,

outros nas costas. Tais anedotas certamente contribuem para as piadas dos

trocistas, mas nós temos aqui uma prova de que o senso de humor, será maior do

Outro Lado.”

O dom das letras escarlates sobre a pele de Foster parece bem comparável

ao conhecido fenômeno dos estigmas que aparecem nas mãos e nos pés das beatas.

Num caso, a concentração do pensamento do indivíduo sobre um assunto teve um

resultado. No outro, pode ser que a concentração de uma entidade invisível tenha um

efeito semelhante. Devemos lembrarnos

que somos todos Espíritos, dentro ou fora

do corpo, e temos os mesmos poderes, em graus variáveis.

A opinião de Foster sobre sua própria condição parece ter sido muito

contraditória, pois frequentemente declarava, como Margaret FoxKane

e os

Davenport, que não se arriscava a dizer que seus fenômenos eram devidos a seres

espirituais, quando, por outro lado, todas as suas sessões eram conduzidas na clara

suposição de que o eram. Assim, descrevia ele minuciosamente a aparência do

Espírito e dava mensagens em seu nome para os parentes vivos. Como D. D. Home,

era excessivamente crítico dos outros médiuns, e não acreditava no poder

fotográfico de Mumler, embora tal poder fosse bem atestado em si próprio. Parece

que possuía, em grau exagerado, o espírito volátil do médium típico, facilmente

influenciável para o bem e para o mal. Seu amigo, que era claramente um

observador atento, dele diz: “Era extravagantemente dúplice. Não era apenas

Doutor Jekyll e Mr. Hyde, mas representava meia dúzia de diferentes Jekylls e

Hydes. Era estranhamente dotado e, por outro lado, lamentàvelmente deficiente.

Era um gênio desequilibrado e, por vezes, eu o diria insano. Tinha um coração

realmente tão grande que abarcava o mundo: lágrimas pelos aflitos; dinheiro para

os pobres; e as fibras de seu coração eram tocadas pelas alheias misérias. Outras

vezes seu coração se encolhia como se desaparecesse. Tornavase

desalmado e

petulante como uma criança, até abusar dos melhores amigos. Atirou fora muitos

amigos, como um bagual indomável. Não havia freios que lhe servissem. Foster não

era vicioso, mas era absolutamente incontrolável. Tinha que seguir o seu caminho,

muitas vezes um caminho errado. Como uma criança, parecia nada prever. Dava a

impressão de viver para o dia, despreocupado com o amanhã. Se fosse possível,

fazia exatamente o que queria, sem olhar as conseqüências. Não ouvia conselhos de

ninguém, apenas porque não podia. Parecia impermeável ás opiniões alheias e

202 – Ar thur Conan Doyle

aparentemente cedia aos desejos alheios; mas apesar de tudo não se estragou muito

e continuou em perfeita saúde até o fim. Quando se lhe perguntava ‘Como vai a

saúde?’ sua resposta favorita era ‘Excelente. Estou apenas vendendo saúde’. A

mesma natureza dúplice mostrou em seu trabalho. Por vezes era capaz de sentarse

a uma mesa o dia inteiro e entrar pela noite, sob um tremendo esforço mental. E o

fazia dia após dia, noite após noite. Então vinham dias e semanas em que não fazia

absolutamente nada — jogando centenas de dólares e agastando as pessoas sem

razão aparente, a não ser que se encontrasse em disposição folgazã.”

Madame d’Esperance, cujo verdadeiro nome era Mrs. Hope, nasceu em

1849 e sua carreira se estendeu por mais de trinta anos, numa atividade que alcançou

o continente e a GrãBretanha.

Apareceu em público graças a T. P. Barkas, cidadão

muito conhecido em New Castle. A médium era então uma mocinha de educação da

classe média. Entretanto, quando em semitranse, demonstrava em grau notável

aquele dom de sabedoria e conhecimento que São Paulo coloca no topo de sua

categoria espiritual. Barkas descreve como preparava extensas listas de perguntas

que cobriam quase todos os setores da ciência e como as respostas eram escritas

ràpidamente pela médium, geralmente em inglês, mas por vezes em alemão ou

mesmo em latim. Resumindo essas sessões, diz Mr. Barkas 97 : “Deve ser geralmente

admitido que ninguém pode, por um esforço normal, responder com detalhes a

perguntas críticas ou obscuras, em muitos setores difíceis da ciência com que se não

é familiarizado. Além disso deve admitirse

que ninguém pode ver normalmente e

desenhar com minuciosa precisão em completa obscuridade; que ninguém pode, por

meios normais da visão ler o conteúdo de uma carta fechada no escuro; que

ninguém que ignore a língua alemã possa escrever com rapidez e exatidão longas

comunicações em alemão. Entretanto todos esses fenômenos foram verificados com

esse médium e são tão acreditados quanto as ocorrências normais da vida diária”.

Deve admitirse,

entretanto, que enquanto não conhecermos os limites a

que pode chegar a força produzida pela libertação parcial ou total do corpo etérico,

não podemos com segurança atribuir tais manifestações à intervenção dos Espíritos.

Eles mostraram uma notável individualidade psíquica muito pessoal e,

possivelmente, nada mais que isso.

Mas a fama de Madame d’Esperance como médium depende de muitos

dons que eram, sem dúvida, mais espirituais. Temos um relato muito completo

desses dons, pela sua própria pena, pois ela escreveu um livro intitulado “Shadow

Land” 98 , que se pode alinhar com o “Magic Staji” 99 de A. J. Davis, e com “The

Beginnings of Seership” 100 , de Turvey, assim como entre as mais notáveis

autobiografias psíquicas de nossa literatura. Não é possível lêlo

sem se ficar

impressionado pelos bons sentimentos e pela honestidade da escritora.

Como outros sensitivos o fizeram, ela narra como em sua infância brincava

com Espíritos de crianças, que lhe eram tão reais quanto as vivas. Essa força de

clarividência permaneceu em toda a sua vida, mas o dom mais raro da

materialização lhe foi adicionado. O citado livro contém fotografias de Yolanda,

97 Psychological Review, Volume 1º, página 224.

98 “Região das Sombras” — N. do T.

99 “Comando Mágico” — N. do T.

100 “Os princípios da Vidência” — N. do T.

203 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

uma bonita moça árabe, que era para essa médium o que Kate King foi para

Florence Cook. Não era raro que se materializasse quando Madame d’Esperance

estava sentada fora da cabine, sendo vista inteiramente pelos assistentes.

Assim, a médium podia ver a sua própria emanação estranha, tão íntima e,

contudo, tão distinta. Eis a sua própria descrição: “Sua roupagem leve permitia que

se visse muito bem a bela cor azeitonada de seu pescoço, dos ombros, dos braços e

dos tornozelos. Os longos cabelos negros e ondulados desciam pelos seus ombros

até abaixo do peito e eram atados por uma espécie de turbante pequenino. Suas

feições eram miúdas, corretas e graciosas; os olhos eram negros, grandes e vivos;

todos os seus movimentos eram cheios daquelas graças infantis ou como os de uma

jovem gazela, quando a vi, entre tímida e decidida, por entre as cortinas.

Descrevendo as suas impressões durante uma sessão. Madame d’Esperance fala da

sensação de uma como que teia de aranha, que estivesse em torno de seu rosto e de

suas mãos. Quando uma fraca luz penetrou por entre as cortinas da cabine, ela viu

uma massa vaporosa esbranquiçada, flutuando em seu redor, como o vapor de uma

locomotiva e, além disso, evoluindo para uma forma humana. Uma sensação de

vazio começou, assim que aquilo que ela chamou de teia de aranha se apresentou.

Então perdeu o controle de seus membros.”

O Hon. Alexander Aksakof, de São Petersburgo, conhecido pesquisador do

psiquismo e redator do Psychische Studien, descreveu em seu livro “Um Caso de

Desmaterialização Parcial”, uma sessão extraordinária, na qual o corpo dessa

médium dissolveuse

parcialmente. Comentando o fato, observa ele: “O fato

frequentemente notado, da semelhança da forma materializada com a médium, tem

aqui a sua explicação natural. Como a forma é apenas um duplo da médium, é

natural que lhe tenha todos os aspectos E, diz Aksakoff, isto deve ser natural; mas é

igualmente natural que provoque o ridículo dos cépticos. Uma experiência mais

ampla, entretanto, os convenceria de que o cientista russo está certo. O autor

assistiu a sessões de materialização onde viu os duplos do rosto da médium tão

claramente à sua frente que estava pronto para denunciar um procedimento

fraudulento; mas, com paciência e um acúmulo maior de força, viu mais tarde que

outros rostos se formavam e que nenhum esforço mental poderia identificar ao da

médium. Em alguns casos pareceulhe

que forças invisíveis, dessas que produzem os

seus efeitos sem se importarem com os equívocos daí resultantes, usaram a atual

face física da médium inconsciente e a enfeitaram com apêndices ectoplásmicos, a

fim de o transformarço.”

Noutros casos podiase

pensar que o duplo etérico da médium tivesse sido a

base para uma nova criação. Assim acontecia algumas vezes com Katie King, que

ocasionalmente se parecia com Florence Cook quanto às feições, ainda quando

diferisse profundamente na estatura e na coloração. Em outras ocasiões a figura

materializada é absolutamente diferente. O autor observou as três fases da

construção do Espírito, no caso da médium americana, Miss Ada Besinnet, cuja

figura ectoplásmica por vezes tomava a forma de um índio musculoso e bem

desenvolvido. A história de Madame d’Esperance corresponde muito exatamente a

essas variedades de poder.

Mr. William Oxley, compilador e editor de um notável trabalho em cinco

volumes, intitulado “Angelic Revelations”, descreveu vinte e sete rosas produzidas

204 – Ar thur Conan Doyle

numa sessão por Yolanda, a figura materializada, e a materialização de uma planta

rara em flor. Diz Mr. Oxley: “Eu tinha fotografado a planta — Ixora crocata — na

manhã seguinte, depois do que trouxe para casa e a coloquei na minha estufa, aos

cuidados do jardineiro. Ela viveu três meses, depois murchou. Tomei as folhas,

muitas das quais abandonei, exceto a flor e três brotos que o jardineiro cortou,

quando cuidava da planta”.

Na sessão de 28 de julho de 1890, na presença do Senhor Aksakoff e do

Professor Butlerof, de São Petersburgo, um lírio dourado, de sete pés de altura, ao

que se diz, foi materializado. Foi conservado durante uma semana, durante a qual

foram tiradas seis fotografias, depois do que dissolveuse

e desapareceu. Uma dessas

fotografias aparece em “Shadow Land”, após a página 328. Uma forma feminina,

um pouco mais alta que a médium, e conhecida pelo nome de YAyAli,

provocava

a maior admiração. Diz Mr. Oxley: “ Vi muitas formas de Espíritos materializados;

mas a perfeição de simetria no rosto e a beleza da atitude jamais igualava a deste” .

A figura lhe deu a planta que havia materializado; então jogou para trás o véu; deulhe

um beijo na mão e estendeu a sua, que ele beijou. “Como estava exposta à luz,

eu via perfeitamente a sua face e as mãos. O rosto era belo e as mãos macias,

quentes e perfeitamente naturais, e, a não ser pelo que se seguiu, eu teria pensado

estar segurando a mão de uma senhora permanentemente encarnada, perfeitamente

natural, posto que exquisitamente bela e pura.”

Prossegue descrevendo como ela se afastou dois pés da médium, na cabine

e, à vista de todos, “desmaterializouse

gradativamente, fundindose

de cima para

baixo, até que só a cabeça fosse vista no soalho; então essa diminuiu até que ficou

um ponto branco, que desapareceu depois de alguns momentos.”

Na mesma sessão materializouse

uma forma de criança e pôs três dedos de

sua mãozinha na de Mr. Oxley. Depois este a segurou e beijoua.

Foi em agosto de

1880. Mr. Oxley registra um fato muito interessante e de grande valor probante.

Quando Yolanda, a moça árabe, estava falando com uma senhora na assistência, “a

parte superior de seu vestido caiu e mostrou as suas formas. Verifiquei que as

formas eram imperfeitas, pois o busto não era desenvolvido e o peito não era

acentuado, o que constitui uma prova de que a forma não era uma figura

preparada.” Ele poderia ter acrescentado que também não era a da médium.

Escrevendo sobre “Como um médium se sente numa materialização”,

Madame d’Esperance lança alguma luz sobre a curiosa simpatia que constantemente

se nota entre o médium e a forma espiritual. Descrevendo uma sessão na qual estava

sentada fora da cabine 101 diz ela: “E agora aparece outra pequena forma delicada,

com os bracinhos estendidos. Alguém colocado do outro lado do grupo levantase,

aproximamse

e abraçamse.

Ouço sons inarticulados: ‘Anna, oh! Anna, minha

filha, querida filhinha!’ Então outra pessoa se ergue e cerca o Espírito com os

braços; nessa ocasião ouço soluços e exclamações, de mistura com bênçãos. Sinto

meu corpo moverse

de um para outro lado; tudo se torna escuro aos meus olhos.

Sinto o braço de alguém em torno aos meus ombros; o coração de alguém bate

contra o meu peito. Parece que algo acontece. Ninguém está junto a mim; ninguém

me presta a menor atenção. Todos os olhares estão lixados naquela figurinha

101 Médium and Daybr eak, 1893, página 46.

205 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

branca e esguia, nos braços das duas mulheres em pranto. Deve ser o meu coração

que ouço batendo tão distintamente e, certamente, o braço de alguém ainda em meu

redor. Jamais senti mais completamente um abraço. Começo a pensar. Quem sou

eu? Sou aquela branca aparição, ou sou eu quem permanece sentada na poltrona?

Aqueles são os meus braços em torno do pescoço da senhora mais idosa? Ou os

meus são os que estão em minha frente, em meu vestido? Sou eu o fantasma? Se sou,

como chamarei o ser que jaz na poltrona?

“Certo é que meus lábios são beijados; minhas faces estão orvalhadas de

pranto, derramado abundantemente pelas duas senhoras. Mas como pode ser isto?

Essa sensação de dúvida relativamente à nossa própria identidade é horrível.

Desejo estender uma das mãos que se acham no vestido, mas não posso. Desejo

tocar alguém para ter absoluta certeza de que eu sou a mesma ou se isto é apenas

um sonho; se Anna sou eu ou se eu estou, de certo modo, nela dissolvida”.

Enquanto a médium se acha nesse estado de dúvida, outro pequenino

Espírito de criança, que se havia materializado, vem e põe as mãozinhas nas de

Madame d’Esperance. “Como me sinto feliz ao sentir esse toque, ainda que de uma

criancinha! Minhas dúvidas a respeito de quem sou eu e onde me acho se vão. E

enquanto experimento tudo isto, a branca forma de Anna desaparece na cabine e as

duas senhoras voltam aos seus lugares, chorosas, sacudidas de emoção, mas

intensamente felizes.”

Não é para admirar que um assistente das sessões de Madame d’Esperance,

segurando a figura materializada, houvesse declarado que era a própria médium. A

propósito, o ponto de vista de Aksakoff de um modo geral 102 , é o seguinte:

“Alguém pode agarrar a forma materializada, segurála

e ter a certeza de

que não segura senão o médium, em carne e osso. E isto ainda não é uma prova de

fraude da parte do médium. De fato, de acordo com a nossa hipótese, que é o que

poderia acontecer se segurássemos o duplo da médium, quando se achasse de tal

modo materializado, que não restasse senão o seu simulacro invisível, sentado por

detrás da cortina? É óbvio que o simulacro — aquela pequena porção fluida e

etérea — seria imediatamente absorvida na forma já completamente materializada,

à qual, para ser a médium apenas faltaria aquele resto invisível.”

Na introdução escrita para o livro “Shadow Land, de Madame d’Esperance,

Aksakof rende um alto tributo a ela como mulher e como médium. Diz que tanto

quanto ele, ela se achava interessada em achar a verdade. Submetiase

de boa

vontade a todos os testes que lhe impusesse.

Um interessante incidente na carreira de Madame d’Esperance foi o seu

êxito em reconciliar o Professor Friese, de Breslau, com o Professor Zõllner, de

Leipzig. O rompimento desses dois amigos ocorrera por força da profissão de fé

espírita de Zõllner. Mas o médium inglês foi capaz de dar tais provas a Friese que

ele não mais contestou as conclusões de seu amigo.

Devemos salientar que, no curso das experiências de M. Oxley com

Madame d’Esperance, foram feitos moldes de mãos e de pés de figuras

materializadas, com punhos e tornozelos, cujas aberturas eram demasiado estreitas

para permitir a saída dos membros, salvo por desmaterialização. Em vista do grande

102 “A Case of Par tial Demater ialization”, página 181.

206 – Ar thur Conan Doyle

interesse tomado pelas moldagens em parafina, feitas em Paris, em 1922, através do

médium Kluski, é curioso observar que a mesma experiência tinha sido feita com

sucesso, e apenas noticiada pela imprensa psíquica, por esse estudante de

Manchester já em 1876.

A última parte da vida de Madame d’Esperance, passada principalmente na

Escandinávia, foi amargurada pela doença adquirida no choque que sofreu no

chamado “desmascaramento”, quando Yolanda foi agarrada por um pesquisador

desavisado de Helsingfors, em 1893. Ninguém mais do que ela demonstrou mais

claramente quanto os sensitivos sofrem a ignorância do mundo que os rodeia. No

último capítulo de seu notável livro o assunto é abordado. Conclui ela:

“Os que vierem depois de mim talvez venham a sofrer quanto eu tenho

sofrido pela ignorância das leis de Deus. Quando o mundo for mais sábio do que no

passado, é possível que os que tomarem as tarefas na nova geração não tenham que

lutar, como lutei, contra o fanatismo estreito e os julgamentos duros dos

adversários.”

Cada um dos médiuns focalizados neste capítulo teve um ou mais livros

dedicados à sua carreira. No caso de William Eglinton há um notável volume —

Twist Two Worlds por J. E. Farmer 103 , que encerra quase toda a sua atividade.

Quando rapazinho, era muito imaginoso, sonhador e sensitivo mas, como tantos

outros grandes médiuns na adolescência, não deu sinais de possuir qualquer dom

psíquico. Em 1874, portanto aos dezessete anos de idade, Eglinton entrou no grupo

da família em cujo meio seu pai investigava os supostos fenômenos espíritas. Até

então o grupo não havia obtido resultados; quando, porém, o rapaz a ele se ligou, a

mesa ergueuse

ràpidamente do chão a ponto dos assistentes terem que se pôr de pé

a fim de manter as mãos sobre ela. Para satisfação dos presentes as perguntas eram

respondidas. Na sessão seguinte, logo na noite imediata, o rapaz caiu em transe e

foram recebidas comunicações evidentes de sua falecida mãe. Em poucos meses sua

mediunidade se havia desenvolvido, e ocorriam manifestações mais fortes. Sua fama

de médium espalhouse

e ele recebeu numerosos convites para sessões, mas resistiu

a todos os esforços para o transformar em médium profissional. Finalmente cedeu

em 1875.

Assim descreve Eglinton as suas sensações antes de entrar pela primeira

vez na sala das sessões e a mudança que nele se operou: “Minhas maneiras, antes de

entrar nisto, eram as de um rapaz alegre; mas assim que me vi em presença dos

investigadores, uma sensação estranha e misteriosa se apoderou de mim e eu não a

podia superar. Senteime

à mesa, resolvido a impedir qualquer manifestação, caso

algo acontecesse. Esse algo aconteceu mas eu não tinha forças para o evitar. A

mesa começou a dar sinais de vida e de vigor; subitamente ergueuse

do solo e

pairou no ar, tanto que tínhamos de ficar de pé para ter as mãos sobre ela. Isto se

deu em plena luz do gás”. Depois respondeu inteligentemente às perguntas que lhe

eram feitas e deu várias provas às pessoas presentes. A noite seguinte nos encontrou

ansiosos por novas manifestações e com um grupo maior, pois a notícia se havia

espalhado de que ‘tínhamos visto fantasmas e falado com eles’, e outras coisas

parecidas. Depois de havermos lido a prece costumeira, em breve me pareceu que

103 “Entre dois Mundos” — N. do T.

207 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

não era deste mundo. Veiome

uma sensação de êxtase e logo passei ao transe.

Todos os meus amigos eram novatos no assunto e procuraram vários meios de me

despertar, mas sem resultado. No fim de meia hora voltei ao estado consciente,

sentindo um forte desejo de voltar àquele estado. Tivemos comunicações que, em

minha opinião, provaram conclusivamente que o Espírito de minha mãe realmente

tinha voltado ao nosso meio... Então comecei a verificar quanto estivera enganado

— quão terrivelmente vazia e material tinha sido a minha vida até então e senti um

prazer inacreditável em saber, sem sombra de dúvida, que aqueles que deixaram a

Terra poderiam voltar novamente e provar a imortalidade da alma. Na quietude de

nosso grupo familiar... gozamos ao máximo a nossa comunicação com os

trespassados e muitas foram as horas felizes que assim passei.”

Sob dois aspectos, os seus trabalhos se assemelham aos de D. D. Home.

Suas sessões geralmente eram feitas em plena luz e ele sempre se submetia de boa

mente aos testes propostos. Posteriormente, um forte ponto de semelhança se

estabeleceu: é que os fenômenos eram observados e registrados por muitos homens

eminentes e por boas testemunhas críticas.

Como Home, Eglinton viajou muito e sua mediunidade foi observada em

muitos lugares.

Em 1878 viajou para a África do Sul. No ano seguinte visitou a Suécia, a

Dinamarca e a Alemanha. Em fevereiro de 1880 foi à Universidade de Cambridge e

realizou sessões sob os auspícios da Sociedade de Psicologia. Em março viajou para

a Holanda, de onde seguiu para Leipzig, onde realizou sessões com o Professor

Zõllner e outros ligados à Universidade. Seguiramse

Dresden e Praga, e em Viena,

em abril, foram realizadas mais de trinta sessões, assistidas por muitos membros da

aristocracia. Em Viena foi hóspede do Barão de Hellenbach, conhecido escritor, que,

em sua obra “Preconceitos da Humanidade” descreveu os fenômenos então

verificados. Voltando à Inglaterra viajou para os Estados Unidos a 12 de fevereiro

de 1881, demorandose

então três meses. Em novembro do mesmo ano foi à Índia e,

depois de realizar numerosas sessões em Calcutá, regressou em abril de 1882. Em

1883 visitou novamente Paris, e em 1885 esteve ainda em Viena e em Paris. A

seguir foi a Veneza, que descreve como um “verdadeiro viveiro do Espiritismo.”

Em 1885 Eglinton encontrou em Paris M. Tissot o famoso artista que

assistiu às suas sessões e a seguir o visitou na Inglaterra. Uma notável sessão de

materialização, em que duas figuras foram vistas completamente, uma das quais,

uma senhora, reconhecida como uma parenta, foi imortalizada por Tissot numa tela

intitulada “Aparição Medianímica”. Esse belo e artístico trabalho de que há uma

cópia na Aliança Espírita de Londres, mostra as duas figuras iluminadas por luzes

espirituais, que carregam nas mãos. Tissot também fez uma águaforte

do médium,

que é reproduzida no frontispício de livro de Farmer, “Entre Dois Mundos”.

Um exemplo típico de sua iniciação mediúnica é dado por Miss Kingsbury

e pelo Doutor Carter Blake, Docente de Anatomia no Westminster Hospital, nestes

termos 104 : “As mangas do casaco de Mr. Eglinton tinham sido costuradas às suas

costas, perto dos punhos, com um cordão branco de algodão; os encarregados

desse trabalho o amarraram depois à cadeira, passando a fita perto do pescoço e o

104 The Spir itualist, 12 de maio de 1876, página 221.

208 – Ar thur Conan Doyle

colocaram junto a cortina da cabine e por detrás desta, defrontando a assistência,

tendo os joelhos e os pés à vista. Uma mesinha redonda com vários objetos foi posta

em frente ao médium, fora da cabine e à vista dos assistentes; um pequeno

instrumento de cordas, conhecido como Oxford Chimes 105, foi posto emborcado

sobre as suas pernas, sobre ele um livro e sobre este uma campainha. Em poucos

momentos as cordas foram tocadas, sem que mão alguma visível as tocasse; o livro,

cuja lombada se voltava para os assistentes foi invertido, aberto e fechado repetidas

vezes, de modo que os presentes viram a experiência com toda segurança; e a

campainha foi tocada de dentro, isto é, sem serem levantadas as suas bordas. A

caixa de música colocada perto da cortina, mas inteiramente à vista, foi parada e

depois dada a marcha, enquanto a tampa continuava fechada; de vez em quando

dedos e, algumas vezes mãos se introduziam pelas cortinas. Depois que uma destas

apareceu, pediram ao Capitão Rolleston que passasse o braço pela cortina e

verificasse se a amarração e a costura estavam como de início. Ele verificou que

estavam e o mesmo testemunho foi dado por outro cavalheiro, pouco depois.”

Esta foi uma, de uma série de sessões excepcionais, realizadas sob os

auspícios da British National Association of Spiritualists, em sua sede em Londres,

38 Great Russel Street. Referindose

a elas diz The Spiritualist 106 :

“O ensaio de manifestações por Mr. Eglinton tem grande valor, não

porque outros médiuns não possam, igualmente, obter resultados conclusivos, mas

porque em seu caso tinham sido observadas e controladas por um bom número de

testemunhas críticas, cujo depoimento pesará diante do público”.

A princípio as materializações de Eglinton eram obtidas à luz da Lua,

enquanto os presentes se sentavam a uma mesa e não havia cabine. Também o

médium ficava, em geral, consciente. Foi induzido a fazer sessões no escuro, a fim

de obter manifestações, por um amigo que havia assistido a sessões de um médium

profissional. Tendo começado assim, sentiase

obrigado a continuar, mas verificou

que os resultados alcançados eram menos espirituais. Uma característica dessas

sessões de materialização era o fato de sentarse

entre os presentes e de serem as

suas mãos seguradas. Nessas condições, materializações completas foram vistas à

luz apenas suficiente para o reconhecimento das aparições.

Em janeiro de 1877 Eglinton fez uma série de sessões não profissionais, em

casa de Mrs. Macdougall Gregory, viúva do Professor Gregory, de Edimburgo, perto

do Park Lane. Foram assistidas por Sir Patrick e Lady Colquhoun, Lord Borthwick,

Lady Jenkinson, Reverendo Maurice Davies, D.D., Lady Archibald Camphell, Sir

William Fairfax, Lord e Lady MountTemple,

General Brewster, Sir Garnet e lady

Wolseley, Lord e Lady Avonmore, Professor Blackie e muitos outros. Mr. W.

Harrison, redator de The Spiritualist 107 assim descreve uma dessas sessões:

“Na noite de segundafeira

última dez ou doze amigos se reuniram em

volta de uma grande mesa circular, com as mãos juntas, em cujas condições o

médium Mr. W. Eglinton ficava seguro pelos dois lados. Não havia outras pessoas

na sala além das que estavam sentadas à mesa. Um fogo que se apagava dava uma

105 Espécie de bandolim. — N. do T.

106 12 de maio de 1876.

107 “The Spir itualist”, 23 de fevereiro de 1877, página 96.

209 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

luz fraca, que apenas permitia que se vissem as silhuetas dos objetos. O médium

estava na parte da mesa mais próxima do fogo, de modo que suas costas ficavam

para a luz. Uma forma, na inteira proporção de um homem, ergueuse

lentamente do

chão até ao nível da borda da mesa; estava a cerca de trinta centímetros atrás do

cotovêlo direito do médium. O assistente mais próximo era Mr. Wiseman, de Orme

Square, Bayswater. A forma estava coberta com um pano branco, e as feições não

eram visíveis. Como se achava próximo ao jogo, podia ser vista distintamente pelos

que se achavam mais próximos. Foi observado por todos que assim estavam que o

canto da mesa ou os assistentes não tapavam a vista da forma; assim, foi observada

por quatro ou cinco pessoas e isto não foi resultado de impressões subjetivas.

Depois de erguerse

até o nível da mesa, mergulhou e não mais foi vista, ao que

parece tendo esgotado as forças. Mr. Eglinton estava numa casa estranha e vestido a

rigor. De um modo geral foi um teste de manifestação que não podia ser produzido

por meios artificiais”.

Uma sessão descrita por Mr. Dawson Rogers apresentou características

notáveis. Foi a 17 de fevereiro de 1885, em presença de catorze pessoas, em

condições de prova. Conquanto um quarto interno tivesse sido usado como cabine,

Mr. Eglinton ai não ficou — mas entre os assistentes, cujos assentos tinham sido

dispostos em forma de ferradura. Uma forma se materializou e passeou pela sala,

dando a mão a cada um dos presentes. Depois aproximouse

de Mr. Eglinton, que

em parte estava sendo sustentado por Mr. Rogers, para que não caísse e, tomando o

médium pelos ombros, levouo

para a cabine. Diz Mr. Rogers: “A forma era de um

homem algumas polegadas mais alto, e mais velho que o médium. Vestia uma túnica

flutuante, era cheio de vida e de animação e uma vez ficou a três metros do

médium”.

Há um particular interesse ligado a essa fase de sua vida no aspecto de

mediunidade psicográfica, ou de escrita em lousas. A esse respeito existe uma

esmagadora massa de testemunhas. À vista dos maravilhosos resultados que obtinha,

é digno de nota que fez sessões por mais de três anos sem obter a escrita de uma

única letra. Foi a partir de 1884 que ele concentrou sua força nessa forma de

manifestação, que era considerada a mais adequada aos principiantes, especialmente

porque todas as sessões se realizavam às claras. Recusandose

a fazer sessões de

materialização para um grupo de investigadores que não tinham, então, qualquer

experiência, Eglinton assim justificou a sua atitude: “Sustento que um médium é

colocado numa posição de muita responsabilidade, e que tem o dever de satisfazer,

tanto quanto lhe seja possível, aqueles que o procuram. Agora, a minha experiência,

um tanto variada, levame

à conclusão de que nenhum céptico, por melhor

intencionado e honesto que seja, pode ficar convencido nas condições prevalecentes

nas sessões de materialização, e o resultado é um maior cepticismo de sua parte e a

condenação do médium. As coisas são diferentes quando há um grupo para

testemunhar tais fenômenos, e com os quais sempre terei prazer em fazer sessões.

Mas um neófito deve ser preparado por outros métodos. Se o seu amigo se interessa

em comparecer a uma sessão de escrita na ardósia eu terei o prazer de arranjar

uma hora; do contrário deverei declinar da sessão, pelas razões acima, e que se

recomendam por si mesmas a você e a todos os pensadores espíritas”.

No caso de Eglinton, é preciso dizer que eram usadas lousas comuns de

escola e que os assistentes tinham a liberdade de trazer as suas próprias lousas e que,

210 – Ar thur Conan Doyle

depois de lavadas, um fragmento de lápis para ardósia era colocado em cima desta e

que esta era colocada debaixo do tampo da mesa, fazendose

pressão contra o

mesmo; que a ardósia era segurada pelo médium, mas de modo que o seu polegar

fosse visível na parte superior do tampo. Então o som da escrita era ouvido e, a um

sinal consistente de três batidas, a lousa era examinada, verificandose

que continha

uma mensagem. Do mesmo modo duas lousas do mesmo tamanho eram usadas,

superpostas e amarradas, como também se usavam as lousascaixas,

às quais se

ligavam cadeados com chave. Em muitas ocasiões foram obtidas escritas numa

única lousa posta em cima da mesa, com um lápis em cima da mesa, mas debaixo da

ardósia.

Mr. Gladstone fez uma sessão com Eglinton a 29 de outubro de 1884, e

mostrouse

muito interessado pelo que aconteceu. Quando Light publicou um relato

dessa sessão, foi transcrito na maioria dos jornais de importância no país e o

movimento ganhou consideràvelmente com essa publicidade. Consta que ao

terminar a sessão Mr. Gladstone teria dito: “Sempre pensei que os homens de

ciência correm muito por uma trilha. Fazem um trabalho nobilitante na sua própria

linha especial de pesquisa, mas, muito frequentemente se sentem sem disposição

para um pouco de atenção a assuntos que aparentemente estão em conflito com a

sua maneira de pensar. Na verdade não é raro que tentem negar coisas que jamais

investigaram, pois não meditam bastante que possa haver forças de cuja natureza

eles nada sabem” . Pouco depois, Mr. Gladstone, posto que jamais se tivesse

confessado espírita, mostrou um firme interesse no assunto, ao se associar à Society

for Psychical Research.

Eglinton não se subtraiu aos ataques costumeiros. Em junho de 1886 Mrs.

Sidgwick, esposa do Professor Sidgwick, de Cambridge, sócia fundadora da Society

for Psychical Research (SOCIETY FOR PSYCHICAL RESEARCH), publicou um

artigo no Jornal dessa sociedade, sob o título de “Mr. Eglinton” 108 , no qual, depois

de transcrever descrições feitas por outros, relativas a mais de quarenta sessões para

escrita na ardósia com esse médium, diz: “Para mim, agora não hesito em atribuir

tais realizações a truques hóbeis” . Ela não tinha qualquer experiência pessoal com

Eglinton, mas baseou a sua opinião na impossibilidade de manter uma observação

contínua durante as manifestações. Pelas colunas de Light 109 Eglinton convidou

testemunhas que estavam convictas da legitimidade de sua mediunidade e,

posteriormente, num suplemento especial, o mesmo jornal deu a resposta de muitos,

dos quais um bom número, composto de membros ou sócios da SOCIETY FOR

PSYCHICAL RESEARCH O Doutor George Herschell, provecto mago amador,

com uma experiência de catorze anos, deu uma das mais convincentes respostas a

Mrs. Sidgwick.

Também a Society for Psychical Research publicou relatos minuciosos dos

resultados obtidos por Mr. J. S. Davey, que declarava conseguir tais resultados pela

fraude e resultados ainda mais maravilhosos do que os de Eglinton quanto à escrita

na ardósia 110 .

108 Junho de 1886, páginas 282324.

109 1886, página 309.

110 SOCIETY FOR PSYCHICAL RESEARCH Proceedings, Volume 4º, páginas 416 e 487.

211 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

Mr. C. C. Massey, advogado, observador muito competente e

experimentado, sócio da SOCIETY FOR PSYCHICAL RESEARCH, subscreveu o

ponto de vista de muita gente, quando escreveu a Eglinton, com referência ao artigo

de Mrs. Sidgwick: “Estou de acordo com você, quando diz que ela ‘não aduz a

menor prova’ em apoio a esse injurioso julgamento que opõe a um grande número

de excelentes testemunhos. A estes só se opõem presunções que, segundo me parece,

são contrárias ao bom senso e a toda experiência.”

De um modo geral, o rude ataque de Mrs. Sidgwick contra aquele médium

teve um bom resultado, porque determinou o aparecimento de um volume de

testemunhos mais ou menos valiosos em favor da autenticidade das manifestações

que com ele ocorriam.

Como muitos outros médiuns de manifestações físicas, Eglinton teve os

seus “desmascaramentos”. Um destes foi em Munique, onde tinha sido convidado a

fazer uma série de doze sessões. Dez delas tinham tido um grande sucesso, mas na

décima primeira foi descoberto um sapo mecânico na sala e, conquanto as mãos do

médium estivessem presas, foi acusado de fraude porque o instrumento de música

tinha sido escurecido secretamente e pó preto foi encontrado nele. Três meses depois

um assistente confessou que tinha trazido o brinquedo mecânico para a sala.

Nenhuma explicação para o pó preto foi dada, mas o fato de estarem seguras as

mãos do médium constituíram refutação suficiente.

Um conhecimento mais completo desde então tem mostrado que os

fenômenos físicos dependem do ectoplasma e que esse ectoplasma é absorvido no

corpo do médium, lavando e colorindo a matéria. Assim, no caso de Miss Goligher,

depois de uma experiência com carmin, o Doutor Crawford encontrou manchas de

carmim em várias partes de sua pele. Assim, tanto no caso do sapo mecânico, quanto

no do pó preto, como tantas vezes acontece, os desmascaradores é que estavam

errados, e não o infeliz médium.

Uma acusação mais séria contra ele foi feita pelo Arquidiácono Colley, que

declarou 111 que em casa de Mr. Owen Harries, onde Eglinton fazia uma sessão,

havia descoberto no sobretudo do médium pedaços de musselina e uma barba, que

correspondiam a pedaços e cabelos cortados de supostas formas materializadas. Mrs.

Sidgwick em seu artigo no SOCIETY FOR PSYCHICAL RESEARCH Journal,

reproduziu as acusações do Arquidiácono Colley, e Eglinton, em sua resposta geral a

ela, se limita a uma negação simples, fazendo notar que ela se achava ausente na

África do Sul, quando as acusações foram publicadas e que não as viu senão anos

depois.

Discutindo o incidente, diz Light num artigo de fundo, que as acusações em

questão foram minuciosamente investigadas pelo Conselho da British National

Association of Spiritualists e abandonadas, sob o fundamento de que o Conselho não

podia de modo algum obter provas diretas dos acusadores. E assim continua 112 :

“Mrs. Sidgwick suprimiu, muitos fatos em sua citação publicada no Jornal. Em

primeiro lugar as alegadas circunstâncias ocorreram dois anos antes da carta em

que fez a acusação; durante esse tempo ele não fez nenhum movimento público na

111 “Médium and Daybr eak”, 1878, pag. 698730.

The Spir itualist. 1879, Volume 14º, pag 83, 135.

112 1886, página 324.

212 – Ar thur Conan Doyle

matéria e só o fez em consequência da atitude pessoal contra o Conselho da BNAS.

Em segundo lugar as partes da carta suprimida por Mrs. Sidgwick lançamlhe

em

rosto a marca de desvalia. Afirmamos que ninguém acostumado a examinar e

avaliar as provas de maneira científica teria concedido à correspondência a mais

ligeira atenção sem o mais claro testemunho corroborante.

Não obstante admitirse

que um espírita de coração como o arquidiácono

Colley fizesse uma acusação tão concreta, temos uma questão muito grave que não

pode ser levianamente posta de lado. Há sempre a possibilidade de um grande

médium, ao verificar que perde os seus dons — como por vezes acontece — recorrer

à fraude para dissimular a deficiência, até que os dons retornem. Home descreveu

como de súbito perdia as forças durante um ano, para depois voltarem em toda a

plenitude. Se um médium viver da sua mediunidade, tal hiato pode ser uma coisa

séria e uma tentação à fraude. Como quer que tenha sido nesse caso especial, o que é

certo é que, como foi mostrado nestas páginas, há uma massa de provas em favor da

realidade dos dons de Eglinton, que não podem ser abaladas. Entre outras

testemunhas de sua força está Kellar, o famoso ilusionista, que admitia, bem como

muitos outros ilusionistas, que os fenômenos físicos ultrapassam as possibilidades

dos prestidigitadores.

Não há escritor que tivesse deixado tão fortemente a sua marca sobre o lado

religioso do Espiritismo quanto o Reverendo W. Stainton Moses. Seus escritos

confirmam o que já era aceito e definem muito do que era nebuloso. Ele é

geralmente considerado pelos Espíritas como o mais alto expoente de seus pontos de

vista. Entretanto não o julgam o último e infalível; em comunicações póstumas, que

têm forte indício de autenticidade, ele declarou que sua experiência se ampliara,

modificando o seu ponto de vista sobre certos assuntos.

Isto é o inevitável resultado da nova vida para cada um de nós. Esses pontos

de vista religiosos serão abordados em capítulo à parte, que trata da religião dos

Espíritas.

Além de ser um inspirado pregador religioso, Stainton Moses era um

poderoso médium, de modo que foi um dos poucos homens que puderam seguir o

preceito apostólico e o demonstrar por palavras e, também, pelo poder. Neste ligeiro

relato é o aspecto físico que deve ser destacado.

Stainton Moses nasceu em Lincolnshire, a 5 de novembro de 1839, e foi

educado em Bedford Grammar School e no Exeter College de Oxford. Voltouse

para o ministério religioso e, depois de alguns anos de trabalho como cura na Ilha de

Mau e alhures, tornouse

professor na University College School. É notável o fato

que, durante o seu ano de viagem, tenha visitado o mosteiro do Monte Athos, e aí

tenha passado seis meses — rara experiência para um protestante inglês. Mais tarde

teve a certeza de que isso fora o início de sua carreira psíquica.

Enquanto cura, teve oportunidade de mostrar a sua coragem e o senso de

dever. Uma grande epidemia de varíola espalhouse

na sua paróquia, que não

dispunha de médico. Diz o seu biógrafo: “Dia e noite estava ele à cabeceira de

doentes pobres; por vezes, depois de haver assistido a um moribundo, se via

obrigado a unir as tarefas de sacerdote às de coveiro, e ele próprio transportar os

cadáveres” . Não é de admirar que ao se retirar tenha recebido uma grande

manifestação de reconhecimento dos habitantes, que pode ser resumida nestas

213 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

palavras: “Quanto mais o conhecemos e quanto mais vimos o seu trabalho, tanto

maior é a nossa saudade do senhor” .

Em 1872 é que sua atenção se voltou para o Espiritismo, por meio de

sessões com Williams e Miss Lottie Fowler. Muito antes havia ele verificado que

possuía o dom da mediunidade de maneira invulgar. Ao mesmo tempo se havia

prontificado a fazer um estudo completo do assunto, pondo sua poderosa

inteligência a esse serviço. Seus escritos, com o pseudônimo de M. A. Oxon, são

clássicos no Espiritismo. Incluem os “Ensinos Espiritualistas”, elevados aspectos do

Espiritismo, e outros trabalhos. Finalmente tornouse

redator de Light e durante

muitos anos sustentou as suas altas tradições. Sua mediunidade progrediu

ràpidamente até que abarcou quase todos os fenômenos físicos conhecidos.

Esses resultados não foram conseguidos antes que ele passasse por um

período de preparação. Diz ele: “Durante muito tempo falhoume

a prova desejada.

E, se tivesse feito como a maioria dos investigadores, teria desesperado e

abandonado a investigação. Meu estado mental era muito positivo e eu era

obrigado a algum sofrimento pessoal antes de conseguir o que desejava. Pouco a

pouco, um pedacinho aqui, outro ali, veio a prova, quando minha mente se abriu

para a receber. Cerca de seis meses haviam sido aplicados em persistentes esforços

para que me fosse dada a prova da eterna existência de Espíritos humanos e de seu

poder de comunicação.”

Em presença de Stainton Moses erguiamse

no ar mesas pesadas, livros e

cartas eram trazidos de uma sala para outra em plena luz. Há testemunhos

independentes dessas manifestações, por pessoas fidedignas. Em seu lIvro “What am

1?” 113 , o finado Serjeant Cox registra o seguinte incidente, ocorrido com Stainton

Moses:

“Terçafeira,

2 de junho de 1873, um amigo pessoal, cavalheiro de alta

posição social, formado em Oxford, veio à minha residência em Russel Square,

vestirse

para um jantar a que tínhamos sido convidados. Ele havia demonstrado

antes notável força psíquica. Como tínhamos meia hora de espera, fomos à sala de

jantar. Eram exatamente seis horas e, aliás, estava claro. Eu abria cartas e ele lia

The Times. Minha mesa de jantar é de mogno, muito pesada, antiga, e tem um

metro e oitenta por dois e setenta. Está sobre um tapête turco, o que aumenta a

dificuldade de a mover. Uma tentativa mais tarde mostrou que os esforços

combinados de dois homens fortes apenas a moviam uma polegada. Estava sem

toalha e a luz caía em cheio sobre ela. Ninguém se achava na sala, exceto eu e meu

amigo. Subitamente, enquanto estávamos sentados, ocorreram batidas altas e

frequentes sobre a mesa. Meu amigo estava sentado e segurava o jornal com ambas

as mãos, tendo um braço apoiado na mesa e o outro no espaldar da cadeira;

sentavase

de lado, de modo que as pernas e os pés não se achavam debaixo da

mesa, mas de lado. Então a mesa estremeceu, como se estivesse com sezões; depois

oscilou para um lado e para o outro tão violentamente, quase deslocando as

pesadas colunas, em número de oito, que lhe serviam de pernas. Em seguida,

moveuse

para a frente cerca de três polegadas. Olhei para baixo dela, para me

assegurar de que não era tocada; mas ainda se moveu e continuaram as batidas no

seu tampo. Esse súbito acesso de tal força, àquela hora e naquele lugar, sem

ninguém mais, além de mim e de meu amigo, e sem qualquer ideia de a invocar,

113 "Que Sou Eu?". N.

do T.

214 – Ar thur Conan Doyle

causounos

a maior admiração. Meu amigo disse que jamais lhe acontecera algo no

gênero. Então sugeri que talvez fosse uma rara oportunidade, com tamanha força

em ação, para fazer uma tentativa de movimento sem contacto, quando a presença

de apenas duas pessoas, a luz do dia, o lugar, o tamanho e o peso da mesa

tornavam a experiência de suma importância. Em consequência ficamos de pé, ele

de um lado da mesa, eu, do outro. Estávamos afastados dela cerca de sessenta

centímetros e mantínhamos as mãos cerca de vinte centímetros acima dela. Em um

minuto ela se abalou violentamente; depois moveuse

sobre o tapête a uma

distância de uns dezoito centímetros. Depois levantouse

cerca de sete centímetros,

do lado em que se achava o meu amigo; a seguir ergueuse

igualmente do meu

lado. Finalmente, meu amigo baixou a mão até dez centímetros acima da ponta da

mesa, e pediu que ela se erguesse e tocasse em sua mão. Assim se fez. E então,

conforme o pedido, ela se ergueu até a minha mão, que do outro lado se achava à

mesma altura e da mesma maneira.”

Em Douglas, na Ilha de Man, num domingo de agosto de 1872, foi feita

notável exibição de força de um Espírito. Os fatos descritos por Stainton Moses são

confirmados pelo Doutor Speer e sua senhora, em cuja residência ocorreram os

fenômenos, que duraram desde o almoço até às dez da noite. Batidas acompanhavam

o médium para onde quer que ele fosse, até mesmo na igreja e o Doutor Speer e a

senhora as ouviam quando sentados em seus lugares. Ao regressar da igreja,

Stainton Moses verificou em seu quarto que os objetos tinham sido tirados da

penteadeira para a cama, onde tinham sido dispostos em forma de cruz. Foi avisar o

Doutor Speer, para que testemunhasse o que tinha acontecido e ao voltar ao quarto

verificou que o seu cabeção, que tinha tirado poucos instantes antes, havia sido

colocado, na sua ausência, em redor do topo da cruz. Ele e o Doutor Speer trancaram

a porta do quarto e desceram para o lanche, mas durante a refeição batidas fortes se

produziram e a pesada mesa de jantar foi movida três ou quatro vezes. Num exame

posterior no quarto acharam que dois outros objetos tirados das gavetas tinham sido

adicionados à cruz, O quarto foi trancado novamente e em três visitas subsequentes

novos objetos tinham ampliado a cruz. Disseramnos

que, na primeira ocasião, em

casa não estava ninguém que fosse capaz de fazer tais brincadeiras e que depois

precauções adequadas haviam sido tomadas para evitar essas coisas.

Assim Mrs. Speer descreveu a série de acontecimentos: “Enquanto

estávamos na igreja foram ouvidas pancadas por todos os membros do grupo, em

diversas partes do banco onde estávamos sentados, De volta Mr. S. M. encontrou

em sua cama três coisas tiradas de sua penteadeira e colocadas sobre a sua cama

em forma de cruz. Chamou o Doutor S. ao seu quarto, para que visse o que havia

acontecido em sua ausencia. O Doutor S. ouviu batidas fortes no pé da cama. Então

trancou a porta, meteu a chave no bolso e deixou o quarto vazio por algum tempo.

Fomos jantar e, durante a refeição, a grande mesa de jantar, cheia de cristais,

porcelanas, etc., moveuse

várias vezes, trepidou e deu batidas. Parecia cheia de

vida e movimento. Batidas acompanharam o hino que nossa filhinha estava

cantando, e batidas inteligentes acompanhavam a nossa conversa. Várias visitas

foram feitas ao quarto fechado e de cada vez verificávamos que algo tinha sido

adicionado à cruz. O Doutor S. tomou a chave, abriu a porta e saiu por último.

Finalmente tudo cessou. A cruz foi colocada abaixo do centro da cama; todos os

objetos de uso tinham sido tirados da valise do nosso amigo. Cada vez que iam os

215 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

ao quarto ouviamse

as batidas. Em nossa última visita foi lembrado deixar uma

folha de papel e um lápis na cama e, quando voltamos novamente, encontramos as

iniciais de três amigos de Mr. S. M., todos mortos, e desconhecidos de quem quer

que fosse na casa, exceto ele próprio. A cruz era perfeitamente simétrica e tinha

sido feita num quarto fechado, onde ninguém poderia ter entrado e era, realmente,

uma notável manifestação da força do Espírito”.

Um desenho mostrando os vários objetos de toucador e sua disposição é

dado à página 72 do livro de Arthur Lillie “Modern Mystics and Modern Magic” 114 .

Outros exemplos são citados no apêndice.

Em suas sessões com o Doutor Speer e senhora, muitas comunicações

foram recebidas, dando provas de identidade de Espíritos, sob a forma de nomes,

datas e lugares, desconhecidos dos presentes e verificados posteriormente. Dizse

que um grupo de Espíritos estava ligado à sua mediunidade. Por seu intermédio um

corpo de doutrina foi comunicado por meio da escrita automática, começando a 30

de março de 1873 e continuando até o ano de 1880. Uma seleção destes escritos

constitui os “Ensinos Espiritistas”. Na sua Introdução diz Stainton Moses: “O tema

central foi sempre de caráter puro e elevado, em grande parte de aplicação pessoal,

visando minha própria direção e orientação. Posso dizer que através de todas essas

comunicações escritas, que vão, ininterruptamente até 1880, não há leviandades,

nem brincadeiras, não há vulgaridades nem incongruências, não há falsidades nem

enganos, tanto quanto eu saiba ou tenha podido descobrir. Nada incompatível com

o objetivo visado, sempre e sempre repetido, de instrução, de esclarecimento e de

orientação por Espíritos escolhidos para essa tarefa. Julgados como eu mesmo

desejo ser julgado, eles foram o que desejavam ser. Suas palavras eram de

sinceridade e de objetivos sóbrios e sérios".

Um relato minucioso das pessoas que se comunicaram, muitas das quais

tinham nomes importantes, se acha no livro de Mr. A. W. Trethewy “The Controls

of Stainton Moses” (1923) 115 .

Stainton Moses contribuiu para a formação da Society for Psychical

Research em 1882, mas se demitiu em 1886, desgostoso com a maneira por que foi

tratado o médium William Eglinton. Foi o primeiro presidente da London

Spiritualist Alliance, formada em 1884, posição que ocupou até à morte. Além das

obras “Spirit Identity” (1879); “Higer Aspects of Spiritualism” (1880);

“Psycography” 2ª ed. (1882) ; e “Spirit Teachings” (1883) 116 , contribuiu

frequentemente para a imprensa espírita, bem como para o Saturday Review, para o

Punch e vários outros jornais de valor.

Um magistral resumo de sua mediunidade foi escrito por Mr. F. W. H.

Myers 117 e publicado pela Society for Psychical Research. Na notícia de sua morte

disse Mr. Myers: “Eu pessoalmente considero a sua vida como uma das mais

notáveis de nossa geração e de poucos homens ouvi, em primeira mão, fatos mais

notáveis do que os que dele ouvi.”

114 "Mística moderna e Magia moderna". N.

do T.

115 "Os Guias de Stainton Moses" N.

do T.

116 “identidade dos Espíritos” (1879); “Aspectos mais elevados do Espiritismo” (1880); “Psicografia” (2ª

ed. 1882); e “Ensinos Espiritistas” 1883. — N. do T.

117 Volume 9º, páginas 245 e 353 e Volume 11º, páginas 24 e 113.

216 – Ar thur Conan Doyle

Os vários médiuns referidos neste capítulo — pode dizerse

— cobrem

diversos tipos de mediunidade, predominantes durante esse período. Mas houve

muitos que foram quase tão conhecidos quanto os aqui citados. Assim, Mrs.

Marshall trouxe ensinamentos a muitos; Mrs. Gupáginasy mostrou poderes que, em

certas direções, jamais haviam sido atingidos; Mrs. Everitt, uma amadora, continuou

por toda a sua vida, que foi longa, a ser um centro de energia psíquica; e Mrs.

Mellon, tanto na Inglaterra quanto na Austrália, foi extraordinária em

materializações e em fenômenos físicos.

217 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

17

A Sociedade de Pesquisas Psíquicas

ualquer descrição minuciosa das atividades da Sociedade de Pesquisas

Psíquicas, cem seu registro estranhamente misturado de utilidades e de

obstruções, estaria fora de lugar neste volume. Há alguns pontos, entretanto,

que devem ser focalizados e alguns casos que deveriam ser discutidos. Em certo

sentido o trabalho da sociedade foi excelente; mas desde o começo ela cometeu o

erro capital de assumir um certo ar carrancudo contra o Espiritismo, o que teve

como efeito alienar um certo número de homens que poderiam ter sido valiosos em

seu conselho e, acima de tudo, de ofender àqueles médiuns, sem cuja boa vontade de

cooperação, o trabalho da sociedade não se teria fanado. Atualmente a sociedade

possui uma excelente sala de sessões, mas a dificuldade está em persuadir qualquer

médium a entrar ali.

É o que tinha de acontecer, pois tanto o médium quanto a causa que este

representa se acham em perigo, quando hipóteses vesgas e acusações injuriosas são

feitas tão levianamente quanto no passado. A pesquisa psíquica deveria mostrar

algum respeito pelos sentimentos e pelas opiniões dos Espíritos, pois é bem certo

que sem estes aquela não existiria.

Entre as irritações daquilo que consideram como crítica ofensiva, os

Espíritas não deveriam esquecer que, em várias ocasiões, a sociedade fez excelentes

trabalhos. Assim, foi a matriz de outras sociedades que se tornaram mais ativas que

ela. Ela também produziu, tanto em Londres, quanto nas suas ramificações na

América, um certo número de homens que acompanharam as provas e se tornaram

sinceros defensores do ponto de vista espírita.

Na verdade pode, sem favor, dizerse

que todos os grandes homens, os

homens que deram mostras de poderosa mentalidade, em setores diversos e deste

assunto particular, adotaram a explicação psíquica. Sir William Crookes, Sir Oliver

Lodge, Russell Wallace, Lord Rayieigh, Sir William Barrett, Professor William

James, Professor Hyslop, Doutor Richard Hodgson e Mr. F. W. H. Myers estavam

todos, em graus diversos, do lado dos anjos. Houve antes uma sociedade com

idênticos objetivos — a Sociedade Psicológica da GrãBretanha

— fundada em

1875 por Mr. Serjeant Cox. Com a morte desse cavalheiro em 1879, a sociedade se

dissolveu. A 6 de janeiro de 1882 foi feita uma reunião, por iniciativa de Sir William

Barrett, para considerar a formação de uma sociedade nova e a 20 de fevereiro

seguinte foi esta instalada. Foi eleito presidente o Professor Henry Sidgwick, de

Cambridge, e entre os vicepresidentes

estava o Reverendo Stainton Moses. O

conselho contava com representantes espíritas, entre os quais Mr. Edmund Dawson

Rogers Mr. Hensieigh Wedgewood, Doutor George Wild, Mr. Alexander Caider e

Mr. Moreli Theobald. No correr do exame de sua história veremos como a Society

for Psychical Research alienou gradualmente as simpatias desses membros e levou

Q

218 – Ar thur Conan Doyle

muitos desses a pedir demissão, e como essa clivagem precoce se foi alargando com

o correr dos anos.

Diz um manifesto da Sociedade:

“Foi largamente sentido que o presente oferece oportunidade para uma

tentativa organizada e sistemática de investigar o enorme grupo de fenômenos

discutíveis, designados por expressões como mesmerismo, psiquismo e

espiritismo.”

Em seu primeiro relatório presidencial, em 17 de julho de 1882, falando da

necessidade de pesquisa psíquica, diz o Professor Sidgwick: “Somos todos

concordes em que o presente estado de coisas é um escândalo para o período

esclarecido em que vivemos; que a discussão sobre a realidade desses maravilhosos

fenômenos — cuja importância, científica não será nunca exagerada, se apenas a

décima parte do que dizem testemunhas geralmente crédulas pudesse ser

demonstrada como verdadeira — como ia dizendo, é um escândalo que a discussão

sobre a realidade desses fenômenos ainda perdure; que tantas testemunhas

competentes tenham declarado a sua crença nêles; que tantos outros estejam

profundamente interessados em esclarecer a questão; e, ainda, que o mundo culto

se ache, apenas, numa atitude de incredulidade”.

Assim definida por seu primeiro presidente, a atitude da Sociedade seria

correta e razoável.

Respondendo à crítica de que sua intenção era rejeitar como inverídicos os

resultados de todas as investigações anteriores sobre fenômenos psíquicos, disse ele:

“Não creio que possa produzir provas de melhor qualidade do que muitas já

apresentadas por escritores de indubitável reputação científica —homens como Mr.

Crookes, Mr. Wallace e o falecido Professor de Morgan. Mas é claro que, de tudo

que eu defini como escopo da sociedade, por melhores que sejam algumas dessas

provas como qualidade, nos é necessário um número muito maior.”

O mundo culto, como ele diz, ainda não se acha convencido e, assim, mais

provas devem ser acumuladas. Não declarou que já houvesse provas abundantes,

mas que o mundo não se havia dado ao trabalho de examinar.

Voltando a esse aspecto, no final de seu discurso, disse: “A incredulidade

científica cresceu durante tanto tempo, e criou tantas e tão fortes raízes, que

teremos apenas que a maior, se formos capazes disso, relativamente àquelas

questões, enterrandoa

viva, sob um monte de fatos. Devemos plantar balizas, como

o disse Lincoln; devemos acumular fatos sobre fatos, e somar experiência a

experiência e, diria até, não esbravejarmos demasiadamente com os incrédulos de

fora acerca do valor probante de cada uma delas, mas acreditar na massa de

provas para convicção, O mais alto grau de força demonstradora que pudermos

obter além de um simples registro de uma investigação é, aliás, limitada pela

fidedignidade do investigador. Fizemos tudo quanto era possível quando o crítico

nada deixou para alegar senão que o investigador era parceiro no truque. Mas

quando não deixou coisa alguma, alegará isso. Devemos levar o opositor a ser

forçado a admitir ou que os fenômenos são inexplicáveis, ao menos para si, ou a

acusar os investigadores de serem mentirosos ou trapaceiros, ou de uma cegueira e

um descuido incompatíveis com qualquer condição intelectual fora da idiotia”.

219 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

O primeiro trabalho da Sociedade foi dedicado a uma investigação

experimental de transmissão de pensamento, assunto que Sir William, então

Professor Barrett, tinha apresentado à British Association em 1876. Depois de longa

e paciente pesquisa foi considerado que a transmissão de pensamento, ou telepatia,

como era chamada por Mr. F. W. H. Myers, era um fato inconteste. No domínio dos

fenômenos mentais foi feito um trabalho muito valioso por essa Sociedade, e isso foi

registrado de maneira sistemática e cuidadosa nos “Proceedings” da mesma.

Também as suas pesquisas sobre a chamada “Correspondência Cruzada” constituem

fase importante de suas atividades. A investigação da mediunidade de Mrs. Piper foi

ainda um trabalho notável e a ele voltaremos mais tarde.

Onde a sociedade foi menos feliz foi no que se refere aos chamados

fenômenos físicos do Espiritismo. Mr. E. T. Bennett, que durante vinte anos foi

secretário assistente da Sociedade, assim se exprime a respeito: “É notável, e nós

nos inclinamos a dizer que é uma das coisas mais notáveis na história da Sociedade,

que esse ramo de investigações tivesse sido — e não há nisso exagero —

absolutamente falho de resultados. Também deve ser dito que o resultado foi tanto

mais falho quanto maior a simplicidade dos supostos fenômenos. Quanto ao

movimento de mesas e outros objetos sem contacto, a produção de batidas audíveis

e de luzes visíveis, a opinião, mesmo dentro da Sociedade, para não falar das

criaturas inteligentes que estão de fora, permanece no mesmo estado caótico de

vinte anos passados. A questão do movimento das mesas sem contacto está

exatamente no ponto em que foi deixado pela Sociedade Dialética em 1869. Mesmo

então, o fato de o movimento de uma pesada mesa de jantar, que nenhum dos

presentes tocava, e não em presença de um médium profissional, foi atestado por

numerosas pessoas bem conhecidas. Se era ‘um escândalo que a discussão sobre a

realidade desses fenômenos ainda perdurasse’, quando o Professor Sidgwick leu o

seu primeiro relatório presidencial, quanto maior será o escândalo agora, depois de

um lapso de quase um quarto de século, ‘que o mundo culto, como um todo, ainda

se ache apenas numa atitude de incredulidade?’ Em toda a série de volumes

publicados pela Sociedade, nenhuma luz foi derramada sobre os simples supostos

fenômenos de ver e ouvir. Em relação a fenômenos físicos mais elevados, que

implicam inteligência para a sua produção, tais como a Escrita Direta ou a

Fotografia de Espíritos, algumas investigações foram feitas, mas em grande parte

com resultados quase que inteiramente negativos.” 118

Essas vassouradas na Sociedade são feitas por uma crítica amiga. Vejamos

como os Espíritas contemporâneos viam as suas atividades. Para começar, logo no

início, já em 1883, encontramos — justamente um ano depois de fundada — um

correspondente a escrever à Light, perguntando: “Qual a diferença entre a

‘Sociedade de Pesquisas Psíquicas’ e a ‘Associação Central dos Espíritas’?” E

quer saber se existe algum antagonismo entre as duas organizações. A resposta foi

dada num artigo de fundo 119 , do qual fazemos este extrato. Com o nosso retrospecto

de quarenta anos, é ele de interesse histórico:

“Os Espíritas não podem duvidar qual será o objetivo — não podem

duvidar de que, com o tempo, a Sociedade de Pesquisas Psíquicas dará provas tão

118 “Twenty Year s of Psychical Resear ch” by Edward Bennett (1904), páginas 21 e 22.

119 Light, 1883, página 54.

220 – Ar thur Conan Doyle

claras e insofismáveis de clarividência, de escrita mediúnica, de aparições de

Espíritos e de várias formas de fenômenos físicos do mesmo modo que

vitoriosamente as deu de transmissão de pensamento. Há, porém, uma clara linha de

separação entre a Sociedade de Pesquisas Psíquicas e a Associação Central dos

Espíritas. Os Espíritas têm uma fé estabelecida — ainda mais, um certo

conhecimento — em relação aos fatos, a respeito dos quais a Sociedade de

Pesquisas Psíquicas ainda não pode confessar possuir qualquer conhecimento. A

Sociedade de Pesquisas Psíquicas está preocupada apenas com os fenômenos,

buscando provas de sua realidade... Para eles, a ideia da comunicação dos Espíritos,

de uma suave conversa com os mortos queridos — tão preciosas para os Espíritas,

não apresenta interesse atual. Falamos deles, como uma Sociedade — e não como

membros individuais. Como Sociedade estão estudando ossos e músculos: ainda não

chegaram ao coração e a alma”.

Continuando, o articulista dá um mergulho no futuro, embora não pudesse

ver quando a prova iria ser feita:

“Como Sociedade, ainda não se podem dizer espíritas. Como Sociedade, e

à medida que as provas se acumularem, provavelmente eles se dirão, primeiro,

‘Espíritos sem Espíritos’; por fim — exatamente como os outros Espíritos, com o

acréscimo de satisfação de, ao chegar a essa posição, terem feito bem cada etapa de

seu caminho, á medida que avançavam e, por sua conduta cautelosa, terem induzido

muitas criaturas nobres e lúcidas a palmilhar o mesmo caminho.”

Em conclusão, o correspondente é informado de que não há antagonismo

entre as duas Sociedades e de que os Espíritas confiam que a Sociedade de Pesquisas

Psíquicas esteja fazendo um trabalho muito útil.

O extrato é instrutivo, pois mostra os delicados sentimentos do principal

órgão dos Espíritas para com a nova sociedade. A profecia que o acompanha,

entretanto, está longe de se realizar. Numa exagerada aspiração pelo que era

considerado uma atitude científica imparcial, um pequeno grupo dentro da sociedade

continuou, durante muitos anos, a manter uma posição, senão de hostilidade, ao

menos de negação da realidade das manifestações físicas observadas com médiuns

particulares. Ela não sopesou a importância do testemunho que viria de homens

fidedignos, cujos títulos e cuja experiência os tornou dignos de crédito.

Assim que a Sociedade de Pesquisas Psíquicas passou a considerar esse

testemunho ou, mais raramente, a conduzir ela própria as investigações, ou foram

feitas abertamente acusações de fraude contra os médiuns, ou foi admitido que os

resultados deveriam ter sido obtidos por outros meios que não os supranormais

sugeridos. Assim, temos Mrs. Sidgwick, que é um dos piores ofensores a esse

respeito, dizendo de uma sessão com Mrs. Jencken (Kate Fox), realizada em plena

luz, que foi julgada bastante para se lerem impressos, e na qual foi obtida a escrita

direta numa folha de papel fornecida pelos assistentes e colocada debaixo da mesa,

escreveu: “Pensamos que Mrs. Jencken deve ter escrito com o pé” . De Henry Slade

disse: “A impressão que tenho, depois de dez sessões com o Doutor Slade... é que os

fenômenos são produzidos por truques” . Da escrita na lousa, por William Eglinton,

escreveu: “Por mim não hesito em atribuir as realizações a finas mágicas” . Uma

senhora médium, filha de conhecido professor, descreveu ao autor como era

impossível e, na verdade, como era inconscientemente insultuosa, a atitude de Mrs.

221 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

Sidgwick em tais ocasiões. Muitas outras citações do mesmo tipo poderiam ser

dadas em relação a outros médiuns famosos. Mr. Sidgwick contribuiu com um

trabalho intitulado “Mr. Eglinton”, publicado no Jornal, órgão da Sociedade, em

1886, e que provocou uma tempestade de críticas acerbas e um suplemento especial

de Light, dedicado a cartas de protesto. Num comentário editorial, da pena de Mr.

Stainton Moses, este jornal, que antes havia mostrado uma simpatia igual à novel

sociedade, assim se expressa:

“A Sociedade de Pesquisas Psíquicas em mais de um aspecto colocouse

numa posição falsa e quando sua atenção era chamada para o fato permitiuse

considerálo

fraudulento. Na verdade, a história secreta da ‘Pesquisa Psíquica’ na

Inglaterra, se for escrita, provará uma descrição muito instrutiva e sugestiva. Além

disso — pesanos

dizêlo

e o fazemos com inteiro senso de gravidade de nossas

palavras — até onde toca a discussão livre e completa, sua política tem sido

obstrucionista... Nestas circunstâncias, pois, cabe à Sociedade de Pesquisas

Psíquicas decidir se o atrito atualmente existente será aumentado ou se um modus

vivendi entre ela e a Sociedade Espírita poderá ser estabelecido.”

Nenhuma desaprovação oficial foi feita do ponto de vista da sociedade.

Entretanto este seria o primeiro passo. A situação aqui indicada no quarto ano de

vida da sociedade continuou com pequenas alterações até agora. Podemos vêla

bem

descrita por Sir Oliver Lodge 120 , que diz da Sociedade, embora não concordando

com o que se diz: “Ela tem sido chamada de sociedade para a supressão dos fatos,

para a imputação geral de impostura, para o desencorajamento dos sensitivos e

para o repúdio de toda revelação daquela espécie que desce das regiões da luz e do

conhecimento sobre a humanidade” .

Uma das primeiras atividades públicas da SOCIETY FOR PSYCHICAL

RESEARCH foi a viagem à Índia de seu representante Doutor Richard Hodgson,

com o fito de investigar os supostos milagres que se davam em Adyar, quartel

general de Madame Blavatsky, que havia desempenhado papel tão preeminente na

ressurreição da antiga sabedoria do Oriente, sistematizandoa

sob o nome de

Teosofia, num sistema filosófico inteligível e aceitável pelo Ocidente. Não é aqui o

lugar para discutir o caráter misto dessa notável senhora: basta dizer que o Doutor

Hodgson formou opinião absolutamente contrária a ela e aos seus supostos milagres.

Por algum tempo parecia que essa conclusão era definitiva; mas, posteriormente,

certas razões forçaram a sua reconsideração, de que temos o melhor resumo na

defesa feita pela Senhora Besant 121 .

O ponto principal da Senhora Besant é que as testemunhas eram

completamente maliciosas e corruptas e que muitos dos testemunhos eram

claramente manipulados. O resultado líquido é que quando ocorrem episódios

semelhantes, que maculam a reputação de Madame Blavatsky, não se pode dizer que

se haja obtido uma prova definitiva. Neste, como noutros casos, o padrão dos

argumentos da Sociedade, a fim de provar que houve fraude, é muito mais elástico

do que quando ela examina os supostos fenômenos psíquicos.

120 “The Sur vtval of Man” (1909), página 6.

121 “H. Blavatsky and the Master s of Wisdom” (Theosophical Publishing House).

222 – Ar thur Conan Doyle

É mais interessante voltarmonos

para um exame completo da mediunidade

de Mrs. Leonora Piper, a célebre sensitiva de Boston, EUA, porque ela se alinha

entre os mais belos resultados obtidos pela Sociedade de Pesquisas Psíquicas. Ela se

exerceu por um período de mais de quinze anos e os relatos são volumosos. Entre os

investigadores estavam homens conhecidos e competentes, como o Professor

William James, da Universidade de Harvard, o Doutor Richard Hodgson e o

Professor Hyslop, da Universidade de Columbia. Esses três estavam convencidos da

autenticidade dos fenômenos que ocorriam em sua presença e todos foram

favoráveis à sua interpretação espírita.

Naturalmente os Espíritas ficaram jubilosos com a confirmação de suas

alegações. Mr. E. Dawson Rogers, Presidente da London Spiritualist Alliance, numa

reunião dessa sociedade, em 24 de outubro de 1901 122 , disse:

“Nos últimos dias deuse

um pequeno fato que, segundo pensam alguns,

reclama algumas palavras minhas. Como muitos sabem, nossos amigos da

Sociedade de Pesquisas Psíquicas — ou alguns deles — passaram para o nosso

lado. Isto não quer dizer que aderiram à Aliança Espírita de Londres — quero dizer

que alguns se riam e zombavam de nós há alguns anos, agora se dizem adesos ao

nosso credo, isto é, aderentes à hipótese ou teoria de que o homem continua a viver

depois da morte e que, sob certas condições, lhe é possível comunicarse

com os

que aqui ficaram. Bem, agora tenho uma dolorosa recordação dos primeiros

tempos da Sociedade de Pesquisas Psíquicas. Felizmente, ou infelizmente, fui

membro do seu primeiro Conselho, em companhia do nosso saudoso amigo W.

Stainton Moses. Reuníamonos

e ficávamos tristes pela maneira com que o

Conselho da Sociedade de Pesquisas Psíquicas recebia qualquer sugestão relativa

à possibilidade de demonstrar a continuação da existência do homem após a

chamada morte. O resultado foi que, não podendo sofrer isto por mais tempo, Mr.

Stainton Moses e eu resignamos os nossos cargos no Conselho. Entretanto o tempo

exerceu a sua vingança. Naquela época os nossos amigos se diziam ansiosos por

descobrir a verdade; mas esperavam e esperavam ansiosamente — que a verdade

fosse que o Espiritismo era uma fraude... Passaram, felizmente, aquele tempo e

aquela atitude; agora podemos considerar a Sociedade de Pesquisas Psíquicas

como uma excelente amiga. Ela se pôs ao trabalho assídua e intensamente e provou

a nossa tese — se e que provas eram necessárias — à sociedade. Em primeiro lugar

temos o nosso amigo Mr. F. W. H. Myers, cuja memória todos veneramos, e não

esquecemos que Mr. Myers declarou plenamente que havia chegado à conclusão de

que a hipótese espírita era a única admissível para explicar os fenômenos que havia

testemunhado. Depois vem o Doutor Hodgson. Todos quantos conhecem o assunto

de longa data se lembram quanto ele perseguia tenazmente os que professavam o

Espiritismo. Era um autêntico Saulo a perseguir os cristãos. E ele próprio, por

força da investigação dos fenômenos que se davam em presença de Mrs. Leonora

Piper, veio para o nosso lado e, honestamente, destemerosamente, declarouse

convertido à hipótese espírita. E agora, nestes últimos dias, tivemos um notável

volume de autoria do Professor Hyslop, da Universidade de Colúmbia, New York,

publicado pela Sociedade de Pesquisas Psíquicas — um livro de 650 páginas, que

mostra que, também ele, um VicePresidente

da Sociedade de Pesquisas Psíquicas,

está convencido de que a hipótese espírita é a única capaz de explicar os fenômenos

de que foi testemunha. Todos estão rindo; e eu estou começando a ter esperanças

em nosso bom amigo Mr. Podmore”.

122 Light, 1901, página 523.

223 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

Da nossa posição privilegiada destes últimos vinte anos singulares, vemos

que o vaticínio era muito otimista. Mas o trabalho de Mrs. Piper está acima de

contestação.

O Professor James tomou contacto com Mrs. Piper em 1885, ao saber da

visita de um seu parente, que obtivera resultados muito interessantes. Conquanto

fosse antes céptico, resolveuse

a investigar diretamente. Conseguiu bom número de

mensagens probantes. Por exemplo, sua sogra havia perdido seu talão de cheques,

mas o Doutor Phinuit, guia de Mrs. Piper, a quem haviam pedido que ajudasse a

encontráLo,

disse onde estava e a informação estava certa. Em outra ocasião esse

guia disse ao Professor James: “Sua filha tem um rapaz, chamado Robert F., como

companheiro em nosso mundo” . Os Fs. eram primos de Mrs. James e viviam em

outra cidade. O professor James contou a sua senhora que o Doutor Phinuit tinha

cometido um engano quanto ao sexo da criança morta dos Fs, pois havia dito que era

um rapaz. Mas o Professor James estava enganado: a criança era um rapaz e a

informação dada estava certa. Aqui, pois, não podia ser uma questão de leitura do

pensamento dos assistentes. Muitos outros exemplos de comunicações verídicas

podiam ser aduzidos. O Professor James descreve Mrs. Piper como uma criatura

absolutamente simples e honesta e diz de sua investigação: “O resultado é fazerme

sentir, tão absolutamente certo quanto estou de qualquer fato pessoal no mundo,

que em seus transes ela sabe de coisas que não seria possível ter ouvido quando

desperta.”

Depois da morte do Doutor Richard Hodgson, em 1905, o Professor Hyslop

obteve, por intermédio de Mrs. Piper, uma série de comunicações probantes, que o

convenceram de que realmente se achava em contacto com seu amigo e

companheiro de trabalho. Por exemplo, Hodgson lhe lembrou um médium

particular, a respeito de cujos dons os dois homens haviam discordado. Disse que o

tinha visitado e acrescentou: “Achei as coisas melhor do que pensava” . Falou de um

ensaio com água corada, que ele e Hyslop tinham usado para experimentar um

médium a quinhentas milhas de Boston, e acerca do qual Mrs. Piper nada sabia.

Houve também referência a uma discussão que ele tinha tido com Uyslop a respeito

de certo manuscrito de um dos livros de Hyslop. O céptico poderá objetar que esses

fatos estavam dentro do conhecimento do Professor Hyslop, de quem Mrs. Piper os

teria obtido por meio da telepatia. Mas, acompanhando as comunicações, havia

muitas provas de peculiaridades pessoais do Doutor Hodgson, que foram

reconhecidas pelo Professor Hyslop.

A fim de permitir que o leitor julgue a consistência de algumas das provas

dadas por intermédio de Mrs. Piper, sob a ação do guia Phinuit, citamos o seguinte

caso 123 : Na 45ª sessão na Inglaterra, a 24 de dezembro de 1889, quando Messrs.

Oliver e Alfred Lodge e Mr. Thompson e senhora eram assistentes, de súbito disse

Phinuit: “Conhece Richard, Rich, Mr. Rich?” — “Não muito bem” , respondeu Mrs.

Thompson. “Conheci um Doutor Rich” . — “É este. Morreu. Está mandando

saudades a seu pai” . Na 83ª sessão, quando Mr. Thompson e a senhora se achavam

presentes novamente, Phinuit disse de repente: — “Aqui está o Doutor Rich!” Então

123 “Pr oceedings” of SOCIETY FOR PSYCHICAL RESEARCH Volume 6º, página 509. Quoted in M.

Sages “Mrs. Piper and the SOCIETY FOR PSYCHICAL RESEARCH”

224 – Ar thur Conan Doyle

o Doutor Rich começou a falar. — “É muita bondade deste cavalheiro” . (Referiase

ao Doutor Phinuit), “deixar que eu vos fale, Mr. Thompson, desejo que leve uma

mensagem a meu pai.” — “Leválaei”

, respondeu Mr. Thompson. — “Agradeço

milhares de vezes” , respondeu o Doutor Rich. “É muita bondade. Como vedes,

passei subitamente. Meu pai ficou muito perturbado com isto e ainda se acha

perturbado. Não se recuperou. Digalhe

que estou vivo; que lhe mando a minha

afeição. Onde estão os meus óculos?”

A médium passa a mão sobre os olhos.

— “Eu usava óculos” . (Era verdade). “Penso que ele os guarda, bem como

alguns de meus livros. Havia uma pequena caixa preta, que eu tinha — penso que

está com ele. Não desejo que se perca. Às vezes ele é perturbado por um zumbido na

cabeça — fica nervoso — mas isto não tem importância.” — “Que faz o seu pai?”

pergunta Mr. Thompson. A médium tomou um cartão e parecia escrever nele:

parecia pôr um selo no canto. — “Ele se ocupa com estas coisas. Mr. Thompson, se

o senhor lhe der esta mensagem, eu o ajudarei de muitas maneiras. Posso e quero.”

A respeito deste incidente, observa o Professor Lodge: “ Mr. Rich, pai, é

administrador dos Correios de Liverpool... Meu filho, o Doutor Rich, era quase

estranho a Mr. Thompson e quase estranho para mim. O pai tinha ficado muito

chocado com a morte do filho, como verificamos. Mr. Thompson o havia procurado

e dado o recado. Mr. Rich, pai, considera o episódio extraordinário e inexplicável,

salvo por alguma espécie de fraude. A frase ‘agradeço milhares de vezes’ —

concordou o velho — é característica e admite que recentemente sofreu de

zumbidos” . Mr. Rich não soube a que caixa preta o filho se referia. A única pessoa

que podia dar informações a respeito achavase

então na Alemanha. Mas foi

verificado que, em seu leito de morte, o Doutor Rich falava constantemente de uma

caixa preta.

Assim comenta M. Sage: “Sem dúvida Mr. Thompson e a senhora

conheceram o Doutor Rich, pois o encontraram uma vez. Mas eram perfeitamente

ignorantes de todos os detalhes dados aqui. Onde os colheu a médium? Não da

influência deixada num objeto qualquer, pois não havia tal objeto na sessão.”

Mrs. Piper teve vários guias em diversas etapas de sua longa carreira, O

primeiro deles foi o Doutor Phinuit, que dizia ter sido um médico francês, mas cujo

relato de sua vida terrena era contraditório e insuficiente. Nada obstante, sua atuação

foi muito notável e ele convenceu a muita gente de que então era um intermediário

entre os vivos e os mortos. Algumas objeções contra ele, entretanto, tinham força,

pois, conquanto seja muito possível que uma prolongada experiência das condições

do outro mundo apague a nossa lembrança das coisas terrenas, é pouco admissível

que assim fosse até o ponto que a experiência o demonstrou. Por outro lado, a

alternativa de que fosse uma segunda personalidade de Mrs. Piper, um simples fio,

se assim se pode dizer, separado do tecido da sua individualidade, abre dificuldades

ainda maiores, desde que foi dada tanta coisa que se achava acima do possível

conhecimento da médium.

Estudando esses fenômenos o Doutor Hodgson, que tinha sido um dos mais

severos críticos de todas as explicações transcendentes, foi pouco a pouco forçado a

aceitar a hipótese espírita como a única capaz de abarcar os fatos. Achou que a

telepatia entre assistente e médium não bastava. Verificou impressionado que,

225 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

quando a inteligência comumente tinha tido um distúrbio mental antes de morrer, as

mensagens posteriores eram obscuras e grosseiras. Isto seria inexplicável se as

mensagens fossem meros reflexos mentais dos assistentes. Por outro lado, havia

casos, como de Hannah Wild, em que uma mensagem selada em vida, não pôde ser

dada depois de morta. Admitindo valor a tais objeções, não podemos senão repetir

que nos cingiríamos aos resultados positivos e esperamos que conhecimentos mais

completos possam darnos

a chave que explicará aqueles que se afiguram negativos.

Como podemos imaginar quais sejam as leis e quais as dificuldades especiais em

tais experiências?

Em março de 1892 o guia Phinuit foi avantajado pelo guia George Pelham e

o tom das comunicações mudou com a troca. George Pelham era um jovem literato,

morto aos trinta e dois anos, numa queda de cavalo. Tinhase

interessado pelos

estudos psíquicos e então havia prometido ao Doutor Hodgson que se morresse iria

esforçarse

por se manifestar. Foi uma promessa que cumpriu vantajosamente e o

autor destas linhas deseja aqui consignar a sua gratidão, porque foi o estudo das

manifestações de George Pelham 124 que tornaram a sua mente receptiva e simpática

até que as provas finais lhe vieram durante a Grande Guerra.

Pelham preferia escrever pela mão de Mrs. Piper. E não era raro que

enquanto Phinuit falava, Pelham estivesse escrevendo. Pelham estabeleceu sua

identidade encontrando trinta velhos amigos, desconhecidos da médium;

reconheceuos

a todos e a cada um se dirigiu no tom costumeiro de quando era vivo.

Nunca tomou um estranho por um amigo. É difícil imaginar como a continuidade de

identidade e o poder de comunicabilidade — duas coisas essenciais no Espiritismo

poderiam ser melhor estabelecidos do que em tais registros. É instrutivo que o ato de

se comunicar era muito agradável a Pelham. “Sintome

feliz aqui, e mais ainda

desde que me posso comunicar com você. Lamento os que não podem falar.”

Por vezes mostrava ignorância do passado. Comentando isto, diz M. Sage:

“Se há um outro mundo, os Espíritos não vão para lá a fim de ruminar o que

aconteceu em nossa vida incompleta: vão para serem arrastados no vórtice de uma

atividade maior e mais alta. Se, por vezes se esquecem, não é de admirar. Não

obstante, parece que esquecem menos do que nós” . 125

É claro que se Pelham estabeleceu a sua identidade, tudo quanto nos possa

dizer de sua experiência atual no outro mundo é da mais alta importância. É aqui que

o lado fenomênico do Espiritismo dá lugar ao lado religioso, pois, que segurança dos

mais veneráveis mestres, ou dos escritos, pode darnos

a mesma convicção que um

relato de primeira mão, de alguém que conhecemos e que vive atualmente a vida que

descreve? Este assunto é tratado mais completamente em outro lugar. Assim, basta

dizer aqui que a descrição de Pelham, de um modo geral, é a mesma que tantas

vezes temos recebido, e que pinta uma vida de evolução gradativa, que é a

continuação da vida terrena e apresenta, de muito, os mesmos aspectos, posto que,

em geral, de forma mais agradável. Não é uma vida de mero prazer e de preguiça

egoística, mas uma vida na qual todas as nossas faculdades pessoais têm um imenso

campo de ação.

124 Doutor Hodgsons Report. Proceedings, of SOCIETY FOR PSYCHICAL RESEARCH Volume 13º,

páginas 284582.

125 M. Sage “Mrs. Ptper and SOCIETY FOR PSYCHICAL RESEARCH, página 98.

226 – Ar thur Conan Doyle

Em 1898, James Hervey Hyslop, Professor de Lógica e Êtica na

Universidade de Colúmbia, substituiu o Doutor Hodgson como chefe

experimentador. Começando na mesma posição de cepticismo, aos poucos foi

levado pelas próprias experiências à mesma conclusão.

É impossível ler os seus relatórios, publicados em vários livros e, também,

no Volume 16º dos “Proceedings” da SOCIETY FOR PSYCHICAL RESEARCH

sem sentir que talvez ele não suportasse a evidência. Seu pai e muitos parentes

voltaram e mantiveram palestras que estavam muito acima da alternativa de

personalidade secundária ou de telepatia. Ele não discute o obscuro em sua

conversação, mas diz: “Estive conversando com meu pai, meu irmão, meus tios” e

quem quer que leia a sua descrição será forçado a concordar com ele. Como essa

Sociedade pode ter tais provas em seus próprios “Proceedings” e ainda, até onde a

maioria de seu Conselho é responsável, continuar não convertida ao ponto de vista

Espírita, é um mistério. Isto apenas pode ser explicado pelo fato de haver um tipo de

mente egocêntrica e limitada — embora possivelmente aguda — que absolutamente

não recebe impressões do que acontece aos outros e, ainda, é constituída de tal modo

que é o último tipo de mente a convencerse

por si mesma, devido ao seu efeito

sobre o material de que depende a prova. Nisto está a razão por que de outro modo

seria inexplicável.

As lembranças do velho Hyslop não eram muito minuciosas nem muito

definitivas para alcançar o seu filho. Muitos fatos haviam sido esquecidos e alguns

jamais tinham chegado ao conhecimento deste. Dois vidros em sua escrivaninha, seu

canivete castanho, sua caneta com pena de pato, o nome de seu piquira, seu boné

preto a gente pode considerar estas coisas triviais, mas elas são essenciais à

comprovação da personalidade. Ele tinha sido membro ativo de uma pequena seita.

Apenas nisto parece que havia mudado. “A ortodoxia nada tem com isto. Eu podia

ter mudado de ideia em muitas coisas, se as tivesse conhecido.”

É interessante notar que quando, em sua décima sexta sessão, o Professor

Hyslop adotou os métodos dos Espíritas, conversando livremente e sem testes,

obteve uma corroboração mais efetiva do que nas quinze sessões em que havia

tomado precauções. O fato confirma a observação de que quanto menor o

constrangimento em tais entrevistas, mais positivos são os resultados, e que o

pesquisador meticuloso muitas vezes estraga a própria sessão. Hyslop registrou que

em 205 incidentes mencionados nessas conversas foilhe

possível verificar a

exatidão de nada menos que 152.

Talvez a mais interessante e dramática conversação jamais obtida através

de Mrs. Piper seja a que se deu entre seus dois investigadores, após a morte de

Richard Hodgson, em 1905.

Temos aqui dois cérebros de primeira classe — Hodgson e Hyslop — um

“morto” e o outro na plenitude de suas faculdades, mantendo uma palestra no seu

nível habitual, pela boca e pela mão dessa mulher meio deseducada e em transe. É

uma situação maravilhosa e quase que inconcebível que ele, que durante tanto tempo

estivera estudando o Espírito através dessa mulher, deveria agora ser o Espírito que

227 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

usasse a mesma mulher e, por seu turno, fosse examinado por seu velho colega. O

episódio merece um estudo cuidadoso. 126

Assim também é a mensagem atribuida a Stainton Moses. A seguinte

passagem dá o que pensar a muitos dos nossos mais materiais investigadores do

psiquismo. O leitor dirá se ela pode ter brotado do cérebro de Mrs. Piper:

“Desejamos incutir esse pensamento no vosso cérebro e no dos amigos terrenos: há

uma diferença entre a entrada no Mundo dos Espíritos daqueles que buscam o

desenvolvimento espiritual, e o daqueles que apenas buscam o conhecimento

científico. Pede o Doutor Hodgson que vos diga que ele cometeu um grande erro em

ficar tanto tempo aferrado à vida e às coisas materiais. Compreendereis que ele

quer dizer que não se interessou pelo mundo mais alto ou espiritual. Ele não viu

esses assuntos psíquicos do mesmo ponto de vista que eu. Ele procurou basear tudo

em fatos materiais e não procurou interpretar coisa alguma como um todo

espiritual. Aquele que chega onde ele chegou é transplantado de uma para outra

esfera da vida, como uma criança recémnascida.

Ele tem sido crivado de

mensagens vindas de vosso lado. Os mensageiros lhe têm trazido toda sorte de

mensagens. Tudo em vão: ele não pode responder. E repete que eu vos devo dizer

que agora se dá conta de que apenas viu um lado dessa magna questão a que era

menos importante”.

Uma descrição dessa notável médium deve interessar ao leitor. Dela assim

fala Mr. A. J. Philpott: “Pareceume

uma senhora de meiaidade,

agradável, bem

feita e saudável; acima da estatura média, cabelos castanhos e uma atitude

equilibrada e de uma matrona. Parecia uma criatura bem educada, sem quaisquer

características marcantes, intelectuais ou outras. Aliás eu esperava encontrar um

tipo diferente, alguém que mostrasse o sistema nervoso com mais eficiência. Essa

senhora parecia tão calma e fleugmática quanto uma caseira alemã. Evidentemente

nunca se havia preocupado com problemas metafísicos ou de qualquer outra

espécie e de caráter vago e abstrato. De qualquer modo lembroume

uma

enfermeira que certa vez eu havia visto num hospital — uma mulher calma e

senhora de si.”

Como muitos outros grandes médiuns, tal como Margaret FoxKane,

era

agnóstica relativamente à origem de suas forças, o que é mais natural em seu caso,

desde que caía sempre em profundo transe e apenas de segunda mão é que lhe vinha

o relato do que se passava. Inclinavase

para uma grosseira e superficial explicação

baseada na telepatia. Como no caso de Eusapia Palladino, sua mediunidade,

desabrochou após um acidente na cabeça. Parece que suas forças a deixaram de

súbito, como tinham chegado. O autor encontroua

em Nova Iorque, em 1922,

quando parecia ter perdido completamente suas faculdades, embora conservasse

interesse pelo assunto.

A Sociedade dedicou muito trabalho àquilo que se costuma chamar

“correspondência cruzada”. Centenas de páginas dos “Proceedings” são dedicadas

ao assunto, que despertou acalorada controvérsia. Foi sugerido que o esquema se

havia originado no Outro Lado, por F. W. H. Myers, como um método de

comunicação que eliminava o bichopapão

de tantos pesquisadores do psiquismo —

126 “The Psychical Riddle”. Funk, página 58 e seguintes.

228 – Ar thur Conan Doyle

a telepatia dos vivos. Pelo menos existe a certeza de que, quando vivo, Myers havia

considerado o projeto de maneira mais simplista, qual fosse a de obter a mesma

palavra ou mensagem através de dois médiuns.

Mas a correspondência cruzada da SOCIETY FOR PSYCHICAL

RESEARCH tem, de um modo geral, um caráter muito mais complicado. Nesta um

escrito não é a mera reprodução de declarações feitas em outro; os escritos parece

que representam antes aspectos diversos da mesma ideia e, muitas vezes, a

informação em um é explanatória, mas complementar no outro.

Mrs. Alice Johnson, encarregada da pesquisa pela SOCIETY FOR

PSYCHICAL RESEARCH, foi a primeira a notar esse elo entre os escritos. Ela cita

este simples exemplo:

“Num caso o escrito de Mrs. Forbes, supostamente ditado por seu filho

Talbot, afirmava que era o momento de a deixar, uma vez que buscava um sensitivo

que escrevesse automaticamente, a fim de que pudesse conseguir a confirmação do

próprio escrito.

“No mesmo dia Mrs. Verrall escreveu sobre uma árvore — um abeto —

plantada num jardim e a descrição foi assinada com, uma espada e uma corneta

pendurada nela. A corneta fazia parte do distintivo do regimento a que Talbot havia

pertencido; e em seu jardim Mrs. Forbes tinha alguns abetos, originários de

sementes que o filho lhe enviara. Esses fatos eram desconhecidos de Mrs. Verall.”

Mrs. Johnson, que fez um minucioso estudo das mensagens recebidas por

Mrs. Thompson, Mrs. Forbes, Mrs. Verall, Mrs. Willett, Mrs. Piper e outras, chegou

à seguinte conclusão: “A característica destes casos — ou, pelo menos, alguns deles

— é que não encontramos na escrita de um médium automático nada parecido com

uma reprodução verbum ad verbum das frases do outro. Também não captamos a

mesma ideia expressa de diversas maneiras — como bem poderia resultar da

telepatia direta entre os médiuns. O que colhemos é uma reprodução produção

fragmentária num escrito, que não parece ter um ponto particular ou significação e

uma outra informação fra gmentária no outro, igualmente sem uma característica

especial; mas quando unimos os dois escritos, vemos que se completam e que,

aparentemente, há uma ideia coerente ligando os dois, mas apenas parcialmente

expressa em cada um deles.”

Diz ela 127 o que não é o caso, pois centenas de casos contrários podem ser

citados — o seguinte: “O ponto fraco de todos os casos bem autenticados de

aparente telepatia dos mortos é, aliás, que eles podem ser explicados pela telepatia

entre os vivos.”

E acrescenta: “Nessas correspondências cruzadas, entretanto,

encontramos, aparentemente, telepatia referente ao presente — isto é, as

informações correspondentes são mais ou menos contemporâneas e sobre fatos do

presente que, de qualquer modo, são desconhecidos de qualquer pessoa viva, desde

que a significação e a passagem da mensagem muitas vezes não é compreendida

para cada médium automático até que a solução seja encontrada quando se juntam

os dois escritos.”

127 SOCIETY FOR PSYCHICAL RESEARCH Proceedings, Volume 21º, página 375.

229 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

O estudioso que tomar a peito o imenso trabalho de examinar

cuidadosamente essas mensagens — que se estendem por centenas de páginas —

talvez se satisfaça com a prova apresentada. Mas, na verdade, verificamos que

muitos pesquisadores de psiquismo, experimentados e capazes, as consideram

insuficientes. Eis algumas opiniões a respeito.

Diz Richet 128 : “Certamente estes são casos bem marcados de criptestesia;

mas, se há criptestesia, ou lucidez, ou telepatia, isto de modo algum implica a

sobrevivência de uma personalidade consciente”.

Deve, entretanto, lembrarse

que Richet não é um controvertista imparcial,

de vez que qualquer admissão de Espírito seria contrária aos ensinamentos de toda a

sua vida.

Da mesma escola de Richet é o Doutor Joseph Maxwell, que diz: “É

impossível admitir a intervenção de um Espírito. Queremos provar os fatos, e o

sistema de correspondência cruzada se funda em fatos negativos, o que é uma base

instável. Só os fatos positivos têm valor intrínseco, que as correspondências

cruzadas não apresentam, pelo menos, na atualidade.”

É de notarse

que Maxwell, como Richet, fez depois uma longa caminhada

para o Espiritismo.

Encontramos isto discutido com a necessária gravidade, no Spectator, de

Londres, que diz:

“Ainda que essas coisas (isto é, as correspondências cruzadas de tipo

complexo) fossem comuns, não se poderia argumentar que seriam apenas uma

prova de que algum ser consciente as produzisse; que dificilmente provariam que

esse ser consciente estivesse ‘no espírito’; que certamente não provariam que fosse

uma determinada pessoa morta qual a que tal se diz? Uma correspondência cruzada

é uma possível prova de organização, mais não de identidade.”

É verdade que muita gente capaz, como Sir Oliver Lodge e Mr. Gerald

Balfeur, aceitam a prova das correspondências cruzadas. Mas se estas satisfazem

comparativamente a poucas pessoas, então o seu objetivo não foi atingido.

Eis uns poucos exemplos dos mais simples, tomados da SOCIETY FOR

PSYCHICAL RESEARCH, em seus “Proceedings”. Como nada menos de que 50 a

100 páginas impressas são dedicadas a um dos mais complicados casos, é difícil

resumilas

adequadamente em poucas linhas e desnecessário declarar quão

cansativos são para o leitor se transcritos integralmente.

A 11 de março de 1907, à uma hora, disse Mrs. Piper ao despertar:

“Violetas” . No mesmo dia, às 11:00 da manhã Mrs. Verall escreveu

automaticamente: “Suas cabeças foram coroadas com botões de violetas” .

“Violaceae odores” (cheiro de violetas). “Folhas de violetas, de oliveira, vermelho

e branco” . “A cidade das violetas.”

A 8 de abril de 1907, o suposto Espírito de Myers, através de Mrs. Piper,

disse a Mrs. Sidgwick: “Lembrase

de Eurípides?... Lembrase

do Espírito e do

anjo? Dei a ambos... Quase todas as palavras que hoje escrevi se referem a

mensagens que estou tentando transmitir através de Mrs. V.”

128 “Thir ty Year s of Psychical Resear ch”.

230 – Ar thur Conan Doyle

A 7 de março, no curso de uma escrita automática, Mrs. Verall tinha as

palavras “Hércules Furens” e “Eurípides”. E a 25 de março Mrs. Verall havia

escrito: “Ali está o drama de Hércules e o roteiro está no de Eurípides; se ao menos

você pudesse vêlo.”

Certamente isto escapa da coincidência.

Novamente, a 16 de abril de 1907, estando na Índia, Mrs. Holland recebeu

uma mensagem na qual aparecem as palavras “Mors” e “A Sombra da Morte”. No

dia seguinte Mrs. Piper pronunciou a palavra Tanatos — naturalmente uma

pronúncia imperfeita de Thanatos — voz grega que, como a latina Mors, significa a

Morte.

A 29 de abril Mrs. Verall escreveu toda uma mensagem versando a ideia da

Morte, com citações de Landor, Shakespeare, Virgílio e Horácio, todas envolvendo

a ideia da Morte.

A 30 de abril Mrs. Piper, despertando, repetiu três vezes, dentro de poucos

instantes a palavra Thanatos. Aí novamente a teoria da coincidência fica demasiado

afastada. Outra correspondência cruzada relativa à frase Ave Roma immortalis é

demasiado longa. Mr. Gerald Balfour, ao discutíla

129 , diz que a ideia completa é o

conhecido quadro existente no Vaticano. A mensagem de Mrs. Verall deu detalhes

desse quadro, para ela sem sentido, mas esclareceu pela frase Ave Roma Immortalis,

que surgiu poucos dias depois, na mensagem por Mrs. Holland.

Um aspecto interessante foi a aparente compreensão do guia daquilo que

estava acontecendo.

A 2 de março, quando começou a correspondência cruzada, Mrs. Verall

escreveu que tinha mandado “através de outra senhora”, a palavra “que elucidaria as

questões”. A 7 de março, quando começou a correspondência, a contribuição de

Mrs. Holland foi seguida por estas palavras: “Como poderia eu ter tornado mais

claro sem lhe dar um roteiro?” Com razão considera Mr. Gerald Balfour que esses

dois comentários mostram que essa correspondência cruzada estava sendo

conduzida com propósito deliberado.

Sir Oliver Lodge, comentando a maneira por que o sentido é disfarçado

nessas correspondências cruzadas, diz de uma delas: “A habilidade, a sutileza e a

alusão literária tornaram a mensagem difícil de ler, mesmo quando decifrada e

apresentada pelo talento de Mr. Piddington.”

Essa crítica, feita por quem se convenceu de seu verdadeiro caráter, é uma

indicação bastante de que as correspondências cruzadas não podem fazer mais que

um limitado serviço.

Para o comum dos Espíritas parece um método demasiadamente

complicado para demonstrar aquilo que pode ser demonstrado por métodos mais

fáceis e convincentes. Se um homem tentasse demonstrar a existência da América

apanhando nas praias da Europa madeira arrastada pelas correntes marinhas, como o

fez Colombo, em lugar de tomar contacto com a terra e os seus habitantes,

apresentaria uma grosseira analogia com esses processos indiretos de investigação.

Além das mensagens de correspondência cruzada, muitas outras foram

minuciosamente analisadas pela SOCIETY FOR PSYCHICAL RESEARCH, das

129 SOCIETY FOR PSYCHICAL RESEARCH Proceedings, Volume 25º, página 54.

231 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

quais a mais notável e convincente foi a que se chamou “O Ouvido de Dionysius”. É

preciso convir que, depois da inferior e, ocasionalmente, sórdida atmosfera dos

fenômenos físicos, essas incursões intelectuais nos levantam para uma atmosfera

mais pura e mais rarefeita. As correspondências cruzadas foram muito prolongadas e

complexas para conquistar simpatias e tinham uma penosa semelhança a um pedante

jogo de salão. Já é diferente com o Ouvido de Dionysius. Este naturalmente assume

um tom acadêmico, desde que é um assunto clássico, presumivelmente manejado

por dois professôres, mas é uma tentativa muito direta e muito clara para provar a

sobrevivência, mostrando que ninguém, a não ser aqueles dois homens, poderia ter

escrito a mensagem e que esta certamente estava acima do conhecimento e das

faculdades de quem escreve.

Esse escritor, que preferiu tomar o nome de Mrs. Willet, em 1910 escreveu

a frase “Ouvido de Dionysius. O Lóbulo”. Aconteceu que se achava presente Mrs.

Verall, esposa de um famoso homem de letras. Ela levou a frase ao seu marido. Ele

explicou que o nome era dado a uma enorme pedreira abandonada em Siracusa, que

tinha a forma aproximada de uma orelha de jumento. Nesse lugar os infelizes

atenienses prisioneiros tinham sido confinados, depois daquela famosa derrota que

foi imortalizada por Tucídides; tinha recebido aquele nome porque as suas

peculiares condições acústicas tinham permitido que o Tirano Dionysius ouvisse a

conversa de suas vítimas.

O Doutor Verall morreu pouco depois. Em 1914 as mensagens de Mrs.

Willett começaram a encerrar muitas referências ao “Ouvido de Dionysius”. Esta

pareciam provir do ilustre morto. Por exemplo, uma sentença dizia: “Lembrase

de

que você não sabia e eu lamentei a sua ignorância dos clássicos? Ela se referia a

um lugar onde foram postos os escravos e se liga à escuta também à acústica. Pense

na galeria dos cochichos” .

Algumas das alusões, como as citadas, indicavam o Doutor Verall,

enquanto outras pareciam associadas a um outro cientista morto em 1910. Era o

Professor S. H. Butcher, de Edimburgo. A mensagem dizia assim: “Pai Cam

passeando de braço dado com o Canongate” , isto é, Cambridge com Edimburgo.

Esse estranho mosaico foi descrito por um guia como “uma associação literária de

ideias, indicando a influência de duas mentes desencarnadas”. Essa ideia certamente

foi desenvolvida, e ninguém poderá ler cuidadosamente o resultado sem se

convencer de que ela tem sua origem nalguma coisa absolutamente distante de quem

escreve. Tão recônditas eram as alusões clássicas que mesmo os melhores cientistas

por vezes eram vencidos; e um deles declarou que nenhum cérebro de seu

conhecimento, a não ser os de Verrall ou de Butcher, poderia ter produzido aquilo.

Depois de minucioso exame das mensagens, Mr. Gerald Balfour declarou que estava

disposto a aceitar aqueles dois sábios como “os verdadeiros autores do curioso

quebracabeça literário” . Os mensageiros invisíveis parece que se fatigaram de tão

complicados métodos e a Butcher é atribuida esta expressão: “Oh! Essa velha

atrapalhação é tão fatigante!” Não obstante, o resultado alcançado é um dos mais

marcantes êxitos nas pesquisas puramente intelectuais da SOCIETY FOR

PSYCHICAL RESEARCH O trabalho da SOCIETY FOR PSYCHICAL

RESEARCH durante os recentes anos não tem melhorado a sua reputação e é com

relutância que o autor, um dos seus mais velhos membros, é obrigado a dizêlo.

O

232 – Ar thur Conan Doyle

mecanismo central da sociedade caiu nas mãos de um grupo de homens cujo único

cuidado parece ser não provar a verdade, mas desacreditar o que parece

sobrenatural. Dois grandes homens, Lodge e Barrett, enfrentaram a onda, mas foram

vencidos pelos obstrucionistas. Os Espíritas e especialmente os médiuns, tinham

aversão aos investigadores e a seus métodos. Parece que nunca ocorreu àquela gente

que os médiuns são, ou deveriam ser, inertes, e que deveria haver uma força

inteligente por detrás do médium, o qual apenas pode ser aconselhado e encorajado

por uma simpatia suave e raciocinada, por uma atitude cheia de tato.

Eva, médium de materializações, veio à França, mas os resultados foram

parcos e as precauções exageradas comprometeram os resultados que se tinham em

vista. O relatório em que a comissão dá as suas conclusões é um documento

contraditório, pois que, enquanto o ocasional leitor fica sabendo de seu texto que

não houve resultados — pelo menos dignos de registro — o texto se acha ilustrado

com fotografias de derrame de ectoplasma, exatamente — em ponto menor — aos

que foram obtidos em Paris. Madame Bisson, que acompanhou a sua protegida a

Londres, para infelicidade de ambas, naturalmente ficou indignada com tal resultado

e o Doutor Geley publicou um trabalho incisivo no Boletim do Instituto de

Metapsíquica, no qual expôs os erros da investigação e a desvalia do relatório.

Os Professôres da Sorbonne devem ser desculpados por terem manejado

Eva sem o menor respeito às leis psíquicas, mas os representantes de um organismo

de psiquismo científico deveriam ter mostrado maior compreensão.

O ataque a Mr. Hope, o fotógrafo do psiquismo, foi examinado por uma

comissão muito independente e ficou demonstrado que era inconsistente e, até, tinha

sinais de uma conspirata contra o médium. Nesse caso tortuoso a sociedade foi

implicada diretamente, desde que um de seus diretores participou das investigações

e reportou os resultados no jornal, órgão oficial da sociedade. Toda essa história,

inclusive a recusa da sociedade de enfrentar os fatos que lhe eram apontados,

deixam uma sombra sobre tudo que lhes diz respeito.

A despeito de tudo que foi dito e feito, o mundo tem favorecido a existência

da SOCIETY FOR PSYCHICAL RESEARCH Ela tem sido uma espécie de banco

de redesconto para as ideias sobre psiquismo e um pouso para os que foram atraidos

para o assunto embora ainda temessem um contacto mais íntimo com uma filosofia

tão radical quanto a Filosofia Espírita. Houve um constante movimento entre os

membros da direita no sentido da negação e da esquerda no sentido da aceitação. O

simples fato da substituição de presidentes por Espíritas profundos é um sinal de que

o elemento antiespiritual

não era muito intolerante ou intolerável. De um modo

geral, como toda instituição humana, ela está aberta para o elogio e para a censura.

Se teve suas passagens sombrias, também foi ocasionalmente iluminada por

períodos brilhantes. Constantemente tem lutado contra a acusação de ser uma mera

sociedade espírita, o que a privaria da posição de judiciosa imparcialidade, que

pretende ter, mas que nem sempre exercitou. Sua situação por vezes foi difícil e o

simples fato de que a sociedade se tem mantido por tantos anos é uma prova de que

tem havido alguma sabedoria em sua atitude; e de que podemos esperar que o

período de esterilidade e de mirrada crítica negativa esteja marchando para o seu

termo. Enquanto isto, o Psychic College, uma instituição fundada pelo trabalho de

autosacrifício

de Mr. Hewat McKenzie e sua senhora, tem mostrado amplamente

233 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

que um severo interesse pela verdade e pelas exigências necessárias quanto às

provas não é incompatível com um tratamento humano aos médiuns e uma atitude

geralmente simpática em relação ao ponto de vista espírita.

234 – Ar thur Conan Doyle

18

Ectoplasma

esde os primeiros dias, os Espírítas têm sustentado que há uma base física

material para os fenômenos. Na incipiente literatura espírita encontramse

centenas de vezes as descrições de um denso vapor semiluminoso, que flui

do lado ou da boca do médium e é fracamente visível no escuro. Tinham ido mais

longe: observaram como esse vapor às vezes se solidifica numa substância plástica,

de que são feitas as várias estruturas na sala da sessão.

Uma observação científica mais rigorosa apenas confirmou o que esses

pioneiros haviam verificado.

Para citar alguns exemplos: o Juiz Peterson declara que em 1877 viu com o

médium W. Lawrence “uma nuvem floculenta”, que parecia sair do lado do médium

e que, gradativamente, formava um corpo sólido 130 . Também fala de uma figura

surgindo de “uma bola de luz”. James Curtis viu com Slade, na Austrália, em 1878,

“uma como que nuvem de vapor brancoacinzentado”

se formando e aumentando,

antes do aparecimento de uma figura inteiramente materializada. Alfred Russel

Wallace descreve ter visto com o Doutor Monck, primeiro “uma mancha branca”

que gradativamente se transformou numa “coluna nevoenta”. Essa mesma expressão

é usada por Mr. Alfred Smedley, em relação a uma aparição com o médium

Williams, quando John King se manifestou; fala também de “uma nuvem

fracamente iluminada”.

Com o médium D. D. Home, Sir William Crookes viu “uma nuvem

luminosa”, que se condensou numa mão perfeita. Mr. E. A. Brackett viu com a

médium Helen Barry, em 1885, nos Estados Unidos, “uma pequena substância

branca, como uma nuvem”, que se expandiu até ficar com quatro a cinco pés de

altura “quando de súbito dela saiu a forma total, sólida, como uma sílfide, de

Berthri” 131 . Mr. Edmund Dawson Rogers, descrevendo uma sessão com Eglinton,

em 1885, diz ter visto surgir do lado do médium “uma substância esbranquiçada e

fumacenta”, que oscilava e pulsava. Mr. Vincent Turvey, o conhecido sensitivo de

Bournemouth, fala de uma “substância vermelha, viscosa” 132 , saindo do médium.

Um particular interesse é ligado a uma descrição dada pela maravilhosa médium de

materializações, Madame d’Esperance, que diz: “Pareciame

sentir que fios muito

finos me saíam pelos poros da pele.” 133 .

Isto tem um importante contacto com as pesquisas do Doutor Crawford e

suas observações sobre os “bastões psíquicos” e a matéria como esporos. Também

130 “Essays fr om the Unseen”.

131 “Mater ialized Asar itions”, página 106.

132 “Beginnings of Seer ship”, página 55.

133 “Shadow Land”, página 229.

D

235 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

encontramos em The Spiritualist que, quando o Espírito materializado de Katie King

se manifestava através de Miss Florence Cook era ligado à médium por meio de fios

nevoentos e fracamente luminosos” 134 .

Para contrabalançar essas referências abreviadas, vamos dar em detalhe três

experiências da formação de ectoplasma. Um dos assistentes do grupo de Madame

d’Esperance, deu a seguinte descrição: “Primeiro foi observada no chão, em frente

à cabine, uma mancha como uma fita nevoenta e esbranquiçada. Aumentou

gradualmente, estendendose

visivelmente como se fosse uma mancha animada de

musselina, jazendo camada sobre camada no chão, até se estender por cerca de três

pés e com uma profundidade de algumas polegadas — talvez seis ou mais. Então

começou a se erguer lentamente, mais ou menos ao centro, como se uma cabeça

estivesse por baixo, ao passo que a fita nevoenta no chão começou a parecer mais

com musselina caindo em dobras junto da porção que se erguia misteriosamente.

Depois atingiu dois pés ou um pouco mais e parecia que uma criança estava

debaixo dela, movendo os braços em todas as direções, como se por baixo estivesse

manipulando alguma coisa. Continuava a se erguer, por vezes mergulhando um

pouco para novamente se erguer mais, até atingir uma altura de cinco pés, quando

sua forma pôde ser vista como se arranjando as dobras do panejamento em redor

de sua forma. Então os braços se ergueram consideravelmente acima da cabeça e se

abriram através de uma massa nebulosa de um panejamento espiritual, e Yolanda

se apresentou desvelada, graciosa e bela, com cerca de cinco pés de altura, com

uma espécie de turbante na cabeça, do qual caíam sobre os ombros e as costas seus

longos cabelos negros... O excesso de panejamento esbranquiçado se compôs em

redor dela ou projetouse

no tapête, até ser utilizado novamente. Tudo isto se

realizou em cerca de quinze minutos” . 135

O segundo relato é de Mr. Edmund Dawson Rogers 136 .

Diz que na sessão exclusiva de Mr. Eglinton, havia catorze pessoas

presentes, todas bem conhecidas e que havia luz suficiente para permitir que o

escrevente do relatório “observasse bem a todos e a tudo na sala” e quando a

“forma” ficou à sua frente ele era “perfeitamente capaz de notar todos os detalhes”.

Em estado de transe Mr. Eglinton passeou pela sala, entre os assistentes, durante

cinco minutos, e então... “Começou delicadamente a tirar de seu lado e a atirar em

ângulo reto uma substância fumacenta e esbranquiçada, que caía á sua esquerda. A

massa de matéria branca no chão ia aumentando de largura, começou a pulsar e a

se mover para cima e para baixo, oscilando para um lado e para o outro, como se a

força motora estivesse por baixo. A massa cresceu até três pés de altura e logo

depois a forma cresceu ràpidamente, silenciosamente

até a plena estatura. Por um

rápido movimento das mãos Mr. Eglinton separou o material branco que cobria a

cabeça da forma e aquele caiu para trás, sobre os ombros, tornando parte da

indumentária do visitante, O laço de ligação — o fio esbranquiçado que saía do

lado do médium — foi cortado ou se tornou invisível, e a forma avançou para Mr.

134 “The Spir itualist”, 1873, página 83.

135 “Shadow Land”, by E. d’Esperance (1887), páginas 254 e 255.

136 “Life and Exper ience”, página 58.

236 – Ar thur Conan Doyle

Everitt, deulhe

um apêrto de mão e correu todo o círculo, tratando cada um da

mesma maneira” . Isto aconteceu em Londres, em 1885.

A última descrição é de uma sessão em Argel, em 1905, com Eva C., então

conhecida como Marthe Béraud. Assim descreve Madame 137 : “Marthe estava só na

cabine, nessa ocasião. Depois de esperar cerca de vinte minutos, ela mesma abriu

completamente a cortina e sentouse

em sua cadeira. Quase imediatamente —

estando Marthe bem à vista dos assistentes, suas mãos, a cabeça e o corpo bem

visíveis — vimos uma coisa branca, de aparência disforme, se formando junto a ela.

A princípio parecia uma grande mancha nevoenta perto do cotovelo direito de

Marthe e parecia ligada a seu corpo. Era muito móvel e crescia rapidamente para

cima e para baixo, assumindo finalmente uma aparência de certo modo amorfa de

uma coluna nevoenta, que ia desde cerca de dois pés acima da cabeça de Marthe

até os seus pés. Não me era possível distinguir nem as mãos nem a cabeça; o que eu

via era semelhante a nuvens brancas e floculentas, de brilho variável, que se iam

condensando gradualmente, e se concentrando como que em redor de um corpo

para mim invisível”.

Eis um relato que se pode comparar de modo maravilhoso com os que

foram citados, de sessões realizadas há muitos anos.

Quando examinamos as descrições do aparecimento de ectoplasma em

grupos espíritas há quarenta ou cinquenta anos, e as comparamos com o que ocorre

em nossos dias, vemos como os primeiros resultados eram mais ricos. Os métodos

não científicos estavam em voga, conforme o ponto de vista de muitos modernos

investigadores do psiquismo.

Contudo, os primeiros investigadores pelo menos observaram uma regra de

ouro. Cercavam o médium de uma atmosfera de amor e simpatia. Discutindo as

primeiras manifestações ocorridas na Inglaterra, diz The Spiritualist, num artigo de

fundo 138 : “A influência do estado espiritual dos observadores encontra uma

expressão ótica nas sessões de materializações. A gente mundana e suspeitosa

consegue as manifestações mais fracas; então os Espíritos por vezes têm apenas

uma expressão, como de costume, quando a força é pouca. Isto é síngularmente

exato como descrição de muitos rostos em sessões com Eva C. A gente espírita, em

cuja presença os médiuns se sentem muito felizes, vêm muito mais e melhores

manifestações... Con quanto os fenômenos espíritas sejam regidos por leis fixas,

aquelas leis funcionam de certa maneira na prática que, inquestionàvelmente, o

Espiritismo assume mais o caráter de uma relação especial para gente escolhida”.

Mr. E. A. Brackett, autor daquele notável livro que é“Materialized

Apáginasaritions” 139 , exprime a mesma verdade por outras palavras. Aliás o seu

ponto de vista excita a ironia dos chamados círculos científicos, mas encerra uma

verdade profunda. É antes o espírito de suas palavras do que a sua significação

literal que ele quer exprimir: “A chave que abre as portas de uma outra vida é pura

afeição, simples e confiada como aquela que leva a criança a atirar os braços em

redor do pescoço de sua mãe. Para aqueles que se prezam acima de seu alcance

137 “Annals of Psychical Science”, Volume 2º, página 305.

138 1873, páginas 82 e 83.

139 “Aparições Materializadas”. N.

do T.

237 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

espiritual, isto pode parecer uma submissão àquilo a que chamam faculdades mais

altas. Neste caso posso dizer verdadeiramente que enquanto adotei essa atitude,

sinceramente ou sem reservas, nada aprendi a respeito dessas coisas. Em vez de

obumbrar a minha razão e o meu raciocínio, isso abriu a minha mente a uma

percepção mais clara e mais inteligente do que ocorria à minha frente. Esse espírito

de delicadeza, de bondade amorosa que, mais do que qualquer outra coisa, coroa

de eterna beleza os ensinos do Cristo, deveria encontrar completa expressão em

nosso contacto com aqueles seres.”

Se alguém, ao ler esta passagem, pensasse que o autor era um pobre maluco

fanático, sobre o qual qualquer médium desonesto pudesse imporse

facilmente, um

relance sobre o seu excelente livro provaria o contrário imediatamente.

Além disso o seu método deu resultados. Estava ele lutando com a dúvida e

a perplexidade quando, a um terno conselho de um Espírito materializado, decidiu

pôr de lado toda a reserva “e saudar essas formas como queridos amigos mortos, que

tinham vindo de longe e tinham lutado para chegar a mim”. A mudança foi

instantânea. “Desde aquele instante as formas, as quais parecia faltar vitalidade,

tornaramse

animadas de uma força maravilhosa. Eles avançaram para me

cumprimentar; braços delicados me enlaçaram; formas que tinham sido quase

mudas durante a minha investigação agora falavam livremente; rostos que tinham

revestido mais o aspecto de máscara, do que de vida real, agora irradiavam, beleza.

Aquilo que se dizia minha sobrinha... cumuloume

de demonstrações de carinho.

Lançando os braços em redor de mim e debruçando a cabeça sobre o meu ombro,

olhou para cima e disse: ‘Agora podemos vir tão perto do senhor’!”

Foi uma pena que Eva C. não tivesse tido uma oportunidade de exibir seus

dons numa atmosfera amorosa, numa sessão a velha moda espírita. É muito provável

que o resultado tivesse sido muito diverso quanto às materializações. Como prova

disso, Madame Bisson, numa íntima sessão particular com ela, obteve maravilhosos

resultados, jamais alcançados através dos métodos desconfiados dos investigadores

científicos. O primeiro médium de materializações que se pode dizer que tenha sido

investigado com cuidados científicos foi essa moça Eva, ou Eva C., como é

geralmente chamada, pois seu nome era Carriere. Em 1903 foi examinada numa

série de sessões em Villa Carmen, em Argel, pelo Professor Charles Richet; e foi a

sua observação desse material esbranquiçado, que parecia sair do médium, que o

levou a cunhar o vocábulo “ectoplasma”. Eva tinha então dezenove anos e estava no

auge de suas forças, que foram gradativamente minadas por longos anos de

investigação sob constrangimento. Tentaram pôr em dúvida os resultados

constatados por Charles Richet, pretendendo que as figuras materializadas eram, na

verdade, um disfarce doméstico; mas a resposta final foi que as experiências tinham

sido realizadas a portas fechadas e que semelhantes resultados tinham sido obtidos

muitas vezes. É uma justiça poética pensar que o Professor Richet tenha sido

submetido a essa crítica deselegante e deprimente, porque em seu grande livro

“Trinta Anos de Pesquisas Psíquicas”, é ele ainda mais deselegante para com os

médiuns, acreditando em cada história para seu descrédito e agindo continuamente

de acordo com o princípio de que ser acusado é o mesmo que ser condenado.

Em seu primeiro relatório, publicado em “Anais da Ciência Psíquica”,

Richet descreve minuciosamente a aparência com o médium Eva C., da forma

238 – Ar thur Conan Doyle

materializada de um homem que dizia chamarse

“Bien Boa”. Diz o Professor que

essa forma possuía todos os atributos de vida. “Anda, fala, movese

e respira como

um ser humano. O corpo é resistente e tem uma certa força muscular. Nem é uma

figura de gesso, nem uma boneca ou uma imagem refletida num espelho; é um ser

vivo; é um homem vivo; e há razões para resolutamente pôr de lado qualquer outra

suposição que uma ou outra dessas hipóteses — de que seja um fantasma com

atributos de vida; ou de que seja uma pessoa viva, fazendo o papel de um

fantasma” . 140

Ele discute minuciosamente as suas razões para afastar a possibilidade de

ser um caso de desdobramento da personalidade.

Descrevendo o desaparecimento da forma, diz ele: “Bien Boa procura,

segundo me parece, vir ao nosso meio, mas anda coxeando e hesitante. Não poderia

dizer se ele anda ou desliza. Em certa ocasião escorrega e quase cai, mancando

como se a perna não pudesse suportálo.

(Dou a minha própria impressão). Então

se encaminha para a abertura da cortina e subitamente mergulha, desaparecendo

no chão; ao mesmo tempo ouvese

um ‘clac! clac!’ como o ruido de um corpo

atirado no chão.”

Enquanto isto acontecia, a médium era vista perfeitamente na cabine por

um outro assistente, Gabriel Delanne, editor da Revue du Spiritisme.

Continua Richet: “Pouco tempo depois, — dois ou três minutos — bem aos

pés do General, à abertura da cortina, vemos novamente a mesma bola branca — a

sua cabeça? — no chão. Sobe rápidamente, quase vertical, atinge a altura de um

homem, então de súbito cai no chão, com o mesmo barulho de ‘clac! clac!’ de um

corpo que cai no chão. O General sentiu o choque dos membros que, caindo,

bateram violentamente em suas pernas.”

O súbito aparecimento e desaparecimento parecia tanto uma ação através de

uma porta falsa que no dia seguinte Richet fez minuciosa observação nos ladrilhos

do piso, bem como no teto da garage que ficava embaixo, mas não encontrou o mais

leve indício de uma porta falsa. Para afastar os rumores de sua existência obteve

posteriormente um certificado do arquiteto.

O interesse desses registros das primeiras manifestações aumentou pelo fato

de que, ao tempo, a médium obtinha materializações completas, enquanto

posteriormente, em Paris, estas eram extremamente raras em suas sessões.

Uma curiosa experiência com Bien Boa foi tentar que ele soprasse num

frasco contendo uma solução de barita, para ver se a respiração mostrava óxido de

carbono. Com dificuldade a forma fez o que lhe pediam e o líquido mostrou a reação

esperada. Durante essa experiencia as formas da médium e de uma nativa que se

sentava com ela na cabine foram vistas claramente.

Richet registra um incidente divertido durante essa experiência. Quando a

solução de barita se tornou branca, os assistentes gritaram “Bravo!”, com o que a

forma de Bien Boa apareceu três vezes à abertura da cortina, curvouse

como um

ator no teatro, ao ser chamado a cena.

Richet e Delanne tomaram muitas fotografias de Bien Boa, as quais são

descritas por Sir Oliver Lodge como as melhores que ele tinha visto no gênero. Uma

140 “Annals of Psychical Science”, Volume 2º página 273.

239 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

particularidade interessante a esse respeito é que um braço da médium se apresenta

achatado, indicando um processo de desmaterialização tão bem observado com outra

médium, Madame d’Esperance. Richet observa com muita finura 141 : “Não receio

dizer que o vazio da manga, longe de demonstrar a presença de uma fraude, ao

contrário estabelece que não houve fraude; também que isto parece depor em favor

de uma espécie de desagregação material da médium, que ela própria era incapaz

de suspeitar.”

Em seu último livro, já referido, Richet publica pela primeira vez a história

de uma esplêndida materialização a que ele próprio assistiu em Villa Carmen:

“Quase no mesmo momento em que as cortinas foram baixadas, foram

reabertas e entre elas apareceu o rosto de uma mulher jovem e bonita, com uma

espécie de fita dourada ou diadema, cobrindo seu bonito cabelo e o alto da cabeça.

Ria gostosamente e parecia muito satisfeita; ainda me recordo perfeitamente de seu

riso e das pérolas que eram os seus dentes. Apareceu duas ou três vezes, mostrando

a cabeça e escondendoa,

como uma criança brincando de escondeesconde”.

Pediramlhe

que trouxesse uma tesoura no dia seguinte, quando lhe

permitiriam cortar uma mecha de cabelos dessa rainha egípcia, como era ela

chamada. E assim aconteceu.

“A rainha egípcia voltou mas só mostrou a coroa de sua cabeça com

cabelos muito bonitos e abundantes; estava ansiosa por saber se eu tinha trazido a

tesoura. Então tomei uma mãocheia de seus longos cabelos, mas dificilmente lhe

podia ver o rosto, que ela escondia por detrás da cortina. Quando eu ia cortar uma

longa mecha, uma mão firme, por detrás da cortina, baixou a minha, de modo que

apenas cortei uma ponta de quinze centímetros. Mas como eu demorasse para fazer

isso, ela disse em voz baixa: ‘Depressa, depressa!’ e desapareceu. Eu havia tomado

a mécha; o cabelo é muito fino, sedoso e vivo, O exame microscópico mostrou que

era cabelo autêntico; e me informam que um postiço daqueles custaria uns mil

francos. O cabelo de Marthe é muito escuro e ela os corta bem curtos” . 142

Cabe aqui uma referência àquilo a que o Professor Richet denomina

“histórias de jornais ignóbeis”, de uma suposta confissão de fraude pela médium e

ainda a informação de um cocheiro árabe, empregado pelo General Noel, que teria

representado o papel de Espírito em Vila Carmen. Em relação a este último, a

verdade é que jamais foi ele admitido na sala das sessões; e quanto a ela, negou

públicamente a acusação. Observa Richet que, ainda quando verdadeira a acusação,

os pesquisadores psíquicos estavam advertidos do valor que deviam emprestar a tais

revelações, que apenas mostram a instabilidade dos médiuns.

Assim resume Richet:

“As materializações produzidas por Marthe Béraud têm a mais alta

importância. Apresentaram numerosos fatos que ilustrem o processo geral das

materializações, e forneceram à ciência metapsíquica dados inteiramente novos e

imprevistos.”

Eis o seu raciocinado julgamento final.

141 “Annals of Psychical Science”, Volume 2º, página 288.

142 “Thir ty Year s of Psychical Resear ch” página 508.

240 – Ar thur Conan Doyle

A primeira investigação sistemática e prolongada do ectoplasma foi

empreendida por uma senhora francesa, Madame Bisson, viúva de Adolphe Bisson,

conhecido homem público. É possível que Madame Bisson venha a ocupar um lugar

ao lado de sua compatriota Madame Curie nos anais da ciência. Madame Bisson

adquiriu considerável influência sobre Eva que, após as experiências de Argel, tinha

sido vítima das costumeiras perseguições. Tomoua

aos seus cuidados e proveua

de

tudo. Então começou uma série de experiências que duraram cinco anos e que

produziram resultados tão sólidos que no futuro, não uma ciência, mas várias,

marcarão daí a sua origem. Nessas experiências associouse

com o Doutor Schrenck

Notzing, um cientista alemão de Munique, cujo nome também será imperecível, no

que se relaciona com a original investigação do ectoplasma. Seus estudos se

realizaram entre 1908 e 1913 e se acham registrados em seu livro “Os Chamados

Fenômenos de Materialização” e em “Fenômenos de Materialização”, de Schrenck

Notzing, ambos em francês, e este último vertido para o inglês.

Seu método consistia em fazer Eva C. mudar toda a roupa, sob controle, e

vestir uma espécie de camisola sem botões, e fechada pelas costas. Apenas as mãos

e os pés ficavam livres. Assim era levada para a sala de experiências, onde não

entrava senão nessa ocasião. Numa das extremidades da sala havia um recanto

fechado por cortinas, por detrás, pelos lados e por cima, mas aberto pela frente. Isto

era chamado a cabine e a sua finalidade era concentrar os vapores de ectoplasma.

Descrevendo os seus resultados conjugados, diz o cientista alemão:

“Muitas vezes fomos capazes de verificar que, por um processo biológico

desconhecido, vem do corpo da médium um material, a princípio semifluído, que

possui algumas das propriedades da substância viva, principalmente a do poder de

transformação, de movimento e de aquisição de formas definidas” . E acrescenta:

“Poderia duvidarse

da verdade desses fatos, se os mesmos não tivessem sido

verificados centenas de vezes no curso de laboriosos ensaios sob variadas e estritas

condições” . Poderia haver, no que diz respeito a essa substância, mais completa

vingança para os Espíritas que, durante duas gerações suportaram o ridículo do

mundo? Schrenck Notzing termina o seu digno prefácio exortando os seus

companheiros de trabalho a tomarem coragem. “Não permitais o desencorajamento

nos vossos esforços para abrir um novo domínio à ciência, nem pelos ataques

malucos, nem pelas calúnias covardes, nem pela falsificação dos fatos, nem pela

violência dos malévolos ou por qualquer espécie de intimidação. Avançai sempre

pelo caminho que abristes, tendo em mente aquelas palavras de Faraday: ‘Nada é

demasiado maravilhoso para ser verdadeiro’.”

Os resultados estão entre os mais notáveis de todas as investigações de que

temos notícia.

Foi verificado por numerosas testemunhas competentes e confirmado por

fotógrafos que da boca, dos ouvidos, do nariz, dos olhos e da pele dos médiuns fluía

esse extraordinário material gelatinoso. As figuras são estranhas e repulsivas; mas

muitos dos processos da Natureza assim se apresentam aos nossos olhos. A gente

pode ver essa coisa como filamentos viscosos, como água de súbito congelada,

pendente do queixo, caindo pelo corpo, formando um avental branco ou se

projetando sem forma pelos orifícios da face.

241 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

Quando tocada, ou quando uma luz inadequada a atinge, ela se recolhe tão

ràpidamente e tão maravilhosamente quanto os tentáculos de um polvo invisível. Se

agarrada e apertada, o médium gritará. Ela sai pelas roupas e somese

de novo, quase

sem deixar traços. Com o consentimento do médium foi cortada uma pequena

porção. Dissolveuse

na caixa em que foi colocada, como se fosse neve, deixando

umidade e algumas células que poderiam provir de um fungo. O microscópio

demonstrou células epiteliais da membrana mucosa, das quais a coisa parecia

originarse.

A produção desse estranho ectoplasma basta, por si só, para tornar essas

experiências revolucionárias e marcantes de uma época, mas o que se segue é

demasiado estranho e responderá à pergunta que se ergue na mente do leitor: “Que

tem tudo isso que ver com os Espíritos?“ Por mais incrível que isto possa parecer,

depois de se formar, essa substância começa, nalguns médiuns — Eva entre estes —

a tomar formas definidas e essas formas são membros humanos, são rostos, a

princípio vistos em duas dimensões, mas depois se modelando nos contornos até se

tornarem destacados e completos. Muitíssimas fotografias mostram esses estranhos

fantasmas, por vezes muito menores do que na vida real. Algumas dessas faces

talvez representem pensamentos — formas do cérebro de Eva, tornandose

visíveis e

uma clara semelhança foi notada entre algumas delas e retratos que ela deve ter visto

e cujos traços teria conservado na memória. Uma, por exemplo, parece um

Presidente Wilson muito janota, de bigodes, enquanto outra parece uma reprodução

feroz de Mr. Poincaré. Uma delas mostra a palavra “Miroir” (Espelho) impressa na

cabeça da médium, que alguns críticos pretendem que ela tivesse surrupiado do

jornal daquele nome, a fim de o exibir, muito embora não expliquem qual teria sido

o objetivo. Sua própria explicação é que, de algum modo os guias fizeram o

transporte daquela legenda, possivelmente para despertar a ideia de que aqueles

rostos e aquelas figuras não são os seus seres reais, mas como se fossem vistos

através de um espelho.

Mesmo assim o leitor não descobre uma óbvia conexão com o Espiritismo;

mas na etapa seguinte todos vemos o caminho. Quando Eva se acha em sua melhor

disposição — o que só se verifica em longos intervalos e à custa de sua saúde —

formamse

figuras completas; estas são modeladas à semelhanças de pessoas mortas;

o cordão que as liga à médium partese;

a personalidade que é ou pretende ser a de

um morto toma posse da figura e um sopro de vida passa pela imagem de tal

maneira que ela se move, fala e exprime as emoções do Espírito. As últimas palavras

de Mr. Bisson dizem isto: “Desde que se iniciaram estas sessões — e em numerosas

ocasiões — o fantasma se mostrou todo inteiro, saiu da cabine, começou a falar e

aproximouse

de Madame Bisson, que beijou no rosto, O som desse beijo foi

audível”.

Porventura já houve mais estranho desfecho de uma investigação científica?

Ela pode ilustrar como é impossível, mesmo para o mais esperto materialista,

encontrar qualquer explicação para tais fatos de acordo com as suas teorias. A única

que Mr. Joseph Mc Cabe, em seu recente debate público, pôde apresentar, foi a de

um caso de vômitos dos alimentos.

Parece que ele não se apercebeu de que um véu cobria o rosto do médium

nalgumas experiências, sem obstar no mínimo o fluxo do ectoplasma.

242 – Ar thur Conan Doyle

Conquanto controlados de todos os modos possíveis, esses resultados são

tão admiráveis que o investigador tinha o direito de manter o seu julgamento em

suspenso até que os mesmos fossem confirmados. Mas isto já o foi inteiramente. O

Doutor Schrenck Notzing voltou a Munique e aí teve a grande sorte de encontrar

outra médium, uma senhora polonesa, que possuía a faculdade de materializações.

Com ela fez uma série de experiências que relatou no já mencionado livro.

Trabalhando com Stanislawa, a médium polonesa, e adotando os mesmos rigorosos

métodos que nas de Eva, conseguiu exatamente os mesmos resultados.

Seu livro supera o de Madame Bisson, por isso que, relatando as

experiências de Paris, dá uma parte mais importante, que é a sua confirmação

fornecida pelas experiências de controle, feitas no verão de 1912, em Munique. As

várias fotografias do ectoplasma dificilmente se distinguem das já obtidas. Assim, a

hipótese de uma fraude preparada por Eva, conduz à mesma fraude por parte de

Stanislawa. Muitos observadores alemães controlaram essas sessões.

Seguindo os métodos alemães, Schrenck Notzing foi mais a fundo no

assunto do que Madame Bisson. Obteve cabelos de uma forma materializada e os

comparou microscôpicamente com os cabelos de Eva (ocorrência verificada na série

de ensaios na França) mostrando que não podiam ser da mesma pessoa. Também

deu os resultados do exame químico de uma certa porção de ectoplasma, que foi

reduzida a cinzas, com o cheiro de chifre queimado. Entre os seus elementos

constituintes foram encontrados cloreto de sódio (sal de cozinha) e fosfato de cálcio.

Finalmente obteve a filmagem do ectoplasma fluindo da boca da médium. Parte de

tudo isto é reproduzida em seu livro.

Deve explicarse

que, enquanto a médium estivesse em transe durante essas

experiências, de modo algum ficava inanimada: uma outra personalidade parecia

empolgála,

e que poderia ser tomada como uma de suas individualidades

secundárias, ou uma momentânea obsessão externa. Essa personalidade costumava

referirse

à médium com severidade, dizendo a Madame Bisson que era preciso

disciplina e que ela devia mantêla

em trabalho. Ocasionalmente essa personalidade

dava sinais de clarividência, explicando corretamente, por exemplo, o que tinha

ocorrido com um aparelho elétrico que havia deixado de funcionar. Um contínuo

acompanhamento de gemidos e protestos do corpo de Eva parece que eram

puramente animais e independentes de sua inteligência.

Os resultados foram corroborados uma vez mais pelo Doutor Gustave

Geley, cujo nome viverá para sempre nos anais das pesquisas psíquicas. O Doutor

Geley era um pesquisador geral em Annecy, onde cumpria as elevadas promessas

que havia feito em sua vida acadêmica em Lyon. Foi atraído pela ciência nascente e

foi sàbiamente nomeado por Mr. Jean Meyer diretor do Instituto de Metapsíquica.

Seu trabalho e os seus métodos serão sempre um exemplo para os continuadores,

pois cedo mostrou que não só era um experimentador genial e um observador

rigoroso, como um profundo pensador e filósofo.

Seu grande livro “Do Inconsciente ao Consciente” certamente resistirá ao

teste do tempo. Foi assaltado pelos costumeiros mosquitos humanos, que aborrecem

os primeiros pioneiros que avançam pela floresta virgem do pensamento. Mas os

enfrentou com bravura e bom humor.

243 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

Sua morte foi súbita e trágica. Tinha estado em Varsóvia e conseguido

algumas novas moldagens ectoplásmicas com o médium Kluski. Infelizmente o

aeroplano em que viajava espatifouse

e Geley morreu. Foi uma perda irreparável

para a ciência psíquica.

A comissão do Instituto de Metapsíquica, que era reconhecida pelo

Governo Francês como de utilidade pública, incluía o Professor Charles Richet; o

Professor Santolíquido, ministro da Saúde Pública da Itália; o Conde de Grammont,

do Instituto de França; o Doutor Calmette, InspetorGeral

médico; o Senhor Camille

Flammarion, o Senhor Jules Roche, exministro de Estado; o Doutor Treissier, do

Hospital de Lyon; tendo o Doutor Gustave Geley como diretor. Entre estes

posteriormente tinham sido incorporados a comissão: Sir Oliver Lodge, o Professor

Bozzano, e o Professor Leclainche, membro do Instituto de França e Inspetor Geral

dos Serviços Sanitários do Ministério da Agricultura. O Instituto está equipado com

um bom laboratório para pesquisas psíquicas e tem uma biblioteca, uma sala de

leitura, e salões de recepção e de conferências. Os trabalhos realizados são

publicados na sua revista, denominada La Revue Métapsychique.

Um aspecto importante da atividade do Instituto tem sido o convite a

eminentes homens públicos em ciência e em literatura para testemunharem as

investigações metapsíquicas que se realizam. Mais de cem destes homens têm tido

provas em primeira mão e, em 1923, trinta deles, inclusive dezoito médicos de

destaque, assinaram e permitiram que fosse publicada uma declaração de sua crença

na autenticidade das manifestações assistidas sob rigoroso controle.

Certa vez o Doutor Geley realizou uma série de sessões com Eva,

convidando cem homens de ciência para que testemunhassem uma ou outra sessão.

Tão rigorosos eram os seus testes que ele pôde proclamar: “Não direi apenas que

não há fraudes. Direi que não há possibilidade de fraudes” . Novamente percorreu o

antigo caminho e obteve os mesmos resultados, a não ser que em suas experiências o

fantasma tomava formas femininas, por vezes belas e, como ele próprio garantiu ao

autor, para ele desconhecidas. Podem ser pensamentosformas

de Eva, pois em

nenhum de seus resultados registados conseguiu um Espírito absolutamente vívido.

Havia, porém, o suficiente para que o Dr. Geley dissesse: “ Aquilo que vimos mata o

materialismo. Já não há mais lugar para ele no mundo” .

Referese

ele, assim, ao velho materialismo clássico do período vitoriano,

para o qual o pensamento era uma secreção da matéria. Todas as novas provas

apontam a matéria como uma resultante do pensamento. E’ sómente quando se

pergunta de quem é o pensamento que se cai num terreno de debate.

Depois de suas experiências com Eva, o Dr. Geley conseguiu resultados

ainda mais maravilhosos com Frank Kluski, um polonês, com o qual as formas

ectoplásmicas eram tão sólidas que era possível tirar moldagens de suas mãos em

parafina. Essas luvas de parafina, que são exibidas em Londres 143 , são tão pequenas

no pulso que a mão não poderia passar pela abertura sem romper o molde.

Só poderia ter sido feita por desmaterialização — qualquer outro meio seria

impossível.

143 Luvas semelhantes achamse

no Psychic College, 595 Holland Park, W. ou no Psychic Museum,

Abbey House, Victoria Street, Westminster.

244 – Ar thur Conan Doyle

Essas experiências foram dirigidas por Geley, Richet e o Conde de

Graminont, três homens competentíssimos. Uma descrição mais detalhada destas e

de outras moldagens, tiradas de figuras ectoplásmicas, se acha adiante, no Capítulo

XX. São muito importantes, por serem as mais permanentes e inegáveis provas,

jamais obtidas dessas estruturas. Até agora nenhuma crítica racional lhes foi feita.

Outro médium polonês, chamado Jean Guzik, foi examinado em Paris, no

Instituto, pelo Dr. Geley. As manifestações consistiam em luzes, mãos e rostos

ectoplásmicos. Sob o mais severo controle, trinta e quatro pessoas distintas de Paris,

muitas das quais inteiramente cépticas, afirmaram, depois de longa e minuciosa

investigação, a sua crença na autenticidade dos fenômenos observados com esse

médium. Entre elas se achavam membros da Academia Francesa, da Academia de

Ciências, da Academia de Medicina, doutores em medicina e em direito e técnicos

de polícia.

O ectoplasma é a mais protéica das substâncias e pode manifestarse

de

muitas maneiras e com propriedades variadas. Isso foi demonstrado pelo Doutor W.

J. Crawford, Professor de Engenharia Mecânica na Queen’s University, de Belfast.

Dirigiu uma importante série de experiências de 1914 a 1920, com a médium

Kathleen Goligher. Fez o seu relato em três livros, que são: “lhe Reality of Psychic

Phenomena” (1917), “Experiments in Psychical Science”, em 1910 e “lhe Psychic

Structures at Lhe Goligher Circle” em 1921 144 .

O Doutor Crawford morreu em 1920, mas deixou um monumento

imperecível nesses três livros de original pesquisa experimental que, provavelmente,

fizeram tanto para colocar a ciência psíquica numa base sólida quanto quaisquer

outros trabalhos no gênero.

Para entendermos completamente as conclusões a que chegou, seus livros

devem ser lidos; mas aqui diremos resumidamente que ele demonstrou que a

levitação da mesa, as batidas no chão e o movimento dos objetos na sala das sessões

eram devidos à ação das “alavancas psíquicas”, ou, conforme passou a designálas

em seu último livro, às “estruturas psíquicas”, que emanavam do corpo da médium.

Quando a mesa é levitada, essas alavancas são operadas em dois sentidos. Se a mesa

for leve, a alavanca ou estrutura não toca no solo, mas é “um modilhão fixado

firmemente no corpo da médium por uma extremidade e suspendendo a superfície

inferior ou as pernas da mesa, pela extremidade livre”. No caso de uma mesa pesada,

a reação, em vez de ser aplicada na médium, o é no piso da sala, formando uma

espécie de suporte entre a face inferior da mesa levitada e o piso. A médium foi

colocada numa balança e, quando a mesa era levitada, observava que ela aumentava

de peso.

O Doutor Crawford apresenta esta interessante hipótese para o processo de

formação de ectoplasma no grupo. É preciso entenderse

que o que ele chama

“operadores” são os Espíritos que trabalham controlando os fenômenos. “Os

operadores atuam no cérebro dos assistentes e, pois, em seu sistema nervoso.

Pequenas partículas, mesmo moléculas, são expelidas do sistema nervoso dos

corpos dos assistentes, pelos punhos, pelas mãos, pelos dedos ou por outras partes.

144 “A Realidade dos Fenômenos Psíquicos” (1917); “Experiências em Ciéncia Psíquica” (1919) e “As

Estruturas Psíquicas no Grupo Goligher”, em 1921. — N. do T.

245 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

Essas pequenas partículas, agora livres, têm uma enorme quantidade de força

latente, que lhes é inerente, uma energia que pode reagir em qualquer sistema

nervoso humano com o qual se ponham em contacto. Essa corrente de partículas

energizadas flui em torno do grupo, talvez pela periferia de seus corpos. Pelo

aumento gradativo produzido pelos assistentes, a corrente alcança o médium num

alto grau de tensão, energiza o médium, de quem recebe incremento, atravessa

novamente o círculo e assim por diante. Finalmente quando a tensão é bastante

grande, cessa o processo circulatório e as partículas energizadas se reúnem, ou são

ligadas ao sistema nervoso do médium, que então dispõe de um reservatório onde a

buscar. Tendo assim um bom suprimento de energia adequada ao seu dispor, como,

por exemplo, energia nervosa, podem atuar sobre o corpo do médium, que é de tal

modo constituído que enorme quantidade de matéria de seu corpo, por meio da

tensão nervosa que lhe é aplicada, pode ser então destacada temporàriamente da

sua posição normal e projetada na sala da sessão”. 145

Esta será, provàvelmente, a primeira tentativa de uma explicação clara do

que ocorre numa sessão de fenômenos físicos, e épossível que descreva com muita

precisão aquilo que realmente ocorre. No seguinte resumo o Doutor Crawford faz

uma importante comparação entre as primeiras e as últimas manifestações psíquicas

e ainda enuncia uma audaciosa mas compreensível teoria para todos os fenômenos

psíquicos: “Comparei aquela matéria esbranquiçada e semelhante a uma nuvem,

quanto a estrutura, com fotografias de fenômenos de materialização em vários

estágios e obtidos com muitos médiuns, diferentes em todo o mundo. Cheguei á

conclusão de que esse material é muito semelhante, senão idêntico ao material

usado em tais fenômenos de materializações. De fato, não é fora de propósito

considerar esse material esbranquiçado, translúcido e nebuloso como a base de

todos os fenômenos psíquicos de ordem física. Sem ele, até certo ponto não é

possível qualquer fenômeno físico. É ele que dá consistência ás estruturas de toda

sorte erigidas pelos operadores nas câmaras de sessões; é ele que, quando

convenientemente manipulado e aplicado, permite que as estruturas se ponham em

contacto com as formas ordinárias da matéria que nos são familiares, ainda que

tais estruturas, sejam semelhantes àquelas a que me refiro particularmente, ou

quando sejam materializações de formas corpóreas, como mãos ou rostos. Além

disso, pareceme

que essa matéria será, eventualmente, a base de estruturas

aparentemente construídas para a manifestação daquela forma particular de

fenômeno, conhecido como Voz Direta, enquanto que os fenômenos ditos Fotografia

de Espíritos também parecem ter a mesma base” . 146

Enquanto Crawford trabalhava com as alavancas ectoplásmicas em Belfast,

o Doutor Geley controlava os resultados obtidos de Eva C. por uma nova série de

experiências. Assim resume ele as suas observações sobre os fenômenos

observados: “Uma substância emana do corpo da médium; exteriorizase;

é amorfa

ou polimorfa à primeira vista. Essa substância toma várias formas, mas em geral

mostra órgãos mais ou menos compósitos. Podemos distinguir: 1) a substância

como um trato da materialização; 2) seu desenvolvimento organizado. Seu

145 “The Reality of Psychic Phenomena”, página 243.

146 “The Psychic Str uctur es at the Goligher Cir cle”, página 19.

246 – Ar thur Conan Doyle

aparecimento em geral é anunciado pela presença do fluído, como flóculos

esbranquiçados e luminosos, que vão desde o tamanho de uma ervilha até o de uma

moeda de cinco francos e distribuídos aqui e ali, sobre o vestido preto da médium,

principalmente do lado direito... A própria substância emana de todo o corpo da

médium, mas especialmente dos orifícios naturais e das extremidades, do topo da

cabeça, do peito e das pontas dos dedos. A origem mais comum, a mais facilmente

observada, é a boca... A substância aparece de várias formas, por vezes como uma

pasta dúctil outras vezes como verdadeira massa protoplásmica ou em forma de

numerosos fios muito finos ou de cordas de várias grossuras, ou, ainda, como raios

estreitos e rígidos, como faixas largas, como uma membrana, como um material de

lã, de linhas indefinidas e irregulares. A mais curiosa aparência é apresentada por

uma membrana muito espichada, com franjas e dobras e com a aparência de um

alçapão. A quantidade de matéria exteriorizada varia dentro de largos limites.

Nalguns casos envolve completamente a médium num manto. Pode ter três cores

diferentes: branco, preto e cinza. A côr branca é mais frequente, talvez por ser mais

facilmente observável. Por vezes as três cores aparecem simultaneamente. A

visibilidade da substância varia muito e pouco a pouco pode crescer ou diminuir de

intensidade. Dá várias impressões ao toque. Por vezes é fria e úmida; outras vezes

viscosa e consistente; mais raramente sêca e dura. .. A substância é móvel. Por

vezes se move lentamente, para cima e para baixo, através do médium, nos ombros,

no peito, nos joelhos, num movimento sinuoso de réptil. Outras vezes os movimentos

são súbitos e rápidos. A substância aparece e desaparece como relâmpago e é

extraordinariamente sensitiva. É sensitiva á luz.”

Só nos foi possível dar uma parte da magistral análise descrita pelo Doutor

Geley. Sua passagem final trata de um aspecto importante: “Durante todo o

fenômeno da materialização, o produto formado está em óbvia conexão fisiológica e

psíquica com a médium. A conexão fisiológica por vezes é perceptível sob a forma

de um fino cordão, ligando a estrutura á médium, o que pode ser comparado ao

cordão umbilical, que liga o feto à mãe. Mesmo quando esse cordão não é visível, a

relação fisiológica é sempre estreita. Cada impressão recebida através do

ectoplasma reage sobre a médium e viceversa.

A sensação reflexa da estrutura

coexiste com a da médium. Numa palavra, tudo prova que o ectoplasma é a parte

exteriorizada da própria médium.”

Comparando as minúcias desta descrição com as que foram dadas à entrada

deste capítulo, verseá

imediatamente quão numerosos são os pontos de

semelhança. O ectoplasma sempre foi, fundamentalmente, a mesma coisa. Depois

dessas afirmações não será o cepticismo, mas a pura ignorância que negará a

existência desse estranho material.

Eva C. veio a Londres, como foi dito, e realizou trinta e oito sessões sob os

auspícios da Sociedade de Pesquisas Psíquicas, mas o relatório 147 é um documento

muito contraditório e insatisfatório. O Doutor Schrenck Notzing pôde ainda

demonstrar, através de um outro médium, a existência do ectoplasma, e os

resultados corresponderam, de um modo geral, aos obtidos em Paris. Era um

rapazinho de catorze anos, chamado Willie S. No caso de Willie, mostrou o Doutor

147 SOCIETY FOR PSYCHICAL RESEARCH Proceedings, volume 32º, páginas. 209 e 343.

247 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

Schrenck Notzing essa substância a uma centena de agudos observadores, nenhum

dos quais foi capaz de negar a evidência de seus próprios sentidos. Entre os que

assinaram uma declaração afirmativa estavam os professôres ou exprofessôres

de

Jena, Giessen, Heidelberg, Munique, Tübingen, Upsala, Friburgo, Basiléia e outras

universidades, além de bom número de famosos físicos, neurologistas e cientistas de

toda espécie.

Assim, não se pode dizer que haja dúvida quanto à sua existência. Contudo,

não pode ser produzido por ordem nossa. É uma operação delicada, que pode falhar.

Assim vários experimentadores, principalmente um pequeno grupo da Sorbonne,

falhou. Aprendemos que são exigidas pessoas adequadas e condições apropriadas, e

que estas mais mentais e espirituais do que químicas. Uma atmosfera harmoniosa

favorece, ao passo que uma desafinada ou antagônica prejudicará ou inutilizará

totalmente a sua manifestação. Nisto ele mostra as suas afinidades espirituais e que

também difere dos produtos puramente físicos.

Que é ele? Ele toma forma. Quem determina essa forma? Será a mente do

médium em transe? A mente dos observadores? Ou alguma outra mente

independente? Entre os experimentadores temos uma escola material que insiste em

que estamos encontrando uma extraordinária propriedade latente do corpo normal;

temos uma outra escola, a qual pertence o autor, que acredita que estamos atingindo

um elo que deve ser parte de uma cadeia que nos conduz a uma nova ordem de vida.

Deveria acrescentarse

que nada de tudo isto foi desconhecido dos velhos

alquimistas da Idade Média. Esse fato interessantíssimo foi trazido à luz por Mr.

Foster Damon, da Universidade de Harvard, que publicou uma série de resumos dos

trabalhos de Vaugham, filósofo que viveu pelas alturas de 1650, nos quais sob o

nome de “MatériaPrima”,

ou de “Mercúrio” é descrita uma substância que possui

todas as características do ectoplasma. Eram aqueles dias em que, entre a Igreja

Católica de um lado, e os descobridores de feiticeiros dos Puritanos, do outro, os

caminhos dos pesquisadores psíquicos se tornavam muito difíceis. Eis porque os

químicos daqueles dias disfarçavam o seu saber sob nomes fantásticos, em

consequência do que morreu aquele conhecimento.

Quando verificamos que pelo Sol significavam o operador, pela Lua o

paciente, pelo Fogo, a força mesmérica ou magnética, e pelo Mercúrio o ectoplasma

resultante, adquirimos a chave de alguns de seus segredos.

O autor tem visto com frequência o ectoplasma em forma vaporosa, mas

apenas uma vez solidificado. 148

Foi numa sessão com Eva C., sob a direção de Madame Bisson.

Naquela ocasião essa estranha e variável substância apareceu como um

pedaço de matéria de quinze centímetros, não muito diverso de um segmento de

cordão umbilical, aderente às roupas na região inferior do estômagosto Era visível

em boa luz e o autor teve licença de o examinar entre os dedos, quando lhe foi dada

a impressão de substância viva, que se encolhia e pulsava sob o toque. Nessa ocasião

não havia a menor possibilidade de fraude.

É impossível contemplar os fatos conhecidos acerca do ectoplasma sem ver

como se apresentam na fotografia psíquica. As figuras fotografadas junto a Eva, com

148 Salvo os numerosos casos de materializações ocasionais de mãos e de rostos.

248 – Ar thur Conan Doyle

a sua vaporosa aparência de lã, são muitas vezes absolutamente como as fotografias

obtidas por Mr. Hope e outros. A mais racional opinião parece ser que, uma vez

formado, o ectoplasma pode ser modelado pelo pensamento e que esse pensamento,

nos casos mais simples, será apenas a mente inconsciente do médium. Por vezes nós

mesmos nos esquecemos de que somos Espíritos e de que um Espírito num corpo

possivelmente tem poderes semelhantes ao de um Espírito fora do corpo. Nos casos

mais complexos, e especialmente na fotografia psíquica, é demasiadamente claro

que não é o espírito da médium que está operando, mas sim, alguma força mais

poderosa e propositada que intervém.

Pessoalmente o autor é de opinião que muitas formas diferentes de plasma,

com atividades diversas serão descobertas, tudo isto constituindo uma especial

ciência no futuro, e que bem pode ser chamada Plasmologia. Pensa ele também que

todos os fenômenos psíquicos externos ao médium, inclusive a clarividência, podem

ser referidos a essa fonte.

Assim, o médium clarividente pode muito bem ser quem emite essa ou

outra substância análoga, que constrói em redor dele uma atmosfera especial que

possibilita que o Espírito se manifeste àqueles que têm poder de recepção. Assim

como ao passar pela atmosfera da Terra um aerólito é visível por um momento entre

duas eternidades de invisibilidade, também pode ser que o Espírito, ao passar pela

atmosfera psíquica do médium de ectoplasma, pode por momentos indicar a sua

presença. Tais especulações estão acima das provas atuais, mas Tyndall mostrou

como tais hipóteses exploratórias podem tornarse

pontas de lança da verdade. A

razão por que umas pessoas vêem um fantasma e outras não, talvez seja porque

algumas forneçam bastante ectoplasma para uma manifestação e outras não,

enquanto a sensação de frio, o tremor e o subsequente desmaio, talvez sejam devidos

não a um simples terror, mas parcialmente a uma súbita descarga de elementos

psíquicos.

De lado essas especulações, o sólido conhecimento do ectoplasma, que já

foi adquirido, dános,

finalmente, uma sólida base material para a pesquisa psíquica.

Quando o Espírito desce a matéria, necessita dessa base material, sem o que lhe é

impossível impressionar os nossos sentidos materiais. Já em 1891 Stainton Moses,

pioneiro do psiquismo em seus dias, foi forçado a dizer: “Não sei mais nada, a

respeito do método ou métodos pelos quais são produzidas as formas

materializadas, do que sabia quando as vi pela primeira vez” . Se ainda estivesse

vivo, dificilmente diria isso agora.

Esse conhecimento novo e preciso teve a utilidade de nos dar uma

explicação racional daquelas batidas, que foram os primeiros fenômenos a chamar a

atenção. Seria prematuro dizer que elas só por uma maneira podem ser produzidas;

mas, ao menos, pode dizerse

que o seu processo usual de produção é o da extensão

de uma alavanca de ectoplasma, que pode ser visível ou não, e pela sua percussão

nalgum objeto sólido. É provável que essas alavancas sejam os condutores de força e

não forças prôpriamente ditas, do mesmo modo que um fio de cobre pode levar uma

descarga elétrica, que desintegra um navio de guerra.

Numa de suas admiráveis experiências, Crawford, verificando que as

alavancas vinham do peito da médium, molhou a sua blusa com um líquido

carmesim e depois pediu que batessem na parede fronteira. Então foi verificado que

249 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

o muro estava com alguns pontos vermelhos, pois a projeção ectoplásmica havia

carregado consigo a tinta através, da qual havia passado. Do mesmo modo, quando

autênticas, as batidas na mesa parecem devidas a uma acumulação de ectoplasma em

sua superfície, retirada dos vários assistentes e depois utilizada pela inteligência que

preside. Crawford admitia que as projeções por vezes deveriam possuir ventosas ou

garras nas extremidades, de modo a mover ou levantar objetos; e o autor,

posteriormente, obteve várias fotografias dessas formações, que mostram claramente

que terminam com o topo plano, que se presta a tal objetivo.

Crawford deu grande importância à correspondência entre o peso do

ectoplasma emitido e a perda de peso do médium. Suas experiências parecem

mostrar que todos são médiuns; que cada um perde peso numa sessão de

materialização, e que o médium principal apenas difere dos outros pela circunstância

de poder desprender muito maior quantidade de ectoplasma.

Se perguntarmos por que um ser humano terá que ser diferente de outro a

esse respeito, chegamos à eterna controvérsia do por que este tem um ótimo ouvido

para a música, enquanto aquele é uma negação. Devemos considerar esses atributos

pessoais. tais quais os encontramos. Nas experiências de Crawford, habitualmente a

médium perdia de 10 a 15 libras numa sessão — peso que se restaurava assim que o

ectoplasma era reabsorvido.

Numa ocasião foi registrada a enorme perda de cinquenta e duas libras.

Poderseia

pensar que as balanças então estivessem descalibradas, se se não

tivessem registrado perdas ainda maiores, com outros médiuns, como foi o caso

descrito nas experiências de Olcott com os Eddys.

Há outras propriedades das projeções ectoplásmicas que deveriam ser

notadas. Não só a luz lhes é destrutiva, a menos que sejam gradativamente

alimentadas e especialmente preparadas com antecedência pelos guias, mas o efeito

de um súbito jato de luz faz a substância recuar para o médium, com á força de um

elástico. Isto não é absolutamente uma alegação falsa, visando proteger o médium

contra uma surpresa: é um fato certo, que tem sido verificado por muitos

observadores. Qualquer esperteza com ectoplasma, a menos que se tenha certeza de

que haja fraude na sua produção, deve ser evitada, e agarrar à força uma trombeta ou

qualquer outro objeto sustentado pelas alavancas ectoplásmicas é quase tão perigoso

quanto a sua exposição à luz. O autor se lembra de um caso onde um assistente

ignorante arrancou a trombeta, que flutuava no ar, a sua frente, dentro do círculo.

Fêlo

em silêncio; ninguém sofreu com isto senão o médium, que se queixou de

dores e prostrouse

durante alguns dias. Outro médium sentiu uma irritação

superficial, do peito ao ombro, causada pela retração da faixa ectoplásmica, quando

um pretenso investigador acendeu uma lanterna elétrica. Quando o ectoplasma se

retrai sobre uma superfície mucosa, pode determinar uma forte hemorragia, como

tem notícia o autor de numerosos casos semelhantes. Num deles, o de Susanna

Harris, em Melbourne, a médium ficou de cama uma semana depois de tal

experiência.

É impossível, num simples capítulo de um trabalho que cobre tão vasto

assunto, dar pontos de vista minuciosos de uma seção desse assunto, que se pode

desenvolver num volume. Nosso conhecimento dessa substância enganadora,

protéica, onímoda, aumenta de ano para ano e pode profetizarse

que se a última

250 – Ar thur Conan Doyle

geração se preocupou com o protoplasma, a futura geração será aumentada com o

seu equivalente psíquico que, assim o esperamos, reterá o nome de ectoplasma, dado

por Charles Richet, embora vários outros vocábulos, como plasma, teleplasma e

ideoplasma infelizmente tenham entrado em circulação.

Depois que este capítulo foi escrito, novas demonstrações do ectoplasma

foram realizadas em diversas partes do mundo. A mais notável, entretanto, foi a de

“Margery” ou de Mrs. Crandon, de Boston, cujos dons foram tratados no livro de

Mr. Malcolm Bird, que traz aquele nome.

251 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

19

Fotografia Espírita

primeiro relato autêntico da produção daquilo que é chamado fotografia

espírita data de 1861. O resultado foi obtido por William H. Mumler, em

Boston, nos Estados Unidos. Dizse

que em 1851, na Inglaterra, Richard

Boursnell fez uma experiência semelhante, mas nenhuma fotografia dessa natureza

foi conservada. O primeiro exemplo na Inglaterra que se pode constatar ocorreu em

1872, com o fotógrafo Hudson.

Como o progresso do moderno Espiritismo, esse novo desenvolvimento foi

predito pelo Outro Lado. Em 1856 Mr. Thomas Slater, um óptico residente em

Euston Road 136, em Londres, realizava uma sessão com Lord Brougham e Mr.

Robert Owen, quando, por batidas, foi dito que chegaria o dia em que Mr. Slater

faria fotografias de Espíritos. Mr. Owen observou que se estivesse no mundo dos

Espíritos quando chegasse aquele dia, iria aparecer numa chapa. Em 1872, quando

Mr. Slater fazia experiências de fotografia espírita, ao que se diz, obteve numa chapa

o rosto de Mr. Robert Owen, bem como o de Lord Brougham 149 .

Alfred Russel Wallace viu essas chapas mostradas por Mr. Slater, e

escreve 150 . “O seu primeiro êxito consistiu em dois rostos obtidos ao lado do retrato

de sua irmã. Uma dessas cabeças, sem sombra de dúvida, é de Lord Brougham; a

outra, muito menos distinta, é reconhecida por Mr. Slater como a de Robert Owen,

que ele conhecia intimamente. até o momento de sua morte.”

Depois de descrever outras fotografias de Espíritos, obtidos por Mr. Slater,

continua o Doutor Wallace: “Agora, se essas figuras estão ou não identificadas

corretamente não é ponto essencial. O fato de que algumas figuras, tão claras e

indiscutivelmente humanas como essas, aparecem em chapas batidas no estúdio

particular de um óptico experimentado e fotógrafo amador que fabrica os seus

próprios aparelhos, e sem ninguém presente a não ser a sua própria família, —

constitui verdadeira maravilha. Num caso, um segundo rosto apareceu numa chapa

com ele, tomada por Mr. Slater quando se achava absolutamente só, pelo simples

processo de ocupar a cadeira de um assistente depois de preparada a máquina... O

próprio Mr. Slater mostroume

todas essas fotografias e explicou as condições em

que foram obtidas. É certo que não se trata de uma impostura e como primeiras

confirmações independentes do que antes havia sido obtido por fotógrafos

profissionais, seu valor é inestimável”.

De Mumler, em 1861 a William Hope, em nossos dias, apareceram de vinte

a trinta médiuns reconhecidos para fotografia espírita que, ao todo, produziram

centenas de resultados supranormais, que chegaram a ser considerados “extras”. O

149 “The Spir itualist”, Novembro de 1873.

150 “Mir acles and Moder n Spir itualism”, 1901, página 198.

O

252 – Ar thur Conan Doyle

mais conhecido desses sensitivos, além de Hope e de Mrs. Deane, são Hudsou,

Parkes, Willie, Buguet, Boursnell e Duguid.

Mumler, que trabalhava como gravador numa das principais joalherias de

Boston, não era espírita nem fotógrafo profissional. Em horas de folga, quando

tentava tirar fotografias de si mesmo, no atelier de um amigo, obteve numa chapa o

contôrno de uma outra figura. O método que empregava era focalizar uma cadeira

vazia e, depois de descobrir a objetiva, alcançar a cadeira escolhida e aí ficar durante

o tempo necessário à exposição. Nas costas da fotografia Mr. Mumler tinha escrito:

“Esta fotografia foi feita por mim mesmo, de mim mesmo, num domingo, quando

não havia viva alma na sala — por assim dizer. A forma à minha direita reconheço

como minha prima, morta há doze anos. W.

H. MUMLER”

A forma é de uma mocinha, que aparece sentada na cadeira. A cadeira é

vista com nitidez através do corpo e dos braços, como também a mesa na qual ela

apóia o braço. Abaixo do peito, diz um relato contemporâneo, a forma (que parece

usar um vestido decotado e sem mangas) se desagrega num tênue vapor, como

simples nuvens na parte inferior do retrato. É interessante notar pormenores nessa

primeira fotografia espírita, que se repetiram muitas vezes nas que foram obtidas

posteriormente por outros operadores.

Logo correu a notícia do que havia acontecido a Mumler e ele foi assediado

por pedidos de sessões. A princípio recusouse,

mas finalmente concordou e quando,

posteriormente, outros “extras” foram obtidos, e sua fama se espalhou, foi então

compelido a abandonar o seu negócio e a dedicarse

a esse novo trabalho. Como, de

um modo geral, as suas experiências foram como as de todos os fotógrafos psíquicos

que o sucederam, podemos considerálas

rapidamente.

Investigadores particulares de boa reputação obtiveram retratos

absolutamente reconhecíveis de amigos e parentes e ficaram inteiramente satisfeitos

porque os resultados eram genuínos. Então vieram os fotógrafos profissionais,

convencidos de que havia truques e que se lhes dessem oportunidade de fazer

experiências, sob suas próprias condições, seriam capazes de descobrir como a coisa

era feita. Vieram, um após outro, nalguns casos com as suas próprias chapas,

máquinas, reveladores e fixadores, mas depois de dirigirem e fiscalizarem todas as

operações, foram incapazes de descobrir qualquer truque. Mumler também foi aos

seus ateliers e lhes permitiu fazer todo o manejo bem como a revelação das chapas,

com os mesmos resultados. Andrew Jackson, que era então redatorchefe

do Herald

of Progress, em New York, mandou um fotógrafo profissional, Mr. William Guay,

fazer uma investigação completa. Este contou que, depois de lhe haver sido

permitido o inteiro controle de todo o processo fotográfico, apareceu na chapa o

retrato do Espírito.

Experimentou com esse médium em várias outras ocasiões e ficou

convencido de sua autenticidade.

Outro fotógrafo, Mr. Horace Weston, foi mandado a investigar por Mr.

Black, famoso fotógrafo retratista de Boston. Quando voltou, depois de haver obtido

uma fotografia de Espírito, disse que não tinha verificado coisa alguma nas

operações que fosse diferente dos que se fazia no trabalho ordinário dos fotógrafos.

Então Black foi em pessoa e fez todas as manipulações das chapas, bem como a sua

revelação. Quando examinava a revelação de uma delas, viu aparecer uma forma

253 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

além da sua e, finalmente, viu que era um homem que apoiava o braço sobre o seu

ombro e exclamou, entusiasmado: “Meu Deus! é possível?” Mumler teve mais

convites para sessões do que lhe era possível atender e os compromissos eram

marcados com semanas de antecedência. Vinham de todas as classes: ministros,

doutores, advogados, juizes, prefeitos, professôres e homens de negócio eram

contados entre as pessoas interessadas. Um relatório extenso dos vários resultados

positivos obtidos por Mumler se encontra na imprensa da época 151 .

Em 1863 Mumler, como tantos outros médiuns para fotografia espírita

desde a sua época, encontrou nas suas chapas “extras” de pessoas vivas. Seus

maiores defensores foram incapazes de aceitar esse novo e estranho fenômeno e,

conquanto mantivessem a crença em seus dons, ficaram convencidos de que ele

recorria aos truques. Numa carta ao Banner of Light, de Boston, de 20 de fevereiro

de 1863, referindose

a esse novo desenvolvimento, escreve o Doutor Gardner:

“Conquanto eu esteja inteiramente convencido de que, através de sua

mediunidade, foram tomados retratos de Espíritos, pelo menos em dois casos me

foram dadas provas de fraude, o que é perfeitamente conclusivo... Mr. Mumler, ou

alguém em contato na sala de Mrs. Stuart, é responsável pela trapaça contra as

autênticas fotografias de Espíritos, substituídas pelas de pessoas vivas desta

cidade.”

O que tornou o caso ainda mais convincente para os acusadores foi o fato

de o mesmo “extra” de uma pessoa viva aparecer em duas chapas. Esta falcatrua

ultrapassou as medidas da opinião pública contra ele e em 1868 Mumler partiu para

Nova Iorque. Aí o seu negócio prosperou durante algum tempo, até que foi preso por

ordem do prefeito de Nova Iorque, a pedido do repórter de um jornal, que havia

recebido uma fotografia com um “extra” irreconhecível. Depois de um processo

moroso foi absolvido, sem mancha no seu caráter.

As provas dos fotógrafos profissionais, que não eram espíritas, eram

fortemente favoráveis a Mumler.

Assim testemunhou Mr. Jeremiah Gurney: “Sou fotógrafo há vinte e oito

anos; testemunhei os processos de Mumler; e, con quanto tivesse ido preparado

para examinar a coisa, nada achei que cheirasse a fraude ou truque... A única coisa

fora da nossa rotina foi o fato do operador manter a mão sobre a máquina.”

Mumler, que morreu pobre em 1884, deixou uma narrativa interessante e

convincente de sua carreira, em seu livro “Personal Experiences of William H.

Muinler in Spirit Photography” 152 de que existe um exemplar no Museu Britânico.

Hudson, que obteve a primeira fotografia espírita na Inglaterra e da qual

temos prova objetiva, teria então sessenta e cinco anos de idade (em março de 1372).

A experiência era conduzida por Miss Georgiana Houghton, que descreveu

minuciosamente o incidente 153 .

Há um testemunho abundante do trabalho de Hudson. Mr. Thomas Slater,

já citado, levou sua própria máquina e chapas e, depois de minuciosa observação,

relatou que “trapaça ou truque estavam fora de cogitação”. Mr. William Howitt,

151 “The Spir itual Magazine”, 1862, página 562; 1863, páginas 34 a 41.

152 “Experiências Pessoais de William H. Mumler com Fotografia de Espíritos”. Boston, 1875 — N do T.

153 “Chr onicles of the Photogr aphs of Spir itual Beings”, etc. 1882, página 2.

254 – Ar thur Conan Doyle

desconhecido do médium, não foi anunciado; mas recebeu e reconheceu numa

fotografia “extras” de seus dois filhos mortos. E disse que as fotografias eram

“perfeitas e inconfundíveis”.

O Doutor Alfred Russel Wallace obteve uma boa fotografia de sua mãe.

Descrevendo sua visita 154 diz ele: “Estive em três sessões, em todas escolhendo o

meu próprio lugar. De cada vez uma segunda figura apareceu no negativo comigo.

A primeira era uma figura masculina, com um punhal; a segunda era um corpo

inteiro, aparentemente a alguns pés para o lado e por trás de mim, olhando para

baixo para mim e sustentando um ramo de flôres. Numa terceira sessão, depois de

me colocar e depois que a chapa fora colocada na máquina, pedi que a figura viesse

para junto de mim. A terceira chapa mostrou uma figura feminina, de pé, junto e em

frente a mim, de modo que o panejamento cobriu a parte inferior de meu corpo.

Assisti à revelação de todas as chapas e em cada caso a figura “extra” começou a

aparecer no momento em que o revelador era despejado, enquanto o meu retrato só

se tornava visível cerca de vinte segundos depois. Não reconheci nenhuma das

figuras nos negativos; mas no momento em que tirei as provas, ao primeiro relance

a terceira chapa mostrou um inconfundível retrato de minha mãe — como era, na

atitude e na expressão; não aquela semelhança de um retrato feito em vida, mas

algo pensativa, uma semelhança ideal — ainda assim, para mim, uma semelhança

inconfundível”.

Conquanto indistinto, o segundo retrato foi reconhecido pelo Doutor

Wallace como sendo de sua mãe. O primeiro “extra” de um homem não foi

reconhecido.

Mr. J. Traill Taylor, então redator do British Journal of photography,

testemunhou 155 que tinha obtido resultados supranormais

com esse médium, usando

as suas próprias chapas e que em nenhuma ocasião, durante a preparação, a

exposição ou a revelação dos retratos, Mr. Hudson se achava a menos de três metros

da máquina ou da câmara escura. Por certo isto deve ser aceito como prova.

Mr. F. M. Parkes, residente em Grove Road, Bow, no East End de Londres,

era um médium natural, que tinha visões verídicas desde a infância. Nada sabia de

Espiritismo até 1871 e no começo do ano seguinte fez experiências de fotografia

com seu amigo, Doutor Reeves, proprietário de um restaurante perto de King’s

Cross. Tinha então trinta e nove anos de idade. A princípio apenas marcas

irregulares e manchas de luz apareciam nas chapas; mas depois de três meses foi

obtido um Espírito, logo reconhecido, estando presentes o Doutor Sexton e o Doutor

Clarke, de Edimburgo. O Doutor Sexton convidou Mr. Bowman, de Glasgow,

fotógrafo experimentado, o qual fez um minucioso exame da máquina, da câmara

escura e do material usado. Feito isso, foi declarada impossível qualquer fraude da

parte de Parkes. Durante alguns anos esse médium não recebeu remuneração por

seus serviços. Mr. Stainton Moses, que dedicou um capítulo a Mr. Parkes 156 , assim

escreve:

“Folheando o álbum de Mr. Parkes, o mais notável ponto é a enorme

variedade das figuras; o seguinte é a dissemelhança entre todos eles e a forma

154 “Mir acles and Moder n Spir itualism”. (Revised Edition 1901), páginas 196 e 197.

155 “Br itish J our nal of Photogr aphy”, Agosto, 1873.

156 “Human Natur a”, 1875, página 152.

255 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

convencional dos fantasmas. Em cento e dez retratos que tenho diante dos olhos,

começados em abril de 1872 e, com ligeiros intervalos, obtidos até agora, não há

dois parecidos — raramente dois apresentam alguma semelhança entre si. Cada

desenho é peculiar e tem no rosto uma individualidade diferente”.

Afirma que um bom número dessas fotografias, foi identificado pelos

assistentes. Mr. Ed. Buguet, fotógrafo de Espíritos, era francês e visitou Londres em

junho de 1874; em seu estúdio, situado em Baker Street 33, houve muitas sessões

notáveis. Mr. Harrison, redator de The Spiritualist, fala de um teste empregado por

esse fotógrafo, que consistia em quebrar um canto da chapa e ajustar o pedaço,

depois que aquela era revelada. Mr. Stainton Moses descreve Buguet como um

homem magro e alto, de rosto inteligente e feições bem marcadas, com abundante

cabeleira negra. Dizse

que durante a exposição da chapa ele ficava em semitranse.

Os resultados psíquicos obtidos eram de mais alta qualidade artística e de maior

distinção que os obtidos por outros médiuns. Também uma grande percentagem de

Espíritos era reconhecida. Um curioso aspecto com Buguet era que de conseguia

numerosos retratos do “duplo” dos assistentes, tanto quanto de pessoas vivas mas

não presentes, aparecendo com ele no estúdio. Assim, enquanto se achava em

Londres no estado de transe, o retrato de Stainton Moses apareceu em Paris quando

Mr. Gledstones fazia uma experiência 157 .

Em abril de 1875 Buguet foi preso e acusado pelo governo francês de

produzir fraudulentas fotografias de Espíritos. Para salvarse

confessou que todos os

resultados obtidos eram truques. Foi condenado a pagar quinhentos francos de multa

e a um ano de prisão. Durante o processo um certo número de conhecidos homens

públicos sustentaram a sua opinião quanto à autenticidade dos “extras” que haviam

obtido, a despeíto de se dizer que Buguet havia usado comparsas para fingirem de

Espíritos. A verdade sobre fotografias espíritas não pára aí: os que têm interesse em

ler toda a história de sua prisão e seu processo 158 podem assim formar a própria

opinião. Escrevendo depois do processo, diz Mr. Stainton Moses: “Não só acredito

— mas sei, tão certo como sei outras coisas, que algumas das fotografias de Buguet

eram autênticas”.

Entretanto diz Coates que Buguet era um tipo sem valor. Certamente a

posição de um homem que apenas pode provar que não é um patife pelo fato de

haver feito uma falsa confissão por mêdo é um tanto fraca. O caso para a fotografia

espírita, sem ele, ficaria mais valorizado. Quanto à sua confissão, foi ela arrancada

criminosamente pelo Arcebispo da Igreja Católica de Toulouse, numa ação contra a

Revue Spirite, quando seu redator, Leymarie, foi acusado e condenado. Disseram a

Buguet que a sua salvação estava em confessar.

Assim constrangido, fez o que antes haviam feito tantas vítimas da

Inquisição: uma confissão forçada que, entretanto, não o salvou de doze meses de

cadeia.

Richard Boursnell (18321900)

ocupou uma posição preeminente no

período médio da história da fotografia espírita. Formava uma parceria com um

fotógrafo profissional em Fleet Street e dizem que tinha faculdades psíquicas e que

157 Idem, Volume 9º, página 97.

158 “The Spir itualist”, Volumes 6º e 7º (1875) and Humau Nature, Volume 9º, página 334.

256 – Ar thur Conan Doyle

eventualmente mãos e rostos apareciam em suas chapas, já em 1851. Seu

companheiro o acusou de não lavar convenientemente as chapas, ao tempo do

processo coloidal e, após uma discussão violenta, Boursnell disse que não mais

continuaria com esse negócio. Só quarenta anos mais tarde é que novamente

apareceram figuras psíquicas e, então, com formas extras, em suas fotografias, para

seu desapontamento, porque prejudicaram o seu negócio e ocasionaram a destruição

de muitas chapas. Foi com muita dificuldade que Mr. W. F. Stead o persuadiu a

realizar algumas sessões. Nas suas próprias condições, Mr. Stead obteve

repetidamente aquilo que o velho fotógrafo chamava “retratos de sombras”. A

princípio não eram reconhecidas, mas, por fim, foram obtidas algumas bem

identificadas. Mr. Stead forneceu detalhes das precauções observadas no preparo das

chapas, etc., mas diz que liga pouca importância a estas, considerando que o

aparecimento numa chapa de uma semelhança de um parente desconhecido ou de

um assistente desconhecido é um teste muito superior às precauções que um mágico

hábil ou um fotógrafo de truques pode ludibriar. E diz: “De vez em quando eu

enviava amigos a Mr. Boursnell, sem o informar quem eram eles, nem lhes dizer

coisa alguma acerca da identidade de pessoas mortas parentas ou amigas dos

recomendados, cujo retrato queriam obter; e, ao revelar as chapas, os retratos

apareciam, por vezes atrás, outras vezes em frente ao interessado. Isso acontecia

com tanta frequência que estou convencido de que qualquer fraude era impossível.

Uma vez aconteceu que um editor francês descobrisse o retrato de sua falecida

esposa num negativo que fora revelado; e ficou tão encantado que insistiu em beijar

o velho fotógrafo, com o que o deixou muito embaraçado. De outra feita foi um

engenheiro do Lancashire, também fotógrafo, que marcou as chapas e tomou outras

precauções. Obteve retratos de dois parentes e um outro de eminente personagem

com quem havia mantido estreitas relações. Ainda de outra foi um vizinho próximo

que, indo como um desconhecido, obteve o retrato de sua filha morta”.

Em 1903 os espíritas de Londres presentearam esse médium com uma bolsa

de ouro e um documento assinado por mais de cem espíritas notáveis. Nessa ocasião

as paredes das salas da Sociedade de Psicologia, em George Street, Portman Square,

estavam cobertas por trezentas fotografias escolhidas de Espíritos, feitas por

Boursnell. Em relação à opinião de Mr. Stead quanto à “reconhecida semelhança”,

declaram os críticos que os assistentes muitas vezes imaginam a semelhança, e que

por vezes dois assistentes alegam que o mesmo “extra” é o seu parente. Em resposta

a isto deve dizerse

que o Doutor Alfred Russel Wallace, por exemplo, deve ser o

melhor juiz se a figura era ou não parecida com sua mãe, O Doutor Cushman, de

quem falaremos adiante, submeteu o “extra” de sua filha Agnes a um certo número

de parentes e amigos e todos estavam convencidos da semelhança. Mas, fora de

qualquer certeza quanto à semelhança, resta a esmagadora prova de que essas

fotografias supranormais realmente acontecem e, em milhares de casos, foram

identificadas.

Mr. Edward Wyllie, nascido em 1848 e falecido em 1911, tinha genuínos

dons mediúnicos, que foram verificados por inúmeros investigadores, qualificados.

Nascera em Calcuttá, pois o seu pai, Coronel Robert Wyllie, fora secretário militar

do Governador da Índia. Wyllie, que servira como capitão na guerra Maori, na Nova

Zelândia, depois fez fotografias ali. Em 1886 foi para a Califórnia. Depois de algum

257 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

tempo começaram a aparecer pontos luminosos em seus negativos e como

aumentavam sempre, ameaçavam destruir o seu negócio. Jamais tinha ouvido falar

de fotografia de Espíritos, até que uma senhora lhe sugeriu isto como possível

explicação. Experimentando com ela apareceram rostos nas chapas nos pontos

iluminados. Daí por diante esses rostos apareciam com tanta frequência com outros

assistentes que ele se viu obrigado a deixar o negócio comum e devotarse

à

fotografia de Espíritos. Mas então defrontou novas dificuldades. Foi acusado de

obter fraudulentamente esses resultados e isso o feriu tanto que tentou ganhar a vida

de outra maneira, mas sem resultado. Teve que voltar àquele trabalho como

médiumfotógrafo,

como era chamado. A 27 de novembro de 1900 uma comissão da

Sociedade de Pesquisas Psíquicas de Pasadena fez uma investigação com ele em Los

Angeles. Foram respondidas as seguintes perguntas por Wyllie. Aqui as

transcrevemos por serem de interesse histórico.

Pergunta: — O Senhor anuncia ou promete fotografar rostos de Espíritos

ou alguma coisa parecida e fora do comum aos seus fregueses?

Resposta: — Absolutamente. Não garanto nem prometo coisa alguma.

Não tenho controle sobre isto. Apenas cobro o meu tempo e o material, como

podem ver pelo quadro que está ali na parede. Cobro um dólar por sessão. E se a

primeira não for satisfatória, faço uma segunda tentativa sem mais despesas.

Pergunta: — Por vezes deixa de obter algo de extraordinário?

Resposta: — Oh! Sim, muitas vezes. Sábado passado, trabalhando à noite,

fiz cinco sessões e nada obtive.

Pergunta: — Em que proporção são essas falhas?

Resposta: — Diria que num dia comum de trabalho a média é de três a

quatro falhas — dias mais, dias menos.

Pergunta: — Em que proporção avalia que os rostos “extras” que

aparecem são reconhecidos pelos assistentes ou por seus amigos?

Resposta: — Durante alguns meses do ano passado eu fazia um registro

desse ponto e achei que em cerca de dois têrços um ou mais rostos extras eram

reconhecidos. Às vezes havia apenas uma face extra; outras vezes cinco ou seis, ou

mesmo oito e eu não podia fazer um registro delas, mas apenas do número total de

sessões, como se vê em meu livro de notas.

Pergunta: — Quando uma sessão é feita o senhor conhece, como

sensitivo, se há ou não extras na chapa?

Resposta: — Às vezes eu vejo luzes em volta do assistente e então tenho

certeza de que haverá algo para ele ou para ela; mas não sei exatamente o que

será, assim como os senhores não sabem. Não sei o que é enquanto não o vejo na

chapa revelada, fixada e examinada à luz.

Pergunta: — Quando um assistente deseja fortemente que um

determinado amigo desencarnado apareça na chapa é mais provável obter

resultado?

Resposta: — Não. Um forte estado de tensão mental, ou de desejo, quer

seja de ansiedade ou de antagonismo, torna mais difícil para o Espírito o emprego

do magnetismo do assistente a fim de produzir a manifestação; de modo que é

menos provável que, então, apareça um extra na chapa. Uma condição repousante,

passiva e à vontade é mais favorável aos bons resultados.

Pergunta: — Os Espíritas conseguem melhores resultados que os

descrentes?

Resposta: — Não. Alguns dos melhores resultados que jamais obtive

ocorreram quando a cadeira era ocupada por gente muito céptica.

258 – Ar thur Conan Doyle

Com essa comissão não foram obtidos os extras. Antes, em 1899, outra

comissão havia submetido o médium a testes rigorosos e quatro chapas em oito

“mostraram resultados que a comissão foi incapaz de explicar.” Depois de

minucioso relato das precauções tomadas, conclui o relatório:

“Como comissão não temos uma teoria: apenas testemunhamos ‘aquilo

que sabemos’. Individualmente discordamos quanto às causas prováveis, mas sem

prevenção concordamos no que respeita aos fatos prováveis... Daremos vinte e

cinco dólares a qualquer fotógrafo de Los Angeles que, por meio de truque ou de

habilidade, produzir resultados semelhantes, em condições similares.”

(assinado)

Julian Mc Crae, P. C. Campbell, I. W. Mackie, W. N. Slocum, John Henley.

David Duguid (nasceu em 1832 e morreu em 1907), conhecido médium de

escrita automática e de pintura, foi beneficiado por uma cuidadosa investigação

sobre as suas fotografias de Espíritos, por Mr. J. Traiu Taylor, redator do British

Journal of Photography, o qual numa conferência lida perante a London and

Provincial Photographic Association em 9 de março de 1893, descreveu as recentes

pesquisas com esse médium. Diz ele: “Minhas condições eram muito simples...

Admitindo tratar com trapaceiros e para me guardar contra eles, exigi que fosse

usada a minha própria máquina e caixas de chapas compradas em casas de

confiança, não permitindo que tais chapas saissem de minhas mãos enquanto não

fossem reveladas, caso não resolvesse o contrário. Mas, assim como eu os tinha em

suspeita, eles suspeitavam de mim. De modo que todos os atos que eu praticasse

deviam sêlo

em presença de duas testemunhas, isto é, que eu devia marcar o tempo

na minha própria máquina, obter, por assim dizer, uma duplicata com o mesmo foco

— por outras palavras, usar uma binocular estereoscó pica e ditar todas as

condições da operação.”

Depois. de entrar em detalhes quanto ao processo adotado, registra o

aparecimento de figuras extras nas chapas e continua: “Alguns estavam em foco,

outras não; umas eram iluminadas pela direita, enquanto o assistente recebia a luz

pela esquerda... algumas ocupavam a maior parte da chapa, quase que cobrindo o

assistente material; outras eram como retratos em vinhetas horrorosas, ou em ovais

como que cortados com um abridor de latas e pregadas por detrás do assistente.

Mas aqui é que bate o ponto: nenhuma só dessas figuras que apareciam tão

fortemente nos negativos era de qualquer modo visível para mim durante o tempo

de exposição da máquina e eu declaro peremptoriamente que ninguém manipulou

uma chapa antes que ela fosse posta no caixilho ou antes que fosse revelada. Do

ponto de vista fotográfico eram de mau gosto. Mas como apareceram?”

Outros assistentes bem conhecidos descreveram resultados, notáveis

obtidos com Duguid 159 .

Mr. Stainton Moses, na conclusão de seu valioso trabalho sobre a

Fotografia de Espíritos 160 , discute a teoria de que as formas extras fotografadas são

moldadas de ectoplasma (ele fala de uma “substância fluídica”) pelos operadores

159 James Coates, “Photogr aphing the Invisible” (1921) e Andrew Glendinning. “The Veil Lifted”

(1894)

160 “Human Natur e”, Volumes 7º e 9º, 1874 e 1875.

259 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

invisíveis e faz importantes comparações entre os resultados obtidos por diferentes

médiuns fotógrafos.

As “valiosas e conclusivas experiências” de Mr. John Beattie, segundo a

expressão do Doutor Alfred Russel Wallace, só rápidamente serão tratadas. Mr.

Beattie, de Clifton, Bristol, fotógrafo aposentado de vinte anos de atividade, teve

dúvidas sobre a autenticidade de muitas fotografias de Espíritos que lhe foram

mostradas, pelo que resolveu ele próprio examinar o assunto. Sem nenhum médium

profissional, mas em presença de um amigo íntimo, que era um sensitivo de transe,

ele e o seu amigo Doutor G. S. Thomson, de Edimburgo, realizaram uma série de

experiências em 1872 e obtiveram, inicialmente, manchas nas chapas e, depois,

completas figuras extras. Verificaram que esses extras e as manchas na chapa

apareciam muito antes que o assistente material, durante a revelação —

peculiaridade frequentemente notada por outros experimentadores. A honestidade de

Mr. Beattie é absolutamente endossada pelo redator do British Journal of

Photography. Mr. Stainton Moses 161 e outros dão detalhes das experiências acima

referidas.

Em 1908 o Daily Mau, de Londres, nomeou uma comissão para fazer “um

inquérito sobre a autenticidade ou não das chamadas fotografias de Espíritos”, que

não chegou a qualquer resultado. Era composta de três não espíritas — R. Child

Bayley, F. J. Mortimer e E. SangerShepsherd

e três defensores da fotografia espírita

— A. P. Sinnett, E. R. Serocold Skeels e Robert King.

No relatório destes três últimos contavam que apenas podem relatar que a

comissão falhou na obtenção de provas de que é possível a fotografia espírita, não

devido á falta de provas abundantes no particular, mas devido à atitude infeliz e nada

prática tomada pelos outros membros da comissão, que não possuíam qualquer

experiência do assunto.

Detalhes sobre a Comissão podem ser encontrados em Light 162 .

Nos últimos anos a história das fotografias de Espíritos concentrouse

muito em torno do que é conhecido por Crewe Cirde, agora constituído por Mr.

William Ilope e Mrs. Buxton, ambos de Crewe. O grupo se constituiu mais ou

menos em 1905, mas só atraiu a atenção em 1908. Descrevendo suas primeiras

experiências, Mr. Hope diz que, quando trabalhava numa fábrica perto de

Manchester, num sábado à tarde fez uma fotografia de um operário, numa pôse junto

a um muro de tijolos. Quando a chapa foi revelada viase,

além do retrato de seu

amigo, a forma de uma mulher ao seu lado, vendose

o muro por transparência. O

homem perguntou a Hope como tinha ele posto ali o outro retrato, no qual

reconhecia uma irmã falecida havia alguns anos. Diz Mr. Hope: “Então eu nada

sabia a respeito de Espiritismo. Levamos a fotografia aos trabalhadores na

segundafeira,

e um deles, espírita, disse que era o que se chamava uma fotografia

de Espírito. Sugeriu que no sábado seguinte, no mesmo lugar e com a mesma

máquina, tentássemos novamente. Concordamos. E não só a mesma senhora

apareceu na chapa, mas uma criancinha com ela. Achei isto muito estranho, fiquei

interessado e continuei as experiências.”

161 Idem, Volume 8º (1874), página 300 e seguintes.

162 1908, página 526 e 1909, páginas 290, 307, 329.

260 – Ar thur Conan Doyle

Durante muito tempo Hope destruia todas as chapas de Espíritos, até que o

Arquidiácono Colley travou conhecimento com ele e o aconselhou a conserválas.

O arquidiácono Colley fez a primeira sessão com o Crewe Circle em 16 de

março de 1908. Trouxe a sua própria máquina — uma Lancaster de um quarto de

chapa, que Mr. Hope ainda usa — seus caixilhos e suas chapas marcadas a diamante

e revelou as chapas com seus próprios produtos químicos. A única coisa que Mr.

Hope fez foi apertar o botão para a exposição. Numa das chapas apareceram dois

Espíritos. Desde esse dia Mr. Hope e Mrs. Buxton fizeram milhares de fotografias

de Espíritos sob todos os testes imagináveis e se orgulham de poderem dizer que

jamais ganharam um tostão por seus trabalhos; apenas cobravam o material usado e

o seu tempo.

Mr. M. J. Vearncombe, fotógrafo profissional em Bridgewater, Somerset,

teve a mesma perturbadora experiência de Wyllie, Boursnell e outros, ao descobrir

inúmeras manchas luminosas nas suas chapas e, como aqueles, chegando a fazer

fotografias de Espíritos. Em 1920 Mr. Fred Barlow, de Birmingham, conhecido

investigador, obteve com esse médium rostos extras e mensagens escritas, em

condições de testes, em chapas que não haviam sido expostas na máquina 163 .

Desde essa data Mr. Vearn. combe obteve muitos resultados probantes.

A mediunidade de Mrs. Deane é de data recente — sua primeira fotografia

de Espírito data de junho de 1920. Foram obtidos muitos extras reconhecíveis em

condições de testes e seu trabalho por vezes é igual aos melhores dos seus

predecessores no gênero. Recentemente conseguiu ela dois magníficos resultados, O

Doutor Allerton Cushman, conhecido cientista americano, Diretor dos National

Laboratories, em Washington, fez uma visita inesperada ao British College of

Psychic Science, em Holland Park, em julho de 1921 e obteve através de Mrs.

Deane, uma bela fotografia extra, reconhecida como de sua filha morta. Detalhes

completos dessa sessão se acham com as fotografias, no Jornal da American Society

for Psychical Research 164 .

O outro grande resultado foi a 11 de novembro de 1922, por ocasião do

Grande Silêncio, no Dia do Armistício, em Whitehall, quando uma fotografia foi

tomada da multidão imensa em torno no Cenotáfio e na qual aparecem, visíveis,

rostos de Espíritos, alguns dos quais foram reconhecidos. Isto se repetiu durante três

anos.

As pesquisas modernas provaram que esses resultados psíquicos não são

obtidos, pelo menos em alguns casos, através das lentes da máquina. Em muitas

ocasiões, em condições de testes, esses retratos supranormais

têm sido conseguidos

em caixas fechadas de placas fotográficas, mantidas nas mãos de um ou mais

assistentes. Também quando tentada a experiência com mais de uma máquina,

quando o extra aparece numa máquina, não aparece na outra. A teoria sustentada é

de que a imagem é precipitada na placa fotográfica ou que uma tela psíquica é

aplicada à chapa.

Talvez possa o autor dizer algumas palavras de sua experiência pessoal, que

foi principalmente com o Crewe Circle e com Mrs. Deane. Neste último caso

163 Ver Light, 1929, página 190.

164 Março, 1922, páginas 132 a 147.

261 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

sempre houve resultados, mas em nenhum os extras foram reconhecidos. O autor

está perfeitamente certo da força psíquica de Mrs. Deane, que foi magnificamente

demonstrada durante uma longa série de experiências feitas por Mr. Warrick, sob

todas as possíveis condições de teste e que são minuciosamente descritas em Psychic

Science 165 .

Entretanto a sua experiência pessoal nunca foi evidente e, atendose

a ela,

não se pode falar com segurança. Ele empregou as próprias chapas de Mrs. Deane e

tem uma forte impressão de que os rostos podem ter sido precipitados nas chapas

nos dias de preparação, quando ela as levava em pacotes. Ela tem a impressão de

que facilitava assim os resultados obtidos; mas talvez se enganasse, pois o caso

Cushman foi uma surpresa. Também há a consignar que uma vez ela foi vítima de

um truque no Psychic College: seu pacote de chapas foi substituido por outro. Não

obstante os extras foram obtidos. Bem que podia ser avisada, pois se abandonasse o

método que lhe dá resultados, embora legítimos, seriam eles passíveis de ataque 166 .

Já o caso é diferente com Mr. Hope. Nas várias oportunidades em que o

autor experimentou com ele, fêlo

com as suas próprias chapas, prêviamente

marcadas na câmara escura e manejadas e reveladas por ele próprio. Em quase todos

os casos um extra foi conseguido; e esse extra — conquanto não tenha sido

claramente reconhecido — certamente foi uma produção anormal. Mr. Hope

suportou os costumeiros ataques da ignorância e da malícia, a que se acham

expostos todos os médiuns, mas sempre deles saiu com a honra inatingida.

Uma referência deve ser feita aos notáveis resultados de Mr. Staveley

Bulford, talentoso estudante de psiquismo, que produziu os melhores e mais

autênticos retratos psíquicos.

Ninguém poderá olhar o seu livro de recortes e notar o gradual

desenvolvimento de seus dons, desde as simples manchas de luz até os rostos

perfeitos, sem ficar convencido da realidade do processo.

O assunto é ainda obscuro e toda a experiência pessoal do autor é no

sentido de defender o ponto de vista de que num certo número de casos nada de

externo foi realizado: o efeito é produzido por uma espécie de raio, que carrega a

figura, penetra os sólidos, como a parede do caixilho, e a imprime na placa. A

experiência já citada, na qual duas máquinas foram usadas simultaneamente, com o

médium entre elas, parece conclusiva, de vez que mostra um resultado numa chapa e

não na outra. O autor obteve resultados em chapas que jamais saíram do caixilho e

tão bons quanto os das que haviam sido expostas à luz. É provável que se Hope

jamais tivesse tirado a tampa da objetiva, por vezes os seus resultados teriam sido os

mesmos.

Seja qual for a eventual explicação, a única hipótese que atualmente abarca

os fatos é a de uma sábia e invisível Inteligência presidindo à operação e trabalhando

a sua maneira, e que mostra diferentes resultados em grupos diferentes. Tão

padronizados são os métodos de cada um que o autor é capaz de dizer, à primeira

vista, qual o fotógrafo que fez a chapa que lhe apresentarem. Supondo que tal

Inteligência tenha os poderes que lhe são atribuidos, podemos então ver

165 Julho, 1925.

166 Desde que escreveu esta observação, o autor tem experimentado a médium com as suas próprias

chapas, fazendo ele próprio a revelação. Obteve seis resultados psíquicos em oito experiências.

262 – Ar thur Conan Doyle

imediatamente por que cada lei normal de fotografia é violada, por que sombras e

luzes não mais concordam e, por fim, por que uma série de armadilhas são

preparadas para a generalidade dos críticos convencionais. Também podemos

entender por que, desde que a figura seja simplesmente constituída pela Inteligência

e posta na chapa, encontramos resultados que são reproduções de velhos quadros e

de fotografias, e porque também é possível que apareça o rosto de uma pessoa viva

na chapa do mesmo modo que o de um Espírito desencarnado. Num exemplo, citado

pelo Doutor Henslow, a reprodução de um raro escrito grego do Museu Britânico

apareceu numa das chapas de Hope, com uma ligeira alteração no grego, o que

provava que não era uma cópia 167 .

Aqui, ao que parece, a Inteligência tinha notado a inscrição, tinhaa

gravado

na chapa, mas tinha feito um ligeiro lapso de memória na transcrição. Esta

explicação tem o desconcertante corolário que o mero fato de termos o retrato

psíquico de um amigo morto absolutamente não constitui prova de que o mesmo se

ache presente. Sómente quando o fato éconfirmado independentemente numa

sessão, antes ou depois, é que temos algo da natureza de prova.

Em suas experiências com Hope, o autor teve a impressão de lobrigar o

processo pelo qual as fotografias objetivas são construídas — tanto que pôde ele

arranjar uma série de dísticos que mostraram os vários estágios. O primeiro desses

dísticos, —tomado com Mr. William Jeffrey, de Glasgow, como assistente, —

mostra uma espécie de casulo de veios finos, um material como fita, que poderemos

chamar de ectoplasma, desde que os vários plasmas ainda não foram subdivididos. É

tão tênue quanto uma bôlha de sabão e nada contém: isto poderia parecer o

envoltório dentro do qual o processo é transportado, estando aí reunidas as forças,

como se na cabine de um médium. No dístico seguinte vêse

que a face se formou

dentro do casulo e que o casulo se abre debaixo do centro. São vistos vários estágios

dessa abertura. Finalmente, a face aparece por fora, com o casulo festonado, para

trás, e formando um arco sobre o rosto e um véu pendurado de ambos os lados. Esse

véu é muito característico nas fotografias de Hope e quando falta em uma podemos

sustentar que não houve presença objetiva e que é um puro efeito psicográfico. O

véu ou mantilha, de várias formas, podem ser encontrados numa longa série de

fotografias anteriores, e e especialmente observável numa tomada de um amador na

Costa Ocidental Africana, onde o Espírito escuro tem densas dobras sobre a cabeça e

no chão. Quando semelhantes resultados são alcançados em Crewe, ou em Lagos, é

simples questão de bom senso convir que se trata de uma lei comum.

Apontando a prova do casulo psíquico, espera o autor haver dado uma

pequena contribuição para uma melhor compreensão do mecanismo da fotografia

psíquica. É um verdadeiro departamento da ciência psíquica, como verá qualquer

investigador sério.

Contudo não se pode negar que tenha sido transformado em objeto para

patifarias, como não podemos garantir que, por serem genuínos alguns resultados

conseguidos por médiuns, tenhamos que aceitar de olhos fechados tudo quanto nos

mostrem, venha de onde vier.

167 “Pr oofs of the Tr uths of Spír itualism”, página 218. Henslaw.

263 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

20

Vozes Mediúnicas e Moldagens

impossível dedicar capítulos separados a cada forma de força psíquica, pois o

resultado exorbitaria dos limites desta obra. Mas os fenômenos de produção de

vozes bem como os de moldagens são tão claros e evidentes que não será

supérfluo um relato mais desenvolvido.

Milhares de pessoas tornamse

eco daquelas palavras de Jó: “eu ouvi uma

voz”, significando uma voz que não vinha de alguém que vivesse na Terra. E o disse

com segura convicção, depois de uma série de testes. A narrativa bíblica é farta em

exemplos desse fenômeno 168 e as constatações psíquicas dos tempos modernos

mostram que aqui, como em outras manifestações supranormais,

o que aconteceu

na aurora do mundo acontece ainda.

Os exemplos históricos de mensagens faladas são os de Sócrates e de Joana

D’Arc, embora não seja claro que em ambos os casos as vozes tivessem sido

audíveis para os outros.

É à luz do inteiro conhecimento que chegamos a concluir, com alguma

probabilidade, que as vozes ouvidas eram do mesmo caráter supranormal daquelas

com que hoje estamos familiarizados.

Mr. F. W. H. Myers 169 faznos

pensar que o Demônio de Sócrates era “um

mais profundo extrato do próprio sábio”, a comunicarse

com “o extrato superficial

e consciente”. E do mesmo modo explicaria as vozes que vieram a Joana. Falando

assim, entretanto, ele nada explica.

Que devemos pensar da história de que as estátuas antigas falavam? O

ilustre autor anónimo, — que se supõe tenha sido o Doutor Leornard Marsh, da

Universidade de Vermont, — daquele curioso livro “Apocatastasis”, ou “Progresso

Regressivo”, cita as seguintes palavras de Nonnus: “No que respeita a essa estátua

(de Apolo), onde se achava, e como ela falava, eu nada disse. Deve, entretanto,

entenderse

que havia uma estátua em Delfos, que emitia uma voz inarticulada.

Porque deveis saber que os Espíritos falam, com vozes inarticuladas, de vez que não

possuem órgãos pelos quais possam falar articuladamente”.

Assim o comenta o Doutor Marsh: “Parece que o autor não estava bem

informado relativamente ao poder de falar dos Espíritos, desde que toda a história

antiga declara que muitas vezes a sua voz era ouvida no ar, falando

articuladamente e repetindo as mesmas palavras em diversos lugares; e essa voz

era chamada, e universalmente conhecida, pelo nome de ‘Vox Divina’.”

E prossegue dizendo que com a mencionada estátua o Espírito

evidentemente estaria experimentando com o grosseiro material de que era feita —

168 Vejase

“The Voices”, de Usborne Moore (1913), página 433.

169 SOCIETY FOR PSYCHICAL RESEARCH Jornal, Volume 3º (1887) página 131.

É

264 – Ar thur Conan Doyle

provavelmente de pedra — a ver se poderia produzir sons articulados, mas não o

conseguia, pois que a estátua “não possuia laringe ou outros órgãos da voz, como os

modernos médiuns”. Em seu livro o Doutor Marsh procura demonstrar que então

(1854) os fenômenos espíritas eram crus e imaturos, em comparação com as

manifestações espíritas da antigüidade. Os antigos, diz ele, falavam disso como de

uma ciência, e declaravam que os, conhecimentos obtidos por seu intermédio eram

exatos e controláveis “a despeito de todos os demônios fraudulentos”. Garantindo

que o sacerdote era um médium de vozes, facilmente se explicam os oráculos

falantes.

É digno de nota que a Voz, que foi uma das primeiras formas de

mediunidade associada ao moderno Espiritismo, é ainda preeminente, ao passo que

outros aspectos da mediunidade inicial se tenham tornado raros. Mas como há um

bom número de investigadores competentes que consideram o fenômeno da voz

entre as, mais convincentes das manifestações psíquicas, lancemos um olhar sobre o

que há a respeito.

Jonathan Koons, fazendeiro em Ohio, parece ter sido o primeiro dos

modernos médiuns com quem isto se verificou. Na choupana já mencionada,

chamada a sua “Casa do Espírito” teve ele em 1852, e durante muitos anos, uma

porção de fenômenos surpreendentes, entre os quais havia vozes de Espíritos, que

falavam através de um pequeno megafone ou trombeta, Mr. Charles Partridge,

conhecido homem público, que foi um dos investigadores dos primeiros dias, assim

descreve como ouviu o Espírito conhecido como John King, falando numa sessão

em casa de Koon, em 1855: “Ao terminar a sessão, como de costume, o Espírito de

John King tomou da trombeta e fez uma pequena palestra através dela — falando

clara e distintamente — mostrando o benefício que se colheria no tempo e na

eternidade, da conversa com os Espíritos, e nos exortando a sermos discretos e

firmes no falar, aplicados em nossas investigações, fiéis às responsabilidades que

tais privilégios impunham, caridosos para com os que estão no erro e na

ignorância, temperando o nosso zêlo com a sabedoria, etc.”.

O Professor Mapes, conhecido químico americano, disse que em presença

dos Davenport havia conversado durante meia hora com John King, cuja voz era alta

e distinta. Mr. Robert Cooper, um dos biógrafos dos Irmãos Davenport, ouviu

muitas vezes a voz de John King à luz do dia, e à luz da lua, quando passeando pela

rua com os Davenport.

Atualmente chegamos a formar uma ideia de como tais vozes se produzem

nas sessões. Aliás esse conhecimento foi corroborado pelas, comunicações recebidas

dos próprios Espíritos.

Parece que o ectoplasma procedente do médium, mas também, em menor

proporção, dos assistentes, é usado pelos Espíritos operadores na moldagem de uma

espécie de laringe humana. E a utilizam para a produção da voz.

Na explicação dada aos Koons pelos Espíritos, estes, falavam do emprego

combinado de elementos do corpo espiritual, e o que corresponde ao nosso atual

ectoplasma, “uma aura física que emana do médium” . Comparese

isto com a

explicação dada através de Mis. Bassett, a conhecida inglesa médium de vozes, aos

setenta anos: “Dizem eles que tomam as emanações do médium e de outros

265 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

membros da assistência, com o que fazem um aparelho para falar e que o

empregam” 170 .

Mrs. Mary Marshall, falecida em 1875, e que foi a primeira dos médiuns

públicos ingleses, era canal para vozes vindas de John King e outros. Em 1809, em

Londres, Mr. W. Harrisson, redator de The Spiritualist, fez exaustivos ensaios com

ela. Como os espíritas eram tidos como gente facilmente impressionável, é

interessante notar a sua cuidadosa investigação. Falando de Mrs. Mary Marshall 171 ,

diz ele: “Mesas e cadeiras moviamse

à luz do dia e por vezes se erguiam do chão,

enquanto que nas sessões ás escuras ouviamse

vozes e viamse

manifestações

luminosas. Todas estas coisas pareciam vir dos Espíritos. Então resolvi ser um

visitante constante das sessões e permanecer no trabalho até verificar se as

asserções eram verdadeiras ou descobrir a impostura com bastante precisão e

segurança para o denunciar em presença de testemunhas e poder publicar os fatos

com desenhos completos dos aparelhos usados. A voz de John King é inspirada por

uma inteligência, ao que parece, inteiramente diferente da maneira da de Mr. e

Mrs. Marshall. Entretanto, admiti que Mr. Marshall produziu a voz e, assistindo a

algumas sessões, verifiquei que era comum que Mr. Marshall e John King falassem

ao mesmo tempo. Assim, fui obrigado a abandonar a minha teoria. Então admiti que

era Mrs. Marshall quem falava, até que uma noite fiquei junto a ela; ela estava à

minha direita e eu lhe segurava a mão e o braço e John King veio e falou ao meu

ouvido esquerdo, quando Mrs. Marshall estava absolutamente imóvel. Assim se foi

minha nova teoria. Diante disso admiti que um parceiro entre os visitantes do grupo

fazia a voz de John King. De modo que fiz uma sessão apenas com Mr. Marshall e

sua senhora. John compareceu e falou durante uma hora. Por fim estabeleci que um

parceiro escondido produzia a voz. Então fiz duas sessões nas quais Mrs. Marshall

se achava entre estranhos, numa casa estranha, e novamente John King estava mais

vivo do que nunca. Finalmente na noite de quintafeira,

30 de dezembro de 1869,

John King veio e falou a onze pessoas, no grupo de Mrs. C. Berry, na ausência de

Mr. Marshall e de sua senhora, sendo médium Mrs. Perzin”.

Enquanto Mr. llarrison se satisfez, desse modo, de que nenhuma criatura

humana presente produzia as vozes, não mencionou — o que era o caso — que as

vozes frequentemente davam provas de identidade tais que nem o médium nem um

comparsa poderiam ter dado.

O senhor Damiani, conhecido investigador, em sua prova perante a

Sociedade Dialética de Londres declarou 172 que as vozes lhe tinham falado em

presença de médiuns não estipendiados, depois haviam conversado com ele em

sessões particulares com Mrs. Marshall e aí “haviam demonstrado as mesmas

peculiaridades quanto ao tom, a expressão, o andamento, o volume, a pronúncia, que

nas vezes anteriores”. Essas vozes lhe falavam sobre assuntos de natureza tão

particular que ninguém, além dele, podia ter conhecimento. Por vezes também

predisseram acontecimentos que se verificaram em tempo certo.

170 “The Spir itual Magazine”, 1872, página 45.

171 “The Spir itualíst”, Volume 1º, página 38.

172 “Repor t of the London Dialectical Society” (1871), página 201.

266 – Ar thur Conan Doyle

É natural que aquêLes que tiveram contacto pela primeira vez com o

fenômeno das vozes deveriam suspeitar de ventriloquia, como uma possível

explicação. D. D. Home, com quem essas vozes ocorriam tantas vezes, tinha

cuidado ao encontrar essa objeção. Descrevendo a sessão quando Home o visitou em

Cupar, em Fife, em 1870, assim escreve o General Boldero 173 :

“Então as vozes foram ouvidas, falando simultaneamente na sala — duas

pessoas diversas, a julgar pela entonação. Não nos foi possível guardar as palavras

pro feridas, desde que Home persistia em falar conosco todo o tempo. Reclamamos

contra a sua conversa, mas ele replicou: ‘Falo de propósito, para que possa

convencerse

de que as vozes não são devidas a qualquer ventriloquia de minha

parte, desde que isto é impossível quando alguém está falando com a sua voz

natural’. A voz de Home era muito diferente das que se ouviam no ar.”

O autor pode corroborar isto com a sua experiência pessoal, pois muitas

vezes ouviu vozes falando ao mesmo tempo. Há exemplos no capítulo sobre os

grandes médiuns modernos.

O almirante Usborne Moore dá o testemunho de ter ouvido

simultaneamente, com Mrs. Wriedt, de Detroit, as vozes de três ou quatro Espíritos.

Em seu livro “lhe Voices”, de 1913, cita o testemunho da conhecida escritora Miss

Edith K. Harper, antes secretária particular de Mr. W. T. Stead. Escreve ela 174 :

“Depois de examinar um relato de cerca de duzentas sessões com Mrs.

Etta Wriedt, durante as suas três visitas à Inglaterra, cujas notas de sessões gerais

bastariam para encher um grosso volume se fossem escritas in extenso, procurarei

relatar, resumidamente, algumas das mais notáveis experiências que eu e minha

mãe tivemos o privilégio de assistir pela mediunidade de Mrs. Wriedt. Examinando

as minhas notas de sua primeira visita em 1911, sobressaem os seguintes detalhes

entre os principais aspectos das sessões: 1) Jamais Mrs. Wriedt caia em transe;

conversava livremente com os assistentes; nós a ouvíamos falar também, até mesmo

argumentando com Espíritos, com, cujas opiniões não concordava. Lembrome

de

uma vez em que Mr. Stend sacudiase

em gargalhadas, ou ouvir a reprimenda de

Mrs. Wriedt ao editor do Progressive Thinker por sua atitude contra os médiuns e

da evidente confusão de Mr. Francis que, depois de uma tentativa de explicação,

derrubou a trombeta e retirouse

aborrecido. 2) Duas, três e até quatro vozes de

Espíritos falando simultaneamente a diversos assistentes. 3) Mensagens dadas em

língua estranha — francês, alemão, italiano, espanhol, norueguês, holandês, árabe

e outras, com as quais a médium não estava familiarizada. Uma senhora

norueguesa, muito conhecida no mundo das letras e da política, foi abordada em

norueguês, por uma voz masculina, dizendose

seu irmão e dando o nome de ‘P’.

Ela conversou com ele e deu mostras de satisfação ante as provas dadas de sua

identidade... De outra vez uma voz falou em espanhol fluente, dirigindose

determinadamente a uma senhora no grupo, que ninguém sabia tivesse ligações

com essa língua. Então a senhora estabeleceu uma conversa fluente com o Espírito,

em espanhol, com evidente satisfação para este”.

Mrs. Mary Hollis, depois Mrs. HollisBillings,

era uma notável médium.

Esta americana visitou a Inglaterra em 1874 e também em 1880, quando foi

173 SOCIETY FOR PSYCHICAL RESEARCH Jornal, Volume 4º, página 127.

174 “The Voices”, páginas 324 e 325.

267 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

apresentada à sociedade de Londres por destacados Espíritas. Um belo relato de sua

variada mediunidade é feito pelo Doutor N. B. Wolfe em seu livro “Startling Facts

in Modern Spiritualism” 175 .

Mrs. Hollis era uma senhora fina e milhares de pessoas tiveram provas e

consolações através de seus dons. Seus dois guias Jomes Nolan e um índio chamado

Ski falavam livremente em voz direta. Numa de suas sessões, realizada em casa de

Mrs. Makdougall Gregory, em Grosvenor Square, a 21 de janeiro de 1880, um

clérigo da Igreja da Inglaterra 176 “sustentava o fio de uma conversa com um

Espírito, a qual havia sido interrompida há sete anos e se confessou muito satisfeito

com a autenticidade da voz, que era muito peculiar e perfeitamente audível para

todos os assistentes, de ambos os lados do clérigo a quem o Espírito se dirigia” .

Mr. Edward C. Randall conta de uma outra boa médium americana para

vozes diretas, Mrs. Emily S. French, em seu livro “The Dead Have Never Died” 177 .

Ela faleceu em sua casa em Rochester, Nova Iorque, a 24 de junho de 1912. Mr.

Randall investigou as suas faculdades durante vinte anos e se convenceu de que a

sua mediunidade era de um altíssimo padrão.

Mrs. Mercia M. Swain, que faleceu em 1900, era uma médium de voz

direta cuja instrumentalidade foi aproveitada por um grupo da Califórnia, o Rescue

Circle, para ajudar os Espíritos atrasados. Um relato dessas extraordinárias sessões,

que eram dirigidas por Mr. Leander Ficher, de Buffalo, New York, e que se

estenderam de 1875 a 1900, se acha no livro do Almirante Usborne Moore

“Glimpses of the Next State” 178 .

Mrs. Everitt, senhora finíssima e médium não profissional, produziu vozes

diretas na Inglaterra em 1867 e por muitos anos depois.

Muitos dos grandes médiuns de efeitos físicos, especialmente os de

materializações, produziram os fenômenos de vozes diretas. Estas ocorriam, por

exemplo, com Eglinton, Spriggs, Husk, Duguid, Herne, Mrs. Gupsy e Florence

Cook. Mrs. Elizabeth Blake, de Ohio, que faleceu em 1920, era um dos mais

maravilhosos médiuns de voz direta de que temos notícia e, talvez, o de maior valor

probante, porque em sua presença as vozes se produziam com regularidade em plena

luz do dia. Era pobre, iletrada, vivendo na pequena aldeia de Bradrick, a margem do

rio Ohio, do outro lado da cidade de Húntingdon, em West Virginia. Era médium

desde criança. Era muito religiosa e pertencia à Igreja Metodista, da qual, como

alguns outros, entretanto, foi expulsa devido à sua mediunidade.

Pouco se tem escrito a seu respeito: um único relato minucioso é a valiosa

monografia do Professor Hyslop 179 . Dizem que foi sucessivamente submetida a

testes por “cientistas, médicos e outros” e que o fazia de boa vontade. Entretanto,

como esses homens não foram capazes de a pilhar em fraude, não se preocuparam

em oferecer ao mundo os resultados obtidos. Hysiop teve a sua atenção atraida para

ela por ouvir dizer que um muito conhecido mágico americano, com uma

175 “Fatos admiráveis no Espiritismo Moderno” – N. do T.

176 “Spir itual Notes”, Volume 1º, página 262.

177 “Os Mortos Nunca Morreram” — N. do T.

178 “Relances sobre o novo estado” — N. do T.

179 Pr oceedings, American. SOCIETY FOR PSYCHICAL RESEARCH, Vol. 7º (1913) pag 570 a 578.

268 – Ar thur Conan Doyle

experiência de muitos anos, se havia convencido da autenticidade de seus

fenômenos e em 1906 foi a Ohio examinar a sua mediunidade.

O volumoso relatório de Hyslop descreve legítimas comunicações que

ocorreram. Ele faz essa rara confissão de ignorância do processo do ectoplasma na

produção dos fenômenos das vozes:

“A altura dos sons, nalguns casos, exclui a suposição de que as vozes

sejam conduzidas das cordas vocais à trombeta. Ouvi sons a seis metros de

distância e os poderia ter ouvido a doze ou quinze metros — e os lábios de Mrs.

Blake não se moviam. Resta estabelecer uma hipótese possível para explicar este

aspecto dos fenômenos. Mesmo que chamemos a isto ‘Espíritos’, a explicação não

satisfaz ao homem comum de ciência. Ele quer saber do processo mecânico que o

envolve, assim como nós explicamos o falar comum. Talvez sejam os Espíritos a

causa primeira no caso, mas há degraus no processo que vão desde a iniciativa até

o último resultado. É isto que cria a perplexidade muito mais que a suposição de

que, de certo modo, estejam Espíritos por detrás de tudo isto... e o homem de

ciência não pode ver como os Espíritos podem instituir um fato mecânico sem o

emprego de aparelhos mecânicos.”

Também ninguém o pode. Mas neste caso a explicação tem sido dada uma

ou outra vez pelo Outro Lado. O desejo do Professor Hyslop de conhecer o elo que

existe entre os sons e sua fonte seria menos surpreendente se não fosse um fato que

os próprios Espíritos reiteradamente responderam à pergunta que ele faz. Através de

muitos médiuns deram eles explicações mais ou menos idênticas.

O Doutor L. V. Guthrie, superintendente do Asilo de West Virginia, em

Huntingdon, conselheiro médico de Mrs. Blake, estava convicto de seus dons.

Escreve ele: “Fiz sessões com ela em meu próprio escritório e no alpendre, ao ar

livre e, numa ocasião, dentro de uma carruagem numa esarada. Constantemente se

me oferecia para fazer sessões e usar uma manga de candeeiro em vez de uma

pequena corneta e muitas vezes a vi produzir vozes tendo a mão numa das

extremidades da trombeta.”

O Doutor Guthrie relata os dois casos seguintes com Mrs. Blake, nos quais

a informação dada era desconhecida dos assistentes e não podia ter sido também da

médium. “Uma de minhas empregadas, uma senhora moça, cujo irmão tinha

entrado para o exército e seguido para as Filipinas, estava ansiosa para receber

notícias suas e lhe havia escrito cartas sobre cartas, dirigidas aos cuidados da

companhia nas Filipinas. Mas não obtinha resposta. Ela visitou Mrs. Blake e soube

pelo ‘Espírito’ de sua mãe, morta há vários anos, que deveria mandar uma carta ao

irmão para C... a fim de obter resposta. Assim fez: recebeu resposta em dois ou três

dias, pois que ele havia regressado das Filipinas, sem que ninguém da família o

soubesse.”

O caso seguinte é ainda mais interessante: “Uma parenta minha, de

importante família nesta região do Estado, cujo avô tinha sido encontrado morto ao

pé de uma grande ponte, com o crânio esmagado, visitou Mrs. Blake há poucos

anos e não estava pensando no avô na ocasião. Ficou muito surpreendida porque o

Espírito do avô lhe disse que não havia caído da ponte quando embriagado, como

ao tempo haviam pensado. Tinha sido assassinado por dois homens que o haviam

encontrado num carrinho e tinham conseguido pegálo,

despojálo

de seus valores e

atirálo

de cima da ponte. O Espírito descreveu minuciosamente os dois homens que

269 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

o haviam assassinado e deu tais informações que foi possível prendêlos

e obter a

confissão de um ou de ambos”.

Numerosos assistentes notaram que enquanto Mrs. Blake falava ouviamse

as vozes dos Espíritos, e, ainda, que os mesmos Espíritos apresentavam a mesma

personalidade, bem como a mesma inflexão de voz durante anos. Hyslop dá detalhes

de um caso com essa médium, na qual as vozes comunicantes deram a solução

correta para abrir um cadeado de segredo, que era desconhecida do assistente.

Entre os modernos médiuns de voz direta da Inglaterra estão Mm. Roberts1

Johnson, Mrs. Blanche Cooper, John C. Sloan, William Phoenix, as Misses

Dunsmore, Evan Powell, médium Welsh, e Mr. Potter.

Mr. H. Dennis Bradley fez um minucioso relato da mediunidade de voz

direta de George Valiantine, o conhecido médium americano. Mr. Bradley

conseguiu vozes no seu próprio Grupo Doméstico, sem médiuns profissionais. É

impossível exagerar os serviços que o trabalho dedicado e de autosacrifício

de Mr.

Bradley prestou à ciência psíquica. Se todo o nosso conhecimento dependesse das

provas dadas nesses dois livros — “Towards the Stars” e “The Wisdom of the

Gods” 180 — isso seria bastante para qualquer homem razoável.

* * *

Algumas páginas devem ser dedicadas a um resumo da prova objetiva e

muito convincente das moldagens tomadas de corpos de ectoplasma — por outras

palavras, de formas materializadas. Quem primeiro explorou essa linha de pesquisa

parece ter sido William Denton, autor de “Natures Secrets” 181 , um livro de

psicometria, publicado em 1863. Em 1875, trabalhando em Boston, EUA, com a

médium Mary M. Hardy, empregou ele métodos que se assemelham aos usados por

Charles Richet e Gustave Geley em suas mais recentes experiências em Paris. Então

Denton fez uma demonstração pública no Paine Haul, quando a moldagem do rosto

de um Espírito, ao que se diz, foi fundida em parafina. Outros médiuns com os,

quais estes moldes foram obtidos foram Mrs. Firman, Doutor Monck, Miss Fairlamb

(posteriormente Mrs. Mellon) e William Eglinton. O fato de terem sido tais

resultados corroborados posteriormente na: sessões de Paris, é um forte argumento

em favor de sua validade. Mr. William Oxley, de Manchester, descreve como a 5 de

fevereiro de 1876 foi obtida uma bela moldagem de uma mão de senhora e como em

seguida um molde da mão de Mrs. Firman demonstrou uma grande diferença. Nessa

ocasião Mrs. Firmam estava amarrada pela cabeça, o peito, os braços e as mãos. Isto

parecia suficiente, no que respeita à fraude por parte da médium, ao mesmo tempo

que se verifica que a cera da moldagem era fervente, o que mostra que não podia ter

sido trazida à sala das sessões. É difícil imaginar que outras precauções poderiam ter

sido tomadas para garantir os resultados. Numa outra ocasião foram obtidas as

moldagens de um pé e de uma mão, nas quais a abertura do pulso e do tornozelo

eram tão pequenas que os membros não teriam passagem. Parece que não há outra

explicação a não ser que pé e mão se houvessem desmaterializado.

180 “Rumo às Estrelas” e “A Sabedoria dos Deuses” — N. do T.

181 “Segredos da Natureza” — N. do T.

270 – Ar thur Conan Doyle

Os resultados do Doutor Monck também parecem suportar a crítica. Em

1878 Oxley fez experiências com ele em Manchester e teve o mesmo sucesso que

com Mrs. Firmam. Nessa ocasião diversos moldes foram tirados de duas

individualidades diferentes. Diz Oxley dessas experiências: “A importância e o

valor dessas moldagens de Espíritos jamais seriam superestimados porque

enquanto a relação do fenômeno espírita com outros de atitude duvidosa ou céptica

só é válida no campo da crença, esses moldes de mãos e de pés são fatos patentes e

permanentes e agora exigem dos homens de ciência, dos artistas, e dos trocistas,

uma solução do mistério de sua produção” . Essa exigência permanece. Um famoso

mágico, Houdini, e um grande anatomista, Senhor Arthur Keith, tentaram fazer

moldes de mãos e os resultados, laboriosamente obtidos, apenas serviriam para

acentuar o caráter único daquilo que procuravam copiar.

No caso de Eglinton, foi registrado pelo Doutor Nichols, biógrafo do

Davenport, que indiscutíveis moldes de mãos foram obtidos e que uma senhora

presente reconheceu uma peculiaridade — uma leve deformidade — característica

da mão de sua filhinha, que morrera afogada na África do Sul, com a idade de cinco

anos.

Talvez os mais completos e probantes desses moldes sejam os obtidos por

Epes Sergeant com a médium Mrs. Hardy, já mencionada em ligação com as

experiências de Denton. As conclusões merecem ser citadas por extenso. Diz o

escritor:

“Nossas conclusões são as seguintes:

1) O molde de uma mão perfeita, em tamanho natural, foi produzido numa

caixa fechada, por uma força desconhecida, exercitando inteligência e

atividade manual.

2) As condições da experiência independiam do controle, do caráter e da boa

fé da médium não obstante sua mediunidade ficasse plenamente

demonstrada pelo resultado.

3) Essas condições eram tão simples e tão severas que excluem

completamente toda oportunidade para fraude e toda possibilidade de

ilusão, de modo que as nossas conclusões quanto à experiência são per

feitas.

4) O fato, de há muito conhecido dos investigadores, de que mãos

materializadas e evanescentes, guiadas por uma inteligência e projetadas

de um organismo invisível, podem tornarse

visíveis e tangíveis, recebe

uma confirmação deste duplo teste.

5) A experiência de moldagem, associada com a chamada fotografia espírita,

dá provas objetivas da ação de uma força inteligente exterior a qualquer

organismo visível e oferece uma boa base à investigação científica.

6) A pergunta: ‘Como teria sido produzida essa moldagem dentro da caixa?’

leva a considerações que devem ser de máxima importância para a

filosofia do futuro, do mesmo modo que sobre problemas de psicologia e de

fisiologia e abre novos horizontes às forças latentes e ao alto destino do

homem.”

Sete testemunhas respeitáveis assinam o relatório.

271 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

Se o leitor não ficar satisfeito com tão variados exemplos da validade

dessas experiências de fotografia e moldagens, deverá ler as conclusões a que

chegou o grande investigador Geley, ao fim de suas experiências clássicas com

Kluski, a que aludimos de passagem.

O Doutor Geley realizou com Kluski algumas notáveis experiências sobre a

formação de moldagens em cera, de mãos materializadas. Registrou os resultados 182

de uma série de onze sessões bem sucedidas com tal objetivo. Em luz muito fraca a

mão direita do médium foi segurada pelo Professor Charles Richet e a esquerda pelo

Conde Pctocki. Uma vasilha com cera, mantida em ponto de fusão por meio de água

fervente, foi colocada a sessenta centímetros em frente a Kluski e, para efeito de

teste — o que era ignorado pelo médium — a cera estava impregnada de colesterina,

a fim de evitar a sua substituição. Diz o Doutor Geley: “A luz muito fraca não

permitia que se assistisse ao fenômeno; éramos advertidos do momento de

mergulhar a mão, pelo ruído no liquido. A operação exigira duas ou três imersões.

A mão que estava agindo era mergulhada no vaso, retirada coberta de parafina

quente, tocava as mãos dos controladores da experiência e então era mergulhada

novamente na cera. Depois da operação a luva de parafina, ainda quente mas

solidificada, era colocada de novo junto à mão de um dos controladores”.

Desta maneira nove moldes foram tirados. Sete de mãos, um de pé e outro

de um queixo com os lábios. Examinada a cera de que eram feitos, deu a reação

característica da colesterina. O Doutor Geley mostrou vinte e três fotografias

de

moldes e de cópias em gesso que deles foram feitas. Ë preciso dizer que as

moldagens mostram as dobras da pele, as unhas e as veias, as quais de modo algum

se parecem com as do médium. Os esforços para obter moldagens semelhantes de

mãos de criaturas vivas foram apenas parcialmente realizados, e as diferenças entre

uns e outros são marcantes. Escultores e reputados modeladores declararam que não

conhecem nenhum método de produção de moldagens semelhantes às obtidas nas

sessões com Kluski.

Assim resume Geley os resultados 183 :

“Enumeraremos agora as provas que temos dado da autenticidade das

moldagens de membros materializados em nossas experiências em Paris e

Varsóvia: Mostramos que, além do controle do médium, cujas mãos

mantínhamos sempre seguras, toda fraude era impossível.

1) A teoria da fraude pela luva de borracha é inadmissível, porque essa

tentativa dá resultados absurdos e grosseiros que, à primeira vista, se

nota que são imitações.

2) Não é possível produzir tais luvas de cera usando um molde rígido

préfabricado.

Uma tentativa neste sentido logo mostra a sua

impossibilidade.

3) O emprego de um molde preparado de uma substancia fusível e

solúvel, coberto com uma camada de parafina, durante a sessão e

então dissolvido num balde dágua, não é possível, com o processo

empregado. Não tínhamos balde dágua.

182 “Revue Métapsychtque”, Junho, 1921.

183 “L’Ectoplasmie”, etc., página 278.

272 – Ar thur Conan Doyle

4) A teoria de que uma mão viva era usada, fosse do médium ou de um

assistente, é inadmissível. Isto não podia ser feito por várias razões,

uma das quais é que a luva assim obtida é grossa e sólida, enquanto

que as nossas são finas e delicadas e, ainda, que a posição dos dedos

em nossas moldagens torna impossível a sua retirada, sem quebrar a

luva. Além disso, as luvas foram comparadas com as mãos do médium

e dos assistentes e não se assemelham. Isto também é mostrado pelas

mensurações antropológicas.”

Finalmente, Fui a hipótese de terem sido as luvas trazidas pelo médium.

Isto não se ajusta ao fato de havermos em segredo introduzido um produto químico

na cera fundida, e que o mesmo foi encontrado nas luvas.

O relatório dos especialistas em modelagem neste ponto é categórico e

final. Nada constitui prova para aqueles que se acham tão cheios de preconceitos que

não têm mais lugar para o raciocínio. Mas é inconcebível que um homem

normalmente dotado pudesse ler tudo quanto fica dito acima e duvidar da

possibilidade de fazer moldagens de figuras ectoplásmicas.

273 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

21

Espiritismo francês, alemão e italiano

Espiritismo na França e nas raças latinas concentrase

em torno de Allan

Kardec, que prefere o termo Espiritismo, e sua feição predominante é a

crença na reencarnação.

O Senhor Hipolyte Leon Denizard Rivail, que adotou o pseudônimo de

“Allan Kardec”, nasceu em Lyon em 1804, onde seu pai era juiz. Em 1850, quando

as manifestações espíritas americanas chamavam a atenção da Europa, Allan Kardec

investigou o assunto através da mediunidade de duas filhas de um amigo. Nas

comunicações obtidas foi informado de que “Espíritos de uma categoria muito mais

elevada do que os que habitualmente se Comunicavam através dos dois jovens

médiuns, tinham vindo especialmente para ele, e queriam continuar a vir, a fim de

lhe permitir desempenhar uma importante missão religiosa”.

Ele controlou isto escrevendo uma série de perguntas relativas aos

problemas humanos e, submetendoas

às supostas inteligências operantes, por meio

de batidas e da escrita com a prancheta, recebeu respostas sobre as quais baseava o

seu sistema de Espiritismo. Depois de dois anos de comunicações verificou que suas

ideias e convicções tinham mudado completamente. E disse: “As instruções assim

transmitidas constituem uma teoria inteiramente nova da vida humana, do dever e

do destino, que se me afigura perfeitamente racional e coerente, admiravelmente

lúcida e consoladora e intensamente” . Veiolhe

a ideia de publicar o que havia

recebido e, submetendoa

às inteligências comunicantes, foilhe

dito que os

ensinamentos lhe haviam sido dados expressamente para os transmitir ao mundo e

que ele tinha uma missão que lhe fora confiada pela Providência. E lhe disseram que

denominasse a obra “O Livro dos Espíritos”.

O livro assim produzido em 1856 teve um grande sucesso. Mais de vinte

edições foram publicadas e a “Edição Revista” publicada em 1857, tornouse

o livro

básico da filosofia espírita na França. Em 1861 publicou, “O Livro dos Médiuns”;

em em 1864, “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, em 1865, “O Céu e o Inferno”

e em 1868, “A Gênese”. Além destes, que são as suas obras principais, publicou

pequenos tratados, sob os títulos de “O Que é o Espiritismo” e “O Espiritismo

reduzido à sua Expressão mais Simples”.

Miss Anna Blackwell, que traduziu as obras de Allan Kardec para o inglês,

assim o descreve: “ Pessoalmente Allan Kardec era de estatura média. Compleição

forte, com uma cabeça grande, redonda, maciça, feições bem marcadas, olhos

pardos, claros, mais se assemelhando a um alemão do que a um francês. Enérgico e

perseverante, mas de temperamento calmo, cauteloso e não imaginoso até a frieza,

incrédulo por natureza e por educação, pensador seguro e lógico, e eminentemente

prático no pensamento e na ação. Era igualmente emancipado do misticismo e do

entusiasmo.”

O

274 – Ar thur Conan Doyle

Grave, lento no falar, modesto nas maneiras, embora não lhe faltasse uma

certa calma dignidade, resultante da seriedade e da segurança mental, que eram

traços distintos de seu caráter. Nem provocava nem evitava a discussão mas nunca

fazia voluntàriamente observações sobre o assunto a que havia devotado toda a sua

vida, recebia com afabilidade os inúmeros visitantes de toda a parte do mundo que

vinham conversar com ele a respeito dos pontos de vista nos quais o reconheciam

um expoente, respondendo às perguntas e objeções, explanando as dificuldades, e

dando informações a todos os investigadores sérios, com os quais falava com

liberdade e animação, de rosto ocasionalmente iluminado por um sorriso genial e

agradável, con quanto tal fosse a sua habitual seriedade de conduta que nunca se lhe

ouvia uma gargalhada. Entre as milhares de pessoas por quem era visitado, estavam

inúmeras pessoas de alta posição social, literária, artística e científica. O Imperador

Napoleão 3º, cujo interesse pelos fenômenos espíritas não era mistério para

ninguém, procurouo

várias vezes e teve longas palestras com ele nas Tuileries,

sobre a doutrina de “O Livro dos Espíritos.” Fundou a Sociedade de Estudos

Psicológicos 184 que se reunia semanalmente em sua casa, para obter comunicações

através da psicografia. Também criou a “Revue Spirite” 185 , jornal mensal que ainda

existe e que editou até 1869. Pouco antes traçou um plano de uma organização para

continuar o seu trabalho. “A Sociedade para a Continuação dos trabalhos de Allan

Kardec”, com poder para compra e venda, recebimento de dádivas e legados e para

continuar a publicação da Revue Spirite. Depois de sua morte os planos foram

fielmente prosseguidos.

Kardec achava que os vocábulos espiritual e espiritualista, como

espiritualismo já possuíam uma significação definida. Assim os substituiu por

espiritismo e espírita ou espiritista. A filosofia espírita se distingue por sua crença

em nosso progresso espiritual, que é realizado através de uma série de

reencarnações.

“Devendo o Espírito passar por várias encarnações, resulta que todos nós

temos tido várias existências e teremos ainda outras, mais ou menos aperfeiçoadas,

na Terra ou em outros mundos.

“A encarnação dos Espíritos ocorre sempre na espécie humana. Seria erro

pensar que a alma ou Espírito possa reencarnar no corpo de um animal.

“As várias existências corporais do Espírito são sempre progressivas e

nunca retrógradas; mas a velocidade de progresso depende dos nossos esforços por

atingirmos à perfeição.

“As qualidades da alma são as do Espírito em nós encarnado; assim, o

homem de bem é encarnação de um bom Espírito, como o perverso a de um impuro.

“Tinha a alma a sua individualidade antes da encarnação e a conserva

depois de separarse

do corpo.

“Voltando ao mundo dos Espíritos, a alma aí reencontra aqueles que

conheceu na Terra e todas as suas anteriores existências se avivam em sua memória,

com a lembrança de todo o bem e de todo o mal que haja feito.

“Encarnado, o Espírito se acha sob a influência da matéria; o homem que

supera essa influência pela elevação e pela depuração de sua alma aproximase

dos

bons Espíritos, com os quais estará um dia. Aquele que se deixa empolgar pelas

184 O verdadeiro nome dessa sociedade era “Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas” — N. do T.

185 “Revista Espírita” — Nota do Digitador

275 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

paixões inferiores e põe todas as alegrias na satisfação dos apetites grosseiros

aproximase

dos Espíritos impuros e dá preponderância à natureza animal.

“Os Espíritos encarnados habitam os vários globos do universo.”. 186

Kardec conduziu as suas investigações comunicandose

com Inteligências

por meio de perguntas e respostas, assim obtendo o material para os seus livros.

Muitas informações foram fornecidas a respeito da reencarnação. À pergunta “Para

que fim reencarnam os Espíritos?” davam a seguinte resposta: “É uma necessidade

que lhes é imposta por Deus, como meio de atingir à perfeição. Para alguns é uma

expiação; para outros, uma missão. A fim de atingir à perfeição, élhes

necessário

suportar todas as vicissitudes da vida corpórea. É a experiência adquirida pela

expiação que constitui a sua utilidade. A encarnação tem ainda outra finalidade,

qual a de preparar o Espírito para desempenhar a sua tarefa na obra da criação.

Para tanto deve ele tomar um corpo físico, em harmonia com o estado do mundo

físico para onde é enviado, e por meio do qual é capaz de realizar um trabalho

especial, em conexão com aquele mundo, que lhe foi designado pela sabedoria

divina. Assim, é ele levado a dar a sua contribuição para o progresso geral, ao

mesmo tempo que trabalha pelo seu adiantamento”.

Os espíritas ingleses não chegaram a uma conclusão no que se refere à

reencarnação. Alguns a aceitam, outros não. A atitude geral é que, como a doutrina

não pode ser provada, o melhor seria excluila

da política ativa do Espiritismo.

Explanando essa atitude, Miss Anna Blackwell sugere que, sendo a mente

continental mais receptiva de teorias, aceitou Allan Kardec, enquanto a mente

inglesa, geralmente declina de considerar qualquer teoria enquanto não se tiver

certificado dos fatos admitidos por tal.

Mr. Thomas Brevior (Shorter) um dos redatores de The Spiritual Magazine,

resume o ponto de vista prevalecente dos espíritas ingleses de hoje. Escreve ele 187 :

“Quando a Reencarnação assumir um aspecto mais científico, quando puder

oferecer um demonstrável conjunto de fatos que admitam verificação como os do

Moderno Espiritismo, merecerá ampla e cuidadosa discussão. Por enquanto, que os

arquitetos da especulação se divirtam como quiserem, construindo castelos no ar. A

vida é muito curta e há muito que fazer neste mundo atarefado, para que deixemos

os vagares e as inclinações a fim de nos ocuparmos em demolir essas estruturas

aéreas ou apontar os frágeis alicerces em que se assentam. É muito melhor

trabalhar naqueles pontos em que concordamos, do que nos engalfinharmos sobre

aqueles em que parece que divergimos tão desesperadamente.”

William Howitmt, um dos pioneiros do Espiritismo na Inglaterra, é ainda

mais enfático em sua condenação à reencarnação. Depois de citar Emma Harding

Britten, na sua observação de que milhares do Outro Mundo protestam, através de

distintos médiuns, que não têm conhecimento nem provas da reencarnação diz 188 :

“A coisa abala as raízes de toda a fé nas revelações do Espiritismo. Se formos

levados a duvidar das comunicações espíritas sob o mais sério aspecto, sob as mais

sérias afirmações, onde está o Espiritismo?

186 “O Livr o dos Espír itos”, páginas 19 e 20, Edição “O Pensamento”. — N. do T.

187 “The Spir itual Magazine”, 1876, página 35.

188 Idem, 1876, página 57.

276 – Ar thur Conan Doyle

“...Se a reencarnação for uma verdade, lamentável e repelente como é,

deve ter havido milhões de Espíritos que, ao entrarem no outro mundo, em vão

terão procurado os seus parentes, os filhos, os amigos... Já teria chegado a nós esse

sussurro de milhares, de dezenas de milhares de Espíritos comunicantes? Nunca.

Podemos, portanto, só nesse campo, considerar falso o dogma da reencarnação

como o inferno do qual ele brotou”.

Mr. Howitt, entretanto, em sua veemência, esquece que deve haver um

limite antes que se realize a nova reencarnação, e que, também, no ato deve haver

um elemento da vontade.

O Hon. Alexander Aksakof, num artigo muito interessante 189 dá os nomes

dos médiuns do grupo de Allan Kardec, com uma descrição deles. E também indica

que a ideia da reencarnação era fortemente aprovada na França naquele tempo, como

se pode ver do trabalho de M. Pezzani — “A Pluralidade das Existências”, bem

como de outros. Escreve Aksakof: “É claro que a propagação desta doutrina por

Kardec foi matéria de forte predileção. De início a reencarnação não foi

apresentada como objeto de estudo, mas como um dogma. Para o sustentar,

recorreu com frequência a escritos de médiuns, que, como bem sabemos, facilmente

se submetem á influência de ideias preconcebidas. E o Espiritismo as produziu em

profusão. Enquanto que através de médiuns de efeitos físicos não só as

comunicações são mais objetivas, mas sempre contrárias à doutrina da

reencarnação. Kardec seguiu o rumo de sempre desprezar esse tipo de

mediunidade, tomando como pretexto a sua inferioridade moral. Assim, o método

experimental é, de modo geral, desconhecido no Espiritismo. Durante vinte anos ele

não fez o menor progresso intrínseco e ficou em completa ignorância do Espiritismo

angloamericano.

Os poucos médiuns franceses de fenômenos físicos que

desenvolveram seus dons a des peito de Kardec, jamais foram mencionados na

“Revue”; ficaram quase que desconhecidos dos Espíritas e apenas porque os seus

guias não sustentavam a doutrina da reencarnação.”

Acrescenta Aksakof que as suas observações não afetam a questão da

reencarnação no abstrato, mas apenas no que respeita à sua propagação sob os

auspícios do Espiritismo.

Comentando o artigo de Aksakof, D. D. Home deu um impulso a uma fase

da crença na reencarnação. Diz ele 190 . “Encontro muita gente que é

reencarnacionista e tive o prazer de encontrar pelo menos doze que tinham sido

Maria Antonieta, seis ou sete que tinham sido Mary, Rainha da Escócia; um bando,

de Luiz e outros reis; cerca de vinte Alexandre, o Grande. Mas ainda não encontrei

ninguém que tivesse sido um simples John Smith. E vos peço que, se o encontrardes,

guardaio

como uma Curiosidade”

Miss Anna Blackwell resume o conteúdo dos principais livros de Kardec do

seguinte modo: “O Livro dos Espíritos demonstra a existência e os atributos do

Poder Causal, e a natureza das relações entre aquele Poder e o Universo, pondonos

no caminho da Operação Divina. ‘O Livro dos Médiuns’ descreve os vários

métodos de comunicação entre este mundo e o outro. ‘O Céu e o Inferno’ reivindica

189 Idem, 1876, página 57.

190 “The Spir itualist”, Volume 7º, página 165.

277 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

a justiça do Governo Divino, explicando a natureza do Mal, como fruto da

ignorância e mostrando o processo pelo qual os homens tornarseão

iluminados e

purificados. ‘O Evangelho Segundo o Espiritismo’ é um comentário dos preceitos

morais de Cristo, com um exame de sua vida e uma comparação de seus incidentes

com as atuais manifestações do poder do Espírito. ‘A Gênese’ mostra a

concordância da Filosofia Espírita com as descobertas da Ciência Moderna e com

o ponto de vista geral dos escritos mosaicos, conforme a explicação dos Espíritos.”

“Essas obras” , diz ela, “são consideradas pela maioria dos Espíritas do

Continente como constituindo a base da filosofia religiosa do futuro —uma filosofia

em harmonia com o avanço das descobertas científicas nos vários Outros ramos do

conhecimento humano; promulgada pela falange de Espíritos iluminados que agiam

sob a direção do próprio Cristo”.

De um modo geral, ao autor se afigura que o balanço das provas mostra que

a reencarnação é um fato, mas não necessariamente universal. Quanto à ignorância

dos nossos amigos Espíritas sobre o assunto, concerne ao seu próprio futuro; e se

não somos esclarecidos quanto ao nosso, é possível que eles sofram as mesmas

limitações. Quando se apresenta a questão: “Onde estávamos nós antes do nosso

nascimento?” temos uma resposta definitiva no sistema do lento desenvolvimento

pela reencarnação, com longos intervalos de repouso espiritual; enquanto de outra

maneira não temos resposta, embora tenhamos que admitir que é inconcebível que

tenhamos nascido em tempo para a eternidade. Existência posterior parece postular

existência anterior. Quanto à pergunta natural: “Por que, então, não nos recordamos

de tais existências?” podemos indicar que tais lembranças poderiam complicar

enormemente a vida presente e que tais existências bem podem formar um ciclo que

se nos torna muito claro, quando pudermos ver completo o rosário de nossas vidas

enfiadas numa personalidade.

A convergência de tantas linhas do pensamento teosófico e oriental para

esta conclusão e a explicação que ela oferece na doutrina suplementar do Karma, de

uma aparente injustiça de uma vida única, são argumentos em seu favor, como

devem sêlo,

talvez, aqueles vagos reconhecimentos e lembranças, ocasionalmente

muito definidos para serem explicados como impressões atávicas. Certas

experiências de hipnotismo, das quais as mais famosas foram as do investigador

francês Coronel De Rochas, parece que constituíram uma evidência segura, pois

quando o sensitivo em transe era levado para o passado, em supostas reencarnações,

as mais remotas eram mais difíceis de descrever, enquanto as mais próximas eram

suspeitas de ser influenciadas pelo conhecimento normal do médium. Pelo menos

pode admitirse

que onde uma tarefa especial deve ser concluída, ou onde alguma

falta deve ser remediada, a possibilidade de reencarnação pode ser uma coisa bemvinda

para o Espírito a quem isto concerne.

Antes de voltar à história do Espiritismo Francês não se pode deixar de

atentar para o esplêndido grupo de escritores que o exornam. Fora de Allan Kardec e

do trabalho científico de pesquisas de Geley, Maxwell, Flammarion e Richet, houve

puros espíritas, tais como Gabriel Delanne, Henri Regnault e Leon Denis, que

deixaram pegadas. Especialmente o último teria sido considerado como um grande

prosador francês, fosse qual fosse o seu tema.

278 – Ar thur Conan Doyle

Este trabalho, que se limita às grandes correntes da história psíquica,

dificilmente comportaria referências a regatos e meandros de cada região do globo.

Tais manifestações seriam, invariàvelmente, repetições ou variantes daquilo que já

foi descrito, e pode rapidamente ser verificado que o culto é católico, numa acepção

larga, pois não há país em que ele não ocorra. Desde a Argentina até a Islândia, os

mesmos resultados se têm espalhado da mesma maneira e devido às mesmas causas.

Essa história exigiria, ela só, um volume. Algumas páginas especiais, entretanto,

devem ser dedicadas à Alemanha.

Pôsto que moroso até seguir um movimento organizado, pois só em 1865 é

que apareceu um jornal espírita — Psyche — e se estabeleceu no país, mais do que

em qualquer outra parte, teve aí o Espiritismo uma tradição de especulação mística e

de experiência mágica, que deveria ser considerada uma preparação para a revelação

definitiva. Paracelsus, Cornelius Agripsa, Van Helmont e Jacob Boehme se acham

entre os pioneiros do Espiritismo, sentindo o seu caminho fora da matéria, embora

vago o objetivo que tivessem atingido. Algo mais definitivo foi alcançado por

Mesmer, que realizou seu maior trabalho em Viena, no último quartel do século

dezoito. Conquanto enganado quanto a algumas de suas inferências, foi ele quem

deu o primeiro impulso para a dissociação entre alma e corpo, antes do atual modo

de sentir da humanidade; e um natural de Strasbourg, M. de Puységur, levou seu

trabalho um passo mais adiante, abrindo as maravilhas da clarividência. Jung

Stilling e o Doutor Justinus Kerner são nomes para sempre ligados ao

desenvolvimento do saber humano, através desse caminho nevoento, O atual

anúncio das comunicações espíritas foi recebido com um misto de interesse e de

cepticismo, e custou para que vozes autorizadas se erguessem em sua defesa.

Finalmente o assunto foi trazido magnificamente ao tablado quando Slade fez a sua

histórica visita em 1877. Depois de assistir e verificar as suas realizações, obteve em

Leipzig o endôsso de seis professôres, que reconheciam o seu caráter de

autenticidade. Foram eles Zõllner, Fechner e Scheibner, de Leipzig; Weber, de

Gõttingen; Fichte, de Stuttgard e Ulrici, de Halle. Como esses testemunhos tinham

sido reforçados por um depoimento de Bellachini, o maior mágico da Alemanha, de

que não havia possibilidade de fraude, produziuse

um efeito considerável sobre a

opinião pública, que foi engrossada pela subsequente adesão de dois russos

eminentes. Aksakof, homem de Estado e o Professor Butlerof, da Universidade de

São Petersburgo. Entretanto, parece que o culto não encontrou um terreno adequado

nesse país da burocracia e do militarismo. Excetuado o nome de Carl Du Prel,

nenhum outro se encontra associado com as mais altas fases do movimento.

O Barão Carl Du Prel, de Munich, começou a carreira de estudioso do

misticismo e, em seu primeiro trabalho 191 , não trata do Espiritismo, mas antes das

forças latentes do homem, os fenômenos do sonho, do transe e do sono hipnótico.

Em outro tratado, entretanto, “Um Problema para Mágicos”, faz um relato

minucioso e raciocinado das etapas que o levaram à completa crença no Espiritismo.

Nesse livro, enquanto admite que os filósofos e os homens de ciência não são os

mais classificados para descobrir as fraudes, lembra ao leitor que Bosco, Houdini e

Bellachini e outros hábeis ilusionistas declararam que os médiuns por eles

191 “Philosophy of Mysticism”, 2 Volumes (1889). Trans. C.C. Massey.

279 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

examinados estavam acima de qualquer suspeita de impostura. Du Prel não estava

contente, como muitos outros, de ter provas de segunda mão. Assim, fez um certo

número de sessões com Eglinton e, mais tarde, com Eusapia Palladino. Deu especial

atenção ao fenômeno da psicografia — escrita nas lousas, e assim se exprime: “Uma

coisa é clara — é que a psicografia deve ser aceita como de origem transcendente.

Verificaremos: 1) Que é inadmissível a hipótese de lousas preparadas. 2) Que o

lugar onde se encontra a escrita é inacessível às mãos do médium. Nalguns casos a

dupla lousa é seguramente trancada e deixa internamente um pequeno espaço para

um pedacinho de lápis. 3) Que a escrita é feita no momento. 4) Que o médium não

está escrevendo. 5) Que a escrita deve ser feita no momento com um pedaço de

lousa ou um lápis comum. 6) A escrita é feita por um ser inteligente, de vez que as

respostas são exatamente concordes com as perguntas. 7) Esse ser pode ler,

escrever e entender a linguagem dos seres humanos, frequentemente uma língua

desconhecida do médium. 8) Ele se parece muito com um ser humano, tanto no grau

de inteligência quanto nos enganos que comete. Assim, esses seres são, embora

invisíveis, de natureza ou espécie humana. É inútil lutar contra essa proposição. 9)

Se se lhes pergunta quem são, respondem que são seres que deixaram este mundo.

10) Quando essas aparências se tornam visíveis parcialmente — talvez apenas as

mãos — estas têm forma humana. 11) Quando se tornam inteiramente visíveis

mostram a forma e a atitude humanas... O Espiritismo deve ser investigado como

uma ciência. Eu me consideraria um covarde se não exprimisse abertamente as

minhas convicções.”

Du Prel chama a atenção para o fato de que as suas convicções não se

baseiam em resultados conseguidos com médiuns profissionais. Declara que

conhece três médiuns particulares “em cuja presença não só se verifica a escrita

direta no lado interno de duas lousas, mas que é feita em lugares inacessíveis.”

“Nessas circunstâncias” , diz ele duramente, “a pergunta ‘Médium ou

Mágico?’ ao que me parece, levanta mais poeira do que deve” . Isto é uma

observação que os pesquisadores psíquicos deviam saber de cór.

É interessante notar que Du Prel proclama a asserção que as mensagens são

estúpidas e triviais apenas para serem inteiramente injustificadas peLa experiência,

quando ao mesmo tempo afirma que não encontrou traços de inteligência sobrehumana,

mas, naturalmente, antes de se pronunciar sobre esse ponto fora preciso

determinar como uma inteligência sobrehumana

poderia ser distinguida e até onde

seria compreendida pelo nosso cérebro.

Falando das materializações, diz ele: “Quando essas coisas se tornam

inteiramente visíveis na sala escura, caso em que o médium se senta no meio do

círculo formado pelos assistentes, mostram a forma e a atitude humanos. Dizse

muito facilmente que neste caso é o próprio médium que se disfarça. Mas quando o

médium fala de seu lugar; quando os vizinhos que o ladeiam declaram que

seguraram as suas mãos e ao mesmo tempo eu vejo a figura de pé junto a mim,

quando essa figura ilumina o seu rosto na lâmpada de vácuo que se acha sobre a

mesa e cuja luz não é obstáculo aos fenômenos, de modo que eu posso ver

distintamente, então a prova coletiva dos fatos que descrevi me impõe a necessidade

da existência de um ser transcendente, ainda quando todas as conclusões a que

cheguei durante vinte anos de trabalho e estudo tenham que ser derrubadas. Mas,

280 – Ar thur Conan Doyle

por outro lado, desde que meus pontos de vista, fixados na minha Filosofia do

Misticismo, tomaram um outro rumo, e são justificados por estas experiências,

encontro pouca base subjetiva para combater estes fatos objetivos!”

E acrescenta: “Tenho agora a experiência empírica da existência desses

seres transcendentes, da qual estou convencido pela evidência de meus sentidos da

vista, do ouvido, do tato, tão bem quanto de suas próprias comunicações

inteligentes. Em tais circunstâncias, levado ao mesmo desfecho por dois métodos

diversos de investigação, eu devo ser abandonado pelos deuses se não reconhecer o

fato da imortalidade — ou, melhor dito, desde que as provas não vão mais longe —

a continuidade da existência após a morte.”

Carl Du Prel faleceu em 1899. Sua contribuição para o assunto é, talvez, a

maior oferecida na Alemanha. Por outro lado lá surgiu um formidável adversário —

Eduard von Hartmann, autor da “Filosofia do Inconsciente”, que em 1885 escreveu

uma brochura chamada “Espiritismo”. Comentandoa,

escreveu C. C. Massey 192 :

“É de notarse

que Charles Carlton Massey, advogado, e Gerard Massey,

poeta, são criaturas distintas, nada tendo em comum a não ser que eram espíritas.

“Agora, pela primeira vez, um homem de eminente posição intelectual se

nos defronta como adversário. Deuse

ele ao trabalho de considerar os fatos, senão

inteiramente, ao menos na medida em que inquestionàvelmente ele se qualifica para

um exame crítico. E se, declinando formalmente de uma aceitação sem reserva, da

evidência dos fatos, chegou à conclusão que a existência no organismo humano de

mais forças e capacidade do que a ciência exata investiga, é suficientemente

acreditada pelos testemunhos históricos e contemporâneos. Também insiste pela

pesquisa feita por comissões nomeadas e pagas pelo Estado. Repudia, com toda a

autoridade de um filósofo e como homem de ciência, a suposição de que a priori os

fatos são incríveis ou ‘contrários às leis da natureza’. Expõe a inaceitabilidade das

‘denúncias’ e dá um golpe de misericórdia no estúpido paralelo entre médiuns e

mágicos. E se sua aplicação do sonambulismo aos fenômenos, no seu ponto de

vista, serve de controle dos Espíritos por outro lado contém informações para o

público que são de grande importância para a proteção dos médiuns.”

Diz ainda Massey que do ponto de vista da filosofia de Hartmann a ação

dos Espíritos é inadmissível e a imortalidade pessoal é uma ilusão. “A saída da

filosofia psicológica agora se acha entre a sua escola e a de Du Prel e Hellenbach”.

Alexandre Aksakof respondeu a von Hartmann na revista mensal

Psychische Studien.

Aksakof mostra que Hartmann não tinha nenhuma experiência, que prestou

insuficiente atenção aos fenômenos que não se adaptavam ao seu modo de

interpretar e que havia muitos fenômenos que lhe eram quase desconhecidos.

Por exemplo, Hartmann não acreditou na objetividade dos fenômenos de

materialização.

Com muita habilidade Aksakof cita com muitos detalhes bom número de

casos que, decididamente, infirmam as conclusões de Hartmann. Referese

Aksakof

ao Barão Lazar Hellenbach, que era espírita e foi o primeiro investigador filosófico

dos fenômenos na Alemanha e diz: “A afirmação de Zõllner da realidade dos

fenômenos mediúnicos produziu enorme sensação na Alemanha” . De vários modos

192 “Light”, 1885, página 404.

281 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

parecia que von Hartmann tivesse escrito com um imperfeito conhecimento do

assunto.

A Alemanha produziu poucos grandes médiuns, a menos que Frau Anna

Rothe, seja como tal classificada. É possível que ela tivesse recorrido a fraude,

quando lhe faleciam as forças, mas que ela possuía tais forças em alto grau é

claramente mostrado pelas provas no processo conseqüente à sua suposta “fraude”

em 1902.

Depois de doze meses e três semanas de prisão antes de ser levada ao

tribunal, a médium foi condenada a oito meses de prisão e a uma multa de

quinhentos marcos. No processo muita gente de posição depôs em seu favor; entre

estas pessoas se achavam Herr Stõcker, antigo Capelão da Corte, e o Juiz Sulzers,

presidente da Suprema Corte de Apelação de Zürich. Sob juramento o juiz declarou

que Frau Rothe o havia posto em comunicação com os Espíritos de sua esposa e de

seu pai que disseram coisas que à médium era impossível ter inventado, porque

diziam com assunto desconhecido de qualquer mortal. Também declarou que tinham

sido trazidas flôres de rara qualidade para um salão inundado de luz. Seu

depoimento causou sensação.

É claro que o resultado do processo era uma conclusão prévia. Foi uma

repetição da atitude do juiz Howers, no caso Slade. O procurador alemão começou

assim o seu discurso: “A Corte não se permite criticar a teoria espírita, porque deve

ser reconhecido que a ciência, com a genialidade dos homens de cultura, declara

que são impossíveis as manifestações sobrenaturais.”

Diante disso nenhuma prova teria valor.

Em data recente dois nomes sobressaem em conexão com a matéria em

apreço. É um o Doutor Schrenck Notzing, de Munique, cujo esplêndido trabalho de

laboratório já foi tratado no capítulo sobre o ectoplasma. O outro é o famoso Doutor

Hans Driesch, Professor de Filosofia na Universidade de Leipzig. Recentemente ele

declarou que “a atualidade dos fenômenos psíquicos só é posta em dúvida pelo

incorrigível dogmatismo” . Fez essa declaração numa conferência na Universidade

de Londres, em 1924, a qual foi posteriormente publicada em The Quest 193 .

Prosseguindo disse: “Esses fenômenos tiveram, entretanto, uma luta árdua

a fim de serem reconhecidos. E a principal razão por que tiveram de lutar tão

estrenuamente foi porque foram redondamente negados pela psicologia ortodoxa e

pela ciência cultural, tais quais eram estas pelo menosaté o fim do século passado.”

Diz o Professor Driesch que a ciência natural e a psicologia sofreram uma

radical mudança desde o começo deste século e continua mostrando como os

fenômenos psíquicos. se ligam com as ciências naturais “normais”. Observa que se

estas últimas se recusam a reconhecer a sua relação com aquelas, isto nada afeta os

fenômenos psíquicos. Mostra, através de diversas ilustrações biológicas, como a

teoria mecanicista foi derrubada. Expõe a sua teoria vitalista “para estabelecer um

mais íntimo contacto entre os fenômenos da biologia normal e os fenômenos físicos

no domínio da pesquisa psíquica”.

Sob determinados pontos a Itália foi superior a outros países europeus no

tratamento do Espiritismo — isto a despeito da constante oposição da Igreja Católica

193 9. Julho, 1924.

282 – Ar thur Conan Doyle

Romana, que sem muita lógica estigmatizou como diabolismo os casos que não

receberam a marca especial de santidade. Os Acta Sanctorum constituem uma longa

crônica de fenômenos psíquicos com levitações, transportes, profecias, e todos os

outros sinais de mediunidade. Entretanto essa Igreja sempre perseguiu o Espiritismo.

Poderosa como é, verificará, a seu tempo, que enfrentou algo ainda mais forte que

ela.

Dos modernos italianos o grande Mazzini foi um espírita, naqueles dias em

que o Espiritismo mal se esboçava e seu companheiro Garibaldi foi presidente de

uma sociedade psíquica. Em carta a um amigo em 1849, Mazzini esboça o seu

sistema filosóficoreligioso,

que curiosamente ampara o mais recente ponto de vista

espírita. Ele substitui por um purgatório temporário o inferno eterno, que passa a ser

uma triagem entre este mundo e o outro, definiu uma hierarquia de seres espirituais,

e anteviu um progresso contínuo para a suprema perfeição.

A Itália foi rica em médiuns, mas foi ainda mais afortunada com a posse de

homens de ciência bastante sábios para acompanhar os fatos, onde quer que eles

conduzissem. Entre estes numerosos investigadores — todos eles convictos da

realidade dos fenômenos psíquicos, muito embora não se possa dizer que todos

aceitassem o ponto de vista do Espiritismo — encontramse

nomes como Ermacora,

Schiaparelli, Lombroso, Bozzano, Morselli, Chiaia, Pictet, Foa, Porro, Brofferio,

Bottazzi e muitos outros. Eles tiveram a vantagem de um maravilhoso sensitivo em

Eusapia Palladino, como já foi descrito, mas houve uma série de outros médiuns

poderosos, entre cujos nomes se podem citar Politi, Caranci, Zuccarini, Lucia Sordi,

e especialmente Linda Gazzera. Entretanto, aqui, como em outros campos, o

primeiro impulso veio de países de língua inglesa. Foi a visita de D. D. Home a

Florença, em 1855 e a subsequente visita de Mrs. Gupsy em 1868 que abriu

caminho. O Senhor Damiani foi o primeiro grande investigador e foi ele quem, em

1872, descobriu os dons da Palladino.

O manto de Damiani caiu nos ombros do Doutor G. B. Ermacora, que foi o

fundador e coeditor, com o Doutor Finzi, da “Rivista di Studi Psichici”. Morreu em

Rovigo aos quarenta anos de idade, assassinado — uma grande perda para a causa.

Sua adesão e o seu entusiasmo provocaram os de outros do mesmo porte. Assim, em

seu necrológio, escreve Porro: “Lombroso encontrouse

em Milão com três jovens

físicos, inteiramente libertos de preconceitos — Ermacora, Finzi e Gerosa — com

dois pensadores profundos, que havia esgotado o lado filosófico da questão — o

alemão Du Prel e o russo Aksakof — e com um outro filósofo de mente penetrante e

de vasto saber, Brofferio; e, finalmente, com o grande astrônomo Schiaparelli e com

o fisiologista Richet.”

E acrescenta: “Seria difícil reunir um melhor grupo de homens de ciência,

que oferecesse as necessárias garantias de seriedade, de variada Competência, de

habilidade técnica na experimentação, de sagacidade e prudência no desfecho das

conclusões.”

E continua: “Enquanto Brofferio, com o seu livro de peso ‘Per lo

Spiritismo’, (Milão, 1892) destrói um a um os argumentos dos opositores, coligindo,

coordenando, e classificando com incomparável habilidade dialética as provas em

favor de sua tese, Ermacora aplicou na sua demonstração todos os recursos de

cérebro robusto e treinado no emprego do método experimental; e sentiu tanto

283 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

prazer nesse estudo fértil e novo, que abandonou inteiramente as pesquisas sobre

eletricidade, que já o tinham colocado entre os sucessores de Faraday e de

Maxwell.”

O Doutor Ercole Chiaia, que faleceu em 1905, era também um devotado

trabalhador e propagandista, a quem muitos homens notáveis da Europa devem seus

primeiros conhecimentos sobre fenômenos psíquicos. Entre outros citamse

Lombroso. o Professor Bianchi, da Universidade de Nápoles, Schiaparelli, Fournoy,

o Professor Porro, da Universidade de Gênova e o Coronel De Rochas. Dêle

escreveu Lombroso: “Tendes razão para venerar profundamente a memória de

Ercole Chiaia. Num país onde há tamanho horror ao que é novo, é necessária uma

grande coragem e uma nobre alma para se tornar apóstolo de uma teoria que

defronta o ridículo; e o fazer com aquela tenacidade, aquela energia que sempre

caracterizaram Chiaia. É a ele que muitos devem — inclusive eu — o privilégio de

ver um mundo novo, aberto à investigação psíquica — e isto pelo único meio que

existe para convencer homens de cultura, isto é, pela observação direta.”

Sardou, Richet e Morselli renderam tributo ao trabalho de Chiaia 194 .

Chiaia fez um importante trabalho orientando Lombroso, o eminente

alienista, na investigação do assunto. Depois de suas primeiras experiências com

Eusapia Palladino, em março de 1891, escreveu Lombroso: “Sintome

bastante

envergonhado e pesaroso por me haver oposto com tanta tenacidade à possibilidade

dos chamados fatos espíritas.”

Inicialmente apenas aceitava os fatos e se opunha à teoria a eles associada.

Mas. já essa aceitação parcial causou sensação na Itália e em todo o mundo. Aksakof

escreveu ao Doutor Chiaia: “Glória a Lombroso por suas nobres palavras! Glória a

você, por sua dedicação!”

Lombroso oferece um bom exemplo de conversão de um materialista

decidido, depois de longo e cuidadoso exame dos fatos. Em 1900 escreveu ele ao

Professor Falcomer: “Sou como um pequeno seixo na praia. Ainda estou a

descoberto; mas sinto que cada maré me arrasta para mais perto do mar.”

Como se sabe, ele acabou se tornando um crente completo, um espírita

convicto e publicou um livro célebre ‘Morte... E depois?’.

Ernesto Bozzano, nascido em Gênova em 1862, devotou trinta anos a

pesquisas psíquicas, reunindo as suas conclusões em trinta extensas monografias.

Será lembrado por sua crítica incisiva 195 as referências inconscientes de Mr.

Podmore a Mr. Stainton Moses. Seu título é “Uma Defesa de William Stainton

Moses”. Bozzano, em companhia dos Professôres Morselli e Porro, fez uma longa

série de experiências com Eusapia Palladino. Depois de analisar os fenômenos

objetivos e subjetivos, foi conduzido à “necessidade lógica” de aderir

completamente à hipótese espírita.

Enrico Morselli, Professor de Psiquiatria em Gênova, foi durante muitos

anos, como ele próprio o confessa, um duro céptico em relação à realidade objetiva

dos fenômenos psíquicos. De 1901 em diante fez trinta sessões com Eusapia

Palladino, e ficou inteiramente convencido dos fatos, senão da teoria espírita.

194 “Annals of Psychical Science”, Volume 2º (1905), páginas 261 e 262.

195 Idem, Volume 1º (1905) páginas 75 e 129.

284 – Ar thur Conan Doyle

Publicou as suas observações num livro que o Professor Richet descreve como um

modelo de erudição” — “Psicologia e Spiritismo”, Turim, 1908. Numa análise

muito generosa deste livro 196 , Lombroso se refere ao cepticismo do autor, em

relação a certos fenômenos observados. Diz ele: “Sim, Morselli comete o mesmo

erro de Flournoy e de Miss Smith 197 , torturando a sua própria e enorme

ingenuidade para achar que não são verdades, nem críveis, coisas que ele mesmo

declara ter visto. Por exemplo, durante os primeiros dias depois da aparição de sua

própria mãe, admitia comigo que a tinha visto e tivera um entendimento por gestos

com ela, nos quais ela apontava quase que com amargura para os seus óculos e a

sua calva parcial e lhe lembrou como o havia deixado ainda um belo rapaz.”

Quando Morselli pediu à sua mãe uma prova de identidade, ela tocou com a

mão em sua testa procurando um caroço; mas como tocasse primeiro no lado direito

e depois no lado esquerdo, onde realmente estava o lobinho, Morselli não queria

aceitar isto como prova da presença de sua mãe. Com mais experiência, Lombroso

lhe mostra a dificuldade dos Espíritos em usar a instrumentalidade de um médium

pela primeira vez. A verdade éque Morselli tinha, por estranho que pareça, a maior

repugnância pelo aparecimento de sua mãe através de uma médium contra a sua

vontade. Lombroso não põde compreender este sentimento. E diz: “Confesso que

não só não concordo, mas que, ao contrário, quando novamente vi minha mãe, senti

uma das mais agradáveis sensações íntimas de minha vida, um prazer que era quase

um espasmo, que despertou uma sensação, não de ressentimento, mas de gratidão à

médium que novamente lançou minha mãe em meus braços depois de tantos anos. E

esse acontecimento me fez es quecer não uma vez, mas muitas vezes, a humilde

postura de Eusapia, que tinha feito para mim, ainda que de maneira puramente

automática, aquilo que nenhum gigante em força ou em pensamento jamais teria

podido fazer.”

Em muitas coisas a posição de Morselli é a mesma do Professor Richet, no

que diz respeito à pesquisa psíquica, mas como este último distinto cientista, tem

sido ele o instrumento de influenciação da opinião pública para um maior

esclarecimento do assunto.

Morselli fala com veemência do despreso da ciência. Em 1907 escreve o

seguinte: “A questão do Espiritismo foi discutida por mais de cinquenta anos; e, con

quanto atualmente ninguém possa prever quando ela será resolvida, agora todos

concordam em lhe conceder grande importância entre os problemas que ficaram

como uma herança do século dezenove ao nosso século. Entretanto ninguém pode

deixar de reconhecer que o Espiritismo é uma forte corrente ou tendência do

pensamento contemporâneo. Se, durante muitos anos, a ciência acadêmica

desprezou o conjunto dos fatos que, por bem ou por mal, certo ou errado, o

Espiritismo absorveu e assimilou, considerandoos

elementos formadores de seu

sistema doutrinário, tanto pior para a ciência! E pior ainda para os cientistas que

ficaram surdos e mudos diante de todas as afirmações, não de sectários crédulos,

mas de sérios e dignos observadores como Crookes, Lodge e Richet. Não me

envergonho de dizer que eu mesmo, até onde minhas modestas forças chegavam,

196 Idem, Volume 7º (1908), página 376.

197 Helene Smith, médium, no livro de Fournoy “Da Índia ao Planeta Mar te”.

285 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

contribui para esse obstinado cepticismo, até o dia em que fui capaz de romper as

cadeias nas quais as minhas percepções absolutistas tinham acorrentado o meu

raciocínio.” 198

É de notarse

que a maioria dos professôres italianos, enquanto aderiam aos

fatos psíquicos, declinavam das conclusões daqueles a quem chamavam de espíritas.

Di Vesme bem o esdarece quando diz: “É mais importante salientar que a

revivescência do interesse por estas questões, que foi exibido pelo público italiano,

não se teria produzido tão facilmente se os homens de ciência que proclamaram a

objetividade e a autenticidade desses fenômenos mediúnicos não tivessem tido o

cuidado de acrescentar que o reconhecimento dos fatos de modo algum implicava a

aceitação da hipótese espírita.”

Houve, entretanto, uma forte minoria que viu o inteiro significado da

revelação.

198 “Annals of Psychical Science”, Volume 5º (1907) página 322.

286 – Ar thur Conan Doyle

22

Grandes Médiuns Modernos

á sempre uma certa monotonia em escrever sobre sinais físicos de

inteligência estranha, porque eles tomam formas estereotipadas e de natureza

limitada.

São mais que suficientes para a sua finalidade, que é demonstrar a presença

de forças invisíveis, desconhecidas da ciência materialista, mas tanto os seus

métodos de produção, quanto os resultados, conduzem a infindáveis reiterações.

Essa manifestação em si mesma, ocorrendo, como ocorre, em toda a parte, deveria

convencer cada um que pensa seriamente sobre o assunto que se acha em presença

de leis fixas, e que não é uma esporádica série de milagres, mas uma ciência real que

se está desenvolvendo. É em sua ignorante e arrogante guerra a esse fato que têm

pecado os adversários. “Não compreendem que haja leis”, escreveu Madame Bisson,

depois de alguma tentativa fátua dos doutores da Sorbonne para produzir o

ectoplasma sob condições que lhes impossibilitavam a experiência. Como se verá

pelo que sucedeu antes, um grande médium de efeitos físicos pode produzir a Voz

Direta fora de seus próprios órgãos vocais, bem como a telecinésia ou o movimento

de objetos a distância, batidas, ou percussão do ectoplasma, transportes, ou a vinda

de objetos distantes, materializações de rostos, de mãos ou de figuras inteiras, a fala

e a escrita em transe, escrita em lousas fechadas, fenômenos luminosos, que tomam

várias formas. Todas essas manifestações o autor viu muitas vezes e como elas lhe

foram mostradas pelos principais médiuns da atualidade, ele se arrisca a alterar a

forma desta história, falando dos mais recentes sensitivos que conhece pessoalmente

e pôde observar.

Fique entendido que uns cultivam um dom, outros outro, ao passo que os

que exibem todas as formas de mediunidade em geral não são tão proficientes em

nenhuma, como o homem ou a mulher que se especializou. A gente possui muita

força psíquica para exteriorizar, e pode fazêlo

através de um canal profundo ou

desperdiçála

através de muitos canais superficiais. De vez em quando aparece uma

criatura maravilhosa, como D. D. Home, que possui todas as mediunidades — mas

isto é raro.

A maior médium de transe com a qual o autor já teve contacto foi Mrs.

Osborne Leornad. O grande valor de seu dom é que, em regra, ele é contínuo. Não é

interrompido por longas pausas ou por intervalos improdutivos, mas flui exatamente

como se a pessoa que se supõe falar estivesse presente. O processo usual é que Mrs.

Leonard, uma senhora agradável, gentil, de meiaidade,

cai num sono, durante o

qual a sua voz muda inteiramente e o que vem através dela, se supõe ser de seu

pequeno guia — Feda. O guia fala um inglês entrecortado, alto, com muitas

expressões infantis e de intimidade, o que dá a impressão de uma inteligência

infantil, suave e meiga. Atua como portavoz

do Espírito que espera, mas

H

287 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

ocasionalmente este fala, ocasionando uma súbita mudança de forma de falar, da

terceira pessoa do singular para a primeira, como, por exemplo: “Estou aqui, Papai.

Ele diz que quer falar. Sintome

tão bem e tão feliz! Ele acha tão maravilhoso falar

convosco...” e assim por diante.

Pelo menos é uma experiência maravilhosa. Uma vez o autor recebeu uma

longa série de mensagens referente à sorte futura do mundo, através da mão de sua

esposa e de sua voz, no seu próprio grupo doméstico. Ao visitar Mrs. Leonard, nada

disse a respeito, nem havia de modo algum dado a conhecer o assunto. Apenas se

havia assentado e tomado o bloco onde pretendia tomar notas do que ocorresse,

quando seu filho anunciou a sua presença e falou seguidamente durante uma hora.

Durante esse longo monólogo mostrou um íntimo conhecimento de tudo quanto

tinha acontecido no grupo doméstico e ainda numerosos detalhes da vida da família,

absolutamente desconhecidos da médium. Em toda a entrevista não houve qualquer

engano em relação aos fatos, põsto houvesse referência a muitos deles.

Uma pequena parte dos menos pessoais pode servir de exemplo:

“Há muito progresso falso no campo mecânico material. Isto não é

progresso. Se se constrói um carro para andar mil milhas este ano, então se constrói

outro para andar o dobro no ano seguinte. Nem por isso é melhor. Desejamos

progresso real — a saber, da mente e do Espírito e tornar como um realidade que há

um mundo espiritual. Enorme auxílio poderia ser daíio do nosso lado, bastando que

a gente da Terra se adaptasse para o receber. Mas não podemos forçar o nosso

auxílio aos que não estão preparados para ele. Este é o vosso trabalho preparar gente

para nós. Alguns são tão irremediavelmente ignorantes, mas lançam a semente,

mesmo quando não a vedes germinar. O clero é tão limitado em suas ideias e tão

amarrado a um sistema já obsoleto! É como se servissem comida velha de uma

semana, em vez de recentemente preparada. Sabemos quanto é maravilhoso o Cristo.

Sabemos do seu amor e do seu poder. Ele pode ajudar a nós e a vós. Mas o fará

acendendo novos fogos e não ciscando sempre as velhas cinzas. Eis o que desejamos

— o fogo do entusiasmo nos dois altares da imaginação e do conhecimento.

Algumas pessoas afastam a imaginação, que é, muitas vezes, a porta do

conhecimento. As Igrejas tiveram o ensino certo, mas não o puseram em ação. O

conhecimento espiritual que se possui, deve ser demonstrado de modo prático. O

plano em que viveis é um plano prático, no qual aguardase

que ponhais em prática

o vosso conhecimento e a vossa fé. Em nosso plano, conhecimento e fé são ação —

a gente pensa uma coisa e imediatamente a põe em prática; mas na Terra muitos há

que dizem que uma coisa é certa, mas nunca a fazem. A igreja ensina mas não

demonstra o seu ensino. Sabeis que por vezes o quadro negro tem utilidade. É o de

que precisais. Deveis ensinar e, depois, demonstrar no quadro negro. Assim, os

fenômenos físicos são realmente mais importantes. Haverá alguns nesta violenta

comoção social. Agora é difícil a nossa manifestação, porque a maior massa do

pensamento coletivo está contra nós e não a nosso favor. Mas quando se der aquela

comoção social o povo será sacudido de sua atitude de ignorante, de antagonismo de

cabeçasdegalinha

contra nós, assim se abrindo imediatamente o caminho para uma

demonstração mais completa do que a que até agora temos podido dar.

“Agora é como um muro, contra o qual nos batemos e onde perdemos

noventa por cento da nossa força de bater e de tentar descobrir um ponto fraco,

nesse muro de ignorância, através do qual possamos ligarnos

a vós. Mas muitos de

288 – Ar thur Conan Doyle

vós estão cavando e martelando do vosso lado para nos dar entrada. Vós não

construístes o muro — estais ajudando a nossa penetração. Em pouco tempo têloeis

tão enfraquecido que ele se esboroará e, em vez de penetrálo

com dificuldade,

emergiremos como um grupo glorioso. Este será o clímax o encontro do Espírito

com a Matéria.”

Se a verdade do Espiritismo dependesse apenas da força de Mrs. Leonard, o

caso seria esmagado, pois ela atendeu centenas de visitas e raramente deixou de lhes

dar completa satisfação. Há, entretanto, muitos clarividentes cujos poderes são um

pouco inferiores aos de Mrs. Leonard, e que talvez fossem iguais a ela, se

mostrassem a mesma reserva em seu uso.

Não há dinheiro que leve Mrs. Leonard a receber mais que dois clientes por

dia, e é talvez por isto que ela mantém a excelência dos resultados.

Entre os clarividentes londrinos que o autor usou, Mr. Vout Peters ocupa

lugar de destaque. Uma vez uma grande prova foi dada por seu intermédio, e que foi

relatada em “New Revelation”, página 53. Outro excelente em seus dias foi Mrs.

Annie Brittain. O autor costumava mandar a essa médium pessoas que tinham

perdido parentes durante a guerra e colecionou as cartas nas quais eles narravam a

sua experiência. O resultado é notável. Nos primeiros cem casos, oitenta eram de

sucesso no estabelecimento de um contacto com o objeto de seus desejos. Nalguns

casos o resultado era superiormente evidente e dificilmente será superestimado o

conforto oferecido aos consulentes. A transformação do sentimento, quando o que

aqui fica tem a prova de que a morte não é silenciosa, mas que resta ainda uma voz,

falando com uma entonação feliz, pode reanimar uma criatura. Uma senhora

escreveu que estava absolutamente determinada a pôr um ponto na vida, tão

chocante e vazia era a sua existência; mas deixou a sala de Mrs. Brittain com a

esperança no coração.

Quando a gente tem notícia de que uma tal médium foi arrastada a uma

delegacia de polícia, interrogada por um policial ignorante e condenada por um

magistrado ainda mais ignorante, sente que está vivendo um daqueles escuros

períodos da História.

Como Mrs. Leonard, Mrs. Brittain tem o delicado apelido familiar de Belle.

Em suas extensas pesquisas o autor fez muitas relações com essas pequenas criaturas

em diversas partes do mundo, encontrando o mesmo caráter, a mesma voz e as

mesmas maneiras agradáveis em todas. Essa semelhança parece mostrar, quando se

medita sobre o caso, que existe a ação de uma lei geral. Feda, Belle, Iris, Harmony e

muitas outras, sussurram com fina voz e o mundo se torna melhor com a sua

presença e a sua pregação.

Miss Mc Creadie é outra notável vidente londrina, pertencente à velha

escola e trazendo consigo uma atmosfera de religião que por vezes nos falta. Há

muitos outros, mas nenhuma notícia seria completa se se não aludisse aos notáveis e

elevados ensinos que vêm de Johannes e de outros guias de Mrs. Hester Dowden,

filha do famoso shakespeariano.

Também deve ser feita uma referência ao Capitão Bartlett, cujos

maravilhosos escritos e desenhos permitiram a Mr. Bligh Bond descobrir as ruínas

de duas capelas em Glastonbury que se achavam tão enterradas que só o sentido da

289 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

clarividência lhes poderia marcar a exata posição. Os leitores de “The Gate of

Remembrance” compreenderão todo o valor desse notável episódio.

Os fenômenos da Voz Direta diferem da mera clarividência e da fala em

transe, por isso que os sons não parecem vir do médium, mas de fora, às vezes de

uma distância de alguns metros e continuar quando a boca está cheia de água e,

outras vezes, se fazendo ouvir em duas ou três vozes simultâneas. Nessas ocasiões

uma trombeta de alumínio é empregada para aumentar a voz; e também, como

supõem alguns, para formar uma pequena câmara escura, na qual as cordas vocais

então usadas pelo Espírito, se podem materializar. É um fato interessante e que

trouxe muita confusão aos que têm pouca experiência, porque em geral os primeiros

sons se assemelham à voz do médium. Isto logo desaparece e a voz ou se torna

neutra ou muito parecida com a do morto. É possível que a razão desse fenômeno

seja que o ectoplasma com o qual os fenômenos são produzidos seja tirado do

médium e, assim, leve algumas peculiaridades dele ou dela, até que o tempo e as

forças exteriores tenham o predomínio. Seria bom que o céptico fosse paciente e

esperasse o desenvolvimento, pois eu conheci um investigador ignorante e

opiniático que jurava que havia fraude apenas porque notava a semelhança das vozes

e então estragava toda a sessão com grosserias malucas, quando, se tivesse esperado,

teria esclarecido as suas dúvidas.

O autor fez experiências com Mrs. Wriedt ouvindo a Voz Direta,

acompanhada de batidas na corneta, em plena luz, estando a médium sentada a

poucos metros de distância. Isto por causa da ideia de que no escuro pode o médium

mudar de posição. Não é raro ter duas ou três vozes de Espíritos falando ou cantando

ao mesmo tempo, o que, por sua vez, é fatal para a teoria da ventriloquia. Também a

corneta, que por vezes é pintada com tinta fosforescente, pode ser vista suspensa ao

longe, fora do alcance das mãos do médium. Uma vez, em casa de Mr. Dennis

Bradley, o autor viu a corneta iluminada girando e batendo no teto, como um vagalume.

Depois pediram ao médium, Valiantine, que subisse na cadeira e verificaram

que com o braço estendido e segurando a corneta não era possível tocar no teto. Isto

foi testemunhado por um grupo de oito pessoas.

Mrs. Wriedt nasceu em Detroit, há uns cinquenta anos e e talvez mais

conhecida na Inglaterra do que qualquer médium americano. A autenticidade de seus

poderes pode ser melhor julgada por uma pequena descrição dos resultados. Uma

vez, numa visita à casa de campo do autor, ela se sentou com este, sua esposa e seu

secretário numa sala bem iluminada.

Foi cantado um hino e antes de terminada a primeira estrofe juntouse

uma

quinta voz de excelente qualidade e continuou até o fim. Os três observadores

estavam prontos para dizer que a própria Mrs. Wriedt estivesse cantando todo o

tempo. Na sessão da noite vieram muitos amigos, com todas as possíveis provas de

identidade. Um assistente sentiu a aproximação de seu pai, recentemente falecido,

que começou pela tosse sêca e forte, que aparecera em sua última doença. Discutiu a

questão de um legado, de maneira perfeitamente racional. Um amigo do autor, aliás

um irascível angloindiano,

manifestouse,

tanto quanto é possível manifestarse

pela voz, reproduzindo exatamente a sua maneira de falar, dando o seu nome, e

aludindo a fatos de sua vida material. Outro assistente recebeu a visita de alguém

290 – Ar thur Conan Doyle

que se dizia sua tiaavó!

O parentesco foi negado; mas, perguntando em família,

verificou que tinha tido uma tia daquele nome, morta na infância.

A telepatia tem que ser afastada da explicação de tais fatos.

Ao todo o autor experimentou pelo menos com vinte produtores de Voz

Direta e ficou muito chocado pelas diferenças em volume de som com os diversos

médiuns. Por vezes é tão fraca que com dificuldade se escuta a mensagem. Há

poucas experiências mais tensas e penosas do que aplicar o ouvido para escutar no

escuro, perto de nós vozes sussurrantes, esforçadas, entrecortadas, que poderiam

significar muito se as pudéssemos distinguir. Por outro lado, o autor conheceu aquilo

que deve ser consideravelmente chocante quando, no quarto de um hotel em

Chicago, cheio de gente, rompeu uma voz que só poderia ser comparada ao rugido

de um leão. O médium nessa ocasião era um esguio rapaz americano, que não podia

ter produzido aquele som com os seus órgãos normais. Entre estes dois extremos

podem encontrarse

todas as gradações de volume e de vibração.

George Valiantine, já mencionado, talvez viesse em segundo lugar, se o

autor tivesse de fazer uma lista dos grandes médiuns de Voz Direta, com os quais

fez experiências. Ele foi examinado pela Comissão do Scientific American e pôs por

terra a alegação de que um dispositivo elétrico mostrara que ele tinha saído de sua

cadeira quando a voz se fez ouvir. O exemplo já oferecido pelo autor, no qual a

corneta circulava fora do alcance do médium, é prova positiva de que os resultados

certamente não dependem de sua saída da cadeira e que os efeitos não só dependem

de como a voz é produzida, mas, principalmente, do que diz a voz. Aqueles que

leram “Rumo às Estrêlas”, de Dennis Bradley, e o seu livro subsequente, narrando a

longa série de sessões em Kingston Vale, podem fazer uma ideia de que nenhuma

outra explicação abarca a mediunidade de Valiantine, a não ser que possui,

realmente, excepcionais poderes psíquicos. Estes variam muito com as condições,

que em geral permanecem bem altas. Como Mrs. Wriedt, ele não cai em transe mas,

mesmo assim, suas condições não podem ser chamadas normais. Há condições de

semitranse

que esperam a investigação dos estudiosos no futuro.

Mr. Valiantine é, de profissão, um fabricante numa pequena cidade na

Pensilvânia. Ë calmo, delicado e bondoso e como se acha na flor da idade, uma

carreira muito útil se abre à sua frente.

Como médium de materializações, Jonson, de Toledo, que depois residiu

em Los Angeles, permanece só, até onde o autor pôde observar. Possivelmente o

nome de sua esposa poderia ser ligado ao seu, desde que trabalham juntos. A

peculiaridade do trabalho de Jonson é que fica inteiramente à vista do grupo,

enquanto sua esposa fica de pé junto da câmara e superintende os trabalhos. Quem

desejar um relato completo das sessões de Jonson deverá ler do autor a “Our Second

American Adventure” 199 , posto sua mediunidade seja também tratada muito

minuciosamente pelo Almirante Usborne Moore 200 .

O almirante, que se achava entre os grandes investigadores psíquicos, fez

muitas sessões com Jonson e obteve a cooperação de um exchefe

do Serviço

Secreto dos Estados Unidos, que estabeleceu a vigilância e nada encontrou contra o

199 “Nossa Segunda Aventur a Amer icana” — N. do T.

200 “Glimpses of the Next State”, páginas 195, 322.

291 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

médium. Quando a gente recorda que Toledo era, então, uma cidade limitada, e que

às vezes umas vinte personalidadesdiferentes se manifestavam na mesma sessão,

podese

imaginar que a personificação apresenta insuperáveis dificuldades. Por

ocasião de uma sessão em que se achava o autor, ocorreu um longo desfile de

figuras, cada uma por sua vez, vindo da pequena cabine. Eram velhos e moços,

homens, mulheres e crianças. A luz de uma lâmpada vermelha era bastante para que

se vissem as figuras claramente, mas não para distinguir os detalhes das feições.

Algumas das figuras ficaram fora nada menos que vinte minutos e

conversaram livremente com o grupo, respondendo às perguntas que lhes eram

feitas. Nenhum homem dará a outro um cheque em branco pela honestidade, nem

declarará que ele é honesto e o será sempre. O autor apenas dirá que naquela ocasião

particular estava perfeitamente convencido da genuína natureza dos fenômenos, e

que não tem razões para duvidar disso em qualquer outra ocasião.

Jonson é um homem de compleição forte e, posto esteja agora velho, seus

poderes psíquicos ainda não são igualados. É o centro de um grupo em Pasadena,

perto de Los Angeles, que se reúne semanalmente, para aproveitar de seus notáveis

poderes. O finado Professor Larkin, astrônomo, era freqüentador do grupo e garantiu

ao autor que acreditava completamente na sua honestidade como médium.

As materializações podem ter sido mais comuns no passado do que no

presente. Os que leram livros como o de Brackett, “Materialised Apáginasaritions”

ou o “There is No Death”, de Miss Marriat, que o digam. Mas nestes dias as

materializações completas são muito raras.

O autor estava presente a uma suposta materialização por um tal

Thompson, em Nova Iorque, mas as coisas. não geraram convicção. Pouco depois o

homem foi preso por trapaças, em circunstâncias que não deixam dúvida quanto à

sua culpabilidade.

Há médiuns que, sem se especializarem de nenhuma forma, podem mostrar

uma grande variedade de manifestações supernaturais.

De todos que o autor

encontrou daria precedência pela variedade e pela consistência a Miss Ada Besinnet,

de Toledo, nos Estados Unidos, e a Eva Powell, outrora chamada Merthyr Tydvil,

em Gales. Ambas são admiráveis médiuns, e pessoalmente dignas dos maravilhosos

dons com que foram dotadas. No caso de Miss Besinnet as manifestações incluem a

voz direta, por vezes duas ou três ao mesmo tempo. Um guia masculino, chamado

Dan, tem uma notável voz de barítono e quem quer que o tenha ouvido não duvidará

de que seja independente do organismo daquela senhora. Ocasionalmente se junta

uma voz feminina, para fazer com Dan um dueto afinadíssimo. Notável assovio, no

qual parece que não há pausa para respirar, é outra feição de sua mediunidade.

Assim também a produção de luzes muito brilhantes. Estas parecem pequenos

sólidos luminosos, pois. o autor, em certa ocasião, fez a curiosa experiência de ter

um em seus bigodes. Tivesse aí pousado um grande vagalume e o efeito teria sido o

mesmo. As Vozes Diretas de Miss Besinnet, ao tomarem a forma de mensagens,

separadas do trabalho dos guias, não são fortes e, muitas vezes, são difíceis de ouvir.

O mais notável de todos os seus poderes, entretanto, é o aparecimento de rostos de

fantasmas, que surgem numa faixa iluminada, em frente ao assistente. Pareceriam

antes máscaras, de vez que não apresentam relêvo. Em muitos casos apresentam

faces finas, que ocasionalmente se assemelham à do médium, quando a saúde da

292 – Ar thur Conan Doyle

senhora ou a força do círculo decaem. Quando as condições são boas, são

perfeitamente diferentes. Em duas ocasiões o autor viu faces nas quais poderia

absolutamente jurar que uma era de sua mãe e outra de seu sobrinho, Oscar

Hornung, jovem oficial morto na guerra. Por outro lado houve noites em que

nenhum reconhecimento claro foi possível obter, embora entre os rostos alguns

pudessem ser chamados de angélicos, tal a sua beleza e a sua pureza 201 .

No nível de Miss Besinnet está Mr. Evan Powell, com a mesma variedade,

mas nem sempre com o mesmo tipo de poderes. Os fenômenos luminosos de Powell

são igualmente bons. Sua produção de voz é melhor. O autor ouviu vozes de

Espíritos tão altas quanto as humanas comuns e se recorda de uma ocasião em que

três falavam ao mesmo tempo — uma a Lady Cowan, outra a Sir James Marchant e

uma terceira a Sir Robert McAlpine. Os movimentos de objetos são comuns nas

sessões de Powell e numa ocasião uma estante de 60 libras foi suspensa durante

algum tempo, sobre a cabeça do autor. Evan Powell sempre insiste para ser

amarrado fortemente durante a sessão, o que é feito, conforme ele reclama, para a

sua mesma proteção, de vez que ele não pode ser responsável por seus próprios

movimentos, quando se acha em transe. Isto lança um interessante esclarecimento

sobre a natureza de algumas mistificações. Há muita evidência, não só de que,

inconscientemente, ou sob a influência da sugestão da assistência, pode o médium

colocarse

numa posição falsa, mas que forças do mal, sempre perturbadoras ou

ativamente opostas ao bom trabalho feito pelos Espíritas, possam atuar sobre o

corpo em transe e leválo

a fazer uma coisa suspeita, visando desacreditar o médium.

Algumas notáveis observações a esse respeito, baseadas na experiência pessoal,

foram feitas pelo Professor Haraldur Nielson, da Islândia, ao comentar um caso em

que um do grupo cometeu uma fraude insensata e, posteriormente, um Espírito disse

que ela tinha sido praticada por sua ação e instigação 202 .

De um modo geral Evan Powell pode ser considerado como o mais

largamente dotado de forças mediúnicas de todos os médiuns na Inglaterra. Ele

prega as doutrinas espíritas em pessoa e pelo seu guia e ele próprio pode demonstrar

quase todas as mediunidades. É pena que o seu negócio como vendedor de carvão

no Devonshire não lhe permita uma presença constante em Londres.

A mediunidade da escrita nas lousas é uma manifestação notável. Temna

em alto grau Mrs. Pruden, de Cincinnati, que recentemente visitou a GrãBretanha,

exibindo suas maravilhosas faculdades a muita gente. O autor fez várias sessões com

ela e explicou os métodos minuciosamente. Como a passagem é curta e pode tornar

o assunto claro para os não iniciados, eis a sua transcrição: “Tivemos a sorte agora

de nos pormos em contacto com um médium realmente grande — Mrs. Pruden, de

Cincinnati, —que veio a Chicago assistir às minhas conferências. Realizamos uma

sessão no Blackstone Hotel, devida á cortesia de seu hóspede, Mr. Holmyard, e os

resultados foram esplêndidos. É uma senhora idosa, boa e de maneiras naturais.

Seu dom especial é a escrita nas lousas, que jamais eu havia examinado. Eu ouvira

dizer que havia truques no caso, mas ela estava ansiosa para usar as minhas lousas

201 Vários julgamentos e experiências com esta médium se acham na obra do autor “Our Amer ican

Adventur e”, páginas 124 a 132; no “Glimpses of the Next State”, do Almirante Moore, páginas 216 e

312; e finalmente no relatório de Mr. Hewat McKenzle, no Psychic Science de abril de 1922.

202 “Psychic Science”, Julho, 1925.

293 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

e permitir que examinasse as suas. Ela prepara uma câmara escura, cobrindo a

mesa com um pano e sustenta a lousa debaixo da mesa, enquanto a gente pode

segurar a lousa pelo outro lado. Sua outra mão fica livre e àvista. A lousa é dupla,

tendo entre as duas um pedacinho de lápis. Após uma demora de meia hora

começou a escrita. Foi a mais estranha sensação segurar a ardósia e sentir o rumor

e a vibração do lápis a riscar dentro delas. Cada um havia escrito uma pergunta

num pedaço de papel e o tínhamos posto no chão, cuidadosamente dobrado,

debaixo dos panos, para que a força psíquica pudesse ter as adequadas condições

para o seu trabalho, que sempre sofre a interferência da luz. Então cada um de nós

recebeu uma, resposta dada na lousa à pergunta que havia feito e teve licença para

apanhar os papéis e verificar que não haviam sido abertos. A sala naturalmente

estava inundada de luz e a médium não podia abaixarse

sem que a víssemos. Nessa

manhã eu tinha um negócio, em parte espiritual, em parte material, com o Doutor

Gelbert, um inventor francês. Em minha pergunta indaguei se ele era perito. A

resposta na ardósia dizia: ‘Acredite no Doutor Gelbert, Kingsley’. Eu não havia

mencionado na pergunta o nome do Doutor Gelbert, nem havia dito nada a respeito

a Mrs. Pruden. Minha senhora recebeu uma longa mensagem assinada por uma

amiga querida. O nome era a sua verdadeira assinatura. Em conjunto era uma

demonstração absolutamente convincente. Batidas agudas e claras sobre os móveis

acompanharam continuamente a nossa conversa.” 203

O método geral e o resultado é o mesmo que é usado por Mr. Pierre Keeler,

dos Estados Unidos. O autor não conseguiu uma sessão com esse médium; mas um

amigo que a obteve conseguiu resultados que põem a verdade dos fenômenos acima

de qualquer questão. Em seu caso recebeu resposta a perguntas postas dentro de

envelopes, de modo que a explicação favorita de que, de certo modo, o médium vê

as tiras de papel, fica eliminada. Quem quer que tenha assistido a Mrs. Pruden

saberá, pois, que ela jamais se abaixa e que os pedaços de papel ficam aos pés do

assistente.

Uma notável forma de mediunidade é a da bola de cristal, na qual as figuras

se tornam visíveis aos olhos do assistente. O autor só encontrou esta uma vez,

através da mediunidade de uma senhora do Yorkshire. As figuras eram nítidas, bem

definidas e separadas por intervalos de uma névoa. Não pareciam revelar qualquer

acontecimento passado ou futuro: consistiam de vistas, pequenos rostos, e outros

objetos semelhantes.

Eis algumas das variadas formas das forças do Espírito, que nos foram

dadas como um antídoto ao materialismo. As mais altas formas não são as físicas,

mas as que se encontram em inspirados escritos de homens como Davis, Stainton

Moses. ou Dale Owen. Nunca é por demais repetido que o mero fato de que a

mensagem nos vem de maneira pré natural seja uma garantia de elevação e de

verdade. A criatura ensimesmada e convencida, de raciocínio vulgar, e o

mistificador consciente também existem no lado invisível da vida, e todos eles

podem transmitir as suas valiosas comunicações através de agentes invigilantes.

Tudo deve ser medido e pesado e muita coisa deve ser posta de lado,

enquanto o que restar deve ser digno de nossa mais respeitosa atenção. Mas mesmo

203 “Our Amer ican Adventur e” páginas 144 e 145.

294 – Ar thur Conan Doyle

o melhor não pode ser a última palavra: deve ser muitas vezes emendado, como no

caso de Stainton Moses, quando atingiu o Outro Lado. Aquele grande mestre

admitiu, através de Mrs. Piper, que havia pontos sobre os quais ele tinha sido mal

informado.

Os médiuns mencionados foram escolhidos como tipos de suas várias

classes, mas há muitos outros que mereceriam um registro minucioso, se houvesse

espaço. O autor fez diversas sessões com Sloan e com Phoenix, de Glasgow, ambos

com notáveis poderes, que cobrem quase toda a escala dos dons espirituais e são, ou

foram, homens de fora do mundo, com uma santa despreocupação pelas coisas desta

vida. Mrs. Falconer, de Edimburgo, é também uma médium de transe de força

considerável. Da geração anterior o autor experimentou a mediunidade de Husk e de

Craddock, os quais tiveram horas intensas e horas de fraqueza. Mrs. Susanna Harris

também deu boas provas no setor físico, bem como Mrs. Wagner, de Los Angeles,

enquanto entre os amadores John Ticknor, de Nova Iorque, e Mr. Nugent, de

Belfast, estão nos primeiros vôos do transe mediúnico.

Em conexão com John Ticknor o autor pode citar uma experiência feita e

referida nos “Proceedings” da American Society for Psychical Research, um

organismo que no passado foi dirigido quase que por opositores, como o seu parente

da Inglaterra. Neste exemplo, o autor fez um registro cuidadoso da pulsação, quando

Mr. Tickenor estava em estado normal, quando manifestava o Coronel Lee, um de

seus guias espirituais, e quando se achava sob a influência de “Black Hawk” 204 um

guia pelevermelha.

Os valores eram, respectivamente 82, 100 e 118.

Mrs. Roherts Johnson é outra médium de resultados desiguais, mas que nas

melhores condições tem um admirável poder de Voz Direta. O elemento religioso

está ausente de suas sessões e a mocidade alegre do Norte que se manifesta cria uma

atmosfera que diverte os assistentes, mas que choca aqueles que vêm às sessões com

sentimentos solenes. A profunda voz escocêsa do guia de Glasgow, David Duguid,

que em vida fora um médium famoso, está isenta de imitação pela garganta de uma

mulher; e as suas observações são cheias de dignidade e de sabedoria. O Reverendo

Doutor Lamond asseguroume

que Duguid, numa dessas sessões, lhe havia

lembrado um acidente que entre ambos ocorrera em vida — o que é prova suficiente

da realidade da individualidade.

Não existe fase mais dramática e curiosa do fenômeno psíquico do que o

transporte. É tão surpreendente que é difícil convencer a um céptico quanto à sua

possibilidade e mesmo os Espíritas dificilmente acreditam nele até que lhes venham

as provas. O primeiro contacto do autor com o conhecimento oculto foi em grande

parte devido ao finado General Drayson que, naquele tempo — vai para quarenta

anos — recebia, através de um médium, uma grande quantidade de transportes

muito curiosos — lâmpadas hindus, amuletos, frutas frescas e outros objetos.

Fenômeno tão interessante e tão fácil de simular, era muito para um principiante e

retardou o progresso em vez de o acelerar. Contudo, desde então o autor encontrou o

editor de conhecido jornal, que usou o mesmo médium, depois da morte do General

Drayson e continuou, sob rígidas condições, a receber semelhantes transportes.

204 “Gavião Preto” — N. do T.

295 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

Assim, o autor foi forçado a reconsiderar o seu ponto de vista e a acreditar

que tinha subestimado a honestidade do médium e a inteligência do assistente.

Mr. Bailey, de Melbourne, parece ser um notável médium de transporte, e o

autor não acredita na sua suposta mistificação em Grenoble. O próprio relato de

Bailey é que foi vítima de uma conspiração religiosa e, à vista da longa série de

sucessos, é mais provável isto do que ele tenha, de maneira misteriosa, escondido

um pássaro vivo na sala da sessão, na qual ele sabia que iria ser despido e

examinado. A explicação dos pesquisadores psíquicos de que o pássaro estava

escondido em seu intestino éum supremo exemplo dos absurdos que a incredulidade

pode produzir. Uma vez o autor fez uma experiência de transporte com Bailey e que

é impossível de explicar de outra maneira. Ela foi assim descrita:

“Então colocamos Bailey a um canto da sala, baixamos as luzes sem as

apagar, e esperamos. Quase no mesmo instante ele respirou profundamente, como

se em transe e logo disse algo numa língua estranha, para mim incompreensível.

Um de nossos amigos, Mr. Cochrane reconheceua

como indiana e logo respondeu;

algumas sentenças foram dialogadas. Então a voz disse em inglês que era um guia

hindu, acostumado a fazer transportes com o médium e que esperava poder trazer

um para nós. ‘Eilo

aqui’, disse momentos depois, e a mão do médium se estendeu

com alguma coisa. As luzes foram aumentadas e verificamos que era um perfeito

ninho de pássaro, lindamente construído de fibras muito finas, misturadas com

musgo. Tinha cerca de duas polegadas de altura e nada indicava que tivesse havido

truque. Tinha cerca de três polegadas de largura. Nele estava um pequeno ovo

branco, com pequenas pintas castanhas, O médium, ou antes o guia hindu, agindo

através do médium, colocou o ovo na palma de sua mão e o quebrou, derramando a

clara. Não havia traços de gema. ‘Não nos é permitido interferir com a vida’, disse

ele. ‘Se o ovo tivesse sido fertilizado não poderíamos têlo

trazido.’ Estas palavras

foram ditas antes de o quebrar, de modo que ele sabia em que condições estava o

ovo, o que certamente é notável.

— ‘De onde o trouxe?’ perguntei eu.

— ‘Da Índia.’

— ‘Que pássaro é este?’

— ‘É chamado lá pardal da floresta.’

“Fiquei com o ninho e passei uma manhã com Mr. Chubb, do museu

local, para verificar se realmente o ninho era de tal pássaro. Parecia muito

pequeno para um Pardal Indiano, entretanto não podíamos classificar nem o ninho

nem o ovo entre os tipos australianos. Outros ninhos e ovos transportados por Mr.

Boiley têm sido identificados. Certamente é um bom argumento que, enquanto tais

pássaros tenham que ser importados e comprados aqui, na verdade é um insulto à

razão admitir que ninhos e ovos frescos também sejam encontrados no mercado.

Assim, apenas posso garantir a extensa experiência e os elaborados ensaios do

Doutor Mc Carthy de Sydney e afirmar que acredito que na ocasião Mr. Bailey foi

um verdadeiro médium, com o notável dom de transporte. É justo declarar que

quando voltei a Londres levei um dos tijolos assírios de Bailey ao Museu Britânico

e que aí declararam que era falso. Inquérito posterior mostrou que tais falsificações

são feitas por judeus num subúrbio de Bagdad — e, até onde se sabe, somente ali.

Assim, a coisa não está muito mais adiantada. Para o trabalho de transporte, pelo

menos, é possível que a peça falsificada, impregnada de recente magnetismo

humano, é mais fácil de ser manejada do que o original, tirado de um monumento.

Bailey produziu pelo menos uma centena desses objetos e nenhum funcionário da

Alfândega informou como eles poderiam ter entrado no país. Por outro lado, Bailey

296 – Ar thur Conan Doyle

me disse claramente que os tabletes tinham passado pelo Museu Britânico, de modo

que temo não poder harmonizálo

com a verdade — e nisto está a maior dificuldade

para decidir o caso. Mas a gente deve lembrar sempre que a mediunidade de efeitos

físicos não tem conexão, desta ou daquela maneira, com o caráter da pessoa, do

mesmo modo que os dotes poéticos” . 205

Os críticos esquecem, ao citar continuamente a impostura de Bailey 206 , que

imediatamente antes da experiência de Grenoble ele havia suportado uma longa série

de testes em Milão, no curso dos quais os investigadores tomaram a extrema e

injustificável medida de vigiar o médium secretamente, quando no seu próprio

quarto de dormir. A comissão composta de nove homens de negócio e de doutores,

não achou nenhuma falha em dezessete sessões, mesmo quando o médium foi posto

num saco. Essas sessões duraram de fevereiro a abril de 1904, e foram

minuciosamente discutidas pelo Professor Marzorati.

À vista de seu sucesso, muito mais foi feito na acusação na França. Se a

mesma análise e o mesmo cepticismo fossem mostrados contra as mistificações

como são mostrados contra os fenômenos, a opinião pública seria dirigida mais

justamente.

O fenômeno de transporte parece tão incompreensível às nossas mentes que

certa vez o autor perguntou a um Espírito guia se ele podia dizer algo que lançasse

luz sobre o assunto. A resposta foi: “Isto envolve alguns fatores que estão acima da

ciência humana e que não podem ser esclarecidos. Ao mesmo tempo vocês devem

tomar como grosseira analogia o caso da água que se transforma em vapor. Então

esse vapor, que é invisível, pode ser conduzido para qualquer lugar, para ser

apresentado na forma visível da água”.

Isto é, como se vê, antes uma analogia do que uma explicação, mas pelo

menos parece apta. Deveria acrescentarse,

como foi referido na explicação, que não

só Mr. Stanford, de Melbourne, como também o Doutor Mac Carthy, um dos

primeiros médicos de Sydney, realizaram uma série de experiências com Bailey e

ficaram convencidos da legitimidade de seus poderes.

De modo algum os médiuns citados esgotam a lista daqueles com que o

autor teve oportunidade de fazer experiências; e ele não deve deixar o assunto sem

aludir ao ectoplasma de Eva, que ele teve entre os dedos, ou às brilhantes

luminosidades de Frau Silbert, que ele viu sair como uma coroa cintilante de sua

cabeça. Ele espera que já tenha sido dito bastante para mostrar que a série de

grandes médiuns não se acaba para quem quer que diligencie a sua procura

seriamente e também para assegurar ao leitor que estas páginas são escritas por

alguém que não mediu sacrifícios para ganhar o conhecimento prático daquilo que

estuda.

Quanto àacusação de credulidade invariavelmente dirigida pelos não

receptivos contra quem quer que tenha uma opinião positiva sobre este assunto, o

autor pode solenemente confessar que, no curso de sua longa carreira como

investigador, não pode recordar um único caso em que tenha sido mostrado

claramente que ele se havia enganado sobre qualquer ponto sério, ou tenha dado um

205 “The Wander ings of a Spir itualist”, páginas 103 a 105.

206 “Annals of Psychical Science”, Volume 9º.

297 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

atestado de honestidade a uma realização que posteriormente ficasse provado que

era desonesta. Um homem crédulo não passa vinte anos lendo e fazendo

experiências antes de chegar a conclusões fixas.

Nenhum relato de mediunidade de efeitos físicos seria completo se não

aludisse aos notáveis resultados obtidos por “Margery”, nome adotado para efeito

público por Mrs. Crandon, a bela e dotada esposa de um dos primeiros cirurgiões de

Boston. Esta senhora mostrava poderes psíquicos há alguns anos e o autor teve a

oportunidade de chamar para o seu caso a atenção da Comissão do Scientific

American. Assim fazendo, sem o quereis expôs a muitos aborrecimentos, que eram

suportados com extraordinária paciência por ela e pelo marido. É difícil dizer o que

era mais aborrecido: se Houdini, o mágico, com as suas intempestivas e ignorantes

teorias de fraude, ou os tais “cientistas” assistentes, como o Professor McDougall,

de Harvard, que, depois de cinquenta sessões e de assinar outras tantas atas, no fim

de cada sessão, endossando as maravilhas registradas, ainda se sentia incapaz de

fazer um julgamento, contentandose

com vagas deduções. O negócio não foi salvo

pela interferência de Mr. E. J. Ding. wall, da SOCIETY FOR PSYCHICAL

RESEARCH de Londres, que proclamava a verdade da mediunidade em cartas

particulares cheias de entusiasmo, mas negava a sua convicção em reuniões

públicas. Esses supostos especialistas saíram da história com pouco crédito; em

compensação mais de duzentos assistentes de bom senso tiveram bastante sabedoria

e honestidade para exprimir realmente em depoimento aquilo que aos seus olhos se

passara. Deve o autor declarar que pessoalmente experimentou com Mrs. Crandon e

ficou satisfeito tanto quanto o podia numa sessão, quanto à verdade e a variedade de

suas faculdades.

Neste caso o guia se diz Walter, irmão falecido daquela senhora e mostra

uma personalidade muito marcada, com um grande senso de humor e considerável

domínio de linguagem irônica. A produção da voz é direta, uma voz máscula, que

parece atuar a poucas polegadas em frente ao rosto do médium. As forças têm sido

progressivas, aumentando continuamente, até que agora alcançaram quase todas as

variedades de mediunidade. O toque de campainhas elétricas sem contacto tem sido

feito ad nauseam, de tal maneira que se poderia pensar que ninguém, a não ser um

surdo como uma pedra ou um especialista, não tivesse mais dúvidas. Movimento de

objetos a distância, luzes espirituais, soerguimento de mesas, transportes, e,

finalmente, a clara produção de ectoplasma em boa luz vermelha têm ocorrido

frequentemente. O paciente trabalho do Doutor Crandon e de sua senhora

certamente será recompensado e seus nomes viverão na história da ciência psíquica,

bem como, numa categoria diferente os de seus detratores.

De todas as formas de mediunidade a mais alta e valiosa, quando pode ser

controlada, é a da escrita automática, de vez que nesta, quando na forma pura, se nos

afigura um método direto de obtenção de ensinos do Além. Infelizmente é um

método que se presta muito facilmente para decepções, de vez que é certo que o

subconsciente do homem tem muitos poderes com os quais ainda estamos pouco

acostumados. É impossível também aceitar qualquer escrita automática com

absoluta confiança como uma informação cem por cento de verdade do Além. O

vidro opaco ainda coa a luz que o atravessa; e o organismo humano jamais será um

cristal transparente. A veracidade de qualquer comunicação particular dessa escrita

298 – Ar thur Conan Doyle

deve depender não de meras afirmações, mas de detalhes corroborantes, da

dissemelhança geral da mente do escritor e de sua semelhança com a do suposto

inspirador.

Por exemplo, se no caso do finado Oscar Wilde, obtivemos longas

comunicações que não só são características de seu estilo, mas que contêm

frequentes alusões a obscuros episódios de sua própria vida e que, finalmente, são

escritas com a sua própria caligrafia, deve admtirse

que a evidência é superiormente

forte. Há um grande derrame de tais escritos presentemente em todos os países de

língua inglesa. São bons, maus, indiferentes, mas os bons contêm muita matéria que

encerra os traços da inspiração. O cristão e o judeu bem podem se perguntar por que

partes do Velho Testamento, ao que se pensa, assim teriam sido escritas, enquanto

os modernos exemplos devam ser tratados com despreso. “E foilhe

trazida uma

carta do profeta Elias, em que estava escrito: Eis aqui o que diz o Senhor Deus de

David, teu pai”: etc. 207 Isto é uma das muitas alusões que mostram o antigo uso,

neste particular, da comunicação de Espíritos.

De todos os exemplos de data recente nenhum se compara em grandeza e

dignidade com os escritos do Reverendo George Vale Owen, cuja grande obra “A

Vida Além do Véu” deve ter uma influência tão permanente quanto a de

Swedenborg. Um ponto interessante, focalizado pelo Doutor A. J. Wood, é que nos

mais sutis e complexos pontos há uma grande semelhança no trabalho destes dois

videntes e tanto mais quanto se sabe que Vale Owen é muito familiarizado com os

escritos do grande mestre sueco. George Vale Owen é uma figura tão destacada no

moderno espiritismo que algumas notas a seu respeito não estariam fora de

propósito. Nasceu em Birmingham em 1869 e foi educado no Midland Institute e no

Queen’s College, em Birmingham. Depois dos curatos de Seaforth, Fairfield e da

baixa Scotland Road, divisão de Liverpool, onde teve uma grande experiência entre

os pobres, tornouse

vigário de Orford, perto de Warrington, onde a sua energia

conseguiu erguer uma nova igreja.

Aí ficou vinte anos, trabalhando em sua paróquia, que muito apreciava o

seu ministério.

Surgiram então algumas manifestações psíquicas e, finalmente, foi ele

compelido a exercer as suas próprias forças latentes na escrita inspirada,

inicialmente como se viesse de sua própria mãe, depois continuada por alguns

Espíritos elevados ou anjos, que tinham vindo em seu cortejo. No todo elas

constituem uma descrição da Vida após a morte e um corpo filosófico e de

conselhos das fontes invisíveis, que ao autor se afigura possuir todos os sinais

íntimos de uma origem elevada. A descrição é digna e amena, feita num inglês

ligeiramente arcaico, que lhe dá um sabor muito característico.

Alguns extratos desses escritos apareceram em vários jornais, atraindo mais

atenção por serem da pena do Vigário de uma Igreja Estabelecida. Finalmente a

Lord Northcliffe chegou notícia do manuscrito; ele ficou muito impressionado com

o assunto e com a recusa do autor em receber qualquer remuneração por sua

publicação. Esta foi feita semanalmente no jornal de Lord Northcliffe, o Weekly

Dispatch, e nenhuma outra coisa contribuiu, mais que esta, para o mais alto ensino

207 Há uma diferença de denominação entre as bíblias protestante e católica.

299 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

espírita diretamente às massas. Incidentalmente foi demonstrado que a política da

Imprensa no passado tinha sido não só ignorante e injusta, mas redondamente

equivocada do baixo ponto de vista do interesse material, pois a circulação do

Dispatch cresceu enormemente durante a publicação daqueles escritos. Tais coisas,

entretanto, ofenderam muito a um bispo muito conservador, e Mr. Vale Owen

achouse,

como todos os reformadores religiosos, como objeto de desagrado e sofreu

uma velada perseguição dos superiores de sua Igreja. Com essa força a impulsionálo

e com o impulso perante toda a comunidade espírita, ele abandonou a Igreja e

entregouse,

com a família, a mercê do que a Providência lhe reservasse; sua

corajosa esposa concordou inteiramente com ele num passo que não era fácil para

um casal que passara da mocidade.

Depois de um giro de conferências na América e um outro na Inglaterra,

Mr. Vale Owen está atualmente presidindo uma congregação espírita em Londres,

onde o magnetismo de sua presença atrai uma assistência considerável. Num

excelente retrato, assim Mr. David Gow pinta Vale Owen: “A figura alta e fina do

ministro, sua face pálida e ascética, iluminada por grandes olhos, luminosos de

ternura e de humor, sua atitude modesta, suas palavras calmas carregadas de

magnetismo e de simpatia, tudo isto dava a justa medida da espécie de homem que é

ele. Revelavam uma alma de rara devoção, que se mantinha sã e doce por um

bondoso senso de humor e por uma visão prática do mundo. Parecia mais

carregado pelo Espírito de Erasmo ou de Melanchton do que pelo áspero Lutero.

Talvez hoje a Igreja não precise de Lutero.”

Se o autor incluiu esta pequena notícia ante a sua existência pessoal, é

porque foi honrado por uma estreita amizade de Mr. Vale Owen e ficou em

condições de poder estudar e garantir a realidade de seus dotes psíquicos.

O autor acrescentaria que teve a sorte de ouvir a Voz Direta numa sessão

com sua esposa.

A voz era profunda, máscula, vinda de alguns pés acima de nossas cabeças

e murmurando apenas um curto mas bem audível cumprimento. É de esperar que

com um ulterior desenvolvimento melhores resultados sejam obtidos. Durante anos

o autor, em seu grupo doméstico, tem obtido mensagens inspiradas, através da mão e

da voz de sua esposa as quais têm sido da maior elevação e, muitas vezes, da mais

evidente natureza. São, entretanto, muito pessoais e íntimas para serem discutidas

num exame geral do assunto.

300 – Ar thur Conan Doyle

23

O Espiritismo e a Guerra

uita gente jamais tinha ouvido falar de Espiritismo antes do período que

se iniciou em 1914, quando de súbito o Anjo da Morte penetrou em

muitos lares. Os adversários do Espiritismo acharam mais conveniente

considerar o cataclismo mundial como a causa principal do crescente interesse na

pesquisa psíquica. Esses oponentes inescrupulosos também disseram que a defesa do

assunto, feita pelo autor, bem como por seu ilustre amigo, Sir Oliver Lodge, era

devida ao fato de cada um ter perdido um filho na guerra, daí deduzindo que o pesar

lhes havia reduzido a capacidade de crítica e os levado a pensar em coisas que não

aceitariam em períodos normais. O autor já refutou muitas vezes essa grosseira

mentira e mostrou o fato de suas investigações datarem de 1886. Por sua vez, assim

se exprime Sir Oliver Lodge 208 :

“Não se deve pensar que meu ponto de vista tenha mudado

aprecíávelmente desde esse acontecimento e com as experiências particulares

relatadas nas páginas que se seguem; minha conclusão foi sendo formada

gradativamente, durante anos, posto que, sem dúvida, baseada em experiências da

mesma espécie. Mas o acontecimento fortaleceu e liberou o meu testemunho. Agora

posso ligarme

com minha experiência pessoal, e não com a alheia experiência.

Enquanto a gente depende de provas relacionadas, ainda que indiretamente, com a

desolação da morte dos outros, tem que ser reticente e cauteloso e, nalguns casos,

silenciar. Somente por permissão especial certos fatos poderiam ser mencionados;

e essa permissão, nalguns casos importantes, não poderia ser obtida. Então as

minhas deduções foram as mesmas de agora. Mas agora os fatos me pertencem.”

Se é verdade que, antes da guerra, os Espíritos se contavam por milhões,

não há dúvida que o assunto não era compreendido pelo mundo em geral, nem

mesmo reconhecido como um fato. A guerra mudou tudo isto. As mortes ocorreram

em quase todas as famílias, assim despertando um súbito interesse concentrado na

vida após a morte. A gente não só perguntava: “Se um homem morrer viverá de

novo?” Procurava, ansiosa, saber se era possível a comunicação com os entes

queridos que haviam perdido. Procuravase

“o toque da mão destruida e o som da

voz que emudecera”. Não só milhares de pessoas investigaram diretamente, mas,

como no início do movimento, a primeira tentativa era feita pelos que haviam

partido. A Imprensa era incapaz de resistir à pressão da opinião pública e muita

publicidade foi feita de casos de soldados que voltavam e, em geral, da vida após a

morte.

Neste capítulo apenas uma ligeira referência será feita às diferentes

maneiras por que o mundo espiritual se manifestou nas várias fases da guerra. O

208 “Raymond”, página 374.

M

301 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

próprio conflito fora predito muitas vezes; soldados mortos se mostravam em casa e

davam avisos de perigo aos seus camaradas no campo de batalha; deixavam as suas

imagens em chapas fotográficas; figuras solitárias e hóspedes legendários, não deste

mundo, eram vistos na área da luta; na verdade, sobre toda a cena pairava, de vez em

quando, uma forte atmosfera da presença e da atividade do outro mundo.

Se, por um momento, o autor pode dar uma nota pessoal, dirá que, enquanto

a sua própria perda não tivesse tido efeito sobre os seus pontos de vista, o espetáculo

de um mundo esmagado pela dor e que ansiosamente pedia auxílio e conhecimento,

certamente afetou a sua mente e o levou a compreender que esses estudos psíquicos,

que durante tanto tempo ele vinha fazendo, eram de uma enorme importância prática

e não mais poderiam ser considerados como mero passatempo intelectual ou

fascinante busca a nova pesquisa. A prova da presença de mortos se fez em sua

própria casa e o conforto trazido por mensagens póstumas lhe ensinou que grande

consolação seria para um mundo torturado se ele pudesse compartilhar do

conhecimento que se havia tornado claro para o autor. Foi tal realização que, desde

1916, o levou, e à sua esposa, a se dedicarem largamente ao assunto, a fazer

conferências em muitos países, a viajar para a Austrália, Nova Zelândia, e Canadá,

em missões de instrução. Na verdade, esta história, pode dizerse,

obedece ao

mesmo impulso que, de início, o atirou de corpo e alma na causa. Este assunto se

presta para algumas linhas numa história geral, mas se torna parte de um capítulo

que trata da guerra, desde que foi a atmosfera da guerra que o engendrou e

desenvolveu.

A profecia é um dom espiritual e qualquer prova clara de sua existência

indica forças psíquicas, fora de nosso conhecimento normal. No caso da guerra,

aliás, muitos podiam, por meios normais, como pelo uso da própria razão, predizer

que a situação no mundo tinha se tornado tão intolerável por causa do militarismo,

que o equilíbrio não podia ser mantido.

Mas algumas dessas profecias parecem tão distintas e minuciosas que se

colocam acima no poder da mera razão e da previsão 209 .

O fato geral de uma grande catástrofe mundial e a parte nela tomada pela

Inglaterra, é assim referida numa comunicação espírita recebida pelo Grupo Oxley,

em Manchester, e publicado em 1885 210 :

“Por duas vezes em sete anos — a partir da data que vos foi indicada — as

influências que agem contra a Inglaterra serão vitoriosas; e depois daquele tempo,

virá uma terrível luta, uma tremenda guerra, um terrível derramamento de sangue —

conforme a maneira humana de falar, um destronamento de reis, uma derrubada de

Poderes, grandes revoluções e perturbações; e ainda maior comoção entre as

massas, produzidas pela riqueza e por sua posse. Usando essas palavras, falo de

acordo com a linguagem humana.

A mais importante questão é: ‘A Inglaterra ficará perdida para sempre?’

Vemos as profecias de muitos e a atitude de muitos representantes no plano externo

e vemos mais claramente do que muitos na Terra nos julgam capazes; vemos que

209 Algumas referéncias a essas profecias podem ser encontradas nas seguintes publlcações: “Pr ophecies

and Omens of the Gr eat War ”, por Ralph Shirley; “ The War and the Pr ophets”, por Herbert

Thurston; e “War Pr ophecies”, by F. O. S. Schiller (SOCIETY FOR PSYCHICAL RESEARCH Jornal,

Junho, 1916).

210 “Angelic Revelations”, Volume 5º, páginas 170 e 171.

302 – Ar thur Conan Doyle

entre os últimos indicados há os que mais amam o ouro do que aquele princípio

inteiro que aquele ouro representa. A não ser que no começo da crise não intervenha

o Grande Poder, isto é, que a Grande Força operadora de que vos falei antes, e em

calma dignidade passe à frente e destitua o mandado — impondo a Paz — a

profecia de alguns, que para sempre a Inglaterra mergulhará nas profundezas, será

cumprida. Como os específicos átomos da vida, que compõem o Estado chamado

Inglaterra, que deve mergulhar um tempo a fim de que possa vir à tona, assim deve

a Nação mergulhar e mergulhar profundamente durante uma estação; porque se acha

imersa no amor do que é falso e ainda não adquiriu a inteligência que agirá como

poderosa alavanca para a erguer para a sua própria dignidade. Irá ela, como o

homem afogado que se afunda pela terceira e última vez, mergulhar e perderse

para

sempre? Uma vez no grande todo do Todo Poderoso, deverá continuar como parte

integrante. Haverá uma mão bondosa que se estenderá para a salvar e a livrar dos

vagalhões dos próprios jeitos que ameaçam tragada. Com uma energia inexprimível,

diz aquele Poder: Primeiro a inglaterra! inglaterra para sempre! Mas a continuação

não será no mesmo estado de coisas. Ela deve e mergulhará ainda mais, para mais

ainda se erguer. O como, o porquê e a maneira por que fará a sua salvação e a sua

serenidade, eu vos direi em outra ocasião; mas, aqui afirmo que, a fim de se salvar,

a Inglaterra deve sofrer um derrame do seu melhor sangue.”

Sobre detalhes da famosa profecia de M. Sonrel, em 1868, sobre a guerra

de 1870 e sua profecia menos direta sobre a de 1914, deve o leitor consultar o livro

do Professor Richet “Trinta Anos de Pesquisas Psíquicas”, das páginas 387, até 389.

A parte essencial desta última é assim concebida:

“Espere agora, espere... passamse

anos. É uma vasta guerra. Que sangria!

Meu Deus! Que sangria! Oh! França, oh! Minha terra, está salva! Estás no Reino!”

A profecia foi dada em 1868, mas só registrada pelo Doutor Tardieu em

abril de 1914.

O autor se referia antes 211 à profecia dada em Sydney, Austrália, pela

conhecida médium Mrs. Foster Turner, mas ela suporta a repetição. Numa reunião

em fevereiro de 1914, no Little Theatre, Castlereagh Street, perante uma assistência

de cerca de mil pessoas, numa mensagem de transe, na qual se supunha que a

influência fosse de Mr. W. I. Stead, disse ela, conforme notas tomadas na ocasião

em que falava: “Agora, não obstante não haja rumores de uma próxima Guerra

Européia, desejo ainda vos prevenir que, antes de terminado este ano de 1914, a

Europa será afogada em sangue. A GrãBretanha,

nossa querida pátria, será

arrastada à mais horrorosa guerra que o mundo já conheceu. A Alemanha será a

grande antagonista e arrastará outras nações ao seu lado. A Áustria será arrastada

para a ruína. Cairão reis e reinos. Milhões de vidas preciosas serão sacrificadas,

mas a Inglaterra triunfará por fim e surgirá vitoriosa.”

A data do término da Grande Guerra foi dada com exatidão em “Private

Dowding”, pelo Major W. Tudor Pole, que denomina o seu livro “Um Simples

Registro de Experiências com o Depois da Morte de um Soldado morto em Campo

de Batalha”. Nêsse livro, aparecido em Londres em 1917, encontramos, à página 99,

a seguinte comunicação:

211 “The Wander ings of a Spir itualist” (1921) página 260.

303 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

“Mensageiro: Na Europa haverá três grandes federações de estados.

Estas surgirão naturalmente e sem derramamento de sangue; mas antes darseá

a

batalha de Armageddon.

W. T. Pergunta: Quanto tempo demorará isto?

Mensageiro: Não sou um ser bastante elevado; a mim não são revelados

os detalhes de todos esses maravilhosos acontecimentos. Até onde me é permitido

ver, a paz será restabelecida durante 1919 e as federações mundiais surgirão

dentro dos sete anos seguintes. Entretanto a luta atual deve terminar em 1918 e

muitos anos passarão antes de se estabelecer a tranqüilidade e a paz de maneira

permanente.”

Na lista das profecias ocupa um lugar a de Mrs. Piper, famosa médium de

transe de Boston, EUA, conquanto alguns a considerem um tanto vaga. Foi dada em

1898, numa sessão com o Doutor Richard Hodgson, membro preeminente da

Sociedade de Pesquisas Psíquicas de Londres e de sua congênere americana.

“Jamais, desde os dias de Melchizedek, foi o mundo terreno tão sensível à

influência dos Espíritos. No próximo século ela será admiravelmente perceptível à

mente humana. Farei uma declaração que com certeza ireis verificar. Ante a clara

revelação do Espírito em comunicação, haverá uma terrível guerra em várias

partes do mundo. Isto será precedido por comunicações claras. O mundo inteiro

deve ser purificado e limpo, antes que o homem mortal possa ver, numa visão

espiritual, seus amigos deste lado; e ele tomará exatamente linha de ação para

chegar ao estado de perfeição. Amigo, tenha a bondade de pensar nisto.” 212

Nos Proceedings da Sociedade de Pesquisa Psíquica Mr. J. G. Piddington 213

fala, enfim, das predições de guerra, contidas em várias escritas automáticas,

especialmente nas de Mrs. Alfred Lyttelton. Em resumo, diz ele:

“Em termos gerais esses escritos predizem a guerra. Assim foi com

muitos. Cerca de meia dúzia, escritos entre 9 e 21 de julho de 1914, prediziam que

a guerra estava às portas.”

Assim também uma anterior, foi recebida por Sir Cecil SpringRíce.

As

mensagens predizem que a guerra eventualmente conduzirá a um grande avanço nas

relações internacionais e nas condições sociais. Por outro lado, dezenas de milhares

de cidadãos comuns em todo o Império Britânico, pensaram e esperaram que a

Grande Guerra fosse, como dizia a frase, “uma guerra para acabar com a guerra”.

Mas esse último paralelo entre as predições nas mensagens e as crenças ou

aspirações que se declaravam por toda a parte e tão intensamente quando rebentou a

guerra, é apenas superficial. Porque, enquanto a onda de idealismo que varreu o

Império continuou ou pelomenos se sincronizou, com o começo da guerra, durante

muitos anos antes de 1914, as mensagens reiteradamente combinavam as predições

de uma Utopia com predições de guerra, e as tinham combinado de tal maneira que

uma coisa implicava o surgimento da outra. Não vejo paralelo nisto. Os escritores,

soldados, diplomatas e políticos que nos previram a guerra, pregaram os seus

perigos e os seus horríveis efeitos, mas não nos disseram que essa horrível tragédia

212 Transcrito em Light, 1914, página 349.

213 SOCIETY FOR PSYCHICAL RESEARCH, Volume XXXIII (March, 1923).

304 – Ar thur Conan Doyle

seria a gestação de um mundo melhor. Também os propagandistas de Haya e de

outras conferências para o aplainamento de rivalidades internacionais não nos

avisaram que a guerra mundial deveria preceder a realização daqueles desejos. Tudo

era predição ou temor de um próximo caos. Só as mensagens espíritas, ao que

saibamos, falam de uma esperança no apósguerra

e saúdam a aproximação do caos,

como prelúdio de um novo cosmos.

As predições da Guerra nas mensagens não se podem se parar das de uma

eventual Utopia. As mensagens não dizem “Haverá guerra”, ponto, e mudando de

assunto, “Haverá uma Utopia”. Insinuam claramente que Utopia será consequência

da Guerra. Contudo, não será possível dizerse

que os dois elementos componentes

da profecia permanecerão ou cairão juntos, porque as predições de Guerra se

realizaram; mas realizações ou a morte das predições utópicas eventualmente

influenciarão a opinião pública, como fonte de predições de guerra. Se a Utopia

prevista nessas mensagens se traduzisse em fato, seria muito difícil atribuir a

predição desse fato como resultado da Guerra à presciência humana comum. Então

surgiria um caso, por admitirse

a pretensão das mensagens e por se dar crédito á

predição dos seres desencarnados. E se as predições utó picas fossem recebidas

como trabalho das mentes desencarnadas, com toda probabilidade as predições da

Guerra, que a elas se acham intimamente ligadas, seriam atribuidas à mesma fonte.

Há muitíssimas outras profecias que foram mais ou menos bem sucedidas.

Seu exame, entretanto, não deixará de impressionar o estudioso com a convicção de

que o sentido de tempo é menos apurado nos detalhes espirituais. Muito

frequentemente, onde os fatos são certos, as datas são lamentavelmente erradas.

A mais exata de todas as profecias concernentes à Guerra parece que foi a

de Sophia, uma jovem grega que, hipnotizada pelo Doutor Antoniou de Atenas,

forneceu em transe oráculos falados. A data foi 6 de junho de 1914. Não só predisse

a Grande Guerra, e quem seriam as partes, mas deu uma porção de detalhes, tais

como a neutralidade da Itália no começo, sua subsequente aliança com a Entente, a

ação da Grécia, o lugar da batalha final de Vardar, etc. É interessante, entretanto,

notar que ela cometeu certos erros que tendem a mostrar que a posição do Fatalista

não é segura e que, pelo menos, há uma Larga margem que pode ser afetada pela

vontade e pela ação humanas 214 .

Há muitos testemunhos relativos à ocorrência daquilo que pode ser

chamado intervenção dos Espíritos durante a guerra.

O Capitão W. E. Newcome contou o seguinte 215 :

“Foi em setembro de 1916 que o 2º Suffolks deixou Loos para ir para o

setor Norte de Albert. Acompanheios

e quando nas trincheiras da linha de frente

daquele setor, eu, com outros, testemunhei uma das mais notáveis ocorrências da

guerra.

“Entre o fim de outubro e 5 de novembro estávamos guarnecendo aquela

parte com muito pouca tropa. A 1º de novembro os alemães fizeram um ataque

cerrado, com enorme esforço para romper a linha. Tive ocasião de descer às linhas

de reserva e, durante a minha ausência, começou o ataque alemão.

214 “Revue Métapsychque”, Dezembro, 1925, páginas 380 a 390.

215 “Pear son’s Magazine”, Agosto, 1919, páginas 190 e 191.

305 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

“Apresseime

em voltar para a minha companhia e cheguei a tempo de

dar uma mão, fazendo o inimigo recuar para as suas linhas. Ele jamais ganhou um

palmo de nossas trincheiras. O assalto foi duro e curto e nós estávamos à espera de

um outro assalto.

“Não tivemos que esperar muito, pois logo vimos alemães vindos pela

Terra de Ninguém em ondas maciças. Antes, porém, que atingissem as nossas rêdes

de arame farpado, uma figura branca, espiritual, de um soldado ergueuse

de uma

cratera ou do chão, mais ou menos a cem jardas à nossa esquerda, bem em frente

os nossos fios e entre a primeira linha de alemães e nós. A figura espectral

caminhou então lentamente em frente às nossas linhas, cerca de mil jardas. Sua

silhueta sugeria à minha mente a de um velho oficial de antes da guerra, pois

parecia usar capote da campanha, com capacete de serviço de campo. Primeiro

olhou para os alemães que se aproximavam, depois virou a cabeça e começou a

andar do lado de fora de nossas rêdes, ao longo do setor que guarnecíamos.

“Nosso sinal de S.O.S. tinha sido respondido por nossa artilharia e as

balas assobiavam através da Terra de Ninguém... mas nenhuma impedia que o

espectro progredisse. Rapidamente marchou da nossa esquerda até a extrema

direita do setor e então virouse

bem de frente para nós. Parecia olhar para cima e

para baixo de nossas trincheiras e quando cada “very light” subia, ele ficava ainda

mais destacado.

“Depois de um rápido exame sobre nós, voltouse

bruscamente para a

direita, e avançou em normal para as trincheiras alemãs. Os alemães retrocederam

para não mais aparecer naquela noite.

“Parece que o primeiro pensamento dos homens foram os Anjos de Mons;

depois alguns disseram que parecia Lorcl Kitchner e outros disseram que quando

se voltara para nós o rosto parecia o de Lord Roberts. Sei que pessoalmente me

causou um grande abalo e que durante algum tempo foi o assunto da companhia.

“Seu aparecimento pôde ser testemunhado por sargentos e homens de

minha companhia.”

No mesmo artigo do Pearson’s Magazine é contada a história de Mr.

William M. Speight, que tinha perdido um irmão oficial e seu melhor amigo no

ângulo saliente de Ypres, em dezembro de 1915. Viu o oficial ir ao seu refúgio na

mesma noite. Na manhã seguinte Mr. Speight convidou outro oficial a vir ao refúgio

a fim de confirmar, se a visão reaparecesse. O oficial morto voltou mais uma vez e,

depois de apontar um lugar no chão do refúgio, desapareceu. Foi feito um buraco no

lugar apontado e à profundidade de três pés foi encontrado um pequeno túnel cavado

pelos alemães, com tubos de inflamáveis e bombas de tempo, que deveriam explodir

treze horas mais tarde. A descoberta das minas poupou muitas vidas.

Mrs. E. A. Cannock, conhecida clarividente londrina, descreve 216 numa

reunião espírita como muitos soldados mortos adotaram um método novo e

convincente para se identificarem. Os soldados, na visão da clarividente, avançaram

em fila indiana pela nave de uma igreja comandados por um tenente. Cada homem

tinha uma espécie de placa no peito, na qual estavam escritos o nome e o lugar onde

tinham vivido na Terra. Mrs. Cannock foi capaz de ler os nomes e a descrição, e

todos foram identificados por vários membros da assistência. Circunstância curiosa

era que, quando um era reconhecido, desaparecia para dar lugar ao seguinte na fila.

216 “Light”, 1919, página 215.

306 – Ar thur Conan Doyle

Como tipo de outras histórias da mesma natureza podemos citar o caso descrito em

“Telepathy from the Battle.front” 217 .

A 4 de novembro de 1914 Mrs. Fussey, de Wimbledon, cujo filho “Tab”

estava servindo na França no 9º de Lanceiros, estava sentada em casa quando sentiu

no braço a dor aguda de um ferimento. Pulou da cadeira e exclamou: “Engraçado!” e

esfregou o lugar. Seu marido também examinou o seu braço mas. nenhum vestígio

encontrou. Mrs. Fussey continuou a sentir a dor e exclamou: “Tab está ferido no

braço. Bem sei” . Na segundafeira

seguinte veio uma carta do Suboficial

Fussey,

dizendo que tinha recebido um tiro no braço e que se achava num hospital 218 .

O caso coincide com experiências verificadas em muitos sensitivos que, por

uma desconhecida lei de simpatia, sofreram choques simultaneamente com acidentes

ocorridos em amigos, e até em estranhos, que estavam distantes.

Em muitos casos, soldados mortos têmse

manifestado na fotografia

espírita. Um dos mais notáveis exemplos ocorreu em Londres, no Dia do Armistício,

a 11 de novembro de 1922, quando a médium, Mrs. Deane, em presença de Miss

Estelle Stead, tirou uma fotografia da multidão em Whitehall, nas proximidades do

Cenotáfio. Foi durante os dois minutos de silêncio, e na fotografia vêse

um grande

círculo de luz, no meio do qual estão duas ou três dúzias de cabeças, muitas das

quais foram repetidas nos anos seguintes e, a despeito dos incessantes e maliciosos

ataques à médium e ao seu trabalho, os que tiveram a melhor oportunidade de a

controlar, não têm dúvidas do caráter supranormal das fotografias.

Devemos contentarnos

com mais um caso típico de centenas de resultados.

Mr. R. S. Hipwood, 174, Cleveland Road, Sunderland, escreve 219 : “Perdemos nosso

único filho na França a 27 de agosto de 1918. Sendo um bom fotógrafo amador,

tinha curiosidade pelas fotografias tiradas no Crewe Circle. Tomamos nossa

própria chapa, metia

eu mesmo no caixilho e escrevi o meu nome. Fiz duas

exposições na máquina e obtivemos uma fotografia bem reconhecível. Até meu neto

de nove anos pôde dizer quem era o extra, sem que ninguém lhe houvesse falado.

Tendo um conhecimento completo de fotografia, posso garantir a veracidade da

fotografia em todos os seus detalhes. Declaro que a fotografia que vos remeto é um

retrato comum meu e de Mrs. Hipwood, com um extra de meu filho, R. W. Hipwood,

13º Regimento Welsh, morto na França, no grande avanço de agosto de 1918.

Apresento aos nossos amigos em Crewe a nossa ilimitada confiança em seu

trabalho.”

Nos inúmeros casos registrados de volta de soldados mortos, o seguinte se

destaca porque os detalhes foram recebidos de duas fontes diversas. É contado por

M. W. T. Waters 220 , de Tunbridge Wells, que se diz apenas um novato no estudo do

Espiritismo:

“Em julho último fiz uma sessão com Mr. J. J. Vango, no curso da qual o

guia me disse subitamente que estava de pé, ao meu lado, um jovem soldado

ansioso por que eu transmitisse uma mensagem à sua mãe e sua irmã, que moravam

na cidade. Respondi que não conhecia nenhum soldado perto de mim e que tivesse

217 “Telepatia da linha de fr ente”. — N. do T.

218 “Light”, 1914, página 595.

219 “The Case for Spir it Photogr aphy”, by Sir A. Conan Doyle, página 108.

220 “Light”, Dezembro, 20, 1919, página 407.

307 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

morrido. Contudo o camarada não queria sair; e, como meus amigos parece que se

afastaram para que ele falasse, prometi satisfazer os seus desejos. Procurei cumprir

a minha promessa, mas sabendo que a sua gente era do partido da Igreja e, mais

provavelmente, não acreditaria, fiquei pensando em como levar o recado, pois

sentia que eles iriam pensar que a minha perda tinha afetado o meu cérebro.

Arrisqueime

a me aproximar de sua tia, mas o que lhe disse apenas recebeu esta

resposta: ‘Não pode ser’. Então resolvi esperar uma oportunidade de falar

diretamente à sua mãe. Antes que se apresentasse a esperada oportunidade, uma

moça da cidade, que havia perdido a mãe dois anos antes, ouvindo de minha filha

que eu investigava esse assunto, visitoume

e eu lhe emprestei livros. Um desses

livros é ‘Rupert Lives’, com o qual ela ficou muito chocada e eventualmente

arranjou uma sessão com Miss McCreadie, através de quem recebeu um

testemunho convincente, tornandose

uma crente convicta. Durante a sessão, o

moço soldado que veio a mim, lá foi ter também. Repetiu a mesma descrição que eu

tinha recebido e acrescentou o seu nome — Charlie — e lhe pediu que desse o

recado à sua mãe e sua irmã — a mesmíssima mensagem que eu deixara de

entregar. Estava tão ansioso pela coisa que, ao terminar a sessão voltou e implorou

que ela não lhe faltasse. Agora, estes fatos se passaram em datas diferentes — julho

e setembro — exatamente a mesma mensagem foi dada através de médiuns

diferentes e diferentes pessoas, e ainda há quem diga que isso é um mito e que os

médiuns apenas têm os nossos pensamentos. ‘Quando a minha amiga me contou a

sua experiência imediatamente lhe pedi que fosse comigo à mãe do rapaz e tenho a

satisfação de verificar que essa dupla mensagem as convenceu a ambas, mãe e

filha, e que a tia do rapaz está quase convencida da verdade, se é que não o está

completamente’.

Sir William Barret 221 registra essa comunicação probante, que foi recebida

em Dublin, através da prancheta, com Mrs. Travers Smith, filha do falecido

Professor Edward Dowden. Sua amiga, Miss C., que é mencionada, era filha de um

médico. Sir William chama a este “O Caso do Alfinête de Pérola”.

Miss C., assistente, tinha um primo, oficial do nosso exército na França, o

qual fora morto numa batalha, um mês antes da sessão. Ela o sabia. Um dia em que

o nome de seu primo tinha sido deletreado inesperadamente numa sessão de

prancheta e o nome dela dado em resposta à pergunta “Sabe quem sou eu?”, veio a

seguinte mensagem: “Diga a mamãe que dê um alfinete de pérola à moça com quem

eu ia casarme.

Penso que ela deve ficar com ele.” Quando perguntaram o nome e o

endereço da moça, estes foram dados. O nome deletreado compreendia o seu nome

de batismo, o sobrenome, que era muito pouco comum e desconhecido de ambos os

assistentes. O endereço dado em Londres era fictício ou captado incorretamente,

pois uma carta para lá enviada foi devolvida. Então pensouse

que toda a mensagem

fosse fictícia.

Seis meses depois, entretanto, foi descoberto que o oficial tinha ficado

noivo, pouco antes de ir para a frente, exatamente da moça cujo nome fora dado.

Entretanto não tinha dito isso a ninguém. Nem sua prima, nem sua família na Irlanda

sabiam do fato, nem tinham jamais visto a moça ou ouvido falar em seu nome até

que o Ministério da Guerra mandou os objetos do morto. Então verificaram que ele

havia posto o nome da? moça com seu testamento, como sua parenta mais próxima

221 “On the Thr eshold of the Unseen ”, página 184.

308 – Ar thur Conan Doyle

— e tanto o prenome quanto o nome eram precisamente aqueles dados na sessão; e o

que é igualmente notável, é que o alfinête de pérola foi achado entre os seus objetos.

Ambas as senhoras assinaram um documento que me enviaram, afirmando a

exatidão do relato. A mensagem foi gravada na ocasião e não escrita de memória

depois de obtida a confirmação. Aqui não poderia haver a explicação da memória

subliminal, telepatia ou coincidência e a evidência indica, sem sombra de dúvida,

como mensagem telepática do oficial morto.

Descreve o Reverendo G. Owen 222 a volta de George Leaf, um de seus

colegas do Curso de Bíblia, em Oxford, Warrington, que entrou para a R.A.F. e

morreu na Grande Guerra: “Algumas semanas depois sua mãe estava limpando o

ladrilho da lareira, na sala de estar. Estava ajoelhada diante da grelha quando

sentiu um impulso para se virar e olhar a porta que se abrira na entrada. Voltouse

e viu seu filho, vestido com roupas de trabalho, exatamente como costumava voltar

para casa todas as tardes, quando vivo. Tirou o casaco e pendurouo

na porta,

como era velho hábito familiar. Então virouse

para ela, moveu a cabeça e sorriu;

marchou para a cozinha, onde tinha o hábito de se lavar, antes do jantar. Tudo era

muito natural e vívido. Ela reconheceu que era o seu filho morto, que tinha vindo

para lhe mostrar que estava vivo no mundo dos Espíritos e vivendo uma vida

natural, bem, feliz e contente. Também aquele sorriso de amor lhe disse que seu

coração ainda estava com os velhos em casa. Ela é uma criatura sensível e não

duvida da história um instante. Aliás, desde a morte do filho tem sido vista na Igreja

de Orford, que ele costumava freqüentar e tem sido visto em vários outros lugares.”

Há muitos exemplos de visses de soldados, coincidentes com a sua morte.

Nos “Dreams and Visions of the War”, de Rosa Stuart, encontrase

este caso: “Uma

história muito tocante me foi contada por uma senhora de Bournemouth. Seu

marido. sargento nos Devons, foi para a França a 25 de julho de 1915. Ela havia

recebido cartas suas regularmente, todas muito felizes e amáveis, de modo que ela

começou a ficar com a mente calma a seu respeito, sentindo que se qualquer perigo

o ameaçasse ele se sairia bem. Na noite de 25 de setembro de 1915, cerca de dez

horas, achavase

sentada na cama, em seu quarto, conversando com outra moça,

que morava com ela. A luz estava acesa e nenhuma delas pensava em ir para a

cama, tão absorvidas estavam na conversa sobre os fatos do dia e da guerra.

Sübitamente houve um silêncio. A esposa parou de súbito, no meio de uma frase e

sentouse,

olhando fixamnente no espaço. Diante delas, fardado, estava o seu

marido! Durante dois ou três minutos assim ficou, olhando para ele, e ficou

chocada pela expressão de tristeza de seus olhos. Levantandose

rapidamente

avançou para o lugar onde ele estava, mas lá chegando a visão tinha desaparecido.

Con quanto naquela manhã tivesse recebido uma carta dizendo que ele se achava

são e bom, teve a certeza de que a visão era de mau augúrio. Tinha razão. Pouco

depois recebia uma carta do Ministério da Guerra, dizendo que ele tinha sido morto

em combate em Laos, a 25 de setembro de 1915, na mesma data em que lhe

parecera têlo

visto ao lado de sua cama.”

Um lado místico mais profundo das visões da Grande Guerra gira em torno

dos “Anjos de Mons”. Mr. Arthur Machen, conhecido jornalista londrino, escreveu

222 “Facts and Futur e Life”, (1922, páginas 5354).

309 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

uma história, dizendo como os arqueiros ingleses do campo de Agincourt tinham

interferido durante a terrível retirada de Mons. Mas confessou depois que havia

inventado o incidente. Mas aqui, como tantas vezes antes, a verdade provou que a

ficção era um fato, ou pelo menos que fatos da mesma ordem eram contados por

muitas testemunhas fidedignas. Mr. Harold Begbie publicou um livrinho, “On the

Side of the Angels”, dando muitas provas e Mr. Ralph Shirley, editor da Occult

Review, de Londres, o seguiu com “The Angel Warriors at Mons”, reforçando o

testemunho de Mr. Begbie.

Respondendo a Mr. Machen no jornal Londrino Evening News, de 14 de

setembro de 1915, um oficial britânico diz que estava lutando em Le Cateau, a 26 de

agosto de 1914, e que sua divisão se retirava e marchava durante a noite de 26 e

durante o dia 27. E diz: “Na noite de 27 eu cavalgava ao lado da coluna, com dois

outros oficiais. Tinha estado falando e fazendo o possível para não dormir montado.

Enquanto marchávamos, tive consciência de um fato: no bosque, de ambos os lados

da estrada, por onde marchávamos, eu via um grande corpo de cavaleiros. Esses

cavalarianos tinham a aparência de esquadrões de cavalaria e pareciam andar

dentro do bosque, na mesma direção que nós e se mantendo em linha conosco. A

noite não era muito escura e imaginei que via muito distintamente os cavalarianos.

A princípio não disse uma palavra, mas os observei durante uns vinte minutos. Os

outros dois oficiais tinham parado de falar. Por fim um deles me perguntou se eu

havia visto alguma coisa no bosque. Então lhe disse o que tinha visto. O terceiro

oficial também confessou que tinha observado aqueles homens nos últimos vinte

minutos. Tão convencidos estávamos de que eram realmente cavalarianos que na

parada seguinte um dos oficiais tomou uma patrulha de reconhecimento e lá não

encontrou ninguém. Então a noite se tornou mais escura e nada mais vi. O mesmo

fenômeno foi observado por muitos homens da coluna. Aliás, nós estávamos

cansadíssimos e sobrecarregados, mas é uma coisa extraordinária que o mesmo

fenômeno tivesse sido observado por tanta gente. Eu mesmo estou absolutamente

convencido que vi esses cavalarianos; tenho certeza de que não existem apenas na

minha imaginação. Não tento explicar o mistério —apenas verifico os fatos.”

A prova parece boa e ainda se deve admitir que no esforço e na tensão da

grande retirada a mente dos homens não estava nas melhores condições para

suportar provas. Por outro lado é nesses momentos de dificuldades que as forças

psíquicas do homem geralmente estão mais ativas.

Um profundo aspecto da Guerra Mundial está envolvido na consideração de

que a guerra na Terra é apenas um aspecto das batalhas invisíveis em planos mais

altos onde se chocam os poderes do Bem e do Mal. O finado A. S. Sinnett, eminente

teosofista, aborda essa questão num artigo sob o título de “SuperPhysical

Aspects

of the War” 223 .

Não podemos aqui entrar no assunto, salvo para dizer que há provas de

muitas fontes a indicar que Mr. Sinnet fala de coisas que se baseiam em fatos.

Um considerável número de livros e um muito maior de manuscritos

registram as supostas experiências dos que morreram na guerra, que, aliás, não

223 “The Occult Revew”, Dezembro 1914, página 346.

310 – Ar thur Conan Doyle

diferem de modo algum da dos que morreram em outras ocasiões, mas se tornam

mais dramáticas, dada a ocasião histórica.

O maior desses livros é “Raymond”. Sir Oliver Lodge é um cientista tão

famoso e um pensador tão profundo que a sua corajosa e franca confissão produziu

uma grande impressão sobre o público. O livro apareceu últimamente em forma

condensada, e parece que fica por muitos anos como um clássico do assunto. Outros

livros da mesma classe, todos corroborativos dos principais detalhes são “The Case

of Lester Coltman”, “Claude’s Book”, “Rupert Lives”, “Grenadier Rolf”, “Private

Dowding” e outros. Todos pintam a sorte da vida do além, que é descrita no capítulo

seguinte.

311 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

24

Aspecto Religioso do Espiritismo

Espiritismo é um sistema de pensamento e de conhecimento que se pode

conciliar com qualquer religião. Os fatos básicos são a continuidade da

personalidade e o poder de comunicação após a morte. Estes dois fatos

básicos são de tão grande importância para um brâmane, um maometano ou um

parse, quanto para um cristão. Assim, o Espiritismo faz um apelo universal. Há

apenas uma escola de pensamento com a qual é absolutamente irreconciliável: é a

escola do materialismo, que sustenta o mundo em suas garras no presente e é a causa

fundamental dos nossos infortúnios. Portanto a compreensão e a aceitação do

Espiritismo são essenciais a salvação da humanidade, que de outro modo está fadada

a descer cada vez mais no puro utilitarismo e no ponto de vista egoísta do universo.

O estado tipicamente materialista foi a Alemanha de préguerra,

mas cada um dos

outros modernos estados é do mesmo tipo, senão do mesmo grau.

Perguntarão por que não seriam as velhas religiões suficientemente fortes

para recolher o mundo de sua degradação espiritual? A resposta é que todas tentaram

mas todas falharam.

As Igrejas que as representam tornaramse,

até o extremo, formais,

mundanas e materiais. Perderam todo o contacto com os fatos vivos do Espírito, e se

contentam a tudo referir ao passado e a fazer um serviço de preces e de culto externo

num sistema tão antiquado e tão misturado com incríveis teologias que a mente

honesta sente náuseas só em pensar. Nenhuma classe se mostra mais céptica e

incrédula das modernas manifestações espíritas do que aquele próprio clero que

professa a crença em ocorrências similares nos tempos passados; e a recusa de

aceitálas

agora é a medida da sinceridade de sua profissão.

Tanto abusaram da fé que esta se tornou impossível para muitas mentes

honestas, que pedem provas e conhecimento. É o que o Espiritismo fornece. Ele

baseia a nossa crença na vida depois da morte e na existência de mundos invisíveis

— e não sobre a velha tradição ou sobre vagas intuições, mas sobre fatos provados,

de modo que uma ciência da religião deve ser constituída, para dar ao homem um

caminho seguro através do pantanal dos credos.

Quando afirmamos que o Espiritismo pode conciliarse

com qualquer

religião não queremos dizer que todas as religiões tenham o mesmo valor, ou que o

ensino do Espiritismo por si só não possa ser melhor do que o Espiritismo misturado

com qualquer outro credo.

Pessoalmente, o autor pensa que o Espiritismo sozinho satisfaz a todas as

necessidades do homem; mas verifica que muitos homens de alto espírito, que foram

incapazes de se desvencilharem de velhas convicções, também foram capazes de

aceitar a nova verdade sem se desfazerem das velhas crenças. Mas se alguém tivesse

como guia apenas o Espiritismo, não se encontraria numa posição oposta ao

O

312 – Ar thur Conan Doyle

Cristianismo essencial, mas sim numa posição explanatória. Ambos reconhecem que

o postmortem

é influenciado no seu progresso e na sua felicidade pela conduta aqui.

Ambos. professam a crença na existência de um mundo de Espíritos, bons e maus,

que o Cristão chama anjos e demônios e que o Espiritismo chama de guias, contrôles

e Espíritos atrasados. Ambos acreditam, em geral, nas mesmas virtudes, no

desinteresse, na bondade, na pureza, na honestidade, que marcam um nobre caráter.

Enquanto os espírítas consideram o fanatismo como uma séria ofensa, ele é

acoroçoado pela maioria das seitas cristãs. Para os Espíritas todo caminho de

elevação é recomendável e eles reconhecem plenamente que em todos os credos

existem almas santas e altamente desenvolvidas, que receberam por intuição tudo

quanto o espírita pode dar por ensino especial. A missão do espírita não é junto a

estes. Sua missão é junto àqueles que abertamente se declaram agnósticos, ou junto

a outros, mais perigosos, que professam alguma forma de credo, mas nem têm

ideias, nem são agnósticos sinceros.

Do ponto de vista do autor, o homem que recebeu o grande benefício da

nova revelação é aquele que diligentemente procurou toda a escala das crenças e as

achou todas igualmente vastas. Então se encontra no Vale da Escuridão, com a

Morte, no fim, à espera de nada mais que deveres comuns e normais como sua

religião ativa. Essa condição produz muitos homens de mérito, da estirpe estóica,

mas não os conduz à felicidade. Então vem a prova positiva da existência

independente, por vezes súbita, por vezes em convicção lenta. A nuvem se foi para o

fim de seu horizonte. Já não mais se acha no vale, mas sobre uma elevação,

lobrigando uma série de elevações, cada qual mais bela que a anterior. Onde antes

havia treva, existe agora a claridade. O dia dessa revelação tornouse

o dia de glória

de sua vida.

Contemplando a excelsa hierarquia de seres espirituais que lhe são

superiores, o Espírita imagina de tempos em tempos que um outro grande arcanjo

virá visitar a humanidade com uma missão de ensino e de esperança. Até a humilde

Katie King, com a sua mensagem de humildade, dada a um grande cientista, era um

anjo das alturas. Francisco de Assis, Joana D’Arc, Maomé, BabudDin

e todo

verdadeiro chefe religioso da História se encontram entre esses arcanjos. Mas acima

de todos, de acordo com o nosso julgamento de ocidentais, estava Jesus, filho de um

artesão judeu, a quem chamamos O Cristo. Não é para os nossos cérebros de

mosquitos dizer qual o grau de divindade que havia nele, mas na verdade podemos

dizer que Ele certamente estava mais próximo de Deus do que nós, e que o Seu

ensino, de acordo com o qual o mundo ainda não agiu, é o mais altruísta,

misericordioso e belo de quantos temos conhecimento, a não ser aquele de seu santo

companheiro Buda, que também foi um mensageiro de Deus, mas cujo credo é antes

para as mentes orientais do que para as européias.

Quando, porém, lançamos o olhar sobre a mensagem do nosso inspirado

Mestre, verificamos que há pouca relação entre os Seus preceitos e os dogmas e a

ação de Seus atuais discípulos. Vemos também que muito daquilo que Ele ensinou

naturalmente se perdeu, e que, para encontrar essa porção perdida, que não se

achava escrita nos Evangelhos, temos que examinar as práticas da Igreja Primitiva,

que era guiada por aqueles que com Ele tinham estado em íntimo contacto. Esse

exame mostra que tudo quanto chamamos de Espiritismo Moderno parece ter sido

313 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

familiar ao grupo do Cristo, que os dons do Espírito, exaltados por São Paulo, são

exatamente os que exibem os nossos médiuns e que aquelas maravilhas que deram a

convicção da realidade de um outro mundo à gente daqueles dias agora podem ser

apreciadas e deveriam agora ter um efeito semelhante, se mais uma vez os homens

procurassem a certeza sobre esse problema vital. Este assunto terá uma referência

ligeira, bastando dizer que, longe de ter vagado pela ortodoxia, há boas razões para

pensar que o espírita humilde e não dogmático, com as diretas mensagens espíritas,

com a sua comunicação com os santos, e com a sua associação com aquele alto

ensino que foi chamado Espírito Santo, está mais próximo do Cristianismo primitivo

do que qualquer outra seita existente.

É muito interessante ler os primeiros documentos da Igreja e,

principalmente, os escritos dos chamados Pais da Igreja e ver o ensino espírita e a

prática espírita em voga naqueles dias.

Os primeiros cristãos viviam em íntimo e familiar contacto com os

invisíveis, e sua absoluta fé e constância se baseavam num pessoal conhecimento

positivo que cada um havia adquirido. Sabiam, não como especulação, mas como

um fato absoluto, que a morte não significa mais que a passagem para uma vida

mais ampla, que deveria ser chamada mais propriamente nascimento. Então não a

temeriam absolutamente e a achariam antes como o Doutor Hodgson, quando

exclamou: “Oh! Como me custa a espera!” Tal atitude não afetou o seu trabalho e o

seu valor neste mundo, o que é atestado pelos seus próprios inimigos. Se, nos dias

que correm, os habitantes de terras. distantes se mostram ainda piores quando

convertidos ao Cristianismo, é porque o Cristianismo que abraçaram perdeu todo o

poder e virtude que existia no primitivo.

Além dos primeiros Pais da Igreja, temos provas dos sentimentos dos

primeiros cristãos nas inscrições das catacumbas. Um livro interessante sobre os

cristãos primitivos de Roma, escrito pelo Reverendo Spencer Jones, Deão de

Gloucester, trata parcialmente desses estranhos e patéticos registros. Tais inscrições

têm a vantagem sobre todas as nossas provas documentárias de que não foram

esquecidas e que não há possibilidade de interpolação.

Depois de ler centenas delas, diz o Doutor Jones: “Os primeiros cristãos

falam da morte como se ainda estivessem vivos. Falam aos seus mortos.” Eis o

ponto de vista atual dos espíritas — um ponto de vista de há muito perdido pelas

Igrejas. Os túmulos dos primitivos cristãos apresentam um estranho contraste com

os dos pagãos que os cercam. Estes sempre se referem à morte como uma coisa

final, terrível e irrevogável. “Fuisti Vale!” resume os seus sentimentos. Por outro

lado, os cristãos se referiam sempre à feliz continuação da vida.

“Agape, viverás para sempre!” ou “Victorina está em paz e em Cristo!” ou

ainda, “Que Deus renove o teu Espírito!” e “Vive em Deus”. Essas inscrições

bastam para mostrar que um ponto de vista sobre a morte, novo e infinitamente

consolador, tinha sido alcançado pela humanidade.

É de notarse,

ainda, que as. catacumbas são uma prova da simplicidade dos

primeiros cristãos, antes que ficassem incrustadas com toda sorte de definições

complexas e de abstrações, que se espalharam do pensamento grego e bizantino e

produziram grandes males no mundo. Um símbolo que predomina nas catacumbas é

o Bom Pastor — a delicada ideia de um homem carregando um pobre cordeirinho. A

314 – Ar thur Conan Doyle

gente pode perquirir as catacumbas dos primeiros séculos e nos milhares de

dispositivos nada se encontra de um sacrifício cruento nem de um nascimento de

virgem. Encontrarseá

o Bom Pastor, a âncora da esperança, a palma do martírio, e

o peixe que era o anagrama do nome de Jesus 224 .

Tudo indica uma religião simples. O Cristianismo era melhor quando se

achava nas mãos dos humildes. Foram os ricos, os poderosos, os instruídos que o

degradaram, que o complicaram, que o arruinaram.

Não é possível, entretanto, tirar nenhuma inferência psíquica das inscrições

e desenhos das Catacumbas. Para isto devemos voltar aos Pais prénicenos,

onde

encontramos tantas referências que seria fácil compilar um pequeno livro que não

contivesse mais que isso. Temos, porém, que afinar os nossos pensamentos e as

nossas palavras pelas suas, a fim de lhes aprendermos a inteira significação.

Profecia, por exemplo, chamamos mediunidade, e um Anjo se transforma num

Espírito elevado ou Guia. Tomemos a esmo alguns exemplos.

Na sua “De cura pro Mortuis”, diz Santo Agostinho: “Os Espíritos dos

mortos podem ser mandados aos vivos, aos quais podem desvendar o futuro, que

ficaram conhecendo por outros Espíritos ou pelos Anjos” (isto é, pelos guias

espirituais) “ou pela revelação divina”.

Isto é puro Espiritismo, exatamente como o conhecemos e definimos.

Agostinho não teria falado nisso com tanta segurança nem com tanta justeza de

definições se não tivesse tido o seu conhecimento familiar. Não há o menor indício

de que isso fosse ilícito.

Ele volta ao assunto na sua “A Cidade de Deus”, onde se refere a práticas

que permitem que o corpo etéreo de uma pessoa se comunique com os Espíritos e

com os guias mais elevados e tenha visões. Aliás, essas pessoas eram médiuns —

nome que apenas significa intermediário entre organismos encarnados e

desencarnados.

São Clemente de Alexandria faz semelhantes alusões, como também São

Jerônimo, em sua controvérsia com o gaulês Vigilantius 225 . Este, porém, aparece em

data posterior ao Concílio de Nicéia.

Hermas, figura mais ou menos apagada, que se diz ter sido amigo de São

Paulo e discípulo direto dos apóstolos, é tido como o autor do livro “O Pastor”. Seja

ou não apócrifo a autoria, o que é certo é que o livro foi escrito por alguém dos

primeiros séculos do Cristianismo e, assim, representa as ideias predominantes. Diz

ele: “O Espírito não responde a todas as perguntas nem a qualquer pessoa

particular, porque o Espírito que vem de Deus não fala ao homem quando este quer,

mas quando Deus o permite. Assim, quando um homem que tem um Espírito de

Deus” (isto é, um controle) “vem a uma assembléia de fiéis e quando foi feita uma

prece, o Espírito enche esse homem, que fala como Deus quer” .

224 Peixe em grego é ICHTHOS. Sabendo que o CH e o TH eram sinais simples, temos um anagrama:

IESUS — CRISTOS — THEOU — UIOS — SOTEROS, que quer dizer: “J esus Cristo, filho de Deus,

Salvador” — N. do T.

225 Vigilantius foi o fundador de uma seita que proscrevia as relíquias, bem como a vida monástica, o

celibato dos sacerdotes. É do século 4 e representa a primeira reação do espírito gaulês, contra os abusos

da Igreja Romana — N. do T.

315 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

Isto descreve com exatidão a nossa própria experiência psíquica, quando as

sessões são bem dirigidas. Não invocamos Espíritos, como o afirmam de contínuo os

críticos ignorantes e não sabemos o que virá. Mas pedimos, usando a expressão Pai

Nosso, como uma regra, e aguardamos os acontecimentos. Então vem o Espírito que

é escolhido e mandado e nos fala ou escreve através do médium. Como Agostinho,

Hermas não teria falado com tanta precisão, se não tivesse experiência pessoal do

processo.

Orígenes faz muitas alusões ao conhecimento psíquico. É curioso comparar

a crassa ignorância dos nossos atuais dirigentes espíritas com a sabedoria dos

antigos. Muitas citações poderiam ser feitas; basta, porém, uma curta, tomada da sua

controvérsia com Celsus: “Muita gente abraçou a fé cristã, a despeito de tudo,

porque seus corações foram mudados subitamente por algum Espírito, quer em

aparição, quer em sonho.”

Exatamente dessa maneira dirigentes materialistas, a começar pelo Doutor

Elliotson, mudaram de ideia quanto à vida futura e quanto à sua relação com esta

vida, pelo estudo dos fatos psíquicos.

Os primeiros Pais da Igreja é que são mais definidos neste particular, pois

estavam mais perto da grande fonte psíquica. Assim, Irineu e Tertuliano, que

viveram no fim do segundo século, estão cheios de alusões aos sinais psíquicos,

enquanto Eusébio, escrevendo depois, verifica a sua escassez e lamenta que a Igreja

se tenha tornado indigna deles.

Escreveu Irineu: “Ouvimos que muitos irmãos na Igreja possuem dons

proféticos” (isto é, mediúnicos) “e falam, através do Espírito, diversas línguas e

revelam, no interesse geral, coisas ocultas aos homens, explicando os mistérios de

Deus” . Nenhuma passagem poderia descrever melhor as funções de um médium de

alta classe. Quando Tertuliano teve a sua grande controvérsia com Márcio, tomou os

dons mediúnicos para um teste da verdade entre os dois contendores. Proclamou que

estes se materializavam em maior profusão do seu lado, e entre essas manifestações

inclui a fala em transe, a profecia e a revelação de coisas secretas. Assim, coisas que

agora são ridicularizadas ou condenadas por tantos padres, no ano 200 eram a pedra

de toque do Cristianismo.

Também diz Tertuliano em seu De Anima: “Temos hoje entre nós uma

irmã que da natureza recebeu os dons da revelação que ela exerce em Espírito na

Igreja, entre os ritos de ‘Dia do Senhor’, caindo em êxtase. Conversa com os anjos”

(isto é, com Espíritos elevados) “vê e ouve mistérios e lê os corações de certas

pessoas, curando os que o pedem. Entre outras coisas, disse ela, me foi mostrada

uma alma, em forma corpórea, e parecia um Espírito, mas não um vazio ou uma

coisa vaga. Pelo contrário, parecia que podia ser tocada, era macia, luminosa, da

côr do ar e de forma humana em todos os detalhes.”

Uma mina de informações sobre os pontos de vista dos cristãos primitivos é

encontrada nas “Constituições Apostólicas”. É verdade que não são apostólicas, mas

Whiston, Krabbe e Bunsen concordam que pelo menos sete dos oito livros são

autênticos documentos prénicenos, provàvelmente do começo do terceiro século.

Seu estudo revela fatos curiosos. O incenso e as lâmpadas votivas eram usados em

seus serviços, assim justificando as atuais práticas católicas. Por outro lado, os

bispos e os sacerdotes dotes eram casados. Havia um elaborado sistema de

316 – Ar thur Conan Doyle

represálias contra quem quer que transgredisse as regras da Igreja. Se um clérigo

comprasse um bem era cortado, bem como qualquer homem que obtivesse posição

eclesiástica pela proteção mundana. Não havia cogitação de um Bispo superior ou

Papa. O vegetarianismo e a completa abstinência de vinho eram proibidos e

castigados.

Essa última lei muito interessante provàvelmente nasceu de uma reação

contra alguma heresia que impunha a ambas. Um clérigo apanhado numa taverna era

suspenso. O clero devia comer carne sem sangue, à maneira judaica. O jejum era

frequente e rigoroso — um dia por semana (ao que parece nas sextasfeiras)

e

quarenta dias na quaresma.

Entretanto, é discutindo esses dons ou variadas formas de mediunidade que

esses documentos derramam luz sobre os assuntos psíquicos. Então, como agora, a

mediunidade tomava diversas formas, como o dom das línguas, o poder curador, a

profecia e outras. Diz Harnack que em cada Igreja Cristã primitiva havia três

mulheres superiores: uma para curas e duas para profecias. Tudo isso é livremente

discutido nas “Constituições”. Parece que aqueles que tinham dons se consideravam

superiores aos outros; então eram advertidos de que um homem pode ter dons sem

possuir grandes virtudes, de modo que é espiritualmente inferior a muitos que não

possuem dons.

Como no Espiritismo moderno, o objetivo dos fenômenos éa conversão dos

descrentes e não um entretenimento dos ortodoxos. “Não são para as vantagens dos

que os realizam, mas para a convicção dos descrentes; para aqueles a quem uma

palavra não persuada, mas a força dos sinais pode envergonhar, pois os sinais não

são para os que acreditam, mas para os descrentes, tanto judeus, quanto gentios”

(Constituições, Livro 8º, Seção 1).

Depois os vários dons, que em geral correspondem às nossas diferentes

formas de mediunidade, são apresentados como segue: “ Portanto, ninguém que

produz sinais e maravilhas julgue fiel a quem não é considerado como tal. Porque

os dons de Deus que são concedidos através de Cristo são vários e uns recebem

estes, outros recebem aqueles. Porque talvez este receba a palavra de sabedoria”

(fala em transe) “e aquele a palavra do conhecimento” (inspiração); “uns

distinguem os Espíritos” (clarividência), “outros o conhecimento antecipado de

coisas vindouras, outros a palavra de ensino” (encorporação de Espíritos) “enfim

outros um longo sofrimento.” Todos os nossos médiuns necessitam desses dons.

Bem se pode perguntar onde, fora do Espiritismo, se acham esses dons ou

essas observâncias? em que Igrejas que se dizem ramos desse velho tronco?

Continuamente são observadas altas presenças espirituais. Assim, na

“Ordenação dos Bispos” encontramos: “O Espírito Santo também presente, do

mesmo modo que os santos e os Espíritos oliciantes”. Em conjunto, entretanto, eu

diria que temos agora maior soma de fatos espíritas do que os autores das

“Constituições” e que provàvelmente esses documentos representam um declínio

daquela íntima “Comunhão de Santos” que existia no primeiro século. Há razões

para pensar que a força psíquica não seja fixa: que venha em ondas de alta e baixa

maré. Presentemente estamos em maré montante, mas não sabemos quanto tempo

durara.

317 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

Pode dizerse

razoàvelmente que, desde que o conhecimento dos fatos

relacionados com a história da Igreja primitiva é tão limitado, talvez se pudesse

entrar em contacto com alguma Inteligência elevada que tivesse tomado parte

naqueles acontecimentos, assim oferecendo uma suplementação às nossas escassas

fontes de informações. Isto atualmente tem sido feito em várias mensagens

inspiradas e ainda quando as provas deste livro estavam sendo corrigidas houve um

interessante desenvolvimento que torna claro para todo o mundo quanto deve ser

estreita a conexão entre as comunicações com o outro mundo e a religião.

Duas longas mensagens apareceram recentemente, pela mão de uma

médium semiconsciente, Miss Cummins, mensagem esta que foi dada na velocidade

de duas mil palavras por hora. A primeira é tomada como um relato da missão de

Cristo, do evangelista Felipe, e a segunda é um suplemento dos Atos dos Apóstolos,

que se supõe ditada por Cleofas, que ceou com o Cristo ressuscitado em Emaús. A

primeira foi publicada 226 e a segunda breve será dada ao público.

Até onde o autor pode saber, nenhuma crítica foi feita ao escrito de Felipe,

mas a sua leitura cuidadosa o convenceu de que pela dignidade e pela força ela

merece ser aceita como tal, porque explica de modo claro e adequado muitos pontos

que haviam intrigado os comentaristas. O caso do escrito de Cleofas é, entretanto,

ainda mais admirável, e o autor se inclina a aceitálo

como o mais elevado

documento e um dos mais evidentes sinais de origem supranormal em toda a história

do movimento. Ele foi submetido ao Doutor Oesterley, Capelão Examinador do

Bispo de Londres, que é uma das maiores autoridades sobre a história e a tradição da

Igreja. ele declarou que aquele documento apresenta todos os indícios de ser da mão

de alguém que viveu naqueles dias e que se achava em íntimo contacto com o grupo

apostólico. Muitos pontos sutis e de erudição podem ser observados, tais como o

emprego do nome hebraico Hanan, como sendo o do Sumo Sacerdote, quando este

só é conhecido aos leitores da língua inglesa através do seu equivalente grego

Anuas.

Este é um entre os inúmeros pontos de corroboração, pràticamente acima da

capacidade dos falsificadores. Entre outros pontos interessantes Cleofas descreve a

festa de Pentecostes e declara que os Apóstolos se sentaram em círculo, com as

mãos dadas, como lhes havia ensinado o Mestre. Na verdade seria interessante que a

significação interna do Cristianismo, há tanto tempo perdida, fosse agora descoberta

mais uma vez, pelo culto ridicularizado e perseguido, cuja história é aqui registrada.

Esses dois escritos representam, na opinião do autor, duas das mais

convincentes provas da comunicação dos Espíritos jamais obtidas, do ponto de vista

mental. Parece impossível explicálos

de outra maneira.

Tanto os Espíritas da Inglaterra quanto os dos outros países podem ser

divididos em dois grupos: os que permanecem em suas respectivas Igrejas e os que

formaram a sua própria Igreja. Estes últimos têm na Inglaterra cerca de quatrocentos

pontos de reunião, sob a direção geral da União Nacional Espírita. Há uma grande

elasticidade quanto aos dogmas e, enquanto muitas das Igrejas são Unitárias, uma

importante minoria delas são de linha cristã.

226 “The Gospel of Philip the Evangelist”.

318 – Ar thur Conan Doyle

Pode dizerse

que se acham em geral unidas dentro de sete princípios

centrais, que são:

1. A Paternidade de Deus.

2. A Fraternidade do Homem.

3. A Comunhão dos Santos e o Ministério dos Anjos.

4. A Sobrevivência humana à morte física.

5. A Responsabilidade Pessoal.

6. A Compensação ou retribuição pelo bem ou pelo mal feito.

7. O progresso eterno aberto a cada alma.

Vêse

que todos esses pontos são compatíveis com o Cristianismo comum,

com exceção, talvez, do quinto. Os Espíritas consideram a vida terrena do Cristo e a

sua morte como um exemplo antes que uma redenção. Cada um responde por seus

pecados e ninguém subtrairseá

à sua responsabilidade por um apelo a algum

sacrifício sacerdotal. Não é possível que o tirano ou o debochado pelo truque

espiritual do falso arrependimento, escape ao justo castigo.

Um verdadeiro arrependimento o auxilia, mas a dívida será paga do mesmo

modo. Ao mesmo tempo a misericórdia de Deus é maior do que o homem a imagina

e todas as possíveis circunstâncias atenuantes de tentação, hereditariedade e meio

ambiente serão devidamente consideradas antes que ele seja punido. Tal é, em

poucas palavras, a posição das Igrejas Espíritas.

Em outro lugar 227 o autor mostrou que, conquanto a pesquisa psíquica, em

si mesma, seja muito diversa da religião, as deduções que daí poderemos tirar e as

lições que podemos aprender “Ensinamnos

a vida contínua da alma, a natureza

dessa vida e como ela é influenciada por nossa conduta terrena. Se isto é diferente

da religião, devo confessar que não entendo essa distinção. Para mim é religião —

a sua mesma essência” . O autor também falou do Espiritismo como uma grande

força unificadora, talvez a única coisa ligada a cada religião, cristã ou não. Enquanto

o seu ensino modificaria profundamente o Cristianismo convencional, as

modificações seriam antes no sentido da explanação e do desenvolvimento, do que

da contradição. Também se referiu à nova revelação como absolutamente fatal para

o materialismo.

Nessa época materialista deve dizerse

que, sem uma crença na

sobrevivência do homem após a morte, a mensagem do Cristianismo cai, em grande

parte, em ouvidos moucos. Em seu relatório presidencial à Sociedade Americana de

Pesquisas Psíquicas 228 , o Doutor McDougall destaca a conexão entre o colapso da

religião e a propagação do materialismo. Diz ele: “A menos que a Pesquisa

Psíquica... possa descobrir fatos incompatíveis com o materialismo, este continuara

a se espalhar. Nenhuma outra força detêloá;

a religião revelada e a filosofia

metafísica são igualmente inócuas à frente de sua maré montante. E se essa maré

continua enchendo e avançando, como agora, todos os sinais indicam que será uma

maré de destruição, que varrerá todas as árduas conquistas da humanidade, todas

227 “The New Revelation”, páginas 679.

228 Jornal, Am. SOCIETY FOR PSYCHICAL RESEARCH, Janeiro 1923.

319 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

as tradições morais construídas pelos esforços de incontáveis gerações para o

crescimento da verdade, da justiça e da caridade.”

É, pois, importante procurar ver em que grau o Espiritismo e a pesquisa

psíquica tendem a induzir ou a reforçar a crença religiosa.

Em primeiro lugar temos muitos testemunhos para a conversão de

materialistas, através do Espiritismo, a uma crença no depois da morte, como, por

exemplo, o Professor Robert Hare e o Professor Mapes, na América, o Doutor

Alfred Russel Wallace, o Doutor Elliotson, o Doutor Sexton, Robert Blatchford,

John Ruskin e Robert Owen, na Inglaterra. Muitos outros podem ser mencionados.

Se o Espiritismo fosse devidamente compreendido, haveria poucas dúvidas

a respeito de sua harmonia com a religião. A definição do Espiritismo, impressa em

cada edição do jornal Light, órgão hebdomadário dos Espíritas de Londres, é a

seguinte:

“Uma crença na existência e na vida do Espírito separado e independente

do organismo material, e na realidade e no valor da inteligente comunicação entre

os Espíritos encarnados e os desencarnados.”

As duas crenças aí expressas são artigos da fé cristã.

Se, acima de todas as classes, uma há que deve ser capaz de falar com

autoridade sobre as tendências religiosas do Espiritismo, esta é o clero. Muitos dos

mais progressistas têm externado seus pontos de vista sobre o assunto em termos

precisos. Examinemos os seus depoimentos: O Reverendo H. R. Haweis, M. A.,

numa conferência feita a 20 de abril de 1900, na Aliança Espírita de Londres, disse

que ali tinha vindo para dizer que nada via naquilo que acreditava fõsse o verdadeiro

Espiritismo que fõsse de qualquer maneira contrário ao que ele crê que seja o

verdadeiro Cristianismo. Na verdade, o Espiritismo se ajusta perfeitamente ao

Cristianismo; parecia um legítimo desenvolvimento, e não uma contradição — não

um antagonista... A dívida do clero — se ele conhecesse o seu dever — para com o

Espiritismo, era realmente muito grande. Em primeiro lugar, o Espiritismo havia

reabilitado a Bíblia. Nem por um momento poderia ser negado que aquela fé e

aquele respeito pela Bíblia estavam morrendo, em consequência das crescentes

dúvidas do povo em relação às partes miraculosas da Bíblia. Os, apologistas se

curvavam inteiramente ante a beleza da doutrina cristã, mas não podiam engolir o

elemento miraculoso do Velho Testamento, nem do Novo. Pediamlhes

que

acreditassem nos milagres da Bíblia e, ao mesmo tempo, ensinavam que fora do que

está na Bíblia, nada de supernatural poderia acontecer. Mas agora a coisa mudou. O

povo agora acredita na Bíblia devido ao Espiritismo; não acreditava no Espiritismo

por causa da Bíblia. Disse mais: que quando havia iniciado o seu ministério tinha

tentado livrarse

dos milagres fora da Bíblia, explicandoos

à parte. Mas depois

achou que não os podia explicar fora das pesquisas de Crookes, de Flammarion, de

Alfred Russel Wallace.

O Reverendo Arthur Chambers, outro vigário de Brockenhurst, Hants, fez

um valioso trabalho levando alguns homens a considerarem a sua vida espiritual,

aqui e no além. Seu livro “Nossa Vida Após a Morte” chegou a cento e vinte

edições. Numa conferência sobre “O Espiritismo e a Luz que lança sobre a verdade

cristã”, diz: “Por sua persistente investigação dos fenômenos psíquicos, por sua

aberta insistência de que as comunicações entre os dois mundos é atualmente um

320 – Ar thur Conan Doyle

fato, o Espiritismo arrastou grandes massas de criaturas a realizar que ‘há mais

coisas entre o céu e a terra do que antes pensaram em sua filosofia’, e fez que

muitos, homens e mulheres, entendessem uma poderosa verdade tecida com a

religião — uma verdade fundamental para uma correta compreensão de nosso

lugar no grande universo — uma verdade a que a humanidade de todos os tempos

se agarrou, a des peito do desdém dos incrédulos e da condenação dos professôres

de religião. Vemme

à mente, em conclusão, o pensamento de uma maneira

particular pela qual os ensinos espíritas ergueram as ideias religiosas da era que

passa. Ele nos ajudou a formar uma ideia maior e mais verdadeira de Deus e de

seus Desígnios.”

Em outra brilhante passagem diz: ”Sim, o Espiritismo fez muito, muitíssimo

por uma compreensão melhor daqueles grandes fatos básicos que são inseparáveis

do Evangelho de Jesus. Ajudou aos homens e mulheres a ver com visão mais clara o

Grande Espírito Pai — Deus, no qual vivemos, movemonos

e temos o nosso ser, e

aquele vasto universo espiritual, do qual somos agora e já devemos constituir um

elemento. Como Espírita cristão, tenho uma grande esperança — uma grande

convicção do que será — isto é, que o Espiritismo, que tanto fez pelo ensino cristão

e, de um modo geral, pelo mundo, ajudando a afugentar o temor da morte, e

auxiliandonos

a compreender aquilo que foi o ensino magnífico do Cristo,

reconhecerá completamente aquilo que o Cristo representa, à luz das verdades

espíritas.”

Depois Mr. Chambers acrescentou que tinha recebido algumas centenas de

cartas de todas as partes do mundo, de escritores que lhe exprimiam o alívio e o

conforto, assim como uma crença maior em Deus, que lhes tinha vindo pela leitura

de seu livro “Nossa Vida Depois da Morte”.

O Reverendo F. FieldingOuld,

M. A., Vigário da Igreja de Cristo, Regent’s

Park, Londres, é outro que proclama redondamente o bom trabalho feito pelo

Espiritismo. Numa conferência a 21 de abril de 1921, sobre “Relação entre o

Espiritismo e o Cristianismo” diz ele: “O mundo necessita de ensino espírita. O

número de criaturas irreligiosas hoje em Londres é de causar espanto. Há um

imenso número de criaturas de todas as classes sociais — e falo com experiência

própria — absolutamente sem religião. Não foram, nunca vão à Igreja para o

serviço comum, e em consciência e por hábito pensam que a morte é o fim. Nada

existe além, a não ser um espêsso nevoeiro, no qual a sua imaginação é proibida de

vagar. Podem dizerse

da Igreja da Inglaterra, da Romana, da Hebraica, mas são

como garrafas vazias numa adega e que ainda conservam os rótulos de safras

famosas.”

E acrescenta: “Não é raro que almas desesperadas e em luta sejam

socorridas por meio do Espiritismo. Não conhecemos todas as criaturas que haviam

abandonado toda crença e que voltaram por aquele meio? Agnósticos que haviam

perdido toda a esperança em Deus e na imortalidade, a quem a religião parecia

mera formalidade e um esqueleto e que finalmente voltaramse

contra o

agnosticismo e o injuriaram em todas as suas manifestações. Então lhes veio o

Espiritismo como uma aurora a um homem que passou a noite febril e sem sono. A

princípio ficaram admirados e incrédulos, mas sua atenção se fixou: depois foram

321 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

tocados no coração. Deus tinha voltado às suas vidas e nada poderia exprimir a sua

alegria e a sua gratidão”.

O Reverendo Charles Tweedale, Vigário de Weston, Yorkshire, um homem

que tem trabalhado herôicamente a sua causa, referese

a um exame do Espiritismo

pela Conferência dos Bispos, realizada em Lambeth Palace, de 5 de julho a 7 de

agosto de 1920; e, falando da moderna pesquisa psíquica, diz 229 : “Enquanto o

mundo, em geral, se encheu com ávido interesse de despertamento, a Igreja, que

pretende ser a guarda da verdade religiosa e espiritual, por mais estranho que

pareça, até bem pouco tempo fez ouvidos moucos a todas as modernas provas

relativas á realidade daquele mundo espiritual cujo testemunho é o objeto principal

de sua existência; e mesmo agora apenas dá fracos sinais de que se dá conta da

importância que o assunto tem para ela... Um importante sinal dos tempos foi a

discussão dos fenômenos psíquicos na Conferência de Lambeth e a apresentação,

pelo secretário, da minha brochura ‘Os Fenômenos Espíritas Atuais e as Igrejas’,

passandoa

às mãos de todos os Bispos, com o consentimento do Arcebispo. Outro

sinal significativo dos tempos é a escolha de Sir William Barrett para fazer uma

conferência no Congresso das Igrejas, sobre assuntos psíquicos.”

O relatório dos Proceedings sobre a Conferência de Lambeth, já

mencionada, assim se refere à pesquisa psíquica: “É possível que estejamos no

limiar de uma nova ciência que, por outro método de trabalho, nos confirmará a

crença em um mundo por detrás e acima do mundo que vemos e em algo dentro de

nós, por meio do qual nos pomos em contacto. Jamais poderíamos imaginar em pôr

um limite aos meios de que Deus se serve para trazer ao homem a realidade da vida

espiritual.”

Tendo feito suas declarações precavidas, o relatório salta para um lugar

seguro, adicionando uma condicional: “Mas nada existe no culto erguido a esta

ciência que valorize; há, na verdade, muita coisa que obscurece a significação

daquele outro mundo e as nossas relações com ele, como desdobradas no

Evangelho do Cristo e no ensino da igreja, e que deprecia os meios que nos foram

dados para atingir e viver em camaradagem com aquele mundo.”

Sob o título de “Espiritismo”, diz o relatório: “Conquanto reconhecendo

que os resultados de investigações tenham animado muita gente a descobrir uma

significação espiritual e um objetivo na vida humana e os conduzido a pensar na

sobrevivência á morte, graves perigos se vêem na tendência para transformar o

Espiritismo numa religião. A prática do Espiritismo como um culto envolve a

subordinação da inteligência e da vontade a forças desconhecidas ou a

personalidades e, por isso mesmo, a uma abdicação do autocontrôle.”

Um conhecido colaborador de Light, que usa o pseudônimo de Gerson,

assim comenta a passagem acima: “Sem dúvida, há um perigo na ‘subordinação da

inteligência e da vontade a forças desconhecidas ou a personalidades’, mas a

prática das comunicações espíritas necessariamente não envolve, como parece que

pensam os Bispos, uma tal subordinação. Outro perigo, no seu modo de ver, é a

‘tendência para transformar o Espiritismo numa religião.’ Light e aqueles que se

associam à sua atitude, jamais sentiram inclinação para isso. A possibilidade de

229 “Light”, 30 de Outubro, 1920.

322 – Ar thur Conan Doyle

comunicação espírita é um fato da natureza e não concordamos em elevar nenhum

fato da natureza em religião. Ao mesmo tempo uma elevada forma de religião pode

ser associada com um fato da natureza. O reconhecimento da beleza e da ordem no

universo em si mesmo não constitui religião, mas pelo fato de inspirar reverência

pela fonte daquela beleza e daquela ordem é um auxílio ao Espiritismo religioso.”

No Congresso da Igreja inglesa em 1920, o Reverendo M. A. Bay. field leu

um trabalho sobre “A Ciência Psíquica, Aliada do Cristianismo”, no curso do qual

disse o seguinte: “Muitos clérigos olham com suspeita a ciência psíquica e alguns

com positivo antagonismo e alarme. Sob o seu nome popular o Espiritismo chegou

até a ser denunciado como anticristão. Ele deveria esforçarse

por mostrar que esse

ramo de estudos era, em conjunto, um aliado de nossa fé. Quem quer que não seja

materialista é espiritualista e o próprio Cristianismo era uma religião

essencialmente espírita”.

E prosseguiu para se referir ao serviço prestado pelo Espiritismo ao

Cristianismo, tornando possível a crença no miraculoso elemento do Evangelho.

O Doutor Edwood Worcester, num sermão sob o título de “Os Aliados da

Religião” 230 feito na Igreja de St. Stephen, em Filadélfia, a 25 de fevereiro de 1923,

falou da pesquisa psíquica como uma verdadeira amiga da religião e uma aliada

espiritual do homem. Disse ele: “Ele também ilumina acontecimentos importantes

na vida do Senhor e nos ajuda a compreender e a aceitar as ocorrências que de

outro modo seriam rejeitadas. Particularmente penso nos fenômenos concomitantes

com o batismo de Jesus. Seu aparecimento no mar da Galiléia. Sua Transfiguração

e, acima de tudo, a Sua Ressurreição, e o Aparecimento aos Seus Discípulos. Além

disso, é a única real esperança que temos de resolver o problema da morte. De

nenhuma outra fonte temos uma nova solução para esse eterno mistério que nos

atinge.”

O Reverendo G. Vale Owen lembranos

que conquanto haja Espíritas que

são distintamente cristãos espíritas, o Espiritismo não está confinado ao

Cristianismo. Há, porexemplo, uma Sociedade Espírita Judia em Londres. A

princípio, a Igreja considerava a Evolução uma adversária, mas finalmente aceitoua,

por estar de acordo com a fé cristã. E assim conclui: “Assim como a aceitação da

Evolução deu ao Cristianismo uma mais larga e mais digna concepção da Criação

e do Criador, também a aceitação das grandes verdades sustentadas pela ciência

psíquica transformarão um agnóstico num crente em Deus, tornarão am judeu num

judeu melhor, um maometano num melhor maometano, um cristão num cristão

melhor e, certamente, uma criatura mais feliz e mais alegre” . 231

Dêsses resumos se vê claramente que alguns clérigos da Igreja da Inglaterra

e de outras Igrejas eram concordes quanto à influência benéfica do Espiritismo na

religião.

Há outra importante fonte de informações sobre as opiniões relativas às

tendências religiosas do Espiritismo. É a do próprio mundo espírita. Há aí abundante

material, mas devemos contentarnos com uns poucos resumos. O primeiro é do

conhecido livro “Ensinos Espiritualistas”, dados através da mediunidade de Stainton

230 Jornal, American SOCIETY FOR PSYCHICAL RESEARCH, Janeiro 1923, página 323.

231 “Facts and Futur e Life” (1922), página 170.

323 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

Moses: “Amigo, se outros lhe perguntam da utilidade de nossa mensagem, e do

benefício que ela pode oferecer àqueles a quem o Pai a manda, digalhe

que é um

evangelho que revelará um Deus de ternura, de piedade e de amor e não uma falsa

criação da brutalidade, da crueldade e das paíxões. Digalhes

que ela os levará ao

conhecimento de Inteligências cuja vida inteira é de amor, de misericórdia e de

piedade, de valioso auxílio ao homem, combinada com a adoração do Supremo.”

Ou esta outra, da mesma fonte: “Gradualmente o homem foi construindo

em torno dos ensinos de Jesus um muro de deduções, de especulações e de

comentários materiais, semelhante àquele com que os Fariseus haviam cercado a

lei mosaica. A tendência crescente foi para o aumentar à medida que o homem

perdia de vista o mundo espiritual. De modo que chegamos a um duro e frio

materialismo deduzido de ensinos que foram oferecidos para respirar

espiritualidade e para eliminar um ritual sensual. Nossa tarefa é fazer com o

Cristianismo aquilo que Jesus fez com o Judaísmo. Teríamos que tomar as velhas

fórmulas e espiritualizar o seu significado, infundindolhes

uma nova vida.

Ressurreição e não abolição — eis o que desejamos. Dizemos mais uma vez que não

abolimos um jota ou um til dos ensinos que Jesus deu ao mundo. Apenas varremos

os comentários materiais do homem e vos mostramos o significado espiritual oculto,

que foi esquecido... Nossa missão é a continuação daquele velho ensino que

estranhamente foi alterado pelo homem. Sua fonte é a mesma; seu curso paralelo;

sua finalidade a mesma.”

E esta, das “Cartas de Júlia”, de W. T. Stead: “Tivestes ensinos sobre a

comunhão dos santos; dizeis e cantais de todas as maneiras que os santos acima e

abaixo são um exército do Deus Vivo, mas quando um de nós deste Outro Lado

procura fazer um esforço prático para vos capacitar da Unidade e vos fazer sentir

que sois acompanhados por tamanha nuvem de testemunhas, então há um clamor

geral. É contra a vontade de Deus! É um pacto com os demônios! É uma conjura

com Espíritos maus. Oh! Meu amigo, meu amigo, não vos impressioneis com esses

gritos especiosos. Sou um demônio? Sou um Espírito familiar? Estarei fazendo algo

contrário à vontade de Deus, quando constantemente, constantemente procuro vos

inspirar mais fé nele, mais amor por Ele, por todas as suas criaturas e, em resumo,

procuro trazervos

para mais perto de Deus? Sabeis que faço tudo isso. É a minha

alegria e a lei de meu ser.”

E. finalmente, este resumo das “Mensagens de Meslom”: “Qualquer ensino

que ajude a humanidade a crer que há uma outra vida e que a alma é fortificada

lutando com denodo e vencendo fraquezas é bom, porque encerra aquela verdade

fundamental. Se, além disso, revelar um Deus de amor, tanto melhor; e se a

humanidade pudesse compreender esse Amor Divino, todo sofrimento, mesmo na

Terra, cessaria.”

Estas passagens de tom elevado tendem a dirigir a mente do homem para

coisas mais altas e para a compreensão de um mais profundo objetivo da vida.

A fé que F. W. H. Myers havia perdido no Cristianismo foi restaurada pelo

Espiritismo. Em seu livro “Fragmentos de Prosa e Poesia”, num capítulo sob o título

de “A Fé Final”, diz ele: “Não posso, num sentido profundo, contrastar a minha

crença atual com o Cristianismo. Consideroa

antes um desenvolvimento científico

da atitude e do ensino do Cristo.

324 – Ar thur Conan Doyle

“Perguntareis qual a tendência moral de todos esses ensinos — e a

resposta é surpreendentemente simples e concisa. — A tendência é, poderseia

dizer, aquilo que deve ser inevitavelmente — aquilo que a tendência de todo ensino

moral vital tem sido sempre — a mais antiga e a mais verdadeira tendência do

próprio Cristianismo. É uma reasserção — pesada agora com novas provas — da

insistência do Cristo sobre a realidade da vida interior; de sua proclamação de que

a letra inata mas o Espírito vivifica, de seu resumo de que toda a moral está no

amor a Deus e ao próximo.”

Muitos escritores têmse

referido à luz que a pesquisa psíquica tem lançado

sobre a narrativa bíblica, mas a melhor expressão desse ponto de vista se encontra na

‘Personalidade Humana’ de F. W. H. Myers: “Arrisco agora uma declaração

audaciosa: prevejo que em consequência às novas provas, todos os homens

razoáveis, daqui a um século, acreditarão na Ressurreição do Cristo, enquanto que,

à falta de novas provas, daqui a um século nenhum homem razoável o acreditaria...

E, principalmente quanto à afirmação central, da vida manifesta da alma após a

morte do corpo, é claro que cada vez menos será sustentada apenas pela remota

tradição; que deve ser, cada vez mais, provada pela experiência moderna e pela

investigação. Suponhamos, por exemplo, que reunimos muitas dessas histórias,

registradas em provas de primeira mão nessa época de crítica; e suponhamos que

todas essas narrativas não resistam à análise; que todas possam ser tomadas como

alucinações, incorreções ou outras persistentes fontes de erro. Podemos, então,

esperar que homens razoáveis acreditem que esse maravilhoso fenômeno, que

sempre se dilui no nada quando rigorosamente analisado na moderna cena inglesa,

deva ainda conduzir à adoração religiosa, por se dizer que ocorreu num país do

Oriente e numa era remota e supersticiosa? Se, em resumo, os resultados da

‘Pesquisa Psíquica’ tivessem sido puramente negativos, não teria a evidência cristã

— não digo a emoção cristã, mas a evidência cristã — recebido um golpe

esmagador?”

Podem citarse

muitos testemunhos de eminentes homens públicos. Assim

escreve Sir Oliver Lodge: “Conquanto não tenha sido por minha fé religiosa que fui

levado a minha situação presente, não obstante tudo quanto aprendi tende a

aumentar meu amor e veneração pela personalidade que é a figura central do

Evangelho.”

Lady Grey of Fallodon 232 rende um eloqüente tributo ao Espiritismo,

descrevendoo

como algo que vitalizou a religião e levou conforto a milhares de

pessoas. Falando dos Espíritas, diz: “Como um corpo de trabalhadores, estão mais

ligados ao Espírito do Novo Testamento do que muita gente da Igreja poderia

pensar. A Igreja da Inglaterra deveria considerar o Espiritismo como valioso

aliado. Ele faz um ataque frontal ao Materialismo e não só identifica o universo

material com o espiritual, mas tem uma reserva de conhecimentos úteis e de

conselhos.”

E acrescenta: “Nele encontro uma corrente vitalizante que traz um sopro de

vida às velhas crenças... O mundo que estamos acostumados a associar com as

Sagradas Escrituras é, em essência, idênticos a mensagem que nos vem nestes

232 “For tnightly Revew”, Outubro, 1922.

325 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

últimos escritos. Aqueles de nós que trazem a Nova Revelação no coração, sabem

que o Espiritismo oferece uma compreensão moderna da Bíblia e é por isto que —

se as Igrejas apenas o vissem — ele deve ser considerado o grande aliado da

religião.”

São palavras verídicas e corajosas.

Mostra o Doutor Eugene Crowell 233 que a Igreja Católica Romana sustenta

que as manifestações espíritas ocorrem constantemente sob a divina autoridade da

Igreja; mas as Igrejas Protestantes, conquanto professando a crença de que as

manifestações espíritas ocorreram com Jesus e os seus discípulos, repudia similares

acontecimentos em nossos dias. E diz: “Assim a Igreja Protestante, quando

procurada pelos famintos espirituais — e há milhões nessas condições, das

profundidades de cuja natureza se ergue uma poderosa demanda de alimento

espiritual, — nada tem para oferecer, ou, pelo menos, nada mais que cascas... Hoje

se encontra o Protestantismo premido entre as mós do Materialismo e do

Catolicismo. Cada uma dessas forças sobre ele vem exercendo uma pressão

crescente e ele deve penetrarse

de uma ou de outra, ou será reduzido a pó. Nas

suas condições atuais faltalhe

a necessária força e vitalidade para resistir à ação

dessas forças e sua única esperança está no sangue novo que só o Espiritismo é

capaz de injetar em suas veias esgotadas. Acredito piamente que esta é parte da

missão que o Espiritismo tem que realizar; e essa crença se baseia nas necessidades

palpáveis do Protestantismo, e numa clara concepção da adaptabilidade do

Espiritismo a essa tarefa, bem como a sua habilidade para a realizar.”

Declara o Doutor Crowell que a difusão do conhecimento não diminuiu a

curiosidade do homem moderno pelas questões relativas à sua vida espiritual e à

existência futura; mas hoje eles querem prova daquilo que outrora era aceito pela fé.

A teologia é incapaz de fornecer esta prova e milhões de mentes alertas, diz ele,

ficam reservadas, à espera de provas satisfatórias.

O Espiritismo — sustenta ele — foi mandado para dar essa prova, que de

nenhuma outra fonte será fornecida.

Algumas referências deveriam ser feitas ao ponto de vista dos Espíritas

Unitários, O seu habilíssimo e sincero dirigente é Ernest W. Oaten, editor de The

Two Worlds. O ponto de vista de Mr. Oaten, que é esposado por todos, exceção de

um pequeno grupo de extremistas, é antes de uma reconstrução do que de uma

destruição do ideal cristão. Depois de um relato muito respeitoso da vida de Cristo,

conforme a explicação por nosso conhecimento psíquico, continua ele: “Dizem que

desprezo a Jesus de Nazaré. Confio mais no julgamento do Mestre do que no dos

homens. Penso, porém, que conheço sua vida mais intimamente do que qualquer

cristão. Não existe em toda a História uma alma que eu tenha em mais alta estima.

Detesto o lugar falso e errado no qual Ele foi posto por aqueles que não mais são

capazes de O entender do que são de ler os hieróglifos egípcios. Mas eu amo o

homem. Eu lhe devo muito, e Ele tem muito que ensinar ao mundo e que o mundo

não aprenderá enquanto não tirar do pedestal de adoração e de idolatria, e O

passear num jardim. É preciso dizer que minha leitura de Sua vida é ‘naturalista’.

233 “The Identity of Pr imitive Chr istianlty and Moder n Spir itualiam”, volumes 2º. Edition, New

York, 1875.

326 – Ar thur Conan Doyle

Estou satisfeito de que assim o seja. Nada há de mais divino do que as leis que

governam a vida. O Deus que estabeleceu essas leis as fez suficientes para todas as

suas finalidades e não necessita de as alterar. O Deus que controla os processos

terrenos é o mesmo que controla os processos da vida espiritual.” 234

Aqui há que deixar o assunto. Esta história procurou mostrar como

especiais signos materiais têm sido dados pelos regentes invisíveis da Terra, a fim de

satisfazer a necessidade de provas materiais, que vêm da crescente mentalidade do

homem. Também foi mostrado como esses sinais materiais foram acompanhados de

mensagens espirituais, e como essas mensagens se voltam para as grandes forças

religiosas primitivas do mundo, o fogo central da inspiração, que foi extinto pelas

cinzas mortas daquilo que outrora fora crença viva. O homem perdeu o contacto

com as vastas forças que o rodeiam e seu saber e inspiração ficaram amarrados por

penosas vibrações que constituem o seu espectro, bem como às oitavas elementares

que limitam a faixa de suas percepções auditivas. O Espiritismo, o maior movimento

produzido em 2000 anos, colheo

desta condição, enxuga o orvalho que o encharcou

e lhe mostra novas forças e ilimitados horizontes em seu redor e mais acima. Já os

picos das montanhas se iluminam. Em breve até os vales estarão inundados pelo sol

da verdade.

234 “The Relation of Moder n Spir itualism to Chr istianlsm”, página 23.

327 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

25

O DepoisdaMorte

visto pelos Espíritas

eva o Espírita uma grande vantagem sobre os das velhas dispensações.

Quando entra em comunicação com inteligências do Outro Lado e que já

viveram em corpos terrenos, naturalmente as interroga, curioso, sobre suas

atuais condições, bem como sobre os efeitos de suas ações terrenas sobre a sua sorte

posterior. As respostas a estas últimas perguntas, de um modo geral, justificam os

pontos de vista sustentados em muitas religiões, e mostram que o caminho da

virtude também é a estrada para a felicidade final. Entretanto um sistema definido é

apresentado à nossa consideração, o qual elucida a vacuidade das velhas

cosmogonias. Esse sistema apareceu em vários livros que descrevem a experiência

dos que viveram a nova vida. Devemos lembrar que tais livros não são produzidos

por escritores profissionais. Deste lado está o chamado escritor “automático”, que

recebe a inspiração; do outro lado, a inteligência que o transmite. Mas nem foi

dotado pela Natureza com a menor capacidade literária, nem jamais fez a

experiência de reunir narrativas.

Também devemos ter em mente que o que quer que venha é resultado de

um processo complicado, que em muitos casos deve ser incômodo para o

compositor. Se pudéssemos imaginar um escritor terreno que tivesse de usar uma

ligação interurbana em vez da pena, poderíamos estabelecer uma grosseira analogia

com as dificuldades do operador. E ainda, a despeito dessas grandes

inconveniências, em muitos casos as narrativas são claras, dramáticas, intensamente

interessantes. Raramente deixam de o ser, desde que o caminho que descrevem hoje

é o que teremos que palmilhar amanhã.

Temse

dito que essas narrativas variam enormemente e são contraditórias.

O autor não achou tal. Num longo período de leitura, no qual examinou muitos

volumes de supostas experiências póstumas, e também num grande número de

mensagens obtidas particularmente em famílias e sem público, ele ficou chocado

com a sua concordância geral. Aqui e ali aparece alguma história contendo êrros

claros e, ocasionalmente há lapsos no sensacionalismo; mas em geral as descrições

são elevadas, razoáveis e concordantes, entre si, mesmo quando diferem nas

minúcias. As descrições de nossas próprias vidas naturalmente seriam diferentes nos

detalhes e um crítico de Marte que recebesse histórias de um camponês hindu, de

um caçador esquimó ou de um professor de Oxford bem poderia recusarse

a crer

que tão divergentes experiências se encontrassem no mesmo planêta. Essa

dificuldade não existe no Outro Lado; e não há, tanto quanto o saibamos, tão

extremos contrastes na mesma esfera de vida — na verdade deve dizerse

que a

característica da vida presente é a mistura de tipos diversos e dos graus de

experiência, enquanto que a da outra vida é a subdivisão e a separação dos

elementos humanos. O céu é diverso do inferno.

L

328 – Ar thur Conan Doyle

Neste mundo e atualmente o homem devia fazer — e por vezes o consegue

por algum tempo — o céu. Mas há longos períodos que são muito intoleráveis

imitações do inferno, enquanto purgatório deve ser o nome dado à condição normal.

No Outro Lado as condições devem ser, esquemàticamente, divididas em

três. Há os que se acham presos à Terra e que trocaram os seus corpos mortais por

corpos etéricos, mas que são mantidos na superfície deste mundo, ou próximos dela,

pela grosseria de sua natureza ou pela intensidade de seu interesse mundano. Tão

áspera deve ser a contextura de sua forma extraterrena,

que devem ser reconhecidos

mesmo por aqueles que não possuem o dom especial da clarividência. Nessa infeliz

classe errante está a explicação de todos aqueles fantasmas, espectros e aparições, as

casas assombradas que têm chamado a atenção da humanidade em todas as épocas.

Essa gente, até onde podemos compreender a sua situação, ainda não começou a sua

vida espiritual, nem boa, nem má. Somente quando se rompem os fortes laços da

Terra é que se inicia uma vida nova.

Os que realmente começaram aquela existência encontramse

naquela faixa

da vida que corresponde à sua própria condição espiritual. É o castigo do cruel, do

egoísta, do fanático, do frívolo, que se encontram em companhia de seu semelhante

e em mundos de luz que, variando do nevoeiro à escuridão, tipifica o seu próprio

desenvolvimento espiritual. Esse ambiente, entretanto, não é permanente. Os que

não fizeram um esforço ascensional, entretanto, ficarão aí indefinidamente, enquanto

outros que dão ouvidos ao ensino de Espíritos auxiliadores, mesmo de baixos

círculos da Terra, cedo aprendem a lutar para subir a zonas mais brilhantes. Em

comunicações dadas na própria família do autor, ele aprendeu o que era ter contacto

com esses seres das trevas exteriores e teve a satisfação de receber os seus

agradecimentos por uma visão mais clara de sua situação, as suas causas e os meios

de cura. 235

Tais Espíritos pareceriam uma ameaça constante à humanidade porque se a

aura protetora do indivíduo fosse de certo modo defeituosa, aqueles poderiam

tornarse

parasitas, estabelecendose

nela e influenciando as ações de seu

hospedeiro. É possível que a ciência do futuro possa verificar que muitos casos de

inexplicável mania, de insensata violência, de súbita inclinação para hábitos viciosos

tenham essa causa, o que oferece um argumento contra a pena capital, de vez que o

resultado deve ser dar mais forças para o mal do criminoso. Deve admitirse

que o

assunto ainda é obscuro, que é complicado pela existência de pensamentosforma

e

de formas de memória, e que, em todo caso, todos os Espíritos presos à Terra não

são necessàriamente maus. Parece, por exemplo, que os monges devotos de qualquer

venerável Glastonbury deveriam estar presos às suas ruínas assombradas pela

simples força de sua devoção.

Se o nosso conhecimento das exatas condições dos que estão presos à Terra

é defeituoso, maior ainda é o dos Círculos de punição. Há uma história de certo

modo sensacional em “Gone West”, de Mr. Ward; há outra mais temperada e crível

na “Vida Além do Véu”, do Reverendo Vale Owen; e há muitas corroborações nas

235 Em “Trinta Anos Entre os Mor tos”, do Senhor Wickland, e no Apêndice de

“Glimpses of the Next State”, do Almirante lisborne Moore, temos um relato

completo da situação dos que se acham presos à Terra.

329 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

visões de Swedenborg, no “Espiritismo”, do Juiz Edmonds e em outros volumes.

Nossa falta de informações de primeira mão é devida ao fato de que não somos

Hamlets e que não temos contacto direto com os que vivem nessas esferas inferiores.

Delas temos notícias indiretamente, através dos mais altos Espíritos que nelas

realizam trabalhos missionários, trabalhos que parecem ser realizados com tamanhas

dificuldades e perigos quanto os que rodeariam o homem que tentasse evangelizar as

mais selvagens raças da Terra. Lemos histórias da descida de Espíritos elevados às

mais baixas esferas, de seus combates com as forças do mal, de grandes príncipes do

mal que são formidáveis em seus próprios reinos e de toda uma imensa cloaca de

almas nas quais os esgotos psíquicos do mundo são derramados incessantemente.

Entretanto tudo isto deve ser considerado antes do ponto de vista do remédio do que

do castigo. Essas esferas são as salas de espera — hospitais para almas doentes —

onde a experiência punitiva é intentada para trazer o sofredor à saúde e à felicidade.

Nossa informação é mais completa quando nos voltamos para regiões mais

felizes, nas quais parece que a beleza e a felicidade são graduadas conforme o

desenvolvimento espiritual dos seus habitantes. A coisa se torna mais clara se

substituirmos a bondade e o altruísmo pela expressão “desenvolvimento espiritual”,

pois nessa direção se encontra todo o crescimento da alma. Por certo que é um

assunto muito diverso do intelecto, embora a união das qualidades intelectuais com

as espirituais naturalmente produzam efeitos mais perfeitos.

As condições de vida no além normal — e seria um reflexo da justiça e da

misericórdia da Inteligência Central se o além normal não fosse também o feliz além

— são descritos como extraordinariamente felizes. O ar, as vistas, as casas, o

ambiente, as ocupações, tudo tem sido descrito com tantos detalhes e geralmente

com o comentário de que as palavras não são capazes de lhes pintar a gloriosa

realidade. Pode ser que haja algo de parábola e de analogia nessas descrições, mas o

autor se inclina a lhes dar inteiro valor e acredita que a “Summerland”, como Davis

a chamou, é tão real e objetiva aos seus habitantes quanto o nosso mundo para nós.

Fácil é levantar uma objeção: “Por que, então, não a vemos?” Mas devemos

imaginar que uma vida etérica se exprime em termos etéricos e que, exatamente

como nós, com cinco sentidos materiais, nos afinamos com o mundo material, eles

com seus corpos etéricos, se afinam com as vistas e os sons do mundo etérico. Aliás

o vocábulo “éter” só é usado por conveniência, para exprimir algo muito mais sutil

que a nossa atmosfera.

Absolutamente não temos prova de que o éter dos físicos seja também o

meio no mundo espiritual. Pode haver outras essências finas, muito mais delicadas

que o éter, como é o éter em comparação com o ar.

O céu espiritual, pois, pareceria uma sublimada e etérica reprodução da

Terra e da vida terrena, em condições melhores e mais elevadas. “Embaixo — como

em cima, dizia Paracelso, e fez soar a nota fundamental do universo, quando o

proclamou. O corpo leva, consigo, suas qualidades espirituais e intelectuais,

imutáveis pela transição de uma sala da grande mansão universal para a vizinha. É

inalterado na forma, salvo que o jovem e o velho tendem para uma expressão normal

de completa maturidade. Garantindo que assim é, devemos admitir a racionalidade

da dedução de que tudo o mais deve ser do mesmo modo e que as ocupações e o

sistema geral de vida deve ser tal que permita oportunidades para os talentos

330 – Ar thur Conan Doyle

especiais do indivíduo. O artista sem arte e o músico sem música seriam figuras

trágicas e o que se aplica a tipos extremos deve estenderse

a toda a humanidade.

Há, de fato, uma sociedade muito complexa, na qual cada um encontra o trabalho a

que mais se adapta e que lhe causa maior satisfação. Por vezes há uma escolha.

Assim, em “O Caso de Lester Coltman”, escreve o estudante morto: “Algum tempo

depois que eu tinha passado, tinha dúvidas sobre qual seria o meu trabalho: se

música ou se ciência. Depois de muito pensar determinei que a música deveria ser

um passatempo e minha maior atividade deveria dirigirse

para a ciência em todos

os aspectos”.

Depois de uma tal declaração naturalmente a gente deseja detalhes de como

um trabalho científico era feito e em que condições. Lester Coltman é claro em

todos os pontos: “O laboratório sob a minha direção é inicialmente ligado ao

estudo dos vapores e fluídos que formam a barreira que, penso, por meio de

profundo estudo e experiência, somos capazes de atravessar. O resultado dessa

pesquisa, pensamos nós, provará o ‘Abrete

Sésamo’ da porta de comunicação

entre a Terra e essas esferas.” 236

Lester Coltman dá outra descrição de seu trabalho e do ambiente, que bem

pode ser citada como um modelo de muitas outras. Diz ele 237 : “O interesse

mostrado por seres terrenos em relação ao caráter de nossas casas e dos

estabelecimentos onde se realiza o nosso trabalho é, aliás, natural, mas a descrição

não é muito fácil de ser feita em termos terrenos. Meu estudo servirá como um

exemplo, do qual deduzirei o modo de vida de outros, conforme o temperamento e o

tipo de mente. Meu trabalho continuou aqui como tinha começado na Terra, por

canais científicos e a fim de prosseguir meus estudos, visitei com frequência um

laboratório que possuía extraordinárias e completas facilidades para a realização

de experiências. Tenho a minha casa, extremamente agradável, completada por

uma biblioteca com livros de referência — histórica, científica e médica — e, de

fato, com todos os tipos de literatura. Para nós tais livros são tão substanciais,

quanto os usados na Terra. Tenho uma sala de música, contendo todos os modos de

expressão dos sons. Tenho pinturas de rara beleza e móveis de desenho esquisito.

Atualmente vivo só, mas frequentemente os amigos me visitam, assim como os visito,

e se um pouco de tristeza por vezes se apodera de mim, visito aos que mais amei na

Terra. Da minha janela se avista um campo ondulante de grande beleza e a pouca

distância da casa existe uma comunidade, onde boas almas que trabalham em meu

laboratório vivem em feliz concórdia... Um velho chinês, meu assistentechefe,

de

grande valor nas pesquisas químicas, é o diretor, como o era, da comunidade. É

uma alma admirável, de grande simpatia e dotado de enorme filosofia.”

Eis outra descrição que trata do mesmo assunto 238 :

“É muito difícil dizervos

a cerca do trabalho no mundo espiritual. A

cada um é designada a sua tarefa, conforme o progresso que haja realizado. Se

uma alma tiver vindo diretamente da terra, ou de algum mundo material, então

deve aprender tudo quanto haja desprezado na passada existência, a fim de

desenvolver o seu caráter para a perfeição. Como tiver feito sofrer na terra, assim

236 “Case of Lester Coltman”, by Lilian Walbrook, página 34.

237 Ibid. páginas 3233.

238 “Thought Lectur es fr om The Spir itualist Reader ”, página 53.

331 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

sofrerá. Se tiver muito talento, leváloá

à perfeição aqui. Porque se tiverdes muito

talento musical ou qualquer outro, nós os temos aqui e maiores. A música é uma

das forças motoras do nosso mundo. Mas, conquanto as artes e os talentos sejam

desenvolvidos ao máximo, o grande trabalho das almas é o seu aperfeiçoamento

para a vida eterna. Há grandes escolas que ensinam os Espíritoscriança.

Além de

aprenderem tudo acerca do universo e de outros mundos, acerca de outros reinos

sob as leis de Deus, aprendem lições de altruísmo, de verdade e de honra. Os que

aprenderam antes como Espíritoscriança,

se tiverem que voltar ao mundo,

aparecem como os mais elevados caracteres. Os que passaram a existência

material em menores trabalhos físicos tem que aprender tudo quando aqui chegam.

O trabalho é uma coisa maravilhosa e os que se tornam mestres de almas aprendem

consideravelmente. As almas de literatos se tornam grandes oradores e falam e

ensinam em linguagem eloqüente. Há livros mais de forma muito diversa dos

vossos. Um que estudou as vossas leis terrenas entraria na escola espírita como

professor de justiça. Um soldado que tenha aprendido as lições da verdade e da

honra, guiará e ajudará, as almas, de qualquer esfera ou mundo, a luta pela

correta fé em Deus. No grupo doméstico do autor, o Espírito íntimo falou de sua

vida no além, respondendo à pergunta: ‘Que faz você?’ — ‘Ocupome

de música,

de criança, amando e cuidando de uma porção de outras coisas. Mais muito mais

do que na velha Terra. Nada aborrece a gente aqui. E isto torna tudo mais feliz e

mais completo.’

— ‘Fale acerca da morada.’

— ‘É bonita nunca vi uma casa na Terra que se comparasse com ela.

Tantas flores! Um mundo de cores em todas as direções; e tem perfumes tão

maravilhosos, cada qual diferente, mas tão agradáveis!’

— ‘Vê outras casas?’

— ‘Não; se o fizesse estragaria a paz. A gente só as vezes procura a

natureza. Cada casa é um oásis, se assim posso dizer. Além, há cenários

maravilhosos e outras casas cheias de gente querida, suave, brilhante, risonha,

alegre, pelo simples fato de viver em tão maravilhoso ambiente. Sim, é belo.

Nenhuma mente terrena pode conceber a luz e a maravilha disso tudo. As cores são

muito mais delicadas e, de um modo geral, a vida doméstica é muito mais

radiosa’.”

Outro resumo do Grupo Doméstico do autor, talvez seja permitido, de vez

que as mensagens foram misturadas com muitas provas que inspiram a mais

completa confiança naqueles que estão ligados aos fatos:

“Pelo amor de Deus sacuda essa gente, esses cabeçudos que não querem

pensar. O mundo necessita desse conhecimento. Se ao menos eu tivesse tido tal

conhecimento na Terra! Ele teria alterado a minha vida — o Sol teria brilhado

sobre o meu caminho sombrio, se eu tivesse conhecido o que está àminha frente.

“Nada é chocante aqui. Não há atravessadores. Estou interessado em

muitas coisas, a maioria delas humanas, o desenvolvimento do progresso humano

e, acima de tudo, a regeneração do plano terreno. Sou um dos que trabalham pela

causa braço a braço convosco.

“Nada temais. A luz será tanto maior quanto maior a escuridão que

tiverdes atravessado. Voltarei muito breve, se Deus quiser. Nada poderá oporse.

Nem as forças das trevas prevalecerão um minuto contra a Sua luz. Todo o trabalho

em massa será varrido. Apoiaivos

ainda mais em nós, porque a nossa capacidade

de ajuda é muito grande.”

— ‘Onde estais?’

332 – Ar thur Conan Doyle

—‘É tão difícil explicarvos

as condições aqui. Estou onde mais

desejava estar, isto é, com os meus entes queridos, onde posso estar em

íntimo contacto com todos no plano terreno.’

— ‘Tendes alimento?’

— ‘Não no vosso sentido, mas muito mais fino. Tão amáveis

essências e tão maravilhosos frutos, além de outras coisas que não tendes

na Terra!

“Muita coisa vos espera com as quais ficareis surpreendidos —

tudo belo e elevado e tão suave e luminoso. A vida foi uma preparação

para esta esfera. Sem aquele treinamento não teria sido capaz de entrar

neste mundo glorioso de maravilhas. É na Terra que aprendemos as lições

e neste mundo está a nossa maior recompensa o nosso verdadeiro e real lar

e a vida — o Sol depois da chuva.”

O assunto é tão enorme que apenas pode ser tocado em termos gerais num

só capítulo. O leitor é remetido para a maravilhosa literatura que se desenvolveu,

dificilmente conhecida pelo mundo, em torno do assunto. Livros como o

“Raymond”, de Oliver Lodge; “A Vida Além do Véu”, de Vale Owen; “A

Testemunha”, de Mrs. Platts; “O Caso de Lester Coltman”, de Mrs. Walbrook e

muitos outros dão uma clara e sólida ideia dessa vida do Além.

Lendo essas numerosas descrições da vida depois da morte, a gente

naturalmente pergunta até onde podem ser acreditadas. É confortador verificar

quanto são concordes, o que constitui um argumento em favor da verdade. Poderiam

contestar que tal concordância se deve ao fato de derivarem, todas, conscientemente

ou não, de uma fonte comum. Mas é uma suposição inconsistente. Muitas delas vêm

de gente que absolutamente não podia conhecer os pontos de vista dos outros, mas

ainda concordam, até nos mínimos detalhes.

Por exemplo, na Austrália o autor examinou tais relatos escritos por

homens que viviam em lugares remotos, que honestamente se contentavam com

aquilo que haviam escrito. Um dos mais notáveis casos é o de Mr. Herbert Wales 239 .

Esse cavalheiro, que tinha sido, e talvez ainda seja, um céptico, leu uma

história do autor, sobre como são as condições além da morte; e foi rebuscar um

trabalho que havia escrito há anos, mas que recebera com incredulidade. E escreveu:

“Depois de ler o vosso artigo fiquei chocado, quase estatelado, pelas circunstâncias

de que as coisas imaginadas por mim e relativas às condições da vida de

alémtúmulo — penso que até nos menores detalhes — coincidem com as que

descreveis como resultado de vossa coleção de materiais obtidos de várias fontes.”

O resto das conclusões de Mr. Wales se acham no Apêndice.

Tivesse essa filosofia girado sobre os grandes altares recebendo uma

adoração perpétua, poderiam dizer que era um reflexo daquilo que nos ensinaram na

infância. Mas é muito diferente — e, certamente, muito mais razoável. Um campo

aberto éapresentado para o desenvolvimento de todas as capacidades com que fomos

dotados. A ortodoxia permitiu a continuada existência de tronos, de coroas, de

harpas e de outros objetos celestes. Não será mais sensato admitir que se algumas

239 “The New Revelation”, página 146.

333 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

coisas podem sobreviver, todas o poderão, em formas tais que se adaptem ao

ambiente? Como examinamos todas as especulações da humanidade, talvez os

Campos Elísios dos Antigos e as felizes regiões de caça dos PelesVernelhas

estejam

mais próximas dos fatos atuais do que essas fantásticas representações do céu e do

inferno, descritas nas visões extáticas dos teólogos.

Um céu tão vulgar e caseiro pode parecer material a muitas mentes, mas

devemos lembrar que a evolução foi muito lenta no plano terreno e ainda o é no

espiritual. Em nossa presente baixa condição, não podemos atingir o que é celestial.

Será trabalho de séculos — possivelmente de anos. Ainda não estamos preparados

para uma vida puramente espiritual.

Como, porém, nós mesmos nos tornamos mais finos, também se

transformará o nosso ambiente e nós evoluiremos de céu a céu, até que o destino da

alma se perca no fogo da glória, onde não pode ser acompanhada pelos olhos da

imaginação.

334 – Ar thur Conan Doyle

APÊNDICE 1

NOTAS AO CAPÍTULO 4

Prova da assombração da casa de

Hydesville antes de ser habitada pela

família Fox

Atesta a Senhora Ann Pulver:

“Eu mantinha relações com o Senhor e Senhora Reli, que habitavam a casa

em 1844. Visitavaos

frequentemente. Minhas agulhas de tricô ficavam em seu

quarto e lá eu fazia o meu trabalho. Uma manhã, quando lá cheguei, a Senhora Reli

me disse que se sentia muito mal: quase não dormira de noite. Quando lhe

perguntei a razão respondeu que não sabia senão de rumores; mas pensava ter

ouvido alguém a andar de um quarto para o outro e que tinha feito o marido

levantarse

e trancar as janelas. Depois disso sentiuse

mais segura.”

Pergunteilhe

se imaginava alguma coisa. Disse que podiam ser ratos.

Ouviaa

falar, posteriormente, de rumores que não podia descrever.

A senhorita Lucretia Pulver deu o seu testemunho:

‘Vivi naquela casa durante um inverno, com a família Reli. Trabalhava

para ela uma parte do dia e o resto do tempo ia a escola ou bordava. Vivi assim

cerca de três meses. No fim desse período frequentemente ouvia batidas na cama e

abaixo dos pés da mesma. Ouvi uma porção de noites, pois dormia nesse quarto

todo o tempo que lá estive. Uma noite pareceme

ter ouvido um homem andando

pela dispensa. Esta peça era separada do quarto pela escada. A senhorita Aurélia

Losey ficou comigo naquela noite; ela também ouviu o barulho e ambas ficamos

muito assustadas; levantamonos

e fechamos as janelas e trancamos a porta. Parece

que alguém andava pela despensa, na adega, e até no porão, onde o barulho

cessava. Nessa ocasião não havia mais ninguém na casa, exceto meu irmãozinho,

adormecido no mesmo quarto que nós. Isto foi cerca de meianoite.

Não tínhamos

ido para a cama senão depois das onze e ainda não tínhamos dormido quando

ouvimos o barulho, O Senhor e Senhora Bell tinham ido a Loch Berlin, onde

ficariam até o dia seguinte’.

Assim fica provado que ruídos estranhos eram ouvidos naquela casa em

1844. Outra família, chamada Weekman, aí viveu de 1846 a 1847 e observou as

mesmas experiências.

DEPOIMENTO DA SENHORA HANNAH WEEKMAN

“Ouvi falar nos ruídos misteriosos que eram ouvidos na casa agora

ocupada pelo Senhor Fox. Nós moramos na mesma casa cerca de um ano e meio,

daí nos mudando para onde agora estamos. Há cerca de um ano, quando lá

335 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

habitávamos, ouvimos alguém, conforme pensamos, batendo de leve na porta de

entrada. Eu acabara de me deitar, mas meu marido ainda não. Assim, ele abriu a

porta e disse que não havia ninguém. Voltou e já estava para se deitar quando

novamente ouvimos bater à porta. Ele foi então abrila

e disse que não via ninguém;

não obstante esperou um pouco. Então voltou e deitouse.

Veio muito zangado, pois

supunha fosse algum garoto da vizinhança querendo aborrecernos.

Assim, disse

que ‘eles podiam bater, mas não o levariam na brincadeira’, ou coisa semelhante.

As batidas foram ouvidas novamente; depois de algum tempo ele se levantou e saiu.

Eu lhe disse que não saísse, pois temia que alguém quisesse pegálo

fora e o

agredisse. Ele voltou e disse que nada tinha visto. Ouvimos muito barulho durante a

noite; dificilmente poderíamos dizer onde era produzido; por vezes parecia que

alguém andasse na adega. Mas a casa era velha e pensamos que fossem estalos da

madeira ou coisa semelhante. Algumas noites depois uma de nossas meninas, que

dormia no quarto onde agora são ouvidas as batidas acordounos

a todos

soluçando. Meu marido, eu e a empregada nos levantamos imediatamente para ver

o que se passava. Ela sentouse

na cama em pranto e nós custamos a verificar o que

se passava. Disse ela que algo se movimentava acima de sua cabeça e que ela sentia

um frio sem saber o que era. Disse havêlo

sentido sobre ela toda, mas que ficara

mais alarmada ao sentilo

sobre o rosto. Estava muito assustada. Isto se passou

entre meianoite

e uma hora. Ela se levantou e foi para a nossa cama, mas custou

muito a adormecer. Só depois de muitos dias conseguimos que fosse dormir em sua

cama. Tinha ela então oito anos.Nada mais me aconteceu durante o tempo em que

lá moramos. Mas meu marido me disse que uma noite o chamaram pelo nome, de

algum lugar na casa — não sabia de onde —mas jamais pôde saber de onde e quem

era. Naquela noite eu não estava em casa: estava assistindo uma pessoa doente.

Então não pensávamos que a casa fosse assombrada...”

Assinado: Hannah Weekman

11 de abril, de 1848.

DEPOIMENTO DE MICHAEL WEEKMAN

“Sou marido de Hannah Weekman. Morávamos na casa agora ocupada

pelo Senhor Foz, na qual dizem que ruídos estranhos são ouvidos. Aí moramos

cerca de um ano e meio. Uma noite, à hora de dormir, ouvi batidas. Supunha que

fosse alguém que quisesse entrar. Não disse o costumeiro ‘pode entrar’ fui até à

porta. Não encontrei ninguém, voltei e exatamente quando ia para a cama ouvi

novas batidas e rápidamente abri a porta, mas não vi ninguém. Então me deitei.

Pensei que alguém estivesse querendo divertirse.

Depois de alguns minutos ouvi

novas pancadas e, depois de esperar um pouco e, ainda as ouvindo, levanteime

e

fui à porta. Desta vez saí e rodeei a casa mas não encontrei ninguém. Voltei, fechei

a porta e segurei o ferrôlho, pensando que se viesse alguém seria pilhado. Dentro

de um ou dois minutos nova batida. Eu estava com a mão na porta e a batida

parecia na porta. Podia sentir a vibração das batidas. Abri instantâneamente a

porta e saí rápido, mas não havia ninguém à vista. Então dei nova volta à casa mas,

como da outra vez, nada encontrei. Minha mulher tinha dito que era melhor não

336 – Ar thur Conan Doyle

sair, pois talvez fosse alguém que me quisesse agredir. Não sei o que pensar, pois

parece estranho e incrível. Então relata o caso da menina assustada, como ficou

dito acima. Uma noite, após isto, despertei cerca de meianoite

e ouvi pronunciarem

o meu nome. Parecia que a voz vinha do lado sul do quarto. Senteime

na cama e

escutei, mas não mais ouvi. Não me levantei, mas esperei que repetissem. Naquela

noite minha mulher não estava em casa. Conteilhe

isto depois e ela me disse que eu

estava sonhando. Freqüentemente minha mulher se assustava com estranhos ruídos

dentro e fora da casa. Tenho ouvido tais coisas de homens fidedignos acerca dos

ruídos que agora se ouvem que, ligados ao que ouvi, não posso deixar de supor que

sejam sobrenaturais. Desejo prestar uma declaração dos fatos acima, caso

necessario.”

Assinado: Michael Weekman

11 de abril, de 1848.

RESUMO DO ARTIGO DE HORACE GREELEY NO NEW YORK TRIBUNE,

SOBRE AS IRMÃS FOX E SUA MEDIUNIDADE 240

A senhora Fox e suas três filhas deixaram ontem a nossa cidade, de

regresso a Rochester, depois de uma estada de algumas semanas, durante as quais se

submeteram a misteriosa influência, pela qual parecem acompanhadas, a todos os

testes razoáveis e a uma investigação sagaz e crítica de centenas de pessoas que

quiseram visitálas

ou que as convidaram a uma visita. Os aposentos que ocupavam

no hotel foram constantemente rebuscados e revistos; elas foram levadas, sem aviso

prévio de ao menos uma hora, para casas onde jamais haviam estado; foram

inconscientemente colocadas sobre uma superfície de vidro, disforçado debaixo do

tapete, a fim de interromper vibrações elétricas; foram despidas por uma comissão

de senhoras nomeadas sem aviso e insistiuse

para que nenhuma delas deixasse o

aposento antes que a investigação fosse feita, etc., etc., e, apesar disso, pensamos

que, até este momento, ninguém pretende ter pilhado qualquer delas produzindo ou

sendo a causa de batidas, nem pensamos que qualquer de seus detratores tenha

inventado uma teoria plausível para explicar a produção desses sons, nem a singular

inteligência que, ao menos por vezes parece manifestarse

por intermédio delas.

Há uns dez ou doze dias elas deixaram os aposentos do hotel e dedicaram

os restantes dias de sua estada aqui a visitas a diversas famílias que as haviam

convidado através de pessoas interessadas no assunto, submetendo a singular

influência a um exame mais atento e mais calmo do que o que podia ser feito no

hotel, e perante estranhos ocasionais, reunidos por uma vaga curiosidade, mais do

que por um interesse racional, ou por uma hostilidade invencível e predeterminada.

Nossa própria residência se achava entre as que assim foram visitadas; não só a

submetendo a um exame, mas à mais completa e acirrada investigação relativamente

às supostas “manifestações” do mundo espiritual, pelo qual elas eramassistidas.

Dedicamos a maior parte do tempo que nos foi possível subtrair dos nossos

deveres, com exceção de três dias, a esse assunto e seria enorme covardia não

240 Capron, “Moder n Spir itualism”, página 179 a 181.

337 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

declarar que, fora de qualquer dúvida, estamos convencidos de sua perfeita

integridade e boa fé quanto ás premissas. Seja qual for a origem ou causa das

batidas, as senhoras a cuja presença elas ocorrem não as produzem. Verificamos isto

rigorosamente e com inteira satisfação.

Sua conduta e atitudes é tão diversa da dos trapaceiros quanto possível e

pensamos que ninguém que as conheça seria capaz de admitir que elas estivessem

comprometidas em tão atrevida, ímpia e descarada trapaça, qual seria se elas

produzissem os ruídos. E não é possível que uma tal trapaça fosse durante tanto

tempo praticada em público. Um jogral pratica um truque ràpidamente e logo passa

a outro; ele não dedica semanas e semanas sempre à mesma coisa, deliberadamente,

em frente a centenas de pessoas que se assentam ao lado ou à sua frente em plena

luz, não para uma diversão, mas para descobrir o truque.

Um trapaceiro naturalmente evita conversar sobre o assunto de sua

velhacaria, mas essas senhoras conversam livre e desembaraçadamente sobre a

origem dessas batidas, desde alguns anos, em sua casa, sobre as variadas impressões

que elas causaram, a excitação criada pela vizinhança, o progresso de seu

desenvolvimento — aquilo que elas viram, ouviram ou sentiram desde o princípio

até agora. Se tudo fosse falso, não poderiam deixar de se ter embaraçado num

labirinto de terríveis contradições, desde que cada uma dá separadamente, um relato

dos mais interessantes acontecimentos nesta ou naquela ocasião.

Criaturas suficientemente insensatas para se entregarem a isto sem reservas

e precauções não teriam resistido a uma tal exposição nem por uma semana. Aliás, a

variedade de opiniões sobre um assunto tão estranho naturalmente teria sido

formada pelas várias pessoas que as visitaram, e presumimos que aqueles que

apenas acorreram aos seus aposentos por cerca de uma hora e escutaram, num

borborinho de estranhos, uma mistura de perguntas — das quais muitas não

comportavam respostas proveitosas — tivessem certeza de inteligências invisíveis

que respondessem por batidas ou ruídos originais no soalho, na mesa, etc., ou pelas

letras do alfabeto ou qualquer outro meio e naturalmente saíssem intrigadas, talvez

aborrecidas e raramente convencidas. Ë difícil admitir que um assunto,

ostensivamente tão grave, pudesse ser apresentado sob as mais desfavoráveis

condições para convencer. Mas daqueles que tiveram oportunidades felizes para uma

investigação completa pensamos que três quartas partes estão convencidos, assim

como nós, de que esses ruídos singulares e aparentes manifestações não são

produzidos pela senhora Fox e suas filhas, nem por qualquer ser humano de parceria

com elas.

Como são causados e de onde procedem são questões que abrem um mais

amplo campo de investigações e com cujos indícios não estamos familiarizados.

Aquele que se julga dogmaticamente apto para decidir se essas manifestações são

naturais ou sobrenaturais deve acharse

muito familiarizado com os arcanos do

universo. Dizem as senhoras que estão informadas de que apenas isto representa o

início de uma nova era, ou economia, na qual os Espíritos vestidos na carne são mais

próximos e em contacto com os que atingiram a imortalidade; que as manifestações

já se deram em muitas outras famílias e se destinam à difusão e se tornarão mais

claras, até que todos possam comunicarse

livremente com os seus amigos, que se

338 – Ar thur Conan Doyle

libertaram dessa prisão mortal. Nada sabemos nem fazemos a menor ideia de tudo

isso.

Mas se tivéssemos apenas de imprimir (o que não faremos) as perguntas

que fizemos e as respostas que recebemos, durante uma conferência ininterrupta de

duas horas com as batidas, logo seríamos acusados de o havermos feito com o

propósito deliberado de reforçar a teoria que considera essas manifestações como

provindas do Espírito dos mortos.

H.G.

339 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

APÊNDICE 2

NOTAS AO CAPÍTULO 6

BICO DE PENA DO LAGO HARRIS POR

LAURENCE OLIPHANT

Houve uma notável alternativa de vivacidade e de deliberação acerca dos

movimentos de Mr. Massolam. Sua voz parecia armada em duas chaves diferentes,

cujo efeito era, quando elas mudavam, dar a impressão do eco distante da outra —

uma espécie de fenômeno de ventriloquia, que fosse calculado para dar um choque

súbito e não totalmente agradável aos nervos dos espectadores. Quando falava com

aquela que chamarei a voz próxima, era geralmente rápido e vivo; quando a mudava

pela voz distante era solene e impressionante.

Seu cabelo, outrora negro de azeviche, era agora grisalho, mas ainda

abundante e caía em ondas abundantes sobre as orelhas e perto dos ombros, dandolhe

um aspecto algo leonino. Suas sobrancelhas eram cheias e os olhos eram como

duas luzes a se revolverem dentro de cavernas, numa verdadeira impressão de

emitirem raios e então perderem toda impressão. Como a voz, eles tinham uma

expressão próxima e outra distante, que se podiam ajustar a um foco adequado,

como um telescópio, tornandose

cada vez menores, como se no esforço de projetar

a vista alem dos limites da visão natural. Por vezes eram tão falsos de apreciação das

coisas exteriores que davam a impressão de cegueta, quando de súbito o foco

mudava, as pupilas se dilatavam e raios se despejavam como os relâmpagos através

de uma nuvem, dando um extraordinário brilho inesperado a uma face que parecia

responder prontamente ao estímulo. A aparência geral, cuja parte superior, a não ser

pela profundidade das órbitas, seria extremamente bonita, era decididamente

semítica; e em repouso o efeito geral era quase estatuesco em sua calma fixidez. A

boca estava parcialmente oculta por um farto bigode e longa barba de um cinzento

metálico; mas a transição do repouso à animação revelava uma extraordinária

flexibilidade naqueles músculos que um momento antes eram tão rígidos e o caráter

da figura era inteiramente alterado e tão subitamente quanto a expressão dos olhos.

Talvez fosse querer penetrar demasiadamente nos segredos da Natureza ou, de

qualquer modo nos segredos da natureza de Mr. Masollam, indagar se o brilho e a

escuridão de sua atitude seria voluntário ou não. Em mau menor é um fenômeno

comum a todos nós; o efeito de uma classe de emoções é, simplesmente, fazer um

homem parecer escuro e de outra fazêlo

parecer brilhante. A peculiaridade de Mr.

Masollam é que ele podia parecer muito mais escuro ou muito mais brilhante que a

gente e fazer tal mudança de expressão com tão extraordinária rapidez e intensidade

que pareceria uma prestidigitação facial e sugeriria a suspeita de que fosse uma

faculdade adquirida. Antes disso, havia uma outra mudança que, aparentemente, ele

tinha o poder de realizar na sua fisionomia e que afeta outras pessoas

involuntàriamente e que, geralmente, principalmente no caso do belo sexo, produz

340 – Ar thur Conan Doyle

muito efeito, independentemente da vontade... Mr. Masollam tinha a faculdade de

parecer muito mais velho num momento, do que pouco tempo depois.

Havia momentos em que um estado meticuloso de suas rugas e de seu olhar

duro e mortiço levava a gente a supôlo

com cerca de oitenta anos; noutros

momentos em que seu olhar brilhante, as narinas acesas, as sobrancelhas grossas e

maciças, a boca móvel lhe davam uma aparência de cerca de vinte e cinco anos

menos do que antes.

Estes rápidos contrastes eram calculados para prender a atenção do mais

inadvertido observador e a produzir a sensação que não era realmente agradável

quando se o via pela primeira vez. Não era exatamente desconfiança mais ambas as

maneiras eram perfeitamente francas e naturais — tanto quanto perplexidade. Ele

dava a impressão de dois caracteres apostos, fundidos em um, e de estar

apresentando sem qualquer propósito um curioso problema moral e fisiológico a

pedir solução, e que tivesse uma desagradável espécie de atração, porque a gente

quase que imediatamente o achava insolúvel, embora não nos deixasse quietos. Ele

podia ser o melhor ou o pior dos homens.

341 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

APÊNDICE 3

NOTAS AO CAPÍTULO 7

TESTEMUNHO ADICIONAL DO

PROFESSOR E DA SENHORA DE

MORGAN

Diz o Professor De Morgan:

“Fiz um relato de tudo isso a um amigo que, em vida, tanto era um homem

de ologias quanto de ômetros, e sem nenhuma disposição para pensar que isto fosse

qualquer coisa que não uma clara impostura. ‘Mas’, dizia ele, ‘isto que você me diz

é muito singular; irei em pessoa a Mrs. Hayden; irei só e não direi o meu nome.

Penso que não ouvirei nada de ninguém; mas se isto acontecer, descobrirei o truque.

Conforme, eu o descobrirei’. Assim, ele foi e veio a mim referir o progresso. Disseme

que havia feito um passo mais que eu, pois tinha insistido em manter o seu

alfabeto atrás de um biombo; e, fazendo as perguntas pelo alfabeto e com um lápis,

do mesmo modo recebia as respostas. Ninguém além dele e de Mrs. Hayden se

achava na sala, O ‘Espírito’ que veio a ele era uma pessoa cuja morte infeliz foi

descrita minuciosamente. Meu amigo me disse que tinha ficado ‘impressionado’ e

quase havia esquecido todas as precauções.

“Isto que narrei foi o começo de uma longa série de experiências, muitas

tão notáveis quanto as que citei; muitas de menor caráter, isoladamente de pouco

valor, mas, em conjunto, de muito peso, quando consideradas em conexão com as

mais decisivas provas de realidade. Muitas de uma tendência confirmadora como

meros fatos, mas de um caráter pouco probante da gravidade e da dignidade do

mundo espiritual. A célebre aparição de Giles Scroggins é uma personagem séria,

comparada com algumas que surgiram em meu caminho, e também muito lógico. Se

estas coisas são ‘Espíritos’, eles demonstram que os mistificadores, os trapaceiros e

os mentirosos tanto são encontrados do outro lado do túmulo quanto do nosso lado.

E ‘por que não?’, conforme pergunta Meg Dods. O assunto pode receber tão

acurada atenção quanto a paciente investigação da verdade real; ou pode fenecer,

obtendo apenas notícias eventuais, até que um novo derrame dos fenômenos traga

novamente a sua história a plena luz. Mas parece que isto não vai começar. Já se

passaram doze ou treze anos desde que o assunto passou a ser comentado em toda a

parte e durante esse período foi muito anunciada a extinção da ‘espíritomania.’

Mas em muitos casos, como na fábula de Tom Moore, os extintores pegaram fogo.

Se isto fosse o absurdo que costumam proclamar, seria muito bom chamar a

atenção para as ‘manifestações’ de outro absurdo, a filosofia das possibilidades e

das impossibilidades, a filosofia da quarta corte. Os extremos se tocam, mas o

‘encontro’ é, por vezes pelo propósito de mútua exposição, assim como o de um

rapaz estúpido nos dias dos duelos elegantes de linguagem. Isto na suposição de

342 – Ar thur Conan Doyle

que não passe de impostura e engano. Certamente ele não pode ser mais uma ou

outra coisa, do que o pode a filosofia que se lhe opõe. Não tenho relações nem com

‘P’, nem com ‘Q’ Mas tenho certeza de que a decidida convicção de todo aquele

que pode ver os dois lados da bainha seja de que é mais provável que ‘P’ tenha

visto um fantasma do que ‘Q’ saiba que não pode têlo

visto. Sei que ‘Q’ diz o que

sabe.”

Em relação a isto, quando do aparecimento do livro de Mrs. De Morgan, o

Publishers Circular diz o seguinte, destacando o senso crítico do Professor De

Morgan:

“Os simples literatos e escritores de ficção devem ser perdoados por uma

certa tendência para o visionário e o irreal, mas o fato de que o conhecido autor de

livros padrões sobre Lógica Formal, Cálculo Diferencial e a Teoria das

Possibilidades, deveria figurar com sua senhora na lista dos que acreditam em

batidas de Espíritos e em mesas girantes, certamente surpreenderá a muita gente.

Talvez não haja maior contribuição para as nossas revistas na demolição de

falsidades do que a do Professor De Morgan, como no desmascaramento bem

humorado dos pseudocientistas.

Seu estilo claro, lógico, espirituoso e cheio de

surprêsas é apreciado por muitos leitores e literatos em brilhantes artigos em

nossos jornais de crítica. Provávelmente é ele o último homem que um céptico em

tais mistérios poderia esperar encontrar ao lado de Mrs. Home ou de Mrs. Newton

Crosland. Devemos ainda registrar o fato que Mr. De Morgan se declara

‘perfeitamente convicto de que tanto viu quanto ouviu, de modo que afasta qualquer

possibilidade de engano, coisas chamadas espirituais, que não podem ser tomadas

por um ser racional como capazes de explicação pela impostura, pela coincidência

ou pelo engano’.”

Acrescentemos o depoimento de Mrs. De Morgan:

“Há dez anos comecei a observar atentamente os fenômenos do

Espiritismo. Minha primeira experiência ocorreu em presença de Mrs. Hayden, de

Nova Iorque. Jamais tinha eu ouvido qualquer palavra que pudesse abalar minha

convicção da honestidade de Mrs. Hayden. Assim, o resultado de nosso primeiro

encontro, quando meu nome lhe era quase desconhecido, foi suficiente para provar

que eu não era, no momento, vítima de sua impostura ou de minha credulidade.

Depois de descrever a visita de Mrs. Hayden, a quem não havia sido dado o nome

de nenhuma das pessoas presentes, diz ela: ‘Sentamonos

pelo menos durante um

quarto de hora e começávamos a sentir o fracasso, quando foi ouvida uma como

que delicada pulsação, aparentemente no centro da mesa. Grande foi a nossa

satisfação quando Mrs. Hayden, que antes parecia ansiosa, disse: ‘Eles estão

chegando’. Quem estava chegando? Nem ela, nem nós poderíamos dizêlo.

Quando

os sons se tornaram mais fortes, o que parecia acontecer na medida de nossa

convicção em sua autenticidade, fosse qual fosse a sua origem, disse Mrs. Hayden:

‘Há um Espírito que deseja falar com alguém aqui, mas eu ignoro os nomes dos

cavalheiros e das senhoras. Assim, apontarei um por um e, ao chegar à pessoa

certa, peço que o Espírito dê uma batida’. Isto foi aceito por nosso hóspede

invisível, que bateu concordando. Então Mrs. Hayden apontou um por um dos

presentes. Com surpresa para mim e um certo constrangimento, pois não desejava

isto, enquanto muitos o desejavam, nenhum som foi ouvido até que ela apontou para

343 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

mim, a última da roda. Eu estava sentada á sua direita; ela tinha começado pela

esquerda. Então fui designada para apontar as letras de um grande alfabeto e devo

acrescentar que, não desejando obter o nome de nenhum amigo ou parente querido

e morto, não demorei, como é geralmente recomendado tantas vezes, sobre

nenhuma letra. Contudo, com grande surpresa para mim, o nome incomum de um

parente querido, que tinha deixado este mundo há sete anos antes e cujo sôbrenome

era o de meu pai — e não o de meu marido — foi deletreado. Depois esta sentença:

‘Sou feliz, e com F. e G. (nomes por extenso). Então recebi a promessa de futuras

comunicações com os três Espíritos. Os dois últimos tinham deixado o mundo

respectivamente há vinte e há doze anos. Outras pessoas presentes então receberam

comunicações por batidas. Destas, algumas eram tão singularmente verídicas e

satisfatórias quanto fora a minha, ao passo que outras eram falsas e, até,

indignas’.”

Mrs. De Morgan observa que depois das sessões com Mrs. llayden ela e

seus amigos experimentaram em particular “e foi verificado que umas tantas

pessoas, parentes ou não, possuíam a faculdade mediúnica em maior ou menor

grau.”

344 – Ar thur Conan Doyle

APÊNDICE 4

NOTAS AO CAPÍTULO 10

OS DAVENPORTS ERAM JOGRAIS

OU ESPÍRITAS?

Como parece que Mr. Houdini duvidava de que os Davenports jamais se

tivessem dito espíritas, o assunto se esclarece com a seguinte passagem de uma carta

por eles escrita em 1868, a Banner of Light, vanguardeiro jornal espírita dos Estados

Unidos. Referindose

à afirmação de que não eram espíritas, assim escreveram:

“É original que uma pessoa, céptica ou espírita, pudesse aceitar uma tal

afirmação, após catorze anos das mais amargas perseguições e violenta oposição,

culminando com as agressões de Liverpool, de Hudders fiel e de Leeds, onde nossas

vidas se encontraram em perigo pela fúria da massa brutal, nossos bens foram

destruidos e onde sofremos uma perda de setenta e cinco mil dólares — e tudo

porque não renunciávamos ao Espiritismo — acusandonos

de jograis, quando

maltratados pela massa, para isso estimulada. Em conclusão, devemos apenas dizer

que denunciamos tais acusações como falsidades.”

345 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

APÊNDICE 5

NOTAS AO CAPÍTULO 16

A MEDIUNIDADE DO REVERENDO

STAINTON MOSES

Descrevendo uma experiência de levitação, escreve o Reverendo Stainton

Moses: “Eu estava sentado no ângulo interior da sala; minha cadeira foi

empurrada para trás até o canto e então levantada do solo cerca de um pé, ao que

me parece e então deixada cair no chão, enquanto eu era carregado para o canto.

Descrevi meu aparente movimento ao Doutor e à Mrs. S., e tirei um lápis do bolso

com o qual, quando fiquei parado, fiz uma marca na parede oposta ao meu peito.

Esta marca está mais ou menos a seis pés do soalho. Não penso que minha posição

tivesse mudado e fui arreado muito delicadamente até me achar novamente na

cadeira. Minha sensação era de ser mais leve que o ar. Nenhuma pressão em

qualquer parte do meu corpo; nenhuma inconsciência ou transe. Pela posição da

marca na parede é claro que minha cabeça deve ter estado perto do teto. Minha

voz, disseme

depois o Doutor S., soava desigualmente no canto, como se minha

cabeça estivesse voltada da mesa, conforme minha observação e a marca que fiz. A

ascenção, da qual eu era perfeitamente consciente, era gradual e lenta e não como

de alguém que estivesse num elevador, mas sem nenhuma sensação perceptível de

qualquer movimento além do de sentirme

mais leve que a atmosfera. Minha

posição, como disse, era imutável. Eu era apenas levitado e descido ao meu lugar

inicial.”

Passando de assunto a assunto, temos a seguinte descrição: “A 28 de agosto

de 1872 sete objetos de diversos aposentos foram trazidos à sala das sessões; no dia

30, trouxeram quatro e entre estes uma pequena campainha, da sala de jantar

contígua. Sempre deixávamos a lâmpada de gás bem acesa naquele aposento e no

hall externo, de modo que se as portas fossem abertas, ainda que por um instante,

um jato de luz teria penetrado no aposento onde nos reuníamos. Como isto jamais

aconteceu, temos plena certeza de que o Doutor Carpenter considera a maior

autoridade, o Bom Senso, de que as portas permaneceram fechadas. Na sala de

jantar havia uma sineta. Ouvimola

soando, e podíamos notar quando a mesma se

aproximava da porta que a separava de nós. Que admiração quando notamos que, a

despeito de estar a porta fechada, o som mais se aproximava de nós! Evidentemente

era fora do aposento em que nos sentávamos, pois a campainha era levada ao redor

da sala, tocando alto o tempo todo. Depois de completar o circuito do aposento, foi

trazida para baixo, passou por baixo da mesa, aproximandose

de minha cabeça,

então rodeou o grupo, soando perto dos rostos de todos. Finalmente foi colocada

sobre a mesa. Não quero erigir teorias, mas parece que disponho de argumentos

que conduzem à teoria de que fomos hipnotizados ou de que os objetos vieram pela

chaminé, para explicar esse difícil assunto.”

346 – Ar thur Conan Doyle

Assim descreve o Doutor Speer o aparecimento da luz de um Espírito e a

materialização de uma mão, a 10 de agosto de 1873: “Um grande globo de luz

ergueuse

ao lado da mesa, em minha frente e movimentouse

até a altura dos

nossos rostos, então se extinguindo. Foi seguido por diversos outros, todos eles se

erguendo do lado oposto ao meu, às vezes à direita, outras, a esquerda do médium.

A pedido a luz seguinte foi colocada lentamente ao centro da mesa. Aparentemente

era do tamanho de um shaddock 241 e era envolvida por um panejamento. Nessa

ocasião o médium se achava em transe e o Espírito guia me informou que tentaria

pôr a luz na mão do médium. Falhando a tentativa, disse que bateria na mesa em

minha frente. Quase imediatamente veio uma luz e ficou sobre a mesa, junto a mim.

‘Veja; agora escute — eu baterei’. Muito lentamente a luz se ergueu e deu três

batidas distintas sobre a mesa. ‘Agora eu lhe mostrarei a minha mão’. Então

apareceu uma grande luz brilhante, de dentro da qual surgiu a mão materializada

do Espírito. Moveu os dedos junto ao meu rosto. A aparição era tão distinta quanto

se pode imaginar.”

Um exemplo de poderosa força física é assim registrado por Stainton

Moses: “Certa vez, contrariando a orientação, tínhamos nos aventurado a admitir

um estranho em nosso grupo. Ocorreram alguns fenômenos triviais, porém o guia

costumeiro não apareceu. Quando nos reunimos na seguinte ocasião, ele veio e

possivelmente nenhum de nós esquecerá com facilidade as verdadeiras marteladas

que ele deu na mesa. O barulho era distintamente audível no aposento inferior e

dava a ideia de que a mesa seria reduzida a pedaços. Em vão nos retirávamos da

mesa, pensando assim diminuir a força. As fortes marteladas cresceram de

intensidade e todo o aposento era abalado por aquela força. Os maiores castigos

nos foram prometidos se interferíssemos outra vez no desenvolvimento, havendo

novos assistentes. Não nos arriscamos a fazêlo

outra vez; penso que não

tentaremos mais uma vez merecer semelhante objurgatória.”

241 Espécie de ‘grapefruit’, que deve o seu nome ao oficial de marinha que o trouxe do Oriente — Nota

do Tradutor.

347 – HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

APÊNDICE 6

NOTAS AO CAPÍTULO 25

ESCRITA AUTOMÁTICA

DE MR. WALES

Mr. Wales escreve o seguinte ao autor: “Penso que nada existia em minha

leitura anterior que pudesse ser tomado como coincidência. Com certeza eu nada

havia lido daquilo que o senhor havia publicado sobre o assunto e, de propósito

tinha evitado o ‘Raymond’ e outros livros semelhantes, a fim de não viciar os meus

próprios resultados; e os ‘Preceedings’ da SOCIETY FOR PSYCHICAL

RESEARCH, que então havia lido, não tocam, como o senhor sabe, nas condições

postmortem.

De qualquer modo eu obtive, em várias ocasiões, constatações,

mostradas em minhas notas de então. de que, na presente existência, há corpos que,

embora imperceptíveis pelos nossos sentidos, são para eles próprios tão sólidos

quanto os nossos para nós; que tais corpos se baseiam nas características gerais

dos nossos corpos atuais, porém mais embelezados; que não têm idade, nem

sofrimento, nem riqueza, nem pobreza; que se vestem e se alimentam; que não

dormem, muito embora ocasionalmente, e de passagem, se refiram a um estado

semiconsciente a que chamam ‘jazer adormecido’ — uma condição que justamente

ocorre comigo e que me parece corresponder mais ou menos ao estado de hipnose;

que, após um período geralmente mais curto do que o tempo médio de vida, eles

passam a um outro estado de existência; que agentes de ideias, gostos e sentimentos

similares gravitam em grupos; que os casais não se reúnem necessariamente, mas

que o amor do homem e da mulher continua e é liberto dos elementos que entre nós

geralmente militam contra a sua perfeita realização; que imediatamente depois da

morte a gente passa por um estado de repouso semiconsciente, que dura vários

períodos; que não podem sofrer dores corporais, mas são susceptíveis, por vezes, de

alguma ansiedade mental; que uma morte dolorosa é ‘absolutamente

desconhecida’, que as ideias religiosas nenhuma influência têm no estado posterior

e que, além disso, sua vida é intensamente feliz e que ninguém pensa em voltar aqui.

Não tive indicações para o ‘trabalho’, no sentido exato do vocábulo, mas para

muito dos múltiplos interesses que, diziam, os preocupavam. Provavelmente isto é

uma outra maneira de exprimir a mesma coisa. ‘Trabalho’, entre nós, geralmente

significa ‘luta pela vida’ e isto, segundo fui enfàticamente informado, não era o seu

caso — pois todas as necessidades da vida são, de certo modo, misteriosamente

‘providas’. Também não obtive referências a um definido ‘estado temporário de

condenação’, mas aprendi que ali a gente começa no ponto de desenvolvimento

intelectual e moral em que partimos daqui. E desde que seu estado de felicidade era

baseado principalmente na simpatia, aqueles que passaram em baixa condição

moral ficam muito tempo sem capacidade para a apreciar e a desfrutar.”

348 – Ar thur Conan Doyle

Sir Arthur Conan Doyle

(18591930)

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